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Arquivo de março, 2009

30/03/2009 - 13:54

Estímulos em conta-gotas

As medidas de desoneração fiscal e estímulo ao crédito, anunciadas agora há pouco pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, reforçam a idéia de que o governo ainda não acredita que a economia brasileira, em 2009, vai para o buraco. Ainda que o Banco Central já esteja estimando um crescimento de apenas 1,2% este ano e o próprio Mantega afirme agora que ficará satisfeito com qualquer expansão positiva, o ataque aos impactos da crise na economia brasileira continua sendo feito a conta-gotas. 

As medidas anunciadas são necessárias mas não parecem suficientes para compensar as perdas já incorridas e muito menos influir na redução de incertezas para a decisão de compra dos consumidores e de oferta pelos empresários. Mesmo o esquema de estímulo de crédito, para instituições financeiras menores, via garantias, que é importante para irrigar o consumo, terá, se funcionar, impactos bem parciais.

Não estamos falando, tudo bem, do pacotão habitacional. Mas também, se der certo, dará certo, claramente, mais lá na frente. Mas o fato é que, comparadas com o que tem sido feito em outras economias, as providências adotadas pelo Brasil para enfrentar a crise são nitidamente mais tímidas.

Isso inclui, obviamente, a atuação do Banco Central. E deveria incluir uma decisão mais arrojada em relação às metas de superávit primário – uma jabuticaba que, no momento, diante do mundo, virou um exotismo. Podemos nos dar a esse luxo?

Hoje mesmo, junto com o anúncio das novas medidas, saiu o IGP-M de março. É um salto no precipício, um recuo de quase 1%, o maior em cinco anos. Mau sinal. Ainda em março, a redução do ritmo de atividade pode não ter chegado ao fundo do poço.

Não seria melhor, no caso atual, pecar por excesso do que por falta?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
26/03/2009 - 15:11

Impacto econômico de plano habitacional fica para 2010

Ao apresentar o programa “Minha casa, minha vida”, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, frisou os efeitos econômicos das medidas. Segundo ele, a construção de um milhão de casas populares envolverá R$ 60 bilhões, vai gerar 1,5 milhão de empregos e engordará o PIB em 2%.

Especialistas não contestaram os números do ministro, mas avisaram que, na melhor das hipóteses, esse impacto será sentido em 2010. Ou seja, apesar da propaganda do governo, o “Minha casa, minha vida” não deve ser incluído no arsenal de ações com potencial para reverter a curto prazo os efeitos da crise global no Brasil.

Também não faltaram observações sobre a crônica incapacidade do governo Lula de fazer projetos de investimento deslancharem – vide o famoso PAC. Mesmo para a iniciativa privada, tida como mais ágil na executar projetos, seria difícil erguer 1 milhão de casas em menos de dois anos. 

O próprio Lula, ainda na cerimônia de lançamento, já se encarregou de diminuir as expectativas sobre o prazo do programa. “Não há limite de tempo, portanto, não me cobrem”, disse o presidente. “A gente não tem de se importar com o tempo. Gostaria que terminássemos em 2009. Se não conseguirmos, 2010 ou 2011…”

Há barreiras burocráticas, de espaço (muitos especialistas chamam atenção para a falta de terrenos disponíveis, sobretudo nas grandes cidades) e até materiais (no pico da fase recente de crescimento da economia, no meio do ano passado, chegou a faltar cimento no mercado brasileiro).

Mesmo quando se olha apenas para o lado econômico do programa, sem nem colocar na roda os riscos urbanísticos nele envolvidos, fica claro que, para botar em pé um projeto tão ambicioso será preciso muito mais do que vontade e retórica políticas. É tarefa árdua e difícil, que exige altíssimas doses de coordenação e depende de muitos protagonistas – às prefeituras, por exemplo, está reservado um papel crítico.

Mas, manda a cautela – e a esperança –  que, antes de desanimar, se dê um tempo para que os muitos detalhes decantem.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
25/03/2009 - 12:24

O mercado quer acreditar no Plano Geithner

Meu jovem e entusiasmado interlocutor, o jornalista Leandro Modé, do Estadão, está direto na cobertura do plano do governo Obama para deglutir, às custas de um himalaia de dólares, os ativos tóxicos dos bancos.

Por isso, fiquei enchendo a paciência dele para me explicar não só os detalhes, mas a lógica da coisa. Mas o Leandro é que deve ter ficado cheio comigo e cortou o papo: “eu te escrevo um ponto a ponto, ok?”.

 

* * *

Eu acho que o Prêmio Nobel Paul Krugman tem razão e o plano continua sendo uma tentativa de dar a volta ao mundo para não sair do mesmo e incômodo lugar: o da inevitável estatização, ainda que temporária, do sistema bancário, justamente na terra-mãe do capitalismo contemporâneo. Por isso, a jogada do momento é arriscada. Não é por nada que o pescoço do baixinho Geithner, nem três meses depois de nomeado, está valendo bem menos do que antes de assumir o Tesouro.

