Arquivo da Categoria Colaboradores
17/10/2008 - 09:42
por Fernando Blanco
Graças às perdas bilionárias que Sadia, Aracruz e Votorantim tornaram públicas, o espírito piadista brasileiro tratou de cunhar a expressão subprime brasileiro.
A operação é simples: a empresa toma um empréstimo. Junto com ele, vende derivativos que poderão ser exercidos pelo banco (que comprou o derivativo). Como o vendedor do derivativo (a empresa captadora) recebe um prêmio, o custo “all-in” do empréstimo ficava mais baixo. Só que as opções que eram “out-of-the-money” (isto é, quase impossível de serem exercidas), ficaram “in-the-money” (isto é, ficaram no preço para serem exercidas), gerando massivos prejuízos para os clientes dos bancos.
Tecnicamente falando, o drama acima não tem nada a ver com a hecatombe americana. Primeiro porque a extensão e a profundidade das crises são incomparáveis. Depois porque o problema lá é monossetorial (construção civil) e aqui é multissetorial. E também porque lá o lastro é crédito ruim, aqui é derivativo. Nos EUA o beneficiado era um cidadão sem crédito e aqui, uma empresa com crédito de sobra (em tese).
No entanto, pensando fora do “financês”, achei melhor redefinir a expressão subprime: “Estrutura de negócio vendida por agentes excessivamente ambiciosos, cuja meta é gerar receitas no curto-prazo, e que é comprada por clientes pouco esclarecidos. Todos os envolvidos, vendedores e compradores, negligenciam os riscos envolvidos na transação”.
Perfeito: temos então o nosso subprime verde-amarelo! Parabéns para o capitalismo nacional! Ou não…
Vale notar que a criação de uma estrutura financeira exótica não tem nada de excepcional. Elas existem para permitir que empresas e bancos possam se proteger ou se posicionar em determinado mercado. Parece obra de Deus.
Só que as três gigantes acima citadas têm expertise e balanço para fazer o que fizeram. Se correram tais riscos, sabiam o que estavam fazendo.
Agora, e aquele empresário amigo meu, de Avaré, que fatura R$ 20 milhões por ano, cujo gerente financeiro não tem MBA por Harvard ou Princeton? Pois é, ofereceram para ele também. E ofereceram também para um distribuidor de medicamentos local, que não tem um cent de dólar no balanço. Para que usar estruturas com derivativos de dólar?
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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08/01/2008 - 15:15
por Sergio
em 08/01/2008 14:43:23
Ô Marciano
não se esqueça de que a dívida pública explodiu em função dos altos juros pagos pelo governo FHC. Dizer que foram os “esqueletos” …!
Quanto ao perigo Lula, há, no mínimo, controvérsias: na famosa “Carta aos Brasileiros” o Lula já havia dito a que viria (ou melhor, a que não viria!). Portanto, esse perigo pode ser creditado, e muito, à irresponsável campanha do PSDB (e do presidente eleito, Serra) que o comparou à Hitler e coisas tais.
Mas em respeito ao Kupfer, não vamos prosseguir nessa Fla-Flu que, sem dúvida, é mediocrizinho.
Até porque, o governo Lula tem qualidades (e não apenas a de não atrapalhar) e o de FHC também teve.
Mas ambos têm o mesmo defeito: não se ocupam verdadeiramente das enormes desigualdades sociais do país. Eu não sou economista, nem sociólogo mas creio que o principal objetivo de qualquer estrutura social é a de permitir aos seus cidadãos uma vida digna. Se não, pra que?
Nossas contribuições e nossos ideais devem visar sempre esse objetivo. Caso contrário, o país e o mundo colherão uma barbárie sem precedentes na História.
Um abraço a todos
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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17/12/2007 - 11:28
por Microempresário
Bom, a CPMF acabou (por ora), e é hora de seguir adiante. E acho que a próxima encrenca que vem aí é a tal da Reforma Tributária.
Gosto muito de revistas de automóveis. Uma época, falavam muito no novo código de trânsito. Havia debates, grupos de trabalho, gente de vários lados participando.
Claro que as propostas oscilavam para lá e para cá, sem consenso. Aí alguém no congresso decidiu que era hora de botar o código na rua. E botou, do jeito que estava. Nos primeiros meses, foram
literalmente dezenas de resoluções apressadas do CONTRAN para esclarecer coisas confusas, impraticáveis ou até contraditórias. E há coisas que ficaram erradas até hoje.
