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Arquivo de junho, 2009

19/06/2009 - 13:48

Tribuna Livre

A proposta é manter livre e aceso o debate da economia, como no cotidiano do blog. É com vocês…

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
19/06/2009 - 13:46

Aviso aos navegantes

Em reconhecimento ao esforço para aguentar minhas ranzinzices e esquisitices, resolvi premiar meus seletos leituras com… férias.

Até a segunda quinzena de julho você estarão livres de mim.

Mas continuarão livres também para o debate de ideias, que é a ideia deste blog.

Haverá uma Tribuna Livre, logo acima deste aviso, para, como sempre, livre uso. Aqui, como sabem os que acompanham (e paritcipam) dessa aventura da exposição do contraditório,  não há moderação e sim uma aposta (até aqui bem, sucedida) na força transformadora do conhecimento que advém do embate responsável de ideias.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
17/06/2009 - 21:18

Foi dada a partida

As primeiras reações nos Estados Unidos à proposta de reforma financeira lançada hoje pelo presidente Barack Obama foram as que se pode esperar nesses casos: quem não gosta de mercados regulados detestou, quem acha necessário regular mercados gostou. Todos, porém, concordam que o plano apresentado é um rascunho.

A reforma, de fato, prevê a formação de várias comissões, encarregadas de desenvolver os diversos aspectos das múltiplas frentes que a proposta de reforma procura abarcar. Essas comissões deverão apresentar suas conclusões na entrada do último trimestre deste ano. Os detalhes do plano, portanto, ainda estão por ser modelados. Mas, isso, para muitos, é positivo: vai permitir um debate mais amplo e aprofundado das regras propostas.

Paul Krugman, o Prêmio Nobel e colunista do The New York Times, que aprovou a idéia geral, destacou o ponto em que a reforma promete mecanismos para estender ao sistema financeiro como um todo as regras de supervisão típicas dos bancos comerciais, sobretudo no que se refere ao nível de alavancagem das instituições.

Poucos, no entanto, se aventuraram a decretar, neste primeiríssimo momento, o sucesso ou o fracasso da reforma. A dificuldade de encontrar meios para supervisionar com eficiência o hoje amplíssimo espectro do mundo financeiro, mas sem engessá-lo, faz acreditar que vai demorar até que o novo modelo esteja funcionando na plenitude. De todo modo, foi dada a partida.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
16/06/2009 - 18:25

A nova “moda” da crise

Meu jovem e sagaz interlocutor, o repórter de economia do Estadão, Leandro Modé, esteve em Genebra e em Frankfurt, na semana passada, a convite da Comissão Europeia, para um seminário sobre o euro para jornalistas latino-americano. A crise e seus desdobramentos, claro, foram os temas recorrentes das palestras e entrevistas – a última delas com Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Leandro voltou cheio de gás e de histórias. Uma das mais interessantes é a dos temores em relação a uma eventual regorgitação da economia, depois de tantos bilhões e trilhões de dólares despejados na praça, sob a forma de uma recidiva da crise, agora com uma perversa combinação com surtos inflacionários. É conversa em geral de neoliberais e ortodoxos, mas está se alastrando.

* * * 

Aqui, um relato do Leandro sobre o tema:

A crise que já legou à posteridade palavras e expressões como “subprime” e “ativos tóxicos”  e espalhou nos últimos dias um novo jargão: estratégia de saída. Trata-se da elaboração de planos, por parte dos governos que têm promovido forte expansão fiscal, para estancar a deterioração das contas públicas e, com isso, evitar uma disparada da inflação no médio e longo prazo.

As autoridades do Banco Central Europeu (BCE) foram as primeiras a falar publicamente sobre o assunto. Como se sabe, o BCE herdou seu caráter ortodoxo do alemão Bundesbank. Se, nos EUA, o maior medo do cidadão comum é um repeteco da Grande Depressão dos anos 30, na Alemanha, o temor é a hiperinflação, que, para muitos, explica a ascensão de Hitler ao poder.

Sábado, o tema ocupou boa parte da agenda do encontro dos ministros de Finanças do G-8 na Itália. Nesta segunda-feira, foi a vez de o Fundo Monetário Internacional (FMI) chamar a atenção para o possível problema.  “Os estímulos monetário e fiscal poderão provocar preocupações com a inflação e aumento da dívida, exercendo pressão de alta nas taxas de juros. Esta interação dinâmica entre os desafios de curto prazo e de longo prazo mostram a necessidade de desenvolver e comunicar estratégias para saída deste extraordinário suporte à economia”, disse o Fundo, em relatório.