* * *

Aí vai, então, o resumo do Leandro Modé para as dúvidas que ainda não foram dirimidas sobre o plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

 

O mercado quer acreditar no Plano Geithner

Embora ainda careça de mais e mais esclarecedores detalhes, o programa que o presidente Barack Obama lançou segunda-feira para salvar o sistema bancário americano guarda uma diferença fundamental em relação aos planos anteriores: parece contar com a boa vontade do mercado – o que não é pouco neste caso.

Além da euforia dos investidores na segunda-feira, o desempenho das bolsas ontem foi mais um indício de que, desta vez, o resultado pode mesmo ser diferente. Os principais índices de ações mundo afora fecharam o dia no vermelho, mas foram quedas leves, típicas de um pregão de realização de lucros. Se os questionamentos levantados por vários especialistas tivessem sido levados a sério, as baixas certamente seriam mais expressivas. E hoje, confirmando essa impressão, as bolsas voltaram a se animar.

É claro que ainda seria imprudente soltar fogos. Mas não custa lembrar que, em outras ocasiões, os investidores castigaram sem dó – e logo de saída – as ideias do secretário do Tesouro de Obama, Timothy Geithner, mais ou menos como já tinha castigado o seu antecessor, Henry Paulson.
 
Dito isso, vamos às dúvidas que permanecem sem resposta:

1) Os bancos vão mesmo querer leiloar os ativos podres que hoje entopem seus balanços se, afinal de contas, têm o apoio irrestrito do próprio governo, que já deixou claro que não permitirá que quebrem?

Digamos que uma instituição leiloe uma carteira de títulos considerados podres e receba propostas com deságios gigantescos. Outras se atreveriam a seguir o mesmo caminho ou iriam preferir manter os tais bônus “encarteirados”, apostando em que, uma hora ou outra, o Estado apareceria com uma solução nova?
 
2) A equipe de Obama parte do pressuposto de que o problema central é de confiança, mas é inegável que o calote tem crescido a taxas exponenciais, em consequência da própria crise econômica. Portanto, restaurar a confiança será suficiente para tirar os bancos do buraco?

O governo pode até, em um primeiro momento, convencer os investidores a aplicar nos fundos de títulos podres previstos no plano. Mas o que acontecerá se o mercado se der conta de que o tal título realmente não vale nada?

3) Detalhes importantes ainda são desconhecidos. Entre eles:

Quando serão constituídos os tais fundos? Que taxa de juros será cobrada pela Corporação Federal de Seguro de Depósito (FDIC) para garantir os fundos criados pelos ativos tóxicos? Por qual período vai funcionar essa garantia?

4) Como tem alertado o prêmio Nobel Paul Krugman, o que vai acontecer politicamente se este plano, como os anteriores, falhar? Terá Obama apoio no Congresso (e, por que não, popular) para uma nova tentativa?

Como o próprio Obama disse, os resultados só vão ser conhecidos nos próximos meses. Parece óbvio afirmar isso, mas, até lá, a única forma de medir a disposição dos investidores em relação ao plano é por meio do vaivém das cotações dos ativos financeiros. Bolsas seguidamente no vermelho indicarão mudança de humor – e mais demora na recuperação da crise.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
23/03/2009 - 15:33

Basta de superávits primários!

Com a  queda na arrecadação e a perspectiva de redução nas metas anuais de superávit primário, mesmos os fiscalistas carecas estão com os cabelos em pé. Avançam as divisões motorizadas contra os “gastos correntes”, aqueles que, segundo a versão martelada pelos neocons e retransmitida dia e noite pela mídia que os vocaliza, se não forem contidos e decepados, sufocarão os investimentos públicos.

 ”Gastos correntes”, tratados assim o mais genérico possível, são os primeiros suspeitos de sempre entre os culpados pelos erros da política econômica, na visão desnaturada do neoliberalismo de casaca. Lançada ao ar com a recorrência das mentiras que se tornam verdades, a acusação contra os “gastos correntes” confunde a plebe ignara, que os identifica apenas como a expressão de salários exorbitantes de indistintos servidores públicos. E também de mordomias hollywoodianas. Ou, ainda, de escandalosos desperdícios de recursos.

 Sim, sim, tem salários exorbitantes, mas só para uma parte bem pequena do funcionalismo – o grosso trabalha direito e ganha pouco. Tem mesmo mordomias incríveis, mas, de novo, é moleza para uns poucos amigos dos reis e nobres das cortes. Desperdício, idem com batatas, mas desperdiçar recursos públicos não é exatamente a regra.

Uma parte relevante dos “gastos correntes” ou seu sinônimo com roupa ideológica, a “gastança”, nada mais é do que o conjunto de recursos aplicados em áreas essenciais, como saúde pública e educação pública – parte do que chamam, pejorativamente, de “custeio da máquina”, sempre apedrejada sem as necessárias ressalvas. Também fazem parte dos gastos correntes que vão no saco das mordomias e dos aproveitamentos, os programas sociais, a Previdência e subsídios – estes, aliás, um balaio de gatos que inclui um tanto para pobres e, vamos combinar um monte para ricos. É preciso deixar claro: sem gastos correntes, restaria aos desprovidos apenas a proteção social dos viadutos.