Lembro-me também de ter ouvido falar em um novo código civil, porque o nosso estava velhinho. Discutia-se, discutia-se, e de repente o código estava pronto e os advogados que se virassem para entender e dar um jeito nos transtornos que apareceram.
Já virou rotina: de repente, o congresso sai com uma novidade,
geralmente um “estatuto” moderníssimo, coisa de primeiro mundo, uma
vitória da cidadania, etc, etc. A imprensa aplaude, o povo vibra,
ninguém é contra. Com o tempo a gente descobre que não é bem assim, que o tal estatuto é um amontoado de boas intenções sem instrumentos para ser aplicado, que criou um monte de benesses sem dizer quem paga a conta, etc de novo. Moral da história: mais uma lei que “não pegou”.
Vi no noticiário dois ou três políticos dizendo que é uma
prioridade aprovar a reforma tributária. Note-se o verbo: aprovar, não debater, nem analisar. Me deu uma impressão que a coisa já está pronta. E aí é que mora o perigo.
Eu confesso que não tenho a menor idéia do que eles entendem por essa reforma. Sei que o governo federal quer centralizar a arrecadação para ter maior poder de barganha com estados e municípios e limitar os danos causados por governadores e prefeitos irresponsáveis. Sei que governadores e prefeitos querem exatamente o contrário. Sei que empresários querem impostos menores e mais fáceis de calcular. Sei que os sindicatos de auditores e fiscais querem o contrário, para garantir seus empregos, e, em alguns casos, suas chances de conseguir um “por
fora”. Sei que quem é de esquerda quer muita arrecadação e aumento dos gastos sociais, e quem é de direita, ao contrário, não quer.
Então, o Brasil pode aproveitar o momento e dar um passo importante. Mas está tudo prontinho para repetir a fanfarra de sempre, e aprovar mais um balão de fumaça, com a promessa de que todos nossos problemas se resolverão.
No país que nunca perde uma chance de perder uma chance,
acho que estamos vendo chegar a oportunidade de um debate de verdade, com todo mundo assumindo suas idéias e dizendo qual seu projeto de país. Chega de entrevistadores chapa-branca levantando a bola para políticos repetirem promessas de campanha em pleno mandato. Chega de repetir slogans de décadas passadas. Chega de acreditar em Papai Noel.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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14/12/2007 - 10:16
por João Vergílio G. Cuter
Não dá para concluir sem mais preâmbulos que a CPMF deveria mesmo ser extinta, embora gradualmente, quando se parte da constatação de que ela é um imposto simples, minúsculo, insonegável, eficiente e que, de quebra, funciona como instrumento de fiscalização. Na resposta, você me deu o “preâmbulo” indispensável do argumento – é um imposto em cascata, e isso introduziria um “porém” que faria o caldo das qualidades entornar todinho. É nocivo, e deve ser extinto. Não de uma vez, mas aos poucos.
Antes de partir para a discussão propriamente dita, vamos limpar o terreno, deixando de lado o que NÃO está em discussão. Não sou contra uma reforma tributária. Pelo contrário. Acho que há poucas coisas tão urgentes quanto essa no país. Por outro lado, extinguir a CPMF não é fazer reforma tributária, nem é dar um passo nesse sentido, nem é mostrar disposição de fazê-la. Acho que, quanto a isso, concordamos. Se a CPMF deve fazer parte do pacote, é outra história. Eu acho que deve, e você provavelmente acha que não deve. Mas isso depende, em parte, de como resolvemos a questão proposta – a da conveniência ou não de se extinguir a contribuição aos poucos, mantidos os demais fatores.
Agora, o nó da questão. Para mim, é um só: a CPMF é tão pequena, que seus possíveis (mas, tentarei mostrar, incertos) defeitos são superados de longe por suas enormes e reconhecidas qualidades.
Vamos, primeiro, encarar esses defeitos. Se entendo bem a questão, imposto em cascata introduz uma distorção séria na economia. Produtos que estão na ponta de uma longa cadeia produtiva tornam-se menos competitivos, pois são penalizados por uma taxação maior. Os aviões da Embraer pagam a CPMF do minério de ferro de Carajás, mais todos os outros interpostos. Portanto, se queremos exportar aviões, e não apenas produzir batatas para consumo interno, é melhor prestar atenção a esse tipo de efeito. Além disso, cai inteirinho nos braços do consumidor, cobrando de ricos e pobres na mesma proporção. Esquecendo o problema do perfil de consumo de pobres e ricos, temos 1 a 0 para o IRPF, com suas alíquotas e isenções. Até aí, este leitor de jornais consegue enxergar. Se os problemas são maiores e mais profundos, por favor, me diga.