Na própria segunda-feira, o banco central americano (FED) tratou de responder ao FMI. “Eu não vejo pressão inflacionária levantando suas cabeças feias, em particular, se conduzirmos (a política monetária) de forma apropriada, o que eu acredito que estamos fazendo. Estamos atentos ao fato de que a inflação sustentável de longo prazo deriva da política monetária. O Fed já está trabalhando sobre uma estratégia de saída”, disse o presidente regional do Fed de Dallas, Richard Fisher. Ele é considerado um “falcão”, ou seja, ultraortodoxo. Em várias ocasiões, Fisher foi o voto dissonante no Fed contra reduções da taxa básica de juros apoiadas por todos os seus colegas de Comitê de Política Monetária (Fomc, em inglês).

Na academia e no próprio mercado financeiro, o debate sobre o tema está longe do consenso. Muitos dão como certo que as medidas de hoje resultarão em inflação alta num futuro nem tão distante. Outros argumentam que a economia ainda está muito fraca e, portanto, seria cedo para preocupações. Neste último grupo estão o prêmio Nobel de Economia do ano passado, Paul Krugman, e o ex-vice-presidente do Fed Alan S.. Blinder, que também é professor na Universidade Princeton.

Em artigo publicado há cerca de um mês no The New York Times, reproduzido no Brasil pelo jornal O Estado de S. Paulo, Blinder alerta para o risco de que 2010 ou 2011 se tornem outro 1936 – ano marcado por uma recessão dentro da Grande Depressão. Escreve Blinder: “No verão de 1936, o Fed observou o grande volume de reservas excedentes acumulado no sistema bancário, concluiu que essa montanha de liquidez poderia alimentar a inflação futura e começou a esvaziá-la. Por volta da mesma época, (o presidente Franklin) Roosevelt viu o que pareciam ser déficits orçamentários enormes, concluiu que era hora de colocar em ordem a casa fiscal e começou a aumentar impostos e reduzir despesas. A economia americana, que vinha saindo rapidamente do porão de 1933 a 1936, foi rudemente empurrada de novo escada abaixo, e os EUA experimentaram a chamada recessão dentro da depressão. O PIB encolheu 3,4% de 1937 a 1938.”

Olhando de hoje, é difícil dizer quem tem razão, pois há bons argumentos dos dois lados. O aumento das taxas dos juros futuros nas últimas semanas, sobretudo nos EUA, parece indicar que a maior parte do ‘mercado’ comprou a primeira hipótese. Não custa lembrar, porém, de outro legado que essa crise parece deixar para o futuro: as ferramentas tradicionais para medir a temperatura da economia e “prever” o que vem pela frente têm se mostrado falhas em meio a problemas tão graves.  Em outras palavras, o que parece certo não necessariamente se confirmará.  A conclusão óbvia e nada original parece ser: qualquer aposta que se faça, será nada mais do que uma… aposta.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
15/06/2009 - 17:02

Melhor não deixar para amanhã

Confesso que fiquei um pouquinho decepcionado, no post da semana passada sobre o PIB do primeiro trimestre, com a ausência de comentários a respeito dos péssimos números do investimento. Também já tinha ficado meio assim, num outro post, este sobre a meta de inflação para 2011, a ser fixada ainda agora em junho.

No primeiro caso, a discussão foi acesa, mas não em relação aos efeitos a prazo mais longo de um tal derretimento dos investimentos. No segundo, a reação dos leitores-comentaristas foi morna. A falta de entusiasmo no debate, em ambos os casos, me passou a mensagem de que esses não foram considerados temas relevantes – pelo menos no momento.

Estes são, no entanto, temas da maior relevância. Sua importância é ainda maior justamente pelos impactos que produzem no futuro. Se a decisão de hoje, em relação aos investimentos e à meta de inflação, não for bem fundamentada, o resultado de amanhã estará, fatalmente, comprometido.

Enquanto a capacidade ociosa permite à economia galopar, afrouxam os estímulos para definir hoje – via estímulos aos investimentos - as bases do crescimento futuro. Do mesmo modo, deixar de lado o debate das metas de inflação, só porque só vai valer daqui a um ano e meio, pode levar a erros na definição dos tetos balizadores da política monetária. E, assim, mesmo que se acerte com os investimentos, o crescimento poderá ficar comprometido. 

