O spread bancário só vai baixar no dia de São Nunca
O jornalista Leandro Modé, meu amigo e interlocutor aqui do blog, publicou terça-feira, no Estadão, uma ótima entrevista com Fábio Barbosa, presidente da Federação dos Bancos e do Santander. O foco da conversa era o spread bancário e o esforço do executivo foi mostrar que os bancos não são os culpados pelo alto custo do dinheiro e, depois da crise, pela escassez de crédito (aqui, para assinantes)
Barbosa concordou que o spread bancário, no Brasil, é o mais elevado do mundo e que, ainda assim, subiu depois da instalação da crise. Mas, procurou transferir a culpa para a incidência de impostos sobre a atividade financeira, a inexistência de um cadastro positivo, o fato de parte do crédito no País ser direcionado para determinados setores e atividades e os depósitos compulsórios. “O assunto é de grande complexidade”, disse ele, concluindo: “A única coisa que não aceito é que eu ou sistema financeiro seja acusado de sacana”. Segundo Barbosa, não existem interesses antagônicos entre os objetivos do sistema financeiro e os do comércio ou da indústria.
Conheço Fábio Barbosa há muito tempo – desde quando ele era um jovem executivo do então poderoso Citibank no Brasil, faz uns vinte anos. Ele, garanto, não é sacana mesmo. Talentoso, fez uma bela carreira, limpa e decente. E se querem saber, embora manjados, seus argumentos tem um fundo de verdade – ainda que expressem apenas parte da verdade.
O alto custo do dinheiro no Brasil tem uma causa básica – a oferta da “mercadoria” que os bancos vendem é estruturalmente escassa, diante da demanda por dinheiro, a começar pela do governo. Tem também diversas razões afluentes, inclusive as apontadas pelo presidente da Febraban.
Uma dessas razões, pouco lembrada, é a atuação ineficiente do Banco Central, na regulação da atividade. Como, dirão os crentes, fazer uma afirmação dessas exatamente quando a “situação tranqüila” dos bancos brasileiros, em meio à maior crise bancária internacional, prova o contrário, que o BC brasileiro é genial como regulador?
Pois é, essa é mais uma das muitas conversinhas que se vendem por aí. A “situação tranqüila” dos bancos brasileiros, falando honestamente, se deve, antes de tudo, a mais um daqueles nossos defeitos que, em certos momentos, se transformam em virtude.
Quanto a isso, sempre gosto de lembrar uma reflexão, traduzida em brilhante artigo, do economista Luís Eduardo Assis, vice-presidente do HSBC no Brasil e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central. Escrito em fevereiro do ano passado, bem antes, portanto, da instalação franca da crise, o título do artigo – “Salvos pela simplicidade” – diz tudo (aqui, a íntegra). Escreve Assis:
(…) “O Brasil é diferente porque sob muitos aspectos continua sendo uma economia fechada. A idéia de que a globalização é um processo avassalador que derruba as fronteiras precisa ser qualificada. No nosso caso, o mercado financeiro à disposição do investidor brasileiro é ainda um mercado essencialmente local. Os bancos e os investidores brasileiros não foram afetados pela desvalorização dos ativos financeiros lastreados em hipotecas, nem perderam o sono com complexos modelos de precificação de ativos subitamente ilíquidos, pela boa e simples razão de que, na prática, a compra destes ativos é restringida por uma legislação que tem ainda a marca dos tempos em que a escassez de reservas era a preocupação essencial.” (…)
Se não se deve atribuir todos os louros da situação aparentemente mais confortável do sistema financeiro brasileiro ao Banco Central, tem-se todo o direito de baixar a lenha na sua atuação como agência reguladora do mercado de dinheiro. A resistência dos spreads é a prova do pudim.
Nas horas que lhes interessam, alguns gostam de comparar o mercado de dinheiro com o de bananas. Mas é gritante que não é assim. Dinheiro é uma “mercadoria” por demais específica e seu mercado, em consequência, idem. Por isso, com todas as ressalvas necessárias, se parece mais com o “mercado de saúde”.
Os que operam nesses mercados “transacionam” com bens essenciais, aos quais não é dado aos consumidores “substituí-los” por outros. Também se assemelham no fato de que os ofertantes são poucos (ou, pelo menos, concentram mercado), configurando oligopólios, nos quais o poder dos que ofertam precisa ser matizado, para evitar assimetrias insanáveis.
Se a analogia faz algum sentido, é só comparar o funcionamento de um “mercado” com o outro para perceber o modo “disfuncional”, para ser elegante, como o Banco Central atua na regulação do seu mercado.
