iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo de abril, 2009

29/04/2009 - 20:30

Papo furado, em legítimo “coponês”

Ao reduzir a taxa Selic em um ponto percentual (para 10,25% ao ano), o Banco Central confirmou uma hipótese que circulava com força no mercado financeiro nos últimos dias: já está de olho em 2010. Três seriam as razões para isso.

 
A primeira delas é clássica: mudanças na política monetária repercutem na economia com atraso. No caso brasileiro, estima-se que sejam entre 6 e 9 meses. A cautela, portanto, seria explicada pelo fato de que já haveria estímulos monetários e fiscais suficientes para garantir uma expansão razoável do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem.
 

A segunda razão é técnica. Os juros futuros, que na prática definem o custo do dinheiro para o consumidor final (empresas ou pessoas físicas), já apontam uma alta da Selic entre o fim do primeiro semestre e o início do segundo semestre de 2010. Isso tem a ver com a razão anterior: os ”gentes econômicos” avaliam que a gasolina que o governo jogou na economia (reduções de impostos e cortes na Selic, para turbinar o consumo) obrigará o BC a puxar o freio no ano que vem. Se o BC tivesse sido novamente agressivo na queda da Selic (digamos, 1,5 ponto, como na reunião de março), os juros futuros subiriam. Com isso, o custo do dinheiro também iria para cima, anulando o efeito da Selic mais baixa.

Por fim, há a razão política. 2010, como se sabe, é ano de eleição. Elevar o juro não é exatamente uma atitude que agrade à população. O BC teria sido mais brando agora para postergar o máximo possível o início do novo ciclo de alta da Selic – repita-se, já ‘precificado’ pelo ‘mercado’.

 
* * *

Se você acreditou nessa conversa aí de cima, meus pêsames.  É isso que você vai ler e ouvir dos nossos brilhantes economistas-financistas, baluartes da resistência da queda dos juros, aos quais o Banco Central está sempre aliado, na manutenção de uma economia sob tensão permanente, dificultando o acesso dos mais pobres e dos empreendedores da economia real a uma situação melhor de bem-estar. Mas, é claro que não passa de papo furado.

A inflação está longe, sobra capacidade instalada, a dívida externa é um nada. Mas nem assim os rentistas aliviam a corda. Para os demais, resta desperdiçar energia e progredir menos do que seria possível.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
29/04/2009 - 18:28

Cem dias de Obama: incêndio controlado

No dia em que Barack Obama completa 100 das na presidência dos Estados Unidos, a divulgação da evolução do desempenho da economia americana, no primeiro trimestre de 2009, facilita entender o que ocorreu, na área econômica, neste período inaugural. Numa base anualizada, o PIB americano recuou 6,1% (isso equivale a um encolhimento de 1,5% no trimestre, em relação ao anterior), resultado pior do que o esperado (recuo em torno de 5%), mas já um pouquinho melhor do que o verificado no último trimestre de 2008 (6,3%, em base anualizada).

Ainda é um resultado bem ruim, mas, entre analistas, começa a se formar um consenso de que o pior pode já ter passado. Embora haja consenso de que os números do trimestre em curso continuarão ruins, há também uma crescente expectativa de melhora, já no verão americano. O resumo das projeções aponta para uma redução no ritmo de queda, a partir de alguns indicadores, como os gastos de consumo, que, depois de grandes tombos, dão pelo menos sinais de estabilização.

O consumo, que responde por 70% da economia, melhorou em razão das isenções fiscais, que engordaram a renda disponíveis. Esta também foi beneficiada com a redução de alguns preços críticos, como os de energia. E há, ainda, para alimentar expectativas mais favoráveis, a convicção de que os gastos públicos voltarão a crescer, à medida que o pacote de US$ 800 bilhões destinado a projetos de infra-estrutura começar a se concretizar.

Como em outras áreas, na economia, Obama sai dos seus primeiros cem dias de governo com saldo positivo. Se, diferentemente de outros campos, como o da política externa, avançou pouco – para não dizer quase nada – nas reformas da economia, pelo menos conseguiu controlar o incêndio que encontrou quando chegou à Casa Branca. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
27/04/2009 - 15:30

Mercado Bipolar

Bastou uma tênue melhora das condições da economia brasileira para que os incontáveis arautos do apocalipse inflacionário voltassem a pedir cautela ao Banco Central na definição da taxa básica de juros. Bastou apontar uma ainda incerta recuperação no horizonte – melhor dizendo, bastou que, em alguns setores, o ritmo de queda aliviasse – para que o espectro da inflação acelerasse e, no mercado financeiro e entre os economistas-financistas, os batimentos do coração também acelerassem.