São, como se vê, dois pontos cruciais para o crescimento econômico num futuro bem próximo. Mas parece que não produzem muita emoção. Mexe mais com a pele ficar olhando o passado e o quanto Lula ou FHC fizeram mais ou menos no que já foi feito. 

Imagino também que isso acontece porque, decidir hoje o que será melhor amanhã exige suar muito mais a camisa para reunir conhecimento aprofundado e produzir planejamento apropriado.

Acho que todo mundo entende isso, mas, na vida prática, a tendência é sempre deixar tais assuntos para depois. Só que o depois, nesses casos, é sinônimo de “já era”…

* * *

Aproveito o mote para reproduzir o artigo do economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, publicado sábado, na Folha, sobre a definição da meta de inflação de 2011. Lacerda defende a manutenção da meta de 4,5%, em vigor na última meia dúzia de anos. É um texto conciso e claro.

SAMBA DE UMA META SÓ
Antonio Corrêa de Lacerda

DEFENDO QUE o Conselho Monetário Nacional deve manter a meta de inflação de 4,5% para 2011. Isso porque, dada a combinação de políticas macroeconômicas em prática no Brasil, uma diminuição da meta só servirá de álibi para a manutenção de uma política monetária excessivamente conservadora.

Há de fato evidências no enfoque baseado na teoria econômica ortodoxa de que, internacionalmente, uma meta mais apertada tende a levar a uma inflação mais baixa, na medida em que faria convergir as expectativas para uma menor variação de preços e que tenderia a se consolidar na prática.

O sistema de metas de inflação, que está completando dez anos de implantação no Brasil, tem suas virtudes, mas também tem debilidades. A virtude foi ganhar relativa credibilidade, o que proporcionou maior previsibilidade na política monetária e um horizonte mais transparente para o planejamento e as decisões dos agentes econômicos.

No entanto, o sistema de metas de inflação também apresenta grandes distorções. A primeira é que a meta é definida e acompanhada com base na inflação “cheia” (o IPCA). O ideal seria focar em uma inflação núcleo, mais liberta das influências conjunturais e também do grande impacto da indexação remanescente de preços ao IGP e IGP-M, como tarifas, aluguéis e outros.

Destaque-se que esses índices sofrem muita influência do comportamento dos preços no atacado e da taxa de câmbio. Ou seja, toda vez que há um choque de preços de commodities ou no câmbio, há um aperto na política monetária para derrubar os preços livres de forma a compensar os demais aumentos e fazer convergir a inflação média para a meta.

A segunda anomalia está no horizonte muito curto de foco do sistema de metas de inflação, o que engessa demasiadamente a política monetária. O ideal seria flexibilizá-la, considerando um horizonte mais amplo, de 24 ou 36 meses, por exemplo. Toda política econômica envolve escolhas, e o que deveria definir o conjunto das escolhas é relação custo/beneficio de cada medida.

O terceiro ponto é que o critério de captura das expectativas do mercado por meio do boletim Focus tem se mostrado enviesado. Isso porque o boletim publicado semanalmente pelo Banco Central, que expressa as expectativas do comportamento dos principais indicadores futuros, é excessivamente centrado no mercado financeiro. Seria oportuno captar também as expectativas do setor produtivo, da academia e de outros segmentos importantes da sociedade.

A prática leva a uma situação em que as expectativas tendem a se autorreferendarem. O “mercado”, com forte repercussão na mídia, expressa o que acha que o Copom vai fazer em cada reunião. Este, por sua vez, invariavelmente, tende a atender às expectativas do mercado, gerando um pseudo consenso.

Talvez esse viés de foco ajude a explicar alguns evidentes erros de diagnóstico do Copom, expressos na ata das suas reuniões. Isso fica especialmente evidente quando a economia dá grandes viradas, o que só aparece nos indicadores com defasagem, como ocorreu no quarto trimestre do ano passado, com o agravamento da crise internacional. Ao olhar fundamentalmente para o retrovisor, o Banco Central procrastinou a redução da taxa de juros no Brasil e nos fez importar uma parcela maior da recessão dos países ricos.

Por último, mas não menos importante, é a debilidade de o sistema de metas de inflação ser o único objetivo explícito do conjunto das políticas macroeconômicas. Ou seja, ao centrar o foco da calibragem dos juros exclusivamente no curto prazo e na inflação, desconsidera outros efeitos importantes sobre o nível de atividades, câmbio, investimentos, emprego e renda, além do custo de financiamento da dívida pública.

