Síndrome de abstinência dos juros altos
É possível estabelecer uma analogia entre a prática prolongada de juros altos e o uso de drogas. Ambos viciam e a desintoxicação é complicada. Somos viciados em juros altos e, por isso, o caminho da vida saudável é cheio de percalços. Mas, superadas as dificuldades, o esforço sempre vale a pena.
A anunciada – e inevitável – redução no rendimento dos depósitos de poupança é só uma ponta do iceberg nesse processo de desintoxicação. Muito bom seria se fosse definitivo, mas, quanto a isso, só podemos torcer – e esperar que o governo, Banco Central incluído, faça o que tem de ser feito. Isso significa tomar medidas muito mais profundas e abrangentes (um exemplo: substituir a meta de superávit fiscal primário por outra, nominal, incluindo os gastos com juros, como fazem as economias civilizadas). Há exatos dois anos, houve uma chance, mas ela foi desperdiçada.
São muitas as implicações da manutenção da atual fórmula de rendimento da poupança, enquanto os juros estiverem em queda – e as projeções indicam que os juros serão cortados pelo menos até o fim do ano. Os problemas começam com uma distorção grave nos mecanismos de decisão dos investidores, em relação às diversas modalidades de aplicação financeira. E vão desembocar em dificuldades para manter as metas atuariais dos fundos de pensão. Sem falar na redução das receitas de impostos, complicações para a rolagem da dívida pública (não só da União, mas também de estados e municípios) e contração do crédito para pessoas e empresas.
É mais do que certo que o governo vai aplicar um redutor na taxa referencial de juros (TR), que corrige um certo número de contratos e integra a fórmula de rendimento de certas aplicações – a mais conhecida são os depósitos de poupança. Isso já ocorreu há exatamente dois anos, quando a taxa básica de juros desceu aos mesmos 11,25% anuais que alcançaram agora.
A poupança é a mais líquida das aplicações financeiras e uma das mais seguras. É líquida porque o saque, parcial ou total das quantias investidas, é imediato. É uma das mais seguras porque o capital aplicado, para cada aplicador e em cada instituição financeira, é garantido até R$ 60 mil, pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mantido pelas próprias instituições financeiras.
Se a poupança figura entre as modalidades de aplicação financeira mais líquidas e seguras, só o velho Gérson poderia querer que a sua rentabilidade também fosse das maiores. Na verdade, pelas suas características de liquidez e segurança e, também, por não pagar imposto de renda nem taxa de administração, a poupança deve, necessariamente, ocupar um lugar no piso do ranking de rentabilidade das aplicações.
Acontece que, com a redução da taxa básica de juros, o rendimento líquido dos fundos de renda fixa, sejam prefixados ou pós-fixados, principalmente esses últimos, já está ali com o da poupança – e logo vai ficar abaixo, com os previstos novos cortes nos juros básicos. Se nada for feito para reequilibrar o jogo, os recursos sairão dos fundos de renda fixa – que financiam a produção em geral – para a poupança, que é obrigada a destinar dois terços dos recursos ao setor habitacional. Com fuga de aplicadores da renda fixa, haverá menos recursos para rolar a dívida pública, sem contar as perdas do Imposto de Renda, que não incide sobre a poupança.
Detalhe: a competição da poupança com os fundos mais conservadores seria ótima para forçar as instituições financeiras a competir pelo poupador, cobrando taxas de administração menores. Mas esse fator não faz muita diferença na composição do rendimento líquido a ponto de permitir um ajuste natural do mercado, sem a aplicação de um redutor na TR.
Ao falar na necessidade de reduzir os ganhos da poupança, o presidente Lula argumentou que a medida seria tomada para proteger a aplicação dos mais pobres. Trata-se, com todo o respeito, de uma tremenda lorota que nem boi dorminhoco engole. De onde alguém, mesmo que esse alguém seja Lula, com sua proverbial “sabedoria popular”, pode tirar que uma redução nos ganhos da poupança protege, ou mais do que isso, favorece o seu aplicador? Sem falar que, entre os “protegidos” não estão apenas os pequenos poupadores. Muito mais agora, há gente graúda enchendo os cofrinhos da poupança.