Se, então, o analista das políticas fiscais for honesto, se sentirá, antes de qualquer coisa, na obrigação de separar os alhos dos bugalhos. Além disso, saberá observar o campo de uma perspectiva histórica. Por exemplo: por que meta de superávit primário? Boa pergunta que nunca é feita, logo, nunca respondida. Por que, enfim, não meta fiscal nominal, como em todas as economias civilizadas do planeta?

Como define o senso comum, o superávit primário é “a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida pública”. Ele leva em conta as receitas do governo – nas três esferas federativas, incluindo os bancos públicos e as empresas estatais – das quais são descontados gastos correntes. O gasto com juros da dívida pública, o item de maior peso individual no total dos gastos, que não deixa de ser “corrente”, fica fora da conta.

O conceito de superávit primário, que se articula com o da relação dívida pública com o PIB, é um entulho econômico dos tempos dos garrotes do FMI, imposto ao País como condição para novos empréstimos compensatórios, em nome da contenção de uma monumental dívida pública, formada por uma gigantesca dívida externa e uma explosiva dívida interna. Não custa lembrar que a primeira foi potencializada por uma desastrosa política de valorização cambial. E que a segunda – o lado escuro da lustrosa moeda do Plano Real –, ainda que explicável em parte pela absorção de esqueletos fiscais, partiu de pouco mais de 30%, em 1994, e alcançou a vizinhança inédita de 60% do PIB, em 2002. 

Com a redução da dívida pública externa a volumes de quase nada (menos que nada, aliás, se considerarmos o acumulado de reservas internacionais) e o controle da dívida interna, em relação ao PIB, as metas de superávit primário perderam toda a sua eventual razão de ser. Mas continuam a estrangular as políticas públicas, afetando, principalmente, as de cunho social, e os investimentos públicos em infraestrutura.

Do mesmo modo que o conceito de meta fiscal operacional, vigente no período em que a correção monetária disseminou-se na economia, foi abandonado com o fim da indexação geral de preços, a aplicação do conceito de meta primária, como base de política econômica, está em desacordo com a realidade do endividamento público e sua manutenção é um crime contra o esforço dos brasileiros em fazer o País progredir. Assim como a meta operacional foi substituída pela meta primária, está mais do que hora de substituir a meta primária pela meta nominal, com a inclusão dos juros das dívidas públicas no conjunto dos gastos de governo a serem controlados e monitoridos.

Se o Brasil almeja, de fato, ocupar um lugar de destaque entre as economias globais, não pode manter em vigor uma jabuticaba desse quilate. Não é nem o caso de falar de uma necessária revisão nos conceitos de dívida pública, mas, simplesmente, de adotar o que todos praticam mundo afora. Não há economia civilizada que opere com metas fiscais primárias.

Com a substituição da meta fiscal primária pela nominal, além de incluir os juros na roda dos gastos a serem controlados, a política fiscal ganharia uma flexibilidade de que hoje não dispõe. Neste exato momento, o governo se contorce em cólicas para cortar gastos correntes e salvar algum para investimentos.

Os sábios se esfalfam no ataque à redução da meta de superávit primário para 3,8% do PIB e reagem com horror à idéia de reduzi-la mais um pouco, para 3,3% do PIB, com o desconto de 0,5% do PIB na meta, referente ao chamado “projeto-piloto de investimentos (PPI), uma mandracaria acertada com o FMI, no início do governo Lula, para permitir, caso necessário, um mínimo de investimento em infraestrutura.

Cálculos conservadores, no entanto, mostram que seria possível reduzir o superávit primário bem além dos 3,3% agora aventados. Até pelo menos um superávit primário de 2,5% do PIB não haveria qualquer efeito negativo no controle fiscal. Mesmo se a economia não crescer mais de 1% em 2009 e os juros básicos médios do ano permanecerem nas alturas de 11,2%, com um superávit primário de 2,5% do PIB, o déficit nominal e a relação dívida/PIB continuarão recuando, na comparação com os anos anteriores.

O economista Amir Khair, um especialista tecnicamente seguro, mas independente do pensamento econômico hegemônico, calcula que o déficit nominal ficaria em 1,5% do PIB (contra 1,6% do PIB, em 2008) e a dívida pública líquida, em 35,4% do PIB (contra 36%, em 2008). Hipóteses também conservadoras mostram que, com crescimento de 2%, em 2010, e juros básicos médios anuais de 9,6%, o mesmo superávit primário de 2,5% do PIB resultaria em déficit nominal de 0,8% do PIB e uma dívida/PIB de 33,7%.

Quando se observa que esses resultados são muito melhores do que os tetos, hoje já ultrapassados, fixados pelo Tratado de Maastricht, para os países da União Europeia (déficit público nominal de 3% e dívida pública de 60% do produto econômico), fica nítido não fazer nenhum sentido insistir no conceito de meta primária. Faz menos sentido ainda se agarrar a superávits desnecessários, com suas conseqüências nefastas para o desenvolvimento econômico do País e a qualidade de vida da população, sobretudo aquela que vive em maior insegurança social.