Assim, por todos esses motivos, o melhor mesmo é manter a meta, a despeito da possível vantagem que poderia trazer reduzi-la. Enquanto persistirem as distorções apontadas, na prática, o “samba de uma meta só” acaba prevalecendo, fazendo com que todos os demais objetivos dancem.
________________________________________
ANTONIO CORRÊA DE LACERDA, doutor pelo IE/Unicamp, é professor doutor do departamento de Economia da PUC-SP e co-autor de “Economia Brasileira”, entre outros livros. Foi presidente da Sobeet e do Cofecon.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
10/06/2009 - 21:01

Cachorro que morde o próprio rabo

Não precisou nem um minuto depois do anúncio do desempenho da economia, no primeiro trimestre, para os juros futuros subirem. Era o mercado passando ao Banco Central a mensagem de que o corte na taxa básica deveria ser, como sempre, mais modesto. O fato de o PIB não ter recuado tanto quanto as projeções do próprio mercado era o argumento de que precisava. Argumento frágil que, felizmente, não comoveu a maioria dos sábios do Comitê de Política Monetária (Copom).

Menos mal o corte de 1 ponto percentual. A inesperada resistência da economia a um desaquecimento mais profundo fez crescerem, a partir de terça-feira, quando saíram os números do IBGE, as apostas numa redução de apenas 0,75 ponto percentual. A lógica dessa moderação tem origem num raciocínio raso, que finge projetar o futuro, mas se prende ao passado.

Junto com a notícia de que a economia não recuara os 1,5% esperados no primeiro trimestre, mas “apenas” 0,8%, veio a informação de que o investimento (formação bruta de capital fixo), naquele trimestre, havia desabado mais de 12%, no maior mergulho da série histórica atual das contas nacionais. Era, este sim, motivo para derrubar os juros sem dó nem piedade. Mas, na “ciência econômica” do mercado, tratava-se, exatamente, do inverso.

Para essa estranha “ciência”, que vive à procura das “taxas naturais” – aquelas que não provocam aceleração da inflação –, a queda livre dos investimentos indicaria uma redução do “produto potencial”, uma quiromancia econômica que pretende estabelecer o nível máximo de crescimento que não produz aceleração inflacionária. Com um PIB potencial reduzido, cortar juros e, em conseqüência, estimular a atividade econômica seria a receita inevitável para a volta, no futuro, da inflação.

É uma teoria que se alimenta dos factóides que ela mesma fabrica. Funciona mais ou menos assim: juros altos dificultam os investimentos e sem investimentos o produto potencial cai, justificando juros altos. Um cachorro que morde o próprio rabo.

As decisões de investimento não são movidas apenas a juros baixos. Em busca da taxa de retorno ótima, o empreendedor avalia o potencial do mercado consumidor e as condições de concorrência. Mas, ao lado desses fatores críticos, o custo do dinheiro, obviamente, exerce também relevante.

Se isso for verdade, era hora de ser ainda mais agressivo no corte dos juros. Afinal, a recuperação que começou a se esboçar no segundo trimestre, avançará até onde a capacidade instalada oferecer espaços ociosos. Os dados mais recentes informam que, depois de cair quase 25% no acumulado de abril e maio, o setor de máquinas e equipamentos continuou patinando em junho. Mau sinal. E um indicativo forte – não inteiramente levado em conta pelos sábios do Copom.

Sem uma vigorosa recuperação dos investimentos, a economia vai bater no teto e não demora muito. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
09/06/2009 - 13:01

Passado que condena

Se houve surpresa, ela até pode ser considerada positiva. A queda da economia, no primeiro trimestre do ano, anunciada há pouco pelo IBGE, veio menor do que a esperada. Sobre o quarto trimestre de 2008, o recuo foi de 0,8% (1,8%, na comparação com o primeiro trimestre de 2008).

Mas, se, pelo visto, o desenho da evolução econômica não mostra um bicho tão feio quanto muitos pintaram, não é o caso de se iludir com ele. Na aventura de analisar o resultado do PIB do primeiro trimestre, incluindo na análise a situação em que se encontra a economia já nas bordas do fim do segundo trimestre, é possível tropeçar em várias pegadinhas.

É o caso, por exemplo, da famosa “recessão técnica” em que entramos. “oficialmente”, com a confirmação de que houve recuo no desempenho econômico em dois trimestres seguidos. “Recessão técnica” é uma bobagem técnica.  Serve apenas para acalmar a compulsão humana, exacerbada na modernidade pela fé na “ciência”, de classificar os fenômenos à nossa volta.

