Efeito manada com sinal trocado
O fluxo financeiro de dólares, em maio, registrou superávit acima de US$ 1,5 bilhão. Os investimentos estrangeiros diretos (IED) e as aplicações de estrangeiros na Bolsa de Valores contribuíram, quase meio a meio, para o resultado. O IED alcançou US$ 2,75 bilhões e as aplicações no mercado acionário, US$ 2,5 bilhões. O volume de IED ingressado em maio é menor do que o de abril (US$ 3,4 bilhões). Mas o volume de dólares dirigido à bolsa deu um salto e, na comparação com abril, quase quadruplicou em maio. A movimentação continua forte em junho.
Parece estar em curso um efeito manada com sinal invertido. As consequências do efeito manada que leva os dólares embora quando irrompe uma crise doméstica ou externa, na volta do parafuso, são praticamente as mesmas que operam no sentimento inverso, quando o efeito manada ocorre de fora para dentro.
A diferença é que, no primeiro caso, a instabilidade é imediata e as medidas heróicas, para evitar uma explosão, quase automáticas. No segundo, a instabilidade é uma crônica anunciada, com explosão sem hora marcada, mas inevitável, em algum ponto do futuro. Lamentavelmente, as providências para abortar a trajetória desestabilizadora também ficam para depois.
Será que, no caso do fluxo de dólares, os acontecimentos do fim de 2008 e início de 2009 não estão se reproduzindo, com sinal trocado, neste momento? Não estamos deixando a boiada entrar sem tomar cuidados necessários para evitar seu estouro mais à frente?
* * *
Quem quiser refrescar a memória e se assustar com a semelhança dos acontecimentos de hoje com o padrão nas crises do período áureo de hegemonia neoliberal, tem aqui um artigo do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Parece que foi escrito ontem, mas…. faz tempo. Assusta confirmar que as crises são anunciadas, mas os responsáveis por evitá-las falham por omissão, incompetência e/ou ideologia.
Dos personagens citados, o economista Luciano Coutinho hoje preside o BNDES. E o economista Jan Kregel, consultor permanente da Unctad e um emérito keynesiano, com passagens por prestigiadas escolas de economia dos Estados Unidos e da Europa, continua produzindo estudos e reflexões instigantes sobre os fluxos financeiros globais, sua especialidade.
“O professor Jan Kregel, da Universidade de Bolonha, escreveu em novembro do ano passado um artigo sucinto e esclarecedor sobre a badalada e temida crise asiática. Despretensioso, esse ilustre keynesiano não se entrega a lamúrias e lamentações por ter sido pego de surpresa pelos acontecimentos. Sabedor das sérias deficiências e limitações dos prognósticos em matéria econômica, Kregel preserva a paciência dos leitores, poupando-os de choramingos tão ao gosto dos economistas contemporâneos: ”Eu não previ, mas ninguém foi capaz de prever…”
A empáfia da corrente dominante derrete-se num vale de lágrimas. Mas deixemos os sabichões aturdidos com a precariedade de suas certezas. O professor Kregel, modestamente, sugere que a crise asiática oferece algumas lições importantes:
1. São íntimas as relações entre variações no curso das moedas e mudanças na trajetória dos preços dos ativos reais e financeiros.
2. A situação da balança em transações correntes (déficits ou superávits) parece não ter sido decisiva para o “enfraquecimento” das moedas. Países que estavam melhorando sua posição em conta corrente foram igualmente atacados.
3. A crise manifestou-se independentemente do tipo de financiamento do déficit em conta corrente. Os países que se apoiaram no investimento direto foram vítimas de pressões especulativas tão intensas quanto as observadas nas economias que se valeram dos capitais de ”curto prazo”.
4. Há uma relação muito estreita entre a crise financeira e a instabilidade dos sistemas bancários. Em muitos casos são fortes as conexões entre processo de estabilização (com âncora cambial), rápido influxo de capitais externos e instabilidade dos sistemas bancários.