O efeito prático dessa verdadeira síndrome é ampliar o risco de uma redução da taxa de juros menor do que a recomendada. Primeiro, dificultando uma eventual recuperação mais abrangente da atividade econômica. E, depois, distorcendo o fluxo de capitais externos, pelo alargamento excessivo e desnecessário das margens de arbitragem de taxas.

O fato é que ficou para trás e entrou em fase de incerteza o que parecia definido não faz muito tempo. Quando o BC baixou a Selic em 1,5 ponto (para 11,25% ao ano), no dia 11 de março, o mercado em peso apostava em uma dose pelo menos do mesmo tamanho na reunião seguinte do Copom, prevista para amanhã e quarta-feira. Isso já era. E o primeiro sinal veio com um inversão na direção dos juros futuros.

Houve, nesses 40 dias, uma certa recuperação das bolsas de valores globais (com destaque para a brasileira), o governo anunciou mais medidas para estimular o consumo (como a redução do IPI na compra de eletrodomésticos) e alguns indicadores (como as vendas no varejo de março) passaram a mostrar que a atividade econômica tinha parado de piorar. Assim, a quase unanimidade que havia em torno de um novo corte da Selic de 1,5 ponto se transformou numa quase unanimidade de um corte nos juros básicos, na melhor das hipóteses, de 1 ponto percentual. Há até quem fale em 0,75 ponto.

É interessante notar que, nesse mesmo intervalo, as expectativas futuras de inflação (que o BC olha, pois a inflação corrente é resultado do passado) mantiveram-se comportadas. Os diversos índices de inflação usados para corrigir vários preços da economia brasileira – como o IGP-M, que corrige a maioria dos contratos de aluguel – estão cozinhando em fogo brando e, em alguns casos, em trajetória deflacionista. Ainda que os preços não permaneçam na tendência descendente acentuada dos períodos recentes, não é sensato esperar uma reviravolta nos índices de inflação.

Não é preciso escamotear um movimento de retomada com receio de colocar azeitona na empada dos viciados em juros básicos acima do peso. A economia pode ter começado a escalar de volta a montanha do crescimento, depois de uma queda rápida e profunda no precipício da recessão, sem que isso signifique um retorno da inflação. O próprio boletim Focus, síntese da opinião do mercado que influencia e é influenciada pelo Banco Central, mostrou nesta segunda-feira, depois de semanas de projeções em  baixa, uma melhora da expectativa para o crescimento do PIB em 2009: de -0,49% para -0,39%.

Essa pequena virada nas estimativas de mercado para o crescimento do PIB é quase uma senha para a mudança do próprio mercado em relação à política monetária. E, como a relação do mercado com o BC é o de cachorro que morde o próprio rabo, o risco maior do momento, na política monetária, não é o de produzir fricção de demanda, com conseqüências indesejáveis nos índices de preço. O risco maior é o de uma decisão muito conservadora do Copom atrasar um eventual movimento mais consistente de recuperação e, como tem sido a norma, no Brasil, exigir um esforço econômico além do necessário na hora da volta por cima.

Para essa turma, que ganha dinheiro mesmo com a economia em crise, o crescimento é uma maldição.

 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , , , , ,
26/04/2009 - 19:59

Um gol para a história

Vocês vão me desculpar, o espaço aqui não é de futebol, não gosto de dar palpite em tudo, não torço pelo Corinthians, mas o segundo gol do Ronaldo Nazário, o terceiro de seu time, na vitória de hoje sobre o Santos, na Vila Belmiro, por 3 a 1, é dessas coisas impossíveis de deixar passar sem um registro. Foi um gol, sem dúvida,  para a história do futebol.  

Começa com a colocação em campo, a um milímetro da zona de impedimento, mas dentro da área legal de jogo, que não é para qualquer um e denuncia quem sabe o que faz nas quatro linhas. Continua com um corte seco, cirúrgico, no espaço de centímetros, limpando a jogada para o chuite, revelação de domínio de bola como o de poucos. E acaba com uma bola colocada por cobertura, com o pé esquerdo, ele que é destro, com visão de jogo, técnica e alta categoria.