Uma economia que crescer 0,1% a cada trimestre não estará em “recessão técnica”. E daí? Para mim, recessão verdadeira, grosseiramente falando, é aquela situação em que os fatores de produção existentes, num período de tempo razoável, não encontram utilização.

Nesse sentido, estamos em recessão há pelo menos oito meses, que é o tempo em que o mercado de trabalho não foi capaz de absorver nem o estoque de mão-de-obra existente e muito menos os novos ingressantes. No Brasil, resumindo o argumento, crescer menos de 2% significa não ocupar a capacidade produtiva existente e, portanto, eis aí um crescimento que, na verdade, configura recessão. Na China, isso deve ocorrer com um crescimento abaixo de 5%.

Além disso, é bom não desprezar as peculiaridades dessa recessão. No ambiente atual, em que a economia afundou de modo abrupto e muito rápido, sem a natural e gradual depreciação dos ativos físicos e dos demais fatores produtivos, a retomada do presente faz o passado, medido pelos métodos de aferição das contas nacionais, ficar ainda mais distante.

Outra pegadinha para a análise do desempenho do primeiro trimestre é o fato de que o recuo veio menor do que o esperado. O consumo das famílias, apesar de tudo, cresceu. E o setor de serviços, apesar de tudo, idem. Há uma recuperação em curso e todas as projeções para o segundo semestre já são de crescimento. Será que no fim das contas não teria sido uma marolinha?

Melhor ir mais devagar. A recuperação é real, mas lenta e algo dificultosa. A sensação de que o pior já passou e que, enfim, não foi tão ruim é, em parte, enganosa. Deriva do fato de que, agora já se pode enxergar um pouco melhor, a crise atingiu muito desigualmente os setores econômicos. Quem tem na exportação uma fatia importante do negócio pagou mais o pato – e o pior é que continua pagando. Daí a situação menos rosada da indústria e da agricultura, apontada nas contas do primeiro trimestre, agora divulgadas.

Resta ainda o mais importante: o investimento. A queda foi particularmente violenta. As decisões de ampliar capacidade foram generalizadamente adiadas e investimentos em curso suspensos. Isso significa que a retomada em curso pode prosseguir numa boa até um certo limite. Depois de ocupar a capacidade instalada – que já vinha sob pressão quando a crise eclodiu, no início do quarto trimestre do ano passado – a marcha, que não está sendo rápida, pode ficar mais lenta ainda.

Para encurtar a história, os números agregados do primeiro trimestre vieram melhores do que o projetado. Mas, nas suas entranhas, carregam indicações que preocupam. É, sim, uma visão do passado. Só que esse passado, se não forem tomadas providências adequadas para corrigir e ajustar os rumos, pode nos condenar no futuro.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
05/06/2009 - 12:12

Efeito manada com sinal trocado

O fluxo financeiro de dólares, em maio, registrou superávit acima de US$ 1,5 bilhão. Os investimentos estrangeiros diretos (IED) e as aplicações de estrangeiros na Bolsa de Valores contribuíram, quase meio a meio, para o resultado. O IED alcançou US$ 2,75 bilhões e as aplicações no mercado acionário, US$ 2,5 bilhões. O volume de IED ingressado em maio é menor do que o de abril (US$ 3,4 bilhões). Mas o volume de dólares dirigido à bolsa deu um salto e, na comparação com abril, quase quadruplicou em maio. A movimentação continua forte em junho.

Parece estar em curso um efeito manada com sinal invertido. As consequências do efeito manada que leva os dólares embora quando irrompe uma crise doméstica ou externa, na volta do parafuso, são praticamente as mesmas que operam no sentimento inverso, quando o efeito manada ocorre de fora para dentro.

A diferença é que, no primeiro caso, a instabilidade é imediata e as medidas heróicas, para evitar uma explosão, quase automáticas. No segundo, a instabilidade é uma crônica anunciada, com explosão sem hora marcada, mas inevitável, em algum ponto do futuro. Lamentavelmente, as providências para abortar a trajetória desestabilizadora também ficam para depois.

Será que, no caso do fluxo de dólares, os acontecimentos do fim de 2008 e início de 2009 não estão se reproduzindo, com sinal trocado, neste momento? Não estamos deixando a boiada entrar sem tomar cuidados necessários para evitar seu estouro mais à frente?