Os trabalhos anteriores do professor Kregel mostram que ele estava atento para as relações entre abertura financeira, euforia especulativa com ativos denominados em moedas fracas e sobrevalorizadas e possibilidade de ocorrência de crises cambiais e bancárias. Desde a afirmação de sua supremacia nos anos 80, os mercados financeiros ”desregulamentados” foram protagonistas de episódios ‘’surpreendentes”. Entre eles estão o ”crash” das Bolsas de Valores em 1987; o colapso dos mercados imobiliários no Japão em 1989 e da Bolsa de Tóquio em 1990; dos ataques especulativos à lira italiana e à libra inglesa em 1992 e 1993; a crise no mercado americano de bônus em 1994; o fiasco mexicano de 1995 e finalmente o ”contágio” asiático ainda em curso, mas iniciado em meados em 1997 nos mercados imobiliários e de ações da Tailândia.
Trata-se, como se vê, de uma verdadeira procissão de ”falhas dos mercados”. Todas elas foram corrigidas, no todo ou em parte, por ações de última instância das autoridades monetárias nacionais e multilaterais. Os mercados, ditos eficientes na circulação de informações e operados por agentes racionais, portam-se na realidade como o garoto mimado e prodígio que torra a grana nos cassinos sabendo que o papai vem atrás e paga as contas.
Como já foi dito em outras ocasiões inclusive nesta coluna pelo professor Luciano Coutinho, é ingenuidade supor que os mercados financeiros contemporâneos atendam aos requisitos de eficiência, no sentido de que não podem existir estratégias sistematicamente ganhadoras. Os protagonistas relevantes destes mercados são os grandes bancos, os enormes fundos mútuos e de pensão, bem como a tesouraria das empresas que decidiram ampliar a participação da riqueza financeira em seu porta-fólio.
Em condições de incerteza radical esses agentes são obrigados a formular estratégias com base em uma avaliação ”convencionada” sobre o comportamento do preço dos ativos. Dotados de grande poder financeiro e de influência sobre a ”opinião dos mercados”, eles podem manter, exacerbar ou inverter tendências.
Suas estratégias são mimetizadas pelos investidores contemplados com menor poder e informação, ensejando a formação de surtos altistas, seguidas de colapso de preços dos ativos. É importante notar que as estratégias dominantes são formuladas num ambiente de incerteza radical e irredutível.
Essas condições, associadas à simetria de poder e de informação e ao comportamento mimético dos investidores, dão origem a processos especulativos auto-referenciais, instáveis e desgarrados dos ”fundamentos”. O resto é conversa para boi dormir.”
* * *
O texto de Belluzzo reproduzido acima foi publicado há mais de 11 anos, na Folha de S. Paulo, em janeiro de 1998. Ele indica pelo menos duas coisas: que a atual crise financeira era uma bola cantada e que Belluzzo é um excelente analista econômico (já no futebol… sei não. Tudo bem ser palmeirense e presidente do Palmeiras. Mas insistir com Vanderlei Luxemburgo…).
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
ps e no cassino é só não ter dó dos perdedores sejam eles quem forem? Certo ganhou! ganhou perdeu ! perdeu
“ps e no cassino é só não ter dó dos perdedores sejam eles quem forem? Certo ganhou! ganhou perdeu ! perdeu”
E voce acha que, num sistema plutocrático como o atual, é possível se fazer isto? Que o diga os lesados pelo Madoff; já estão acionando – com excelentes probabilidades de êxito – os órgãos governamentais para que os ressarçam. As leis, numa plutocracia, são feitas para quem tem dinheiro e ponto final.
José Carlos
Mesmo no regime plutocrático em que se está vivendo?