Coisa linda, que fica ainda mais linda quando se insere na história de superação do rapaz pobre do subúrbio carioca, atrapalhado na vida pela fama e pelo dinheiro.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Além das contas Tags: , , ,
24/04/2009 - 17:27

Taxa de desemprego: ruim, mas nem tanto

A taxa de desemprego de março, calculada pelo IBGE, pode ser encarada um pouco como aquela consagrada definição do maestro Tom Jobim para o Brasil: é ruim, mas é bom. Ocorreu um aumento de 0,5 ponto, em relação a fevereiro, levando a taxa do desemprego urbano, apurada nas seis maiores regiões metropolitanas, a 9%.

O número já era esperado pelos analistas. Eles sabem que o efeito de uma crise no emprego é retardado, tanto na hora da demissão quanto na da contratação ou recontratação. E que os efeitos do despencar da atividade econômica, na virada de 2008 para 2009, só vai se transformar em índices de desemprego mais aberto nos períodos seguintes.

É possível, por isso mesmo, que a taxa de desemprego do IBGE ainda aumente nos próximos meses, alcançando o nível de dois dígitos, de onde saiu há algum tempo. Uma das razões para que isso ocorra é a própria melhora no ritmo da atividade econômica. Parece um paradoxo, mas não é muito difícil de explicar.

A metodologia de cálculo do desemprego aberto, utilizada pelo IBGE (e de resto, em todo o mundo) inclui no grupo dos desocupados apenas aqueles que, sem emprego, procuravam trabalham no mês da pesquisa. Os que, mesmo desempregados, desistiram, ainda que temporariamente, de procurar ocupação – os desalentados – ficam fora do cálculo do desemprego.

Assim, sempre que a atividade econômica começa a melhorar, vindo de um período de retração, primeiro cai a taxa de desalento, para depois cair a de desemprego. O fenômeno, aliás, costuma ser mais comum em meses de março, quando os negócios, depois do banho-maria das férias e do carnaval, aquecem os motores.

No fim das contas, a taxa de desemprego de março, a maior desde agosto de 2007, não é muito diferente da registrada em março do ano passado (8,6%). E se mantém menor do que a verificada no mesmo mês, entre 2000 e 2007, sempre acima de dois dígitos. Há também a considerar, como fator positivo, que o rendimento médio real dos ocupados ficou estável em março.

Preocupa, no entanto, o fato de que houve desaceleração no ritmo de contratações formais e a confirmação de que são os jovens com menor escolaridade os que mais sofrem com o desemprego. E que, afinal, sejam dois milhões de brasileiros querendo trabalhar sem sucesso.

Resumo da história: ainda não há sinais inequívocos de retomada econômica, mas já é possível apostar que o fundo do poço está ficando para trás.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
22/04/2009 - 18:34

Sensações e estatísticas

O FMI divulgou mais uma das suas projeções para a evolução da economia mundial em 2009. Está cada vez mais pessimista. Para o Brasil, prevê um recuo de 1,3%, em 2009.

Os economistas brasileiros de mercado consultados, semanalmente, pelo Banco Central, para a publicação do boletim Focus, com projeções macroeconômicas para 2009 e 2010, seguem na mesma toada. Parece que nem o FMI nem eles já encontraram o fundo do poço. Semana após semana, vêm aumentando as estimativas de recessão para o Brasil, em 2009.

No boletim de sexta-feira, divulgado segunda-feira, a mediana das projeções para a evolução do PIB ficou negativa em 0,5%. Há um mês, a previsão dos analistas de conjuntura que participam da pesquisa Focus, apontava estabilidade (menos 0,01%). Na semana passada, previam menos 0,3%. É bem possível que avancem mais um pouco nas estimativas de recessão, nas próximas rodadas.

Há, no mercado, como se sabe, projeções de queda do PIB, em 2009, de até 4%, Mas as apostas se concentram em torno de recuos entre 1% e 1,5%. No ministério da Fazenda, a estimativa é de um crescimento de 2%. E, no Banco Central, de 1,25%. No setor privado, há uns poucos que ainda acreditam num crescimento – mas baixo –, em 2009.