* * *

Quem quiser refrescar a memória e se assustar com a semelhança dos acontecimentos de hoje com o padrão nas crises do período áureo de hegemonia neoliberal, tem aqui um artigo do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Parece que foi escrito ontem, mas…. faz tempo. Assusta confirmar que as crises são anunciadas, mas os responsáveis por evitá-las falham por omissão, incompetência e/ou ideologia.

Dos personagens citados, o economista Luciano Coutinho hoje preside o BNDES. E o economista Jan Kregel, consultor permanente da Unctad e um emérito keynesiano, com passagens por prestigiadas escolas de economia dos Estados Unidos e da Europa, continua produzindo estudos e reflexões instigantes sobre os fluxos financeiros globais, sua especialidade.

 
“O professor Jan Kregel, da Universidade de Bolonha, escreveu em novembro do ano passado um artigo sucinto e esclarecedor sobre a badalada e temida crise asiática. Despretensioso, esse ilustre keynesiano não se entrega a lamúrias e lamentações por ter sido pego de surpresa pelos acontecimentos. Sabedor das sérias deficiências e limitações dos prognósticos em matéria econômica, Kregel preserva a paciência dos leitores, poupando-os de choramingos tão ao gosto dos economistas contemporâneos: ”Eu não previ, mas ninguém foi capaz de prever…”

A empáfia da corrente dominante derrete-se num vale de lágrimas. Mas deixemos os sabichões aturdidos com a precariedade de suas certezas. O professor Kregel, modestamente, sugere que a crise asiática oferece algumas lições importantes:

1. São íntimas as relações entre variações no curso das moedas e mudanças na trajetória dos preços dos ativos reais e financeiros.

2. A situação da balança em transações correntes (déficits ou superávits) parece não ter sido decisiva para o “enfraquecimento” das moedas. Países que estavam melhorando sua posição em conta corrente foram igualmente atacados.

3. A crise manifestou-se independentemente do tipo de financiamento do déficit em conta corrente. Os países que se apoiaram no investimento direto foram vítimas de pressões especulativas tão intensas quanto as observadas nas economias que se valeram dos capitais de ”curto prazo”.

4. Há uma relação muito estreita entre a crise financeira e a instabilidade dos sistemas bancários. Em muitos casos são fortes as conexões entre processo de estabilização (com âncora cambial), rápido influxo de capitais externos e instabilidade dos sistemas bancários.

Os trabalhos anteriores do professor Kregel mostram que ele estava atento para as relações entre abertura financeira, euforia especulativa com ativos denominados em moedas fracas e sobrevalorizadas e possibilidade de ocorrência de crises cambiais e bancárias. Desde a afirmação de sua supremacia nos anos 80, os mercados financeiros ”desregulamentados” foram protagonistas de episódios ‘’surpreendentes”. Entre eles estão o ”crash” das Bolsas de Valores em 1987; o colapso dos mercados imobiliários no Japão em 1989 e da Bolsa de Tóquio em 1990; dos ataques especulativos à lira italiana e à libra inglesa em 1992 e 1993; a crise no mercado americano de bônus em 1994; o fiasco mexicano de 1995 e finalmente o ”contágio” asiático ainda em curso, mas iniciado em meados em 1997 nos mercados imobiliários e de ações da Tailândia.

Trata-se, como se vê, de uma verdadeira procissão de ”falhas dos mercados”. Todas elas foram corrigidas, no todo ou em parte, por ações de última instância das autoridades monetárias nacionais e multilaterais. Os mercados, ditos eficientes na circulação de informações e operados por agentes racionais, portam-se na realidade como o garoto mimado e prodígio que torra a grana nos cassinos sabendo que o papai vem atrás e paga as contas.

Como já foi dito em outras ocasiões inclusive nesta coluna pelo professor Luciano Coutinho, é ingenuidade supor que os mercados financeiros contemporâneos atendam aos requisitos de eficiência, no sentido de que não podem existir estratégias sistematicamente ganhadoras. Os protagonistas relevantes destes mercados são os grandes bancos, os enormes fundos mútuos e de pensão, bem como a tesouraria das empresas que decidiram ampliar a participação da riqueza financeira em seu porta-fólio.

Em condições de incerteza radical esses agentes são obrigados a formular estratégias com base em uma avaliação ”convencionada” sobre o comportamento do preço dos ativos. Dotados de grande poder financeiro e de influência sobre a ”opinião dos mercados”, eles podem manter, exacerbar ou inverter tendências.