Solução para erradicar a pobreza pelo Capitalismo não existe e nunca vai existir . Isso é engodo , é querer mais uma vez enganar as pessoas . A unica solução é o socialismo ou o comunismo . Mas como existe um tremendo medo do socialismo e do comunismo creio que ficaremos na mesma. Os pobres e a pobreza serão sempre uma realidade principalmente no Brazil Capitalista.
Chirac
Eu prevejo (esperanço, ao menos) um sistema que una os pontos fracos e fortes de cada um. Algo como um cooperativismo, talvez.
Caro Kupfer
Se “economia” pode ser definida em apenas uma palavra, esta palavra e’ credibilidade. Uma moeda que apresenta variacoes de +/- 2% em intervalos de apenas alguns dias, alguma coisa certamente esta’ errada!!! Fiquem atentos gurus de plantao, credibilidade nao se consegue da noite para o dia!!!
Obs: Desculpe pelos erros de acentuacao: Tc configurado para outro idioma… Um abraco a todos
Está lançada a campanha: “banda cambial já”. Dólar a R$ 2,00. Variação de 5% para abaixo ou 5% para acima. É a especulação com limite. Especular na economia real será bem vindo. A moeda não pode ser matéria prima de especuladores. Deve ser apenas o suporte da política externa comercial do Brasil.
“É a especulação com limite.”
Não é mesmo? 10% de variação está de bom tamanho – e já é muito um lucro desse tamanho.
Querem ganhar mais? Vão trabalhar, bando de vagabundos!
Caro Argo . O único país que consegue conciliar os dois sistemas – capitalista e comunista – se chama China . O Brasil foi derrotado no campo comunista – Vide Carlos Lacerda – a mais longa marcha do mundo dizem . O socialismo no Brasil é uma vergonha vide PT .
Então sobrou o capitalismo , que vem aí com força total . Quem ganha dinheiro vale quem não ganha não vale. A pessoa humana vale quanto ela tem. Se tem pouco vai pra favela se tem muito vai pra mansão . Então não temos muito o que escolher .
Desculpe o erro. Não é Carlos Lacerda. É …. Arraes , É …..
Cuba acabou com a pobreza em um ano , realizou a reforma agrária nas próprias fazendas da família de Fidel Castro . Não há miséria em Cuba. Mas no Brasil ,,,,,,….. vixi , na festa da Copa do Mundo de 2014, vão ter que fantasiar os mendigos de rua para não mostrar a nossa pobreza , ou seja a politica atual e a famigerada distribuição de renda que nunca existe . Haja fantasia.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Foi constatado que existem uma Argentina em população , de mendigos brasileiros nas ruas das cidades do Brasil , em nível de extrema miséria, sem roupas, sem dentes, etc. etc.
JPK, adorei seu comentario e achei muito pertinente, entretanto acho que somos sempre recorrentes e discutimos as mesmas coisas. Quanto o Copom deveria ter baixado a taxa de juros, se devemos ou nao tributar capital estrangeiro, se o bacen deve ser mais ou menos independente, e por aí afora.
Acho que estamos num momento impar da nossa historia, pre-campanha presidencial, onde deveriamos começar a discutir, por exemplo, temas que levassem nosso país para uma taxa de crescimento chines, por um longo período.
Que tal discutirmos por exemplo:
a) Como fazermos para termos mais empresas multinacionais brasileiras.
b) Quais as ações que o governo deveria tomar, para produzirmos localmente, grande parte dos itens importados.
c) Qual a importancia de um controle populacional sério neste país (a taxa de crescimento populacional nas camadas mais pobres da população ainda é muito alta, ou seja, estamos produzindo muitos pobres)
d) Quais as obras de infra estrutura prioritarias que o governo deveria fazer. Por exemplo, que grande projeto energético temos para o país.
e) Que ações no setor de turismo o país deveria tomar para gerar mais riqueza. Países como a Turquia por exemplo, recebem 5 vezes mais turistas que o nosso. Hoje recebemos em torno de 4 milhoes de turistas ano, ja imaginou se recebessemos 10 milhoes de turistas ano, quanto emprego e geração de riqueza estariamos trazendo…. Temos lugares maravilhosos, clima espetacular e somos um dos países menos visitados do mundo.