O resumo da história é que a aplicação de um redutor na TR deve ser feita de modo a manter inalterada, em termos relativos, o ranking de rendimento das aplicações financeiras. Sim, sim, no fim das contas, haverá uma redução generalizada no rendimento daquelas aplicações diretamente atreladas a taxas de juros.
Talvez apareça quem, sem pensar muito, lamente o fato. Se refletir um segundinho, no entanto, verá que o outro lado da moeda dos rendimentos altos em renda fixa, resultado de juros altos, é uma inapelável restrição ao crescimento sustentado – e, portanto, ao emprego e à renda sustentáveis.
Em todas as economias amadurecidas, os ganhos em renda fixa são pequenos e apenas suficientes para defender o valor do dinheiro. Quem quiser ganhar mais, tem de arriscar mais.
É uma escolha. Se não quero arriscar na renda variável, eu prefiro ganhar pouco, mas em cima de uma renda razoável, em vez de correr o risco de ficar sem renda – e, logicamente, não ganhar nada. Você não?
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Parabéns Luis pelo seu texto.
Algumas perguntas sem respostas definidas.
O que é Poupança? (não aquela da mulher melancia)
Para que e para quem interessa a Poupança?
No curto prazo, a quem ela interessa?
No longo prazo, o objeto de compra estará compatível com o valor poupado?
Ora, senhores debatedores e economisticadores (economistas e esticadores do bla-bla-blá) da mídia em geral.
A poupança parece, como confirma a história recente, é mais uma propaganda dos donos do poder, a fim de obter, de forma voluntária e enganosa, os recursos distribuidos á população que trabalha, além dos impostos. Vide o caso do Japão e Asia em geral, que forma por vocês mesmos afirmados como a grande Receita Economica do Planeta, que deveria ser seguido por todos os governos.
Ora, os ricos, que detém a maioria das finanças, não fazem poupança.
Restam os pobres, que são alienados das novelas e dos teles jornais. Assim, como tirar parte dos $200,00 dolares que nós demos a eles, que eventualmente sobram, depois de gastarem para nós em lojas, supermercados, etc.? Simples. Induziremos a fazerem poupança, com a promessa de devolver com juros e correção monetária. Assim, financiaremos os nossos rombos, com o sangue dos manés, porque com o suor já financiamos nossas Guerras, Palácios e Casarões em Minas Gerais.
Hi! Olha a Piramide aí de novo.
No Brasil, aplicação de 1 dia paga a Selic, agora querem descontar na poupança.
O que precisa é mudar o retorno das aplicações, a depender do prazo. Quanto maior o prazo, maior o retorno. A Selic deveria ser o piso, não o teto.
Por falar em Selic, o BC do PT-PSDB mantém uma política recessiva total. Ente o final de 2007 e parte de 2008, por cerca de sete meses, o BC do PT-PSDB praticou a mesma taxa que hoje. Naquele período a economia brasileira crescia acima de 5,5% a.a. De lá para cá, o Brasil e o mundo entraram em recessão, os BC´s do mundo tudo reduziram suas taxas em mais de 60% e o BC permanece com os juros mais elevados do planeta e agora querem colocar a culpa na caderneta de poupança. Ora, ora.
O país está com a dívida pública abaixo de 35% do PIB, quando FHC saiu estava acima de 55%, e com déficit público abaixo de 3%. A maioria dos países do mundo estão com déficit acima de 3% e dívida acima de 100% do PIB, como é o caso da Itália e Japão, como 170%.
Podemos não ser o melhor país do mundo, mas, com certeza, não somos os piores. Não sendo os piores, como justificar os juros imorais que são praticados aquí?É preciso aproveitar a ocasião e reduzir imediatamente os juros.