Um desses, pode parecer surpresa para alguns, mas não para mim, é o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Franco costuma ser mais independente nas suas avaliações da economia e, mais uma vez agora, tem revelado uma visão diferente – e bem interessante – do que poderá ocorrer na economia brasileira este ano. Ele prevê uma recuperação lenta, mês a mês, podendo apontar, no fim do ano, até algum crescimento. Mas, mesmo em ascensão, na comparação com o mês anterior, só no fim do último trimestre, caso ocorra, haverá evolução positiva, em relação ao mesmo período de 2008.

Esta é, do meu ponto de vista, a avaliação mais correta diante dos efeitos da crise e da evolução do nível de atividades, no Brasil. É como se a economia tivesse despencado, de uma só vez, dez degraus da escada e, depois, começado um movimento de volta, degrau a degrau.

Por uma simples (eu diria até simplória) questão estatística, a base de comparação alta do ano passado fará com que a sensação de melhoria, na vida real, previsível desde março, não confira com os números. Assim, deverá ocorrer um fenômeno não muito comum de discrepância acentuada entre a sensação de que a economia se recupera e as estatísticas divulgadas, que apontarão, possivelmente até quase o fim do ano, para uma recessão.

Retratar a realidade de ritmos divergentes, de maneira correta, para os analistas e os jornalistas econômicos não ligeiros e não levianos, será um desafio e tanto. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
21/04/2009 - 07:30

Educação pela crise

Uma das últimas discussões que eu e o Leandro Modé tivemos foi sobre um palavrão: a sustentabilidade da atual recuperação dos pregões das bolsas de valores, em todo o mundo, e, em especial, em alguns mercados emergentes, Brasil à frente.

Ontem, quando os mercados desabaram, apesar da continuidade das boas notícias sobre lucros dos bancos americanos – nada menos que o maior de todos, o Bank of America, surpreendeu os analistas com um resultado positivo, no primeiro trimestre, acima das expectativas -, procurei o Leandro e fiz a pergunta que é, na minha opinião, a razão de ser do trabalho do jornalista: e daí? Segue a resposta do Leandro:

* * *

O Bank of America (BofA), o maior dos EUA, anunciou nesta segunda-feira um lucro de US$ 4,2 bilhões no primeiro trimestre. Mesmo assim, suas ações despencaram 24,3% na Bolsa de Nova York.

Como explicar a aparente contradição? A explicação estava na rubrica ”reservas adicionais” – US$ 13,4 bilhões -, que o banco teve de engordar em razão da expectativa ainda maior de calote.  Há também dúvidas quanto à qualidade dos balanços agora apresentados pelos bancos, como insinuou na sexta-feira o Prêmio Nobel Paul Krugman, em sua coluna no “The New York Times”.  É que os reguladores americanos aprovaram mudanças nas práticas contábeis que permitemos bancos efetuar uma mudança contábil aprovada pelos reguladores americanos permitem produzir uma certa maquiagem nos balanços bancários.

Os investidores, claro, ficaram com a pulga atrás da orelha, não só em relação ao BofA, mas também aos outros bancos americanos que estão em situação delicada. Um deles, como se sabe, é o antigo número 1, o Citigroup, que divulgou, sexta-feira, um ganho de US$ 1,6 bilhão no trimestre, um volume que surpreendeu a praça tanto quanto o desempenho anunciado pelo BofA.

Por isso, o mercado acionário deu uma pausa no otimismo das últimas semanas e apurou fortes quedas mundo afora nesta segunda-feira. O Índice Dow Jones, por exemplo, o mais tradicional de Nova York, perdeu 3,56%. A instabilidade dá razão aos analistas que vêm pregando cautela com a recente valorização das bolsas. O Ibovespa, por exemplo, subiu 11% apenas na primeira quinzena de abril. No ano, os ganhos beiram 20%.

Nos Estados Unidos, há quem fale em “rali do mercado do urso”, outros preferem chamar de veranico, mas o fato é que quase ninguém se arrisca a afirmar que as altas recentes marcam o início de uma recuperação duradoura. Nenhum problema com isso. Aliás, é até bom que seja assim. Mas não custa perguntar: por que a cautela foi tão desprezada em 2008, quando já havia sinais de que a crise se avizinhava?