Gastar mal, é claro, não pode. Mas, economizar mal também não devia poder.

* * *

Quem se interessar por uma discussão um pouco mais profunda sobre contas públicas vai encontrar aqui um bom material básico. O link abre para um artigo do economista Geraldo Biasoto Junior, professor do Instituto de Economia da Unicamp. O “engodo do superávit anticíclico” é um texto antigo, de março de 2004, e os números mencionados, já entraram para a história. O que interessa, no caso, é a crítica dos conceitos de política fiscal que ganharam hegemonia, a partir do Plano Real, e ainda hoje dominam o debate.
Em tempos de revisão das incertíssimas certezas que, nas últimas décadas, sufocaram o contraditório na economia, é mais do que recomendável ter uma idéia a respeito de visões divergentes nos diversos aspectos da política econômica. É pena que esse debate não consiga espaços na mídia. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
19/03/2009 - 12:42

Síndrome de abstinência dos juros altos

É possível estabelecer uma analogia entre a prática prolongada de juros altos e o uso de drogas. Ambos viciam e a desintoxicação é complicada. Somos viciados em juros altos e, por isso, o caminho da vida saudável é cheio de percalços. Mas, superadas as dificuldades, o esforço sempre vale a pena.

A anunciada – e inevitável – redução no rendimento dos depósitos de poupança é só uma ponta do iceberg nesse processo de desintoxicação. Muito bom seria se fosse definitivo, mas, quanto a isso, só podemos torcer – e esperar que o governo, Banco Central incluído, faça o que tem de ser feito. Isso significa tomar medidas muito mais profundas e abrangentes (um exemplo: substituir a meta de superávit fiscal primário por outra, nominal, incluindo os gastos com juros, como fazem as economias civilizadas). Há exatos dois anos, houve uma chance, mas ela foi desperdiçada.

São muitas as implicações da manutenção da atual fórmula de rendimento da poupança, enquanto os juros estiverem em queda – e as projeções indicam que os juros serão cortados pelo menos até o fim do ano. Os problemas começam com uma distorção grave nos mecanismos de decisão dos investidores, em relação às diversas modalidades de aplicação financeira. E vão desembocar em dificuldades para manter as metas atuariais dos fundos de pensão. Sem falar na redução das receitas de impostos, complicações para a rolagem da dívida pública (não só da União, mas também de estados e municípios) e contração do crédito para pessoas e empresas.

É mais do que certo que o governo vai aplicar um redutor na taxa referencial de juros (TR), que corrige um certo número de contratos e integra a fórmula de rendimento de certas aplicações – a mais conhecida são os depósitos de poupança. Isso já ocorreu há exatamente dois anos, quando a taxa básica de juros desceu aos mesmos 11,25% anuais que alcançaram agora.

A poupança é a mais líquida das aplicações financeiras e uma das mais seguras. É líquida porque o saque, parcial ou total das quantias investidas, é imediato. É uma das mais seguras porque o capital aplicado, para cada aplicador e em cada instituição financeira, é garantido até R$ 60 mil, pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mantido pelas próprias instituições financeiras.
 
Se a poupança figura entre as modalidades de aplicação financeira mais líquidas e seguras, só o velho Gérson poderia querer que a sua rentabilidade também fosse das maiores. Na verdade, pelas suas características de liquidez e segurança e, também, por não pagar imposto de renda nem taxa de administração, a poupança deve, necessariamente, ocupar um lugar no piso do ranking de rentabilidade das aplicações.
 
Acontece que, com a redução da taxa básica de juros, o rendimento líquido dos fundos de renda fixa, sejam prefixados ou pós-fixados, principalmente esses últimos, já está ali com o da poupança – e logo vai ficar abaixo, com os previstos novos cortes nos juros básicos. Se nada for feito para reequilibrar o jogo, os recursos sairão dos fundos de renda fixa – que financiam a produção em geral – para a poupança, que é obrigada a destinar dois terços dos recursos ao setor habitacional. Com fuga de aplicadores da renda fixa, haverá menos recursos para rolar a dívida pública, sem contar as perdas do Imposto de Renda, que não incide sobre a poupança.

Detalhe: a competição da poupança com os fundos mais conservadores seria ótima para forçar as instituições financeiras a competir pelo poupador, cobrando taxas de administração menores. Mas esse fator não faz muita diferença na composição do rendimento líquido a ponto de permitir um ajuste natural do mercado, sem a aplicação de um redutor na TR.

Ao falar na necessidade de reduzir os ganhos da poupança, o presidente Lula argumentou que a medida seria tomada para proteger a aplicação dos mais pobres. Trata-se, com todo o respeito, de uma tremenda lorota que nem boi dorminhoco engole. De onde alguém, mesmo que esse alguém seja Lula, com sua proverbial “sabedoria popular”, pode tirar que uma redução nos ganhos da poupança protege, ou mais do que isso, favorece o seu aplicador? Sem falar que, entre os “protegidos” não estão apenas os pequenos poupadores. Muito mais agora, há gente graúda enchendo os cofrinhos da poupança.