Caro Kupfer,
Concordo plenamente com voce. Acho que a poupança jamais pode ser a melhor aplicação financeira do nosso país. Por toda sua segurança e finalidade, tem sempre que ser, uma das piores aplicações financeiras, como nos EUA o t-bills. Enquanto no nosso país não aprendermos que se quisermos ganhar mais, teremos que correr mais riscos, nosso mercado acionário vai continuar sendo o que é, marionete dos gringos, que vem, brincam, ganham dinheiro e depois vão embora, como está acontecendo agora, onde nossos papés quase viraram pó, mais do que os deles, sem termos metade dos problemas que eles estão enfrentando.
Ola a todos
Es muitu interesante olhar a disparidade de opinhao sobre um tema tem comentarios logicos e coerentes ( coisa incomun nos dias actuais (( o errado ta serto e o serto ta errado))
e comentarios que da pena que pesoas tenhan tanta arogancia e desrespeito a seu semelhante ( moleques savidones que levarom o mundo na actual situaçao) que som de uma ipocresia sem limite o mundo presisa uma nova orden social e economica o mais urgente posivel pra colocar as coisa no devido lugar
Estou de acordo com o jornal americano que diz para o Lula que o principal para o Brasil é diminuir a carga tributária, o resto é balela.
É inacreditável como jornalistas e financistas parecem desconhecer qualquer coisa fora de suas vidas de classes A e B! A TR não é só indexadora da poupança. Ela é o indexador das dívidas trabalhistas (o que é uma sem-vergonhice: desde 2001 as dívidas cíveis são indexadas pela SELIC, fora os juros), e do FGTS, assuntos que obviamente só interessam às classes mais pobres. Seria melhor o Governo estabelecer um piso de rentabilidade, em relação à SELIC (algo como 50% dessa taxa,p.e.), e deixar o mercado competir, oferecendo as taxas que considerassem adequadas, conforme seu mix de captação e aplicação. Agora, penalizar ainda mais os trabalhadores que precisam recorrer à Justiça do Trabalho contra maus empregadores (concorrentes desleais…) e o FGTS, aí não dá!!!!
O BRASIL É O MELHOR PAÍS DO MUNDO PARA SE VIVER…BASTA OLHAREM MAIS PARA O O NOSSO SETOR PRIMÁRIO (PRODUTORES) QUE É TÃO CASTIGADO E SEM NENHUM ESTIMULO PARA CRESCIMENTO, O MUNDO TEM FOME E O BRASIL TEM AREA PRODUTIVA ENORME, FACILIDADE A COMPRA DE INSUMOS E DE MÁQUINAS AGRICOLAS…..
CLARO QUE COM UMA FISCALIZAÇÃO GOVERNAMENTAL RIGIDA PARA SE TER A CERTEZA DESTE INVESTIMENTO.NA TERRA…HOJE A FACILIDADE PARA COMPRAR UMCARRO ZERO E A DIFICULDADE PARA COMPRAR UMA MÁQUINA AGRICOLA OU UM REPRODUTOR QUE SEJA, MOSTRA QUE OS VALORES ESTÃO INVERTIDOS….VAMOS MUDAR ISSO DEPENDE DE CADA UM FAZER A SUA PARTE…………..
Tudo se resume em artimanhas para facilitar que o governo meta
a mão em nosso “rico dinheirinho”. Como justificar que o dito diga sim e diga não sobre o patrimônio privado. Estão levando a extremos o princípio constitucional da apregoada “função social da
propriedade”. Quem quiser fazer cortezia que o faça com o próprio chapéu! Outra coisa: os congressistas, geralmente homens de negócio, quando assumem os cargos sofrem uma
lavagem cerebral para somente enxergar interesses do governo! Esquecem até os próprios interesses e os da comunidade que representam. É dose…