Em maio do ano passado, quando o Brasil recebeu o famoso grau de investimento, analistas de casas financeiras então respeitadíssimas falavam que o Ibovespa chegaria a dezembro entre 80 mil e 90 mil pontos (no dia 30 de dezembro, fechou em 37.550 pontos). Muitos podem dizer: ok, deixe de ser ranzinza, pois ali o momento era de euforia. Isso não justifica o erro, pois os primeiros sinais da crise do subprime apareceram em agosto de 2007. As próprias bolsas de países desenvolvidos já começavam a antecipar o que viria pela frente.

No fim das contas, a crise, com sua inusitada dimensão, parece estar levando um pouco de humildade a uma turma que, nas últimas duas décadas, acostumou-se a desfilar pelos pregões das bolsas com o nariz empinado.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
16/04/2009 - 11:31

Redução da meta de superávit fiscal já veio tarde

Depois do anúncio da redução da meta de superávit primário, em 2009, de 3,8% do PIB para 2,5% do PIB, o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, avisou que a revisão da meta era conjuntural e apenas refletia “o cenário de receitas menores e necessidade de aumento de algumas despesas”. O ministro, com todo o respeito, poderia ter economizado algumas palavras. É que, talvez por linhas tortas, o governo fez o que já deveria ter feito há tempos.

A fala desnecessária de Paulo Bernardo pode dar a entender que a redução da meta de superávit primário produziria impactos negativos horripilantes nas contas públicas e que a decisão seria apenas fruto de uma emergência. E que, lá na frente, ocorreria uma nova escalada da dívida pública, jogando no lixo o enorme esforço para controlar o endividamento do setor público – realizado, vamos ser honestos e aderentes aos fatos concretos, no governo Lula.

 Não é nada disso. Ainda mais com a perspectiva de corte nas taxas de juros, a economia pode não crescer nada neste ano (e no próximo) e mesmo assim, com um superávit primário de 2,5% do PIB – e talvez de 2% do PIB -  o déficit nominal (aquele que inclui a despesa com juros) e a relação dívida/PIB, o indicador mais adequado para medir o tamanho da dívida, continuarão recuando.

Segundo projeções conservadoras, o déficit nominal, em 2009, ficaria em torno de 1,5% do PIB e a dívida pública não passaria do equivalente a 35% do PIB, mantendo a trajetória de queda. Essa é uma situação melhor – melhor não, muito melhor – do que o limite aceito pela União Europeia que, pelo Tratado de Maastricht, definiu um teto de 3% do produto bruto para o déficit nominal e um volume de dívida pública de até 60% do produto bruto.

Nem por isso, a histeria fiscalista, vigente nas hostes do pensamento dominante entre nós, assentou o facho. Sua argumentação, descabelada, circula com desenvoltura, vocalizada pelos meios de comunicação, sem a menor cerimônia.

Um resumo dos pontos cansativamente martelados:

1)  Nos Estados Unidos, Europa e Ásia podem aumentar gastos públicos, na aplicação de uma política fiscal anticíclica. Aqui, não. Não temos margem e nossa história pregressa, de calotes, troca de moeda, gastança compulsiva etc. e tal nos veda essa alternativa;

2) Gastamos muito e gastamos muito mal. O governo deveria cortar seus gastos de custeio, que aumentam muito acima do PIB e da inflação, para, com isso, poder aumentar os investimentos. O atual conforto das contas públicas é só aparente e logo mais estaremos de volta aos nossos velhos dramas e constrangimentos fiscais.

3) Tomada às vésperas da eleição de 2010 e incluindo o ano eleitoral, a liberação de recursos fiscais, às custas do Tesouro, é uma medida populista e eleitoreira.

Exceto uma parte da crítica à qualidade do gasto, é tudo uma óbvia bobagem, sem base na realidade, que se sustenta em mitos já derrubados pelos fatos. Uma tentativa de escamotear a verdadeira motivação dos ataques à “gastança”: a disputa pelos recursos públicos, aos quais os detentores do capital e seus porta-vozes se lançam com uma velhíssima voracidade e que recrudesce sempre que surgem ameaças de “desvios” de dinheiro público para destinos sociais.

A ponta-de-lança desses ataques é o gasto com a folha do funcionalismo público. A lógica do esquema é a seguinte: misturam uns tantos marajás e outros tantos apadrinhados com a massa de servidores honestos, de baixo salário, e adicionam na mistura, em seguida, os gastos de custeio em geral.