O resumo da história é que a aplicação de um redutor na TR deve ser feita de modo a manter inalterada, em termos relativos, o ranking de rendimento das aplicações financeiras. Sim, sim, no fim das contas, haverá uma redução generalizada no rendimento daquelas aplicações diretamente atreladas a taxas de juros.

Talvez apareça quem, sem pensar muito, lamente o fato. Se refletir um segundinho, no entanto, verá que o outro lado da moeda dos rendimentos altos em renda fixa, resultado de juros altos, é uma inapelável restrição ao crescimento sustentado – e, portanto, ao emprego e à renda sustentáveis.

Em todas as economias amadurecidas, os ganhos em renda fixa são pequenos e apenas suficientes para defender o valor do dinheiro. Quem quiser ganhar mais, tem de arriscar mais.

É uma escolha. Se não quero arriscar na renda variável, eu prefiro ganhar pouco, mas em cima de uma renda razoável, em vez de correr o risco de ficar sem renda – e, logicamente, não ganhar nada. Você não?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
17/03/2009 - 07:20

Na onda da marolinha

Mesmo os mais cabeludos já estão carecas de saber que o presidente Lula exagerou, exageradamente, ao dizer, em outubro passado, que a crise – “um tsunami lá nos Estados Unidos – chegaria ao Brasil, se chegasse, como uma “marolinha”. Hoje, Lula é malhado, com razão, sem dó nem piedade, por gregos e baianos – principalmente os que lhe fazem oposição.
 
Só que tem um problema aí. Lula cantou de galo fora do tom, mas não foi, nem de longe, o único. Gente boa, aliás, gente muito boa, à frente alguns dos delfins (sem trocadilhos, por favor) mais emplumados do tucanato econômico, embarcou na mesma onda (de novo sem trocadilhos, por favor).

Meu colega e interlocutor Leandro Modé, aquele jovem e bom jornalista da Economia do Estadão, que volta e meia eu gosto de citar aqui, aceitou meu desafio e saiu atrás de declarações dos melhores críticos de Lula nas questões econômicas. Ele recuperou afirmações de vários luminares, feitas na mesma época da “boutade” de Lula.

É claro que, como são políticos, mas não fazem política como profissão, não apelaram para o tom normalmente ufanista de Lula. Mas fica claro também que, ali por outubro, quando Lula perpetrou sua apredejadíssima frase de efeito, muitos dos melhores especialistas do ramo acreditavam, como Lula, numa certa blindagem da economia brasileira.

Aqui vai uma seleta de insuspeitos marolistas:

“Para o Brasil, haverá uma desaceleração importante, uma vez que ocorre uma queda na demanda global e as commodities vêm caindo de preço. Mas temos um sistema financeiro bem capitalizado, embora tenha passado por exageros como no financiamento de automóveis em nove anos e também na concessão de crédito consignado. Cabe abrir o olho, mas não há razão para achar que vamos viver o mesmo que acontece lá fora.”

(Arminio Fraga, ex-presidente do BC, em 13/11/2008)

* * * 

“A crise é um choque externo e temos que cuidar da correia de transmissão. Se a gente trabalhar direito não há razão para isso se transformar numa crise doméstica.” (

(Gustavo Franco em 14/10/2008).

* * *
 “O Brasil tem tudo para sair bem da tormenta. É o prêmio pelos avanços institucionais de muitos anos (embora o governo teime em reivindicar tudo para si). Nas outras crises, quebramos; agora, o custo é crescer menos”.

(Mailson da Nóbrega em artigo publicado em Veja no dia 31/12/2008)
 

* * *

 “Nossos vícios na área financeira acabaram por se revelar virtudes. Reservas elevadas, bancos públicos fortes, juros e compulsórios elevados mostraram-se importantes. Temos dinheiro para gastar, agora. O ajuste brasileiro tende a ser suave.”

(Edmar Bacha, em 02/12/2008)

* * *

“A gente ainda tem uma inflação um pouco maior e mais teimosa do que gostaria de ter. Não dou por encerrado o ciclo de alta de juros.”

(Eduardo Loyo, economista-chefe para a América Latina do UBS Pactual e ex-diretor do Banco Central, em 14/10/2008).

* * * 

“Claro que o Brasil vai ser afetado. Vai desacelerar, mas não vejo nada de muito dramático em uma situação dessas. Já tivemos crescimento baixo no passado. A parte fundamental da economia brasileira ainda me parece bastante sólida, exceto pela parte de gastos públicos, que já vêm altos há muito tempo.”

(Claudio Haddad, economista e presidente do Ibmec São Paulo, em fins de outubro de 2008).
 
* * *

“O Brasil sentirá algum arranhão com a crise, que não deve afetar o crescimento da economia.”

(Márcio Cypriano, então presidente do Bradesco, 28/01/2009).

* * *

“Não existem questionamentos sobre a situação do Brasil. A liquidez interna é boa. Existe uma tendência de encurtamento de prazos, mas não dá para dizer que é significativa e que tenha impacto na economia.”

(Fabio Barbosa, presidente da Febraban, em 17 de setembro de 2008).