E por aí afora, os temas são apenas sugestões, mas na minha opinião, são assuntos como este que vao nos tirar deste marasmo que estamos vivendo. Precisamos unir nossas mentes em coisas mais produtivas, que deem resultado, pois taxa de juros, cambio, bolsa, etc, cada um tem a sua opinião, que nem escalação da seleção.
ondas especulativas , sejam de entrada ou saida , sempre surgiram ao longo da historia economica da humanidade .
a onda de entrada , vira onda de saida , e vice versa .
deixando sempre uma turba de perdedores e um seleto grupo de ganhadores .
só existe um antidoto contra isso .
solidez
sob todos os aspectos . moeda . taxa de juros . ambiente legal . principios economicos . etica . educação . cultura . moral . intitucional . e por ai vai .
e principalmente , um solido ambiente em que se valorize o trabalho e não a especulação e a esperteza .
como se pode ver , somos um pais fortemente exposto a tais ondas .
e elas vem
com mais velocidade e frequencia , tendo em vista os aceleradores que entraram no sistema nos ultimos anos ( informação , desregulamentação , disponibilidade financeira , etc )
e principalmente , distorções .
enquanto houver uma acentuada distorção entre os niveis de renda e vida nas diversas camadas sociais , sempre havera “patos” ambiciosos para pagar a conta no banho de sangue final .
os ativos( de todos os tipos ) sobem na entrada dos “estrangeiros” , eles vendem na alta para os patos espertos locais , os estrangeiros caem fora com a grana dos patos e na saida destes , os preços despencam .
e os patos pagam a conta final .
é assim desde o seculo XVI
o que prova que Benjamin Franklin estava absolutamente correto quando afirmou ” A estupidez humana é a unica coisa para a qual não existe limite ”
leitura recomendada sobre o tema “especulação” :
” The Devil Take The Hindmost ” by Edward Chancellor
“E por aí afora, os temas são apenas sugestões, mas na minha opinião, são assuntos como este que vao nos tirar deste marasmo que estamos vivendo.”
Perfeito, Alberto. Mesmo não gostando – às vezes – do que ambos escrevemos, concordamos nesse ponto.
Já o aplaudi no “André Perfeito” e faço o mesmo, aqui.
São esses pontos que devemos discutir, seriamente. O resto é só firula, conversas pra mesa de bar.
argo mesmo nesse sistema o mercado e os agentes são mais fortes que a plutocracia. 100 anos pra nós é pouco mas para um país não é nada,.exemplo urss,porque o mercado somos todos nós os que produzem e os que consomem se não houver equilibrio ele se efetuara, o problema é o tempo,nós pagamos pela nossa vontade de remar contra a maré,assim sendo não temos povo,e pior que isso não temos elite, isso é horrivel,teremos que começar hoje o longo trabalho de recuperação e isso leva tempo.r muito trabalho
Sr. Argo, obrigado pelas palavras, vamos começar a puxar esta turma para discutirmos soluções para o país, sem ficarmos sempre discutindo as mesmas coisas.
Quer apostar que vamos agora perder grandes energias tentando adivinhar o pib do final do ano……
Vamos lanças uma campanha “Soluções para o Brasil”
Abs a todos
acho sinceramente que temos alguns pontos.
1.porque uma republica?por que não uma federação?
2.sistema educacional em desacordo?POR QUE NÃO ESCOLAS AUTONOMAS ADMINISTRADAS POT DIRETORES E FICALIZADAS PPELAS APMS?
3.definido tudo isso uma verdadeira reforma fiscal?FINANCIAR SÓMENTE AS ESTRUTURAS DE ESTADO (SEGURANÇA JUSTIÇA,MOEDA,EDUCAÇÃO)