Escamoteiam, assim, que parte relevante dos “gastos de custeio” é aplicada em áreas essenciais, como saúde e educação, e em programas sociais, aí incluídos as transferências de renda e a previdência social. Exemplo: um aumento acima da inflação nos gastos com educação, como o ocorrido em 2008, por exemplo, algo mais do que desejável, entrará no balaião como “aumento descontrolado” de gastos correntes ou de custeio.

É sempre possível ser desonesto em qualquer debate sobre qualquer assunto, mas, no caso das contas públicas, essa constatação é ainda mais verdadeira. No campo das políticas fiscais, a nomenclatura específica se presta a todo tipo de manipulação. Depende da posição de quem observa, por exemplo, considerar um determinado custo como investimento – e vice-versa.

A retirada da Petrobras do cálculo das contas públicas serve de prova do que se afirmou acima. Nada obrigava manter empresas de economia mista e controle estatal no bolo das receitas e despesas primárias, exceto uma antiga imposição do FMI – e, OK, alguns requisitos de governança corporativa da própria empresa. Mas, a partir dessa imposição, de um tempo em que o hoje combalido gendarme das finanças internacionais recomendava aos países devedores, como o Brasil, uma arquitetura econômica totalmente devotada ao pagamento das dívidas, todos os investimentos da estatal, a partir dessa imposição, eram computados como despesas.

Nada mais do que uma canetada bastou para mudar o destino dos investimentos da Petrobras na contabilidade pública. Como num passe de mágica, os gastos públicos, em 2009, com a retirada da Petobras do cálculo e outros cortes, foram reduzidos em R$ 40 bilhões e surgiram, digamos, do nada R$ 40 bi de investimentos – equivalente a tudo que se arrecadaria em um ano com a CPMF.

As contas públicas brasileiras ainda estão assim de entulhos do FMI. Agora que somos até credores do FMI, não há mesmo motivo algum para não acabar com eles. Nada pode ser mais chique – e mais proveitoso para melhorar o nosso País.

* * *

Publiquei no blog, em 23 de março, um texto sobre os conceitos de contas públicas, em que a redução do superávit para 2,5% do PIB era apontada como possível e adequada. A conclusão do post era a de que já deveríamos ter abandonado, nas contas públicas, o conceito primário, substituindo-o pelo conceito nominal. Quem não leu ou quem quiser relembrar, é só clicar aqui

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
14/04/2009 - 17:06

O BB não pode ser o mais rentável

No dia em que o futuro presidente do Banco do Brasil afirmou a jornalistas que a instituição vai praticar uma política “agressiva” de redução dos juros, as ações do BB subiram na Bolsa. Isso significa que os investidores aprovam a política de redução dos juros que está sendo anunciada? É claro que não é possível concluir nada disso a partir de um único pregão.

Na semana passada, quando foi anunciada a troca na presidência do BB, sob a alegação de que o presidente demitido resistira a reduzir os juros tanto quanto o governo gostaria – ou, pelo menos, não conseguira promover tal redução –, as ações do BB caíram. Isso significava que os investidores rejeitavam a política de redução dos juros que deveria ser implementada? Também muito provavelmente não.

Mas não faltaram jornais, até mesmo em manchetes, especialistas e colunistas a dizer que sim. A troca de presidentes, segundo uma manchete de jornal, teria feito o BB perder R$ 5 bi em dois dias. O “valor de mercado”, aquele indicador resultante da multiplicação da cotação do momento pelo número de ações em circulação, um inocente útil cansativamente usado na tentativa de comprovar ideias estapafúrdias, tinha sido novamente convocado para um servicinho sujo.    

A decisão do governo foi tomada pela grande mídia – e vocalizada por porta-vozes nela própria instalados – como intervenção política, que tornaria o BB mais vulnerável a aparelhamentos partidários. Mais do que isso, poderia comprometer a competitividade do banco no mercado, afetando a rentabilidade. Segundo as análises em passo com os editoriais, a troca de um presidente “técnico” por um petista – ainda que ambos sejam funcionários de carreira da instituição –, a partir de pressões indevidas patrocinadas diretamente pelo presidente Lula configurava uma falha inaceitável de governança, com vastos prejuízos potenciais para seus milhares de acionistas.

É fato que qualquer instituição, pública ou privada, deve zelar pela transparência e a consistência de sua governança. As regras de atuação precisam ser claras e de conhecimento público. Mas, isso posto, só com base na lei de Gérson é que se pode querer que o Banco do Brasil figure no topo do ranking dos bancos mais rentáveis. Na verdade, será mais correto que suas ações estejam entre as menos rentáveis.