* * *

“O PIB mundial deve desacelerar significativamente, assim como o do Brasil. Economistas estimam – na medida do possível, dada a incerteza elevada, hoje – um crescimento médio em torno de 3%-3,5% para o ano que vem. Essa taxa poderia ser considerada moderada, mas não muito. Se o Brasil parar de crescer a partir de janeiro, a média do produto interno bruto (PIB) de 2009 ainda vai ser maior que a média de 2008 em 1,4% (o chamado carry do crescimento). Um crescimento de 3% em 2009 significa um crescimento marginal nesse ano em torno de apenas (ou será ainda?) 1,6%.”

(Ilan Goldfajn, ex-diretor do BC, em artigo publicado no “Estado” em 17/10/2008).
 

* * *

 “Em termos de nível de atividade, continuamos muito melhor do que os países desenvolvidos, embora o crescimento de 2009 não deva ultrapassar os 3%. Se a recessão vier também bater à nossa porta, o BC tem, ao contrário dos bancos centrais do mundo desenvolvido, amplo espaço para baixar juros (e também liberar depósitos compulsórios). No momento, no entanto, tendo-se em conta os prováveis impactos inflacionários da acentuada depreciação do real, isso não parece nem necessário nem aconselhável.”

(Márcio Garcia, professor PUC-RJ, em artigo no jornal Valor do dia 21/11/2008).

* * *  

CRESCIMENTO DO PIB EM 2009 - 3%

(Mediana das previsões do Boletim Focus, em 31/10/2008).

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
16/03/2009 - 23:12

Até eu estou no Twitter

Uma das características do mundo de hoje, não sei se vocês já perceberam, é que, quando você pensa que está descobrindo a pólvora, o que você descobre mesmo é que a pólvora já foi descoberta por milhões de outros. É esse, exatamente, o caso do Twitter. O Twitter é um meio internético de comunicação que, quando você escreve no Google “twitter definição” aparecem 350 mil entradas. Ou seja, é impossível de definir.

Essa reflexão profundíssima é só para dizer que, não há dúvida, a popularidade do Twitter vai explodir. Agora, até eu estou lá.

Estimulado pela Mariana Castro, gerente de Jornalismo do Último Segundo, minha jovem e competente (ia dizer bonita, mas, embora seja a mais pura verdade, não seria politicamente correto) chefe aqui no IG, pedi ao Caio Caprioli, o também jovem e paciente jornalista do IG responsável pela proeza de me colocar no mundo das inovações cibernéticas, que me inscrevesse no Twitter.

Se você achar legal, anote o meu endereço e ficará sabendo quando eu, depois de suar e me angustiar, publiquei um novo texto no blog. Quem sabe a gente vai poder até trocar umas idéias – bem rapidinhas, né mesmo?, porque só temos 140 caracteres em cada mensagem. 

Pode parecer, mas não é uma ameaça de pesadelos. É só um convite para ficarmos ainda mais próximos.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
14/03/2009 - 08:00

A hora do acerto de contas

Demorou, mas começou a ser levantado o pesado manto que ainda encobre o imenso fracasso dos economistas neoclássicos (neoliberais, para os íntimos), depois de pelo menos duas décadas e meia de hegemonia, no campo do pensamento econômico. No debate intramuros, que agora começa a chegar ao mundo dos mortais, ainda há divergências em relação à culpa das teorias econômicas vigentes, no cartório da crise. Mas não há divergências – ou pelo menos elas são bem menores – sobre a parte que cabe no desastre a um certo tipo dominante de economista.

Só nesta semana apareceram entre nós duas interessantes reflexões a respeito, ambas no jornal “Valor Econômico”.

A primeira, na coluna do ex-ministro Antonio Delfim Netto, professor emérito da Universidade de São Paulo e um crítico ferino das formulações neoclássicas, como expressas pelos economistas neoliberais. A segunda, em artigo de Dani Rodrik, um quase heterodoxo e muito influente economista, professor na Escola de Governo, de Harvard.

Deixo os interessados com os textos de Delfim e Rodrik (além do link para o trabalho que inspirou as reflexões de Delfim).

Espanta observar que, no Brasil, aqueles mesmos que ajudaram a disseminar a visão estreita e arrogante que levou ao atual desastre econômico continuam ocupando espaço privilegiado na mídia. Continuam lá, como se nada tivesse acontecido, arrotando opiniões definitivas sobre a política econômica que o País deve seguir. E fazendo previsões irresponsáveis, com base nos mesmos modelos – modelos que pretendem vender rigor científico, mas não passam de ideologia barata. Parece que o retumbante fracasso das receitas de política econômica baseadas nos “mercados eficientes” não é com eles.

 * * *

 Vamos começar pelo artigo de Rodrik, de cuja tradução extraí os trechos abaixo (a íntegra traduzida por ser lida aqui)

“À medida que o mundo ruma atabalhoadamente para a beira de um precipício, críticos do ofício da economia vêm levantando questionamentos sobre a sua cumplicidade na crise atual. E com razão: os economistas têm muito pelo que responder.

