Em defesa do Ipea, inclusive o atual
Meu texto anterior, qualificando os resultados do levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que indicou melhora na distribuição da renda do trabalho e redução da taxa de pobreza, mesmo com a crise global, resultou em diversos ataques. Sem problema, faz parte. Como dizia o saudoso Vicente Matheus, folclórico presidente do Corinthians, “quem está na chuva é para se queimar”.
Uma linha de ataque, entre as muitas disparadas, no entanto, me chamou a atenção e incomodou: a da desqualificação da atual direção do Ipea. É algo não só absurdo e ridículo, como sem qualquer base na realidade. Eu mesmo apontei as limitações metodológicas do estudo, mas estava claro que não tinha havido qualquer manipulação ou desonestidade intelectual no seu conteúdo, o qual, aliás, registrava essas limitações.
Não tem, realmente, o menor fundamento a idéia, disseminada na época por uma certa mídia e vocalizada por certos articulistas, de que houve a partir da nomeação do economista Marcio Pochman para a presidência do órgão, em agosto de 2007, a substituição de um corpo técnico, “acima das ideologias”, por “companheiros” desprovidos de qualificação profissional. A verdade é que nem a nova direção do Ipea carece de qualificação técnica, nem os poucos pesquisadores que deixaram estão “acima das ideologias”.
Acompanho, por dever de ofício, a produção do Ipea desde os anos 70. Nessa época, um jovem pesquisador do órgão, Pedro Malan, produzia estudos pioneiros sobre concentração de renda no Brasil, contribuindo para identificar o caráter concentrador do crescimento econômico acelerado então experimentado pelo País.
Testemunha pessoal dessa já longa história de independência e bons serviços, consolidei a convicção de que, antes, como agora, o Ipea, com altos e baixos, em todos os períodos e em todos os governos, sempre funcionou como um qualificado “think tank” de políticas públicas no Brasil.
A prova do pudim, no caso de instituições como o Ipea, não é o que uns e outros acham desse ou daquele diretor ou pesquisador. É a produção de estudos e pesquisas que o órgão coloca à disposição do público. Para ter uma idéia dessa produção, basta uma varredura sem maior profundidade nos “textos para discussão” publicados. Está tudo lá, na página do Ipea na internet, muito fácil de consultar.
Quando se divide a produção de “textos para discussão” por períodos de governo ou diretoria do órgão confirma-se que a conversa da ascensão dos “companheiros” é só isso mesmo: conversa – e de baixíssimo nível. A quantidade de produção de estudos é equivalente e a variedade de temas, idem. As preferências temáticas têm mais a ver com as demandas do momento do que com alguma conspiração político-partidária, embora algum tipo de preferência teórica/ideológica possa aparecer aqui e ali.
No governo Lula, verifica-se uma preferência por estudos em torno dos temas da transferência e da distribuição de renda, mas também as questões fiscais aparecem com frequência. A economia do trabalho, segmento em que Pochman é uma referência aqui e no exterior, ganha algum destaque, mas nem de longe desequilibra a diversidade temática das pesquisas.
A escolha temática, no período FHC, difere pouco da verificada no período Lula. Temas sociais e fiscais é maioria num conjunto em que aparecem, mais do que nos períodos posteriores, trabalhos sobre os impactos das privatizações e tendências do comércio exterior.
Caso se queira falar de motivações de outra ordem, é no período FHC – o tal do “rigor técnico acima das ideologias” segundo um “senso comum”, militantemente anti-Lula – que, diferente do verificável com Lula, pode-se localizar alguma coisa fora de linha. No período FHC, é notável, de fato, a baixa produção de “textos para discussão” sobre política industrial, denunciando o desprezo pelo tema, característico do pensamento econômico hegemônico na época.
Os currículos e as trajetórias profissionais de Marcio Pochman e do diretor de estudos macroeconômicos, João Sicsú, enfim, não são melhores nem piores do que os ostentados pelos quatro economistas que, com a chegada da nova direção do Ipea, não tiveram renovados os convênios de cessão de outros órgãos públicos ou, foram formalmente desligados, sob a alegação de que já estavam aposentados há tempos.
Contrastando com o perfil discreto de três dos economistas desligados, o outro, Fábio Giambiagi, economista do BNDES, tem uma ativa e notória exposição na mídia, aparecendo como baluarte da redução dos gastos públicos correntes, com especial ênfase na urgência de uma reforma capaz de conter os gastos da Previdência Social. Por conta disso, tanto é elogiado quanto criticado. E é evidente que Giambiagi não está – nem, a bem da verdade, parece querer estar – “acima das ideologias”.
Dois anos depois da nomeação de Pochman para a presidência do Ipea, a campanha contra ele e sua diretoria amainou, mas tão violenta foi a tentativa de assassinar suas reputações que os ataques pessoais e à qualificação profissional ainda ecoam. Não ocorreu a ocupação de cargas por apadrinhados, nem muito menos a debandada de pesquisadores então anunciados com megafones. No fim das contas, os ataques não serviram – e não servem - para nada. A não ser para embrulhar o estômago.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Será possível que os mais de dez milhões de brasileiros que não conseguem emprego sejam todos um bando de preguiçosos? Ou é uma questão estrutural, precisando, sim, da intervenção de um poder maior, chamado GOVERNO? Será possível que sua cabeça não raciocina? será que menos de 10% da população não queira trabalhar?não é um direito?afinal somos todos obrigados a querer traabalhar,e o governo tem que intervir partindo do presuposto que esse ente9GOVERNO)CONHECE AS NOSSAS ASPIRAÇÕES,então prepare-se voce ARGO seria a primeira vitima desse tipo de governo,o governo que tudo sabe?Experimente ler GUY SORMAN E VERA A DIFICULDADE DE SE ATINGIR RIQUEZA E JUSTIÇA SOCIAL,e isso não passa por estados socialistas.
há muito este acerto de contas, este colocar os pingos nos is, estava faltando. Valeu, ZPK.
Guilherme
Ode só é feminino nos textos do Giambiagi. Ele tem uns 80 textos, todos iguais, Ctrl C + Crtc V, um estagiário atualiza as tabelas e ele conclui a mesma coisa: o estado é inchado, tem que cortar tudo. Falo com conhecimento de causa, porque li na faculdade (pra criticar, é óbvio).
Em tempo: seu “dicernimento” está errado, discernimento tem S. Leia o Pochmann ou os economistas que trabalham textos, não só números, que você aprende.
Nesse ponto, você está redondamente enganado. Há sim perseguição e isolamento aos pesquisadores não alinhados. Falo isso porque conheço gente do próprio IPEA e que saiu de lá por conta disso. Então, houve sim manipulação e mexidas que colocaram várias pesquisas não-alinhadas fora do instituto.
E não dá para negar o fato de que Pochmann liquidou algumas pesquisas históricas (e importantíssimas até por serem apurados anualmente) só por preconceitos ideológicos.