Suas estratégias são mimetizadas pelos investidores contemplados com menor poder e informação, ensejando a formação de surtos altistas, seguidas de colapso de preços dos ativos. É importante notar que as estratégias dominantes são formuladas num ambiente de incerteza radical e irredutível.

Essas condições, associadas à simetria de poder e de informação e ao comportamento mimético dos investidores, dão origem a processos especulativos auto-referenciais, instáveis e desgarrados dos ”fundamentos”. O resto é conversa para boi dormir.”
 

* * *

O texto de Belluzzo reproduzido acima foi publicado há mais de 11 anos, na Folha de S. Paulo, em janeiro de 1998. Ele indica pelo menos duas coisas: que a atual crise financeira era uma bola cantada e que Belluzzo é um excelente analista econômico (já no futebol… sei não. Tudo bem ser palmeirense e presidente do Palmeiras. Mas insistir com Vanderlei Luxemburgo…).

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
03/06/2009 - 14:46

Desafios da GM do Brasil

A vida da GM no Brasil, depois da concordata da matriz americana, não vai ser um passeio na brisa do outono, como seus dirigentes estão querendo fazer passar. O pedaço da empresa instalado no Brasil mantém-se saudável e não há sinal de que entrará nos pesados cortes e ajustes que reduzirão o tamanho da antiga controladora, agora nas mãos do governo americano. Mas daí a dizer que rodará numa estrada sem buracos ou asfalto irregular vai uma boa distância.
 
O primeiro problema é com a demanda. Dúvidas sobre o futuro da empresa e, portanto, dos carros e peças que ela colocará na praça têm tudo para dificultar as vendas. A GM já vinha perdendo terreno, está com uma fatia abaixo de 20% do mercado e dificilmente não cairá ainda mais. Qualquer candidato a um carro novo GM se perguntará quando ele valerá amanhã, se a fabricante cambalear e o sistema de manutenção pós-venda claudicar, inclusive na reposição de peças. Ninguém quer, pelo menos voluntariamente, ficar um mico.
 
Outro desafio é do lado da oferta. A GM, no Brasil, tem uma linha diversificada de produtos, mas eles são relativamente antiquados, na comparação com as demais marcas e modelos. Embora a montadora esteja construindo uma nova fábrica de motores, em Joinville (SC), precisaria de maciças injeções de inovação para enfrentar a concorrência. Também aqui há dúvidas.
 
Nas suas oito décadas de operação no Brasil, com raras exceções, a GM só colocou em circulação, no Brasil, modelos adaptados da europeia Opel. A Opel acaba de ser vendida para uma ex-fornecedora, a fabricante de autopeças austro-canadense, em consórcio com empresas e bancos russos. Ainda que mantenha uma parte do capital da nova Opel, a GM não é mais a controladora. E isso significa que, no mínimo, os custos de transferência de tecnologia tendem a aumentar.
 
Dizer que a engenharia da empresa no Brasil é capacitada a desenvolver produtos refresca, mas não resolve. Desenvolver, no jargão da inovação aplicada, está mais para adaptar do que para criar. A promessa de que, daqui para frente, serão feitos novos lançamentos no Brasil de três em três meses, se confirmada, dificilmente refletirá mais do que um “esquentamento” para o fato de que apenas serão produzidas mais versões para os mesmos modelos.
 
Há ainda incertezas no lado financeiro. Os dirigentes da GM do Brasil asseguram que a situação da empresa é robusta e que não haverá ataques da nova GM americana aos cofres da subsidiária brasileira. Argumentam com o passado – há anos, dizem, não são feitas remessas de recursos para a matriz – mas não apresentam nenhuma comprovação, além de uma declaração de intenções, de que será assim no futuro. Afinal, o futuro da GM mundial será muito diferente de seu passado e, parece natural, que subsidiárias integrais possam ser chamadas a contribuir com o esforço de recuperação.

É bom não esquecer que a GM do Brasil é uma empresa fechada, que não publica balanços contábeis. Não se sabe, portanto, nada da vida financeira da empresa, exceto o que seus dirigentes informam. Por mais simpáticos, acessíveis e bem intencionados que eles sejam, suas palavras carecem do suporte de números oficiais.

A menção ao atual plano de investimentos, já em execução, de US$ 2,5 bilhões, até 2012, também ajuda, mas, como nos demais aspectos, não elimina as desconfianças e os desafios. Para começar, inversões médias de US$ 400 milhões por ano não chegam a ser assim tão excepcionais, no mercado atual. Além disso, US$ 1 bilhão desse total ainda não está equacionado.