Foram os economistas os que legitimaram e popularizaram a ideia de que um setor financeiro sem amarras representava um benefício para a sociedade. Eles falavam quase de maneira unânime quando se tratava dos “perigos da regulamentação excessiva do governo”. Seu conhecimento técnico – ou o que se assemelhava a isso à época – lhes conferiu uma posição privilegiada de formadores de opinião, bem como acesso aos corredores do poder.” (…)

(…) “A falta não reside no campo da economia, mas no campo dos economistas. O problema é que os economistas (e os que lhes dão ouvidos) ficaram excessivamente confiantes nos seus modelos preferidos do momento: os mercados são eficientes, a inovação financeira transfere risco aos melhor capacitados para arcá-lo, a auto-regulamentação funciona melhor e a intervenção do governo é ineficaz e prejudicial.” (…)

(…) “Economistas do trabalho se concentram não só na forma como sindicatos podem distorcer mercados, mas também, na forma como, sob certas condições, eles podem melhorar a produtividade. Economistas do comércio estudam as implicações da globalização sobre a desigualdade dentro de e através de países. Os teóricos das finanças escreveram abundantemente sobre as consequências do fracasso da hipótese de “mercados eficientes”. Macroeconomistas da economia aberta examinam as instabilidades das finanças internacionais. O treinamento avançado em economia requer aprendizagem detalhada das falhas de mercado, e sobre o sem-número de formas nas quais os governos podem ajudar os mercados a funcionarem melhor.

A macroeconomia pode ser o único campo aplicado na disciplina de economia no qual mais treinamento aumenta a distância entre o especialista e o mundo real, devido à sua dependência de modelos altamente irreais, que sacrificam a relevância em favor do rigor técnico. Lamentavelmente, em vista das necessidades atuais, os macroeconomistas fizeram pouco progresso em planos de ação desde que John Maynard Keynes explicou como as economias podem ficar atoladas no desemprego devido à demanda agregada insuficiente. Alguns, como Brad DeLong e Paul Krugman, dirão que o campo já regrediu.” (…)

(…) “A fertilidade dos economistas não se refletiu no debate público porque os economistas tomaram demasiada liberdade. Em vez de apresentar menus de opções e relacionar as vantagens e desvantagens relevantes – a razão de ser da Economia – muitas vezes os economistas preferiram transmitir suas próprias preferências políticas e sociais. Em vez de serem analistas, eles têm sido ideólogos, preferindo um conjunto de ordenamentos sociais em detrimento de outros.
Além disso, os economistas têm hesitado em compartilhar as suas dúvidas com o público, temendo “fortalecer os bárbaros”. Nenhum economista pode estar completamente seguro de que seu modelo predileto esteja correto. Mas quando ele e outros o defendem a ponto de excluir as alternativas, acabam transmitindo um grau exagerado de confiança sobre o tipo de rota de ação exigido.

Paradoxalmente, portanto, a desordem reinante na profissão representa, talvez, um reflexo melhor do verdadeiro valor agregado da profissão face ao seu enganoso consenso anterior. A economia pode, na melhor das hipóteses, tornar claras as opções para os formuladores de políticas; ela não pode fazer essas escolhas para eles.

Quando os economistas discordam, o mundo fica exposto a legítimas diferenças de opinião sobre como a economia funciona. É no momento em que eles concordam tanto que o público deve tomar cuidado.”

* * *

Agora, o texto de Delfim (a íntegra do trabalho citado por Delfim, pode ser lida, em inglês, aqui. O texto “The Financial Crisis and the Systemic Failure of Academic Economics” é uma reflexão conjunta de um grupo de economistas de universidades da Europa e dos Estados Unidos, fruto de uma semana de debates, durante a sessão anual do Dahlem Workshop 2008, realizado na Universidade Livre de Berlim, em dezembro de 2008).

“Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de “Perspicillum”. Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu? A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista “Ciência Hoje”, jan./fev. 2009: 18): “Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias – sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada – ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais”.  

Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da “verdadeira” ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu “tipo” de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu. Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas… 

Essa é uma crítica antiga, mas que a corrente majoritária dos economistas (que à falta de nome melhor chama-se a si mesma de neoclássica) recusava-se a considerar diante do aparente sucesso da sua teoria na “explicação” do mundo dos últimos 25 anos. A cavalar crise financeira (em parte produzida pelos equívocos propagados pela própria “teoria”) desconstruiu essa ilusão. Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do “mainstream” e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, “A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica”.

É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração. 

A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte: 

“A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se. Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia. Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que – por construção – ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais. A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dos perigos que caracterizam os modelos de sua preferência. Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos”. 

O final do trabalho é ainda mais preocupante: 

“Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade. Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta. Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual. Ela falhou na sua relação com a sociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise. Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas”. 

Trata-se de um trágico “requiescat in pace”, não para a teoria econômica, mas para o “mainstream” pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade. Podemos voltar agora à modesta e útil economia política? 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
11/03/2009 - 19:27

O BC ficou refém do mercado

O mercado financeiro jogou o Banco Central no córner. Ao mesmo tempo em que se desenrolava a segunda parte da reunião do Copom, os investidores consolidaram um movimento que fez os juros futuros apontarem uma queda de 1,5 ponto porcentual na taxa Selic. Em financês, se diz que o Banco Central ficou atrás da curva.