O mais chucro dos investidores juniores sabe que investimentos obedecem a uma combinação entre segurança, liquidez e rentabilidade. Será sempre uma anomalia quando o ativo mais seguro for também o mais rentável ou o mais líquido e vice-versa. Se o BB é o mais seguro – e na hora em que a onça bebe água no mercado financeiro a corrida para ele é mais do que a prova do pudim –, sua competitividade não pode ser medida pelo nível de rentabilidade.

Além disso, quem investe no Banco do Brasil, sabe onde está metendo a colher, quer dizer, o bolso. Se não sabe, desculpem, deveria saber.

É claro que o valor de mercado de dois dias é uma medida imprestável para avaliar o que pode acontecer com uma empresa. Mesmo captado em prazo mais largo, deve ser utilizado com as devidas cautelas. É um indicador antes de tudo volátil.

Por exemplo: entre maio de 2088, quando o valor de mercado do BB alcançou o pico de R$ 82,7 bilhões e fevereiro de 2009, período em que o valor de mercado do banco chegou ao ponto mais baixo de R$ 35,5 bilhões, a “perda”, de acordo com o método usado pelo Globo, foi de 57%. O detalhe é que a queda livre das cotações ocorreu no período de gestão “técnica” de Antonio Lima Neto.

Óbvio que Lima Neto não tem culpa nesse cartório. Nem o Banco Brasil ficou menos sólido. O tombaço tem a ver com a crise e o recuo geral das cotações em Bolsa.
 
Pode-se, então, escolher duas explicações para a tentativa de articular “perdas” de mercado no curtíssimo prazo com reações a uma intervenção política do governo em num banco com ações em Bolsa: ignorância ou ação política de oposição ao governo. Parece mais do que óbvio que a primeira hipótese é a menos provável.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
13/04/2009 - 18:29

“Minha casa, minha vida”: falta informação para os maiores interessados

Não está começando muito bem o megaprograma de habitação popular “Minha casa, minha vida”, para a construção de um milhão de residências novas, em prazo inicialmente previsto até fim de 2010, mas, depois, indeterminado. A data para o início do programa é a desta segunda, 13 de abril, mas reina ampla confusão a respeito das inscrições, critérios de seleção, escolha de imóvel etc.etc., para os potenciais beneficiários.   

No site da Caixa Econômica Federal, é possível obter uma cartilha, de 40 páginas, com explicações para construtoras interessadas e possíveis candidatos às unidades residenciais. Mas é tudo muito genérico.

Dá para saber, por exemplo, que estão excluídos todos aqueles que, mesmo enquadrados pelo critério de renda, já tenham sido beneficiados por algum programa social habitacional da Caixa Econômica Federal. Também é possível saber que, no caso de candidatos com renda entre 3 e 10 salários mínimos, as inscrições serão feitas diretamente com as construtoras, a partir do anúncio de lançamento do empreendimento.

Para os candidatos com renda até 3 mínimos, o caminho ainda está mais nebuloso. As inscrições deverão ser feitas nas prefeituras ou em postos de cadastramento por elas indicados. Esses postos ainda não estão definidos e só serão divulgados quando os convênios entre a CEF e as prefeituras forem firmados.

Lê-se na cartilha do programa “Minha casa, minha vida”: “Depois de selecionado, você será convocado para comparecer a agência da Caixa, prefeitura ou outro local credenciado e apresentar documentos pessoais, como carteira de identidade e CPF. A assinatura do contrato ocorrerá na entrega do imóvel”.

As informações sobre os tipos de imóveis que serão oferecidos e as formas de financiamento são claras. Agora, como se inscrever, como vai ser formada a fila, a seleção dos candidatos e, o que é muito importante, a escolha do imóvel, tudo isso continua na escuridão. Se alguém perguntar ao presidente Lula como fazer, ele ficará com cara de tacho.

Não vale cair de pau porque pode ser que aconteça como no bolsa-família, que começou capengando e depois acertou o rumo. Mas, na largada, é inevitável constatar que, depois de uma longa gestação, o programa amarrou as pontas empresariais, mas deixou desencapado – ou sobrou para encapar depois – o fio dos maiores interessados.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Voltar ao topo