Sabedores de que da fonte de recursos da matriz não sairá um único cent de dólar, os dirigentes da GM do Brasil confiam nas instituições financeiras públicas brasileiras para compor o embornal dos investimentos previstos. Mas aqui também não é líquido e certo de que a torneira se abrirá com facilidade. Mesmo que o governo tenha interesse em limpar o terreno, existem no mínimo limitações institucionais. O BNDES, por exemplo, não pode emprestar a empresas em concordata. Nesse sentido, a situação jurídica formal da subsidiária brasileira da GM é tudo menos simples.

Resumo da história: os planos de independência e eficiência da GM do Brasil podem até dar certo. Mas, ela vai ter de suar muito a camisa – e rezar para as coisas se acomodarem na matriz - para entregar o que está prometendo.

* * *

Vai ser curioso se a GM do Brasil conseguir empréstimos de bancos públicos brasileiros. Neste mundo econômico virado de pernas para o ar, o governo brasileiro emprestar ao governo americano (não é ele o controlador da GM?), no fim das contas, a uma tal situação, absolutamente inimaginável não faz muito tempo, nem soará tão esquisita assim. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
01/06/2009 - 17:57

Meta polêmica

O Conselho Monetário Nacional – que, com esse nome pomposo, reúne apenas o ministro da Fazenda, seu presidente, o presidente do Banco Central, seu secretário, e o ministro do Planejamento – vai definir, agora em junho, a meta de inflação para 2011. Desde 2006, a meta está estacionada em 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo – na prática, pode oscilar entre 2,5% e 6,5%. É mais provável que fique onde está, por mais um ano.

Na opinião pública, o debate sobre o assunto ainda está morno, mas, entre os muros do governo, já vai quente. Há quem defenda, nas bandas mais ortodoxas, uma redução da meta, o que aproximaria o Brasil dos demais países que usam esse sistema. Mas há quem prefira não mexer na meta, principalmente numa etapa tão incerta quanto a atual. E um terceiro grupo, bem minoritário, gostaria de cair fora do sistema de metas de inflação. 

Os que defendem uma redução no centro da meta levantam, principalmente, dois argumentos. O primeiro deles é que uma meta menor leva o mercado a, automaticamente, projetar uma inflação menor. Em última análise, portanto, a mera revisão da meta puxaria para baixo os preços. E isso seria possível porque, ao manter, nos últimos anos, a inflação dentro do intervalo da meta, o Banco Central ganhou credibilidade para operar uma meta mais baixa.

O outro argumento está relacionado ao momento econômico. Com a atividade em marcha lenta no País, acredita-se que a inflação não será um problema ao menos em 2009 e 2010. O próprio mercado, hoje, prevê IPCA (o índice que serve de referência para a meta) de 4,3% no ano que vem, abaixo, portanto, da meta. Com isso, a meta poderia cair sem provocar uma alta da taxa básica de juros.

Mas esse, exatamente, é um dos temores dos que são favoráveis à manutenção dos atuais 4,5%. Eles acreditam que uma meta menor exigiria juros mais altos – abortando, portanto, o atual processo de queda da Selic para os níveis mais baixos da história e dificultando a retomada do crescimento e do emprego.

No ano passado, o ministro Guido Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, ficaram em lados opostos na hora de escolher a meta de 2010. Mantega convenceu Lula de que seria melhor ficar nos 4,5% e ganhou a batalha. Ao que tudo indica, mantêm a divergência.

Não se pode esquecer que a economia brasileira padece de alguns males estruturais, que empurram os preços para cima. A indexação é um deles. Estimativas de mercado dão conta de que, ainda hoje, até 50% do IPCA resultam da correção dos preços pela inflação passada. Outra barreira é a tributação elevada, que pesa sobre os custos de pessoas e empresas.

A decisão será, mais uma vez, difícil e trará riscos. Até porque o BC calibra em 2010 – ano de eleição presidencial – os juros para cumprir a meta de 2011. Até lá, muitos esperam que a crise tenha ficado para trás, a recuperação já será mais forte e, eventualmente, pressões inflacionárias poderão reaparecer.

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E você, cravaria que meta de inflação para 2011? Ou mudaria o regime?

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Quem quiser uma visão mais completa, mas nem por isso complicada, do sistema de metas de inflação – e de seus problemas e riscos –, pode abrir aqui um texto do economista Franklin Serrano, professor do Instituto de Economia da UFRJ, apresentado em seminário da Fundap, há pouco mais de um ano, em São Paulo.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
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