Agora, o argumento.
Não sei se já foram feitas medições para estudar o impacto da CPMF sobre os preços. Talvez sim. Eu não conheço. Lembro-me de ter lido estimativas disparatadas, mas nunca ouvi um número que fosse além dos 10%. Hoje pela manhã, aquele repórter da Globo que foi assessor de imprensa do Figueiredo (como é o nome dele?) falou num impacto (médio, eu suponho) de 2%. Deve estar próximo da realidade. Imagino que estoques, financiamentos e coisas do gênero devam influenciar a velocidade com que a despesa com um novo imposto é transmitida aos preços, mas não consigo me lembrar de nenhum salto de 10% nos preços que tivesse sido creditado à CPMF. Seja como for, creio que a questão é complicada demais para ser resolvida contando-se os elos da cadeia produtiva para exponenciar os tais 0,38%. Um raciocínio assim PARTE DO PRESSUPOSTO de que os custos foram de fato ACRESCIDOS ao preço inicial EM TODOS OS CASOS, ao invés de VERIFICAR se de fato o foram, em que medida, e em quais casos. O custo é uma soma. O preço é uma aposta que o empresário faz, levando em consideração não apenas os custos, mas a concorrência, a oportunidade, e coisas do tipo. A água que corre na “cascata” da CPMF, é bom não nos esquecermos disso, é o preço, e não o custo. Eu produzo carros. Se o fornecedor de espelhinhos cobrava R$10,00 antes da CPMF ser implantada e continua cobrando R$10,00 depois, não tenho nada o que repassar para o preço do carro. O custo está lá, mas é inoperante. O fabricante de espelhinhos, para manter o freguês, morreu com o prejuízo. Não sei se isso aconteceu algumas vezes, muitas vezes, ou se não aconteceu nunca. Minha pergunta é se alguém já se preocupou em MEDIR isso, ao invés de simplesmente SUPOR que acontece sempre.
Por outro lado, qual a expectativa de BAIXA de preços daqui por diante, com a extinção do imposto? Outra questão complicada. O empresário só dará o desconto de 0,38% se acreditar que isso irá ajudá-lo a conservar os clientes que já tem e a conquistar outros. Meu chute? Acontecerá em pouquíssimos casos. Você trocaria um fornecedor em quem confia por outro que não conhece, só porque estão lhe dando um desconto de 0,38%? Nem eu. O fornecedor sabe disso, e embolsa os 0,38%.
Resumindo, a questão da “cascata” precisaria ser melhor quantificada – ou, se já foi quantificada com precisão, esses estudos deveriam ser mais bem divulgados, para que leigos, como eu, possam formar uma opinião a respeito. Só pressupor que o custo adicional é repassado imediatamente ao preço e, então, contar os elos da cadeia não é resposta. Eu quero DADOS. Se você, ou algum leitor tive-los em mãos, por favor, ponham na roda.
Agora, veja o seguinte. Todos nós reconhecemos que o sistema tributário brasileiro é uma verdadeira loucura. Essa loucura tem um preço – você tem que contratar contadores, advogados, secretárias e office-boys para dar conta dela. Todo mundo tem que fazer isso. Você já deu uma olhada nas tabelas do “Simples”, para ficar no exemplo mais tosco? Olhe, há sindicatos patronais que tiveram que contratar firmas de advocacia para a emissão de pareceres sobre qual é a tabela adequada para seus associados. Fico imaginando a situação de firmas maiores, com filiais em diversos estados e municípios, cada um com sua legislação específica. Minha vez de chutar, tá? Deconfio que, em muitos casos, o custo dessa barafunda deve significar muito mais do que 0,38% dos pagamentos da empresa. Não chama imposto, tudo bem. Mas é irmão siamês do imposto. Nâo desgruda dele. E, na medida em que a CPMF incide em cascata, NESSA MESMA MEDIDA esses “acompanhantes inseparáveis” dos outros impostos também incidem, e vão bater, lá no final da cadeia, no bolso do consumidor. Pior ainda, a fiscalização desses impostos exige que parte da arrecadação, ao invés de voltar para o consumidor na forma de serviços públicos, seja gasta para… arrecadar.