Em condições normais, o próprio BC tenta balizar as expectativas do mercado – por meio de discursos das autoridades, relatórios, atas etc. Assim, quando tudo dá certo na comunicação e o Copom toma sua decisão, ela já foi de antemão “referendada” pelo mercado.

O efeito prático disso vai além das tecnicidades do mundo financeiro. Se o Copom tivesse reduzido a Selic em menos de 1,5 ponto percentual nesta quarta-feira, provocaria uma quase automática elevação das taxas de juros futuras, que são referência para os empréstimos bancários. Seria um desastre absoluto diante de um cenário econômico que se mostra cada vez mais difícil.

Já houve ocasião, como em dezembro, por exemplo, em que o BC contrariou o mercado. Deu no que deu. Agora, com a histeria que se instalou depois dos resultados do PIB no quarto trimestre de 2008, não restou ao BC outra opção se não a de cortar a Selic para os 11,25% que o mercado queria.

Se a toada atual for mantida, o BC deve reduzir o juro básico para o menor nível da história do País em sua próxima reunião, que ocorre em fins de abril.
* * *

Nem cinco minutos depois do anúncio da nova taxa básicas de juros, a assessoria de imprensa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) despachou um comunicado com críticas do presidente, Armando Monteiro Neto. Resumo do comunicado: “A  decisão de aumentar apenas marginalmente o ritmo de queda dos juros, para um ponto e meio de percentagem, frustra a sociedade, os agentes produtivos e a  indústria brasileira (…) “É necessário trazer a Selic para o nível de um dígito com tempestividade”.
 
Armando Monteiro faz política e joga para a platéia. Mas tem razão.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
10/03/2009 - 15:15

Cuidado com o assanhamento das bolas de cristal

Saiu o PIB do quarto trimestre e a primeira preliminar fechada do desempenho da economia brasileira em 2008. A freada foi brava. Muito mais forte do que se esperava. ~

Em relação ao terceiro trimeste do ano passado, a economia recuou pesados 3,6%. Com isso, o PIB de 2008 fechou com um crescimento de 5,1%. Evolução ainda muito boa, mas que já é coisa do passado – e de um passado que poderia ter sido excepcional. Se o crescimento, no quatro trimestre, tivesse repetido o que ocorreu nos trimestres anteriores – alta de 1,6% – o PIB de 2008 teria batido em 6,7% – uma expansão só vista por aqui nos tempos do “milagre econômico”. Mas o que importa agora é o futuro.

Com o tombo do PIB, nos últimos três meses do ano, as bolas de cristal ficaram assanhadas. Previsões de recessão técnica (uma bobagem técnica), se a queda persistir no primeiro trimestre deste ano  e de baixíssimo crescimento para 2009, para não dizer estagnação ou até de algum encolhimento já estão disponíveis na praça.

Cuidado! Com tanta incerteza e tanta heterodoxia dos governos, tais projeções são no mínimo um exercício com elevado potencial de inutilidade. Afinal, se quando tudo segue mais ou menos um curso esperado os erros previsão já são gritantes, imagine-se num quadro como o atual.

As previsões do boletim Focus, no qual o Banco Central reúne, semanalmente, a mediana das estimativas do mercado, divulgadas na segunda-feira, antes do tombo do quatro trimestre, já reduziam a aposta para o crescimento de 2009 a anêmicos 1,2%. As projeções do próprio governo, de um crescimento de 4%, acabam de subir no telhado e, quando caírem, estarão mais perto de 2%.

O problema é saber quanto essas previsões valem. No começo de 2008, esse ano em que o PIB, com chuvas e trovoados fechou acima de 5% e poderia chegar perto de 7%, as bolas de cristal dos sábios do mercado não iam além de um crescimento de 4,5%.

Está na cara que o resultado do PIB, em 2009, não vai ser nada brilhante. Mas não há gênio da lâmpada – ou da bola de cristal – que já possa antecipar o resultado do fim do ano.

* * *

Não dá para culpar o BC/Copom pelo tombo do PIB, no quarto trimestre. É claro que o BC/Copom poderia ter contribuído para evitar uma queda tão feia, mas não para impedi-la. O recuo era inevitável, diante do colapso do crédito e das turbulências variadas provocadas pela “crisinternacional”.

Também não é correto fazer às vezes de engenheiro de obra feita e criticar o BC/Copom pela insensibilidade diante da conjuntura tumultuada. Ainda que a insensibilidade deles seja espantosa.

Mas, que é engraçado ver, à luz do que aconteceu e, agora, diante do resultado do PIB no quarto trimestre, a avaliação dos sábios do BC/Copom, nas reuniões de outubro e dezembro, lá isso é.

Vejam aqui a ata da reunião do Copom de outubro, especialmente os parágrafos 24 a 26. E aqui a ata de dezembro, parágrafos 26 a 28. 

 

Atualizado às 16h06

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
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