Talvez a CPMF tenha defeitos. Talvez a cascata e a regressividade sejam maiores do que eu estou imaginando. Mas o fato é que eu não consigo enxergar UM ÚNICO DEFEITO nela que eu também não possa atribuir a qualquer outro imposto no Brasil atual. Por outro lado, qualquer pessoa é capaz de enxergar nela QUALIDADES que nem mesmo o melhor dos impostos alternativos conseguiria ter. Por que, então, diante desse verdadeiro cardápio de monstrengos, dizer que a CPMF teria que ser extinta “aos poucos”? Se estamos imaginando o cenário de uma reforma tributária, ela poderia ser extinta de uma vez por todas, juntamente com os outros impostos. (Mas, aí, eu precisaria ser convencido, antes, de que ela é realmente PIOR do que tal e tal alternativa concreta.) Se estamos imaginando o cenário atual, não vejo razão nenhuma para extingui-la, muito menos “aos poucos”. Se a diminuição de 0,38%, de uma vez, provavelmente terá um efeito pífio sobre o bolso do consumidor, a diminuição de 0,02% a cada seis meses teria um efeito provavelmente nulo. (Novamente – você trocaria de fornecedor por um desconto desses?)
Não estou defendendo a idéia do imposto único. Sobre esse assunto, não tenho clareza. A alíquota desse imposto deixaria de ser tão ínfima quanto a da CPMF, e é bem possível que a tal cascata realmente comprometesse a competitividade de muitos produtos. Não sei. Mas a CPMF foi, na minha modesta opinião, a experiência fiscal mais interessante dos últimos anos. Deu certo. Não desorganizou a economia. Atingiu meu médico e meu dentista. Forneceu instrumentos de fiscalização para a Receita. E, de quebra, esteve a ponto de ser totalmente vinculada a uma área prioritária, como a Saúde. Por que essa birra justamente o menor, mais justo, mais simples e menos sonegável de todos os impostos que possuíamos?
Já falei o suficiente. Agora, é tempo de ouvir.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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08/12/2007 - 11:48
por Francisco Hugo Vieira
No tempo em que nossa moeda chamava cruzeiro, um professor de economia me ensinou que 10 cruzeiros no meu bolso não valiam nada. A afirmação reduziu o burburinho da sala de aula, posto que até então ninguém estava interessado nas chatices do economês. Didático, continuou: “…mas, ao sair do bolso para a compra de cigarros, vai valer os maços de cigarro e mudar de bolso; se sair deste último bolso para comprar carne, vai valer uns gramas de carne e mudar de bolso … e assim, quanto mais e em maior velocidade mudar de bolso, melhor para a economia” que, em primeira e última instância, é a atividade de seres humanos pela sobrevivência. A velocidade da moeda! Um imposto aplicado sobre a velocidade da moeda não é um imposto justo? Não para os saudosos do overnight. Se não, vejamos:
Um trabalhador, hoje, com sorte recebe no fim do mês, descontos fora, 350 reais. Provavelmente o patrão dele vai gastar a mesma quantia num bom jantar, com um bom vinho, claro. Os 350 reais do operário vão valer um ‘pacote’ (arroz, feijão, óleo, macarrão…) chamado “fiado” num caderno ensebado numa vendinha da periferia – dessas que nem alvará não têm. Vai mudar de bolso uma vez só (ou duas, talvez três). Ele não vai comprar cd ou dvd originais, não vai pagar a tevê a cabo, nem roupa de grife; não vai botar estúpidos 2000 watts de som no carro recém-trocado; não vai se envenenar no McDonald’s; não vai trocar o mp3 por um mp4, não vai se exibir na Daslu … É longa a lista de alternativas de consumo da classe média.
Se a classe média se sente sufocada pelos impostos, que use toda a escolaridade que privilegiadamente adquiriu (sic): faça pressão para que os absurdamente ricos paguem impostos. Afinal, quanto custa ao povão (via IPTU, Emenda n° 39 – contribuição para iluminação pública …) manter limpos, seguros, pavimentados, iluminados … os Morumbis. A favela vicinal, que se dane!
A CPMF não é “tributo da pior qualidade por não ser integralmente destinado aos fins para os quais foi criada”. É contribuição, não é taxa. Taxa é o que o contribuinte paga por acertada (fixa, dirigida) qualidade/quantidade de serviços. No apagar das luzes de seu governo, FHC incentivou os prefeitos que ele espoliou durante oito anos, a que pressionassem o Congresso para aprovação da EC 39, uma aberração: “Os Municípios e o Distrito Federal poderão instituir contribuição (grifo meu), na forma das respectivas leis, para o custeio do serviço de iluminação pública … Parágrafo único. É facultada a cobrança da contribuição a que se refere o caput, na fatura de consumo de energia elétrica.” É de dar náuseas! Na quase totalidade dos 6 mil municípios do Brasil, a arrecadação da contribuição para iluminação é maior que a do IPTU. Vem cobrada na conta de luz! Enquanto os prefeitos farreiam, as periferias continuam na maior escuridão e a população mais pobre exposta aos assaltantes.
Ao idealizar um recolhimento que atendesse apenas sua área, a Saúde, tão anêmica de verbas, fosse o Dr. Jatene bem assessorado e o dinheiro, com a fiscalização do TCU, ficaria na saúde. Ou não? Se alguma coisa tem de mudar na CPMF é o nome.
Não sou a favor de impostos. Nem contra os ricos. Sou apenas um cidadão cansado de sustentar-lhes os sôfregos luxos. Vivam perdulários como melhor lhes aprouver. Mas paguem o preço!
Fracisco Hugo Vieira é alfabetizador de crianças de periferia
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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07/12/2007 - 17:37
por Neoliberal
Nunca antes uma crise financeira foi tão anunciada. Há pelo menos um ano a imprensa vem noticiando os problemas com os tais créditos hipotecários “podres” do mercado imobiliário americano. Quem é previdente já havia colocado as barbas de molho há bastante tempo. Já os mais “impetuosos” se esbaldavam na farra nababesca em que se transformaram os mercados financeiro e de capitais mundo afora. Um dia, a festa acabaria e a ressaca viria cobrar a conta aos farristas.
Em qualquer mercado, os ganhos são sempre proporcionais aos riscos. Quem quer que se aventure pelos labirintos “especulativos” está cansado de saber disso. Se há um universo onde a ingenuidade passa longe é esse. Bancos, corretoras, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento, etc. Ali só tem macaco velho, como se diz na gíria. Todos sabiam dos perigos a que estavam sujeitos, mas muitos, ainda assim, queriam ganhar até o último centavo possível, mesmo que o risco fosse o de acabar a festa segurando o “mico”.
Mas eis que, quando tudo parecia perdido, quando os intrépidos jogadores já começavam a sentir os efeitos da ressaca, surgem os super-heróis para salvar-lhes a pele e aliviar-lhes a dor. Como todo super-herói que se preze, suas intervenções foram para livrar a humanidade do cataclismo que se anunciava, ou melhor, para salvar o mundo da famigerada “crise sistêmica” e suas conseqüências imprevisíveis. A dose cavalar de aspirina (liquidez) que aliviou a enxaqueca dos tubarões imprevidentes foi apenas uma “externalidade”, um efeito não intencional, porém inevitável – como diriam os economistas -, da ação dos nossos super-heróis e suas poderosas máquinas de fabricar dinheiro.
Como, ao que parece, o oceano de dinheiro que inundou o mercado não foi suficiente para debelar a crise, o presidente americano resolveu seguir o conselho de seu colega brasileiro e pôs o Tio Sam na parada para solucionar, de uma vez por todas, o problema. Para salvar a pele dos incautos e inocentes cordeirinhos, que se endividaram além de suas possibilidades, George W. Bush lhes colocou à disposição um grande “pacote” de ajuda federal, financiado com dinheiro dos contribuintes (of course!). Pouco importa se, por tabela, esse saco de bondades venha também salvar a pele de um punhado lobos malandros, sentados sobre uma montanha de créditos podres. São as externalidades…
Não sei por que ainda fico admirado com essas espúrias interferências da indefectível mão visível, já que estou careca – digo: desprovido de cobertura capilar, para ser politicamente correto – de assistir a filmes como esse. Não, não pense o estimado leitor que sou daqueles que pensam existir, por trás dessas intervenções, alguma teoria da conspiração para proteger banqueiros e especuladores. Acho até que os nossos super-heróis, travestidos de agentes públicos, as praticam com as melhores intenções. Em suas cabeças, malgrado a arrogância que tal raciocínio demonstra, estão fazendo o que acham melhor para a humanidade.
Como todo bom intervencionista, nossos heróis idealizam os mercados como sistemas bem arrumadinhos e imunes a crises. Não enxergam que a dinâmica do capitalismo está muito mais para a “teoria do caos” – em que um complexo padrão de organização (espontâneo) é obtido a partir de uma aparente e inelutável desordem – do que para aqueles utópicos paraísos terrestres, perfeitamente harmônicos, imaginados por Platão ou Thomas Morus, que povoam os seus sonhos mais íntimos.
Certamente desconhecem também que os agentes econômicos são seres racionais, que medem as suas ações de acordo com os riscos envolvidos. Qualquer banqueiro, administrador de fundos de investimento ou mutuário de hipotecas tenderá a elevar os níveis de risco de suas carteiras caso espere que os governos venham em seu auxílio na “hora H”, se algo der errado. Uma tal expectativa – derivada da última intervenção, no início da década, quando os BC’s reduziram artificialmente os juros para evitar os efeitos do estouro da bolha da Internet – certamente contribuiu para que a bolha atual chegasse ao ponto em que chegou, bem como influenciará fortemente as decisões futuras, repercutindo de forma perversa na dinâmica dos mercados, especialmente em relação à alocação ineficiente dos recursos, já que as análises de risco levarão em conta, a partir de agora, certas condicionantes que não levariam caso a mão visível dos bancos centrais não se fizesse presente.
Além do efeito acima, chamado pelos economistas de “moral-hazard”, a ação da mão protetora dos governos produzirá também um outro efeito daninho: impedirá que o mercado realize a sua, como dizer?, expiação e, a partir dela, produza a dolorosa – porém necessária – depuração, eliminando os focos de ineficiência na alocação dos recursos. Em resumo, a interferência dos nossos super-heróis reduzirá as chances de o mercado gerar, no interior de seu próprio organismo, aquele efeito revitalizante que Schumpeter apelidou de “destruição criadora”.
Infelizmente, as decisões intervencionistas automaticamente excluem a solução alternativa da não intervenção, freqüentemente sugerida pelos liberais, razão pela qual é impossível estabelecer um comparativo empírico entre as duas possibilidades, sobrando somente a análise teórica. Uma coisa porém é certa: o mesmo excesso de liquidez proporcionado pela queda artificial dos juros, ditada pelos bancos centrais a partir de 2001, que impulsionou fortemente o crescimento econômico mundial dos últimos cinco anos, está na raiz da famigerada bolha imobiliária e a respectiva crise de confiança no mercado de créditos dela decorrente. Nossos heróis são, portanto, ao mesmo tempo mocinhos e bandidos.
Mas como é que indivíduos bem intencionados e que visam somente o melhor para todo mundo podem se transformar em vilões? A resposta a esta pergunta foi dada por Hayek. Por mais poderosos e bem armados que pareçam os agentes públicos, na economia globalizada de hoje, mais ainda do que na época em que o brilhante pensador austríaco ensinava sobre as virtudes da ordem espontânea, “não há entre os humanos ser capaz de conhecer todos os fatos do mercado ou todas as circunstâncias que os envolvem”, nem tampouco os efeitos de longo prazo de certas políticas. Daí os riscos incomensuráveis de qualquer intervenção governamental nos mercados, especialmente aquelas de amplo espectro, como esta que acabamos de presenciar.
Para complicar ainda mais as coisas, é sabido, pelo menos desde os tempos do suiço Benjamim Constant, que os erros dos agentes públicos possuem uma capacidade quase ilimitada de produzir danos (para alguns muitos lucros, verdade seja dita!), os quais espalham seus efeitos negativos sobre uma gama extraordinária de pessoas. Mas o pior de tudo, mesmo!, é que leva muito mais tempo para corrigir os danos causados por uma decisão equivocada de governo do que os prejuízos causados pelas ações e escolhas dos indivíduos no mercado.
Ora, já que os mercados (constituídos de indivíduos) não são perfeitos e os governos (também formados indivíduos) tampouco, por que devemos confiar mais nos últimos? Que garantias temos de que os “sábios” do governo, de dentro de seus gabinetes, irão decidir adequadamente o que é melhor ou pior para milhões, as vezes bilhões, de pessoas, tendo em vista não só os efeitos imediatos destas decisões, mas especialmente os de longo-prazo? Se mesmo os economistas mais renomados raramente se entendem sobre as melhores políticas, por que não deixar que o mercado, ou melhor, as pessoas, errem e corrijam esses erros por si mesmas? Por que confiar que determinados homens, somente porque investidos de poder político, são mais capazes do que o resto dos mortais?
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores
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30/11/2007 - 15:59
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