Deixemos de lado, por um momento, a qualidade da regulação e fiquemos apenas com o modelo. Reguladas pela Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), as seguradoras e operadoras de planos de saúde estão sujeitas a regras de controle, o que inclui a determinação de tetos para os preços cobrados. As operadoras são obrigadas a fornecer planilhas de custo e as decisões exigem a realização de audiências públicas, em que representações de consumidores são consultados. O mercado é livre, mas dentro de faixas de preços e serviços.
O que faz o Banco Central como agência reguladora, que representa e defende a sociedade contra o poder de mercado desproporcional dos bancos? Bem pouco parecido com isso. Por acaso age para estimular, de verdade, uma redução dos spreads?
Calma, calma, é claro que tabelar juros é uma grossura técnica, cujo resultado, no mercado de dinheiro, pode ser catastroficamente inverso ao pretendido. Uma típica boa intenção daquelas que lotam o inferno. Mas não haveria formas de induzir a redução, além de reduzir compulsórios e diminuir a cunha fiscal – o que, aliás, isoladamente, não garante nada, dada a pressão estrutural da demanda e o caráter oligopolístico do mercado?
Nem sei se é legalmente possível, mas, apenas a guisa de exemplo, por que não estabelecer, entre outras providências, faixas diferenciadas de custo nas linhas de redesconto, de acordo, não só com o volume demandado por cada instituição, mas também pelas taxas cobradas aos clientes? Algo na linha de banco que cobra menos, paga menos.
Inventadas para harmonizar mercados cada vez mais concentrados com os interesses dos consumidores – e, no fim das contas, da sociedade – as agências reguladores, em toda a sua ainda recente história e em todos os países em que seu modelo é adotado, enfrentam o risco do compadrio entre elas e o mercado aos quais têm a missão de regular. No caso do BC brasileiro, a impressão generalizada é de que esse risco não é controlado.
Mas, sem esse controle, os bancos continuarão levando a culpa, os banqueiros acusados de serem sacanas e o spread bancário só vai baixar no dia de São Nunca.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Caro Kupfer,
Por favor, me fale qual é o elixir que você toma ter para tanta calma e educação diante de tanta grosseria?
Acho que como no Trânsito, as pessoas descarregam muitas frustrações e ódio na internet.
Assim como no trânsito, você fala o que quer, xinga e depois desaparece…..
Ninguém vai cobrá-lo pelo que disse, ninguém sabe quem é você no dia a dia….
depois me mande a formula do elixir…..ou talvez seja só aquilo que os antigos chamam de berço.
abs fraternos, DI
Meus caros ilustrados senhores da economia brasileira. Não seria mais facil e obvio os bancos estatais, BB, CEF, etc…oferecerem dinheiro e serviços à um custo digamos, de “primeiro mundo”, isso não faria uma mudança significativa na escolha dos bancos por parte dos clientes.
E os bancos privados por sua vez, sem seus pobres clientes, não teriam que tambem diminuir suas taxas e juros…………..
È claro, essa mudança depende de uma vontade politica, que para existir, depende de uma autorização financeira……digamos superior.
Quem paga o salário dos altos funcionários do Banco Central?
Mas, o que que esse tal de spread mesmo???
joão
vamos focar a questão principal .
bancos no brasil não correm riscos . nenhum
o compartilhamento imoral de informações cadastrais , o nivel de exigencias de cauções , avais , garantias etc é assustador , a legislaçao aqui , em alguns casos , até dá aos bancos o poder de executar extrajudicialmente de forma muito mais agil que a justiça comum . alegações nessa area são pura balela .
o que ocorre é que dinheiro é uma mercadoria sim
se a procura é grande , falta produto , o preço sobe .
e quem é o maior enxugador de recursos no mercado ?
O PROPRIO GOVERNO
atraves de compulsorios , titulos da divida , etc etc e etc .
com isso sobra pouco para emprestar aos pobres mortais na fila . que quando instados a pegar recursos a uma taxa escorchante agem da seguinte forma : o primeiro da fila não pega , o segundo tambem não , mas o quinto ou sexto vão acabar pegando . e pagando
por que os nossos juros primarios são os mais altos do planeta ?
por que se o governo não remunerar bem , senão for assim , quem lá de fora vai investir aqui ? Ninguem .
titulos da divida alemã lastreados em euros pagam pouco mas não tem qualquer risco .
enquanto não resolvermos esses pequenos detalhes , o nosso spread vai ser escorchante , extorsivo , imoral .
e só vai mesmo baixar no dia de São Nunca .
Só que no periodo da tarde
Como sempre o discurso técnico, cheio de desculpas, tende a prevalecer.
Ora, se os riscos fossem exageradamente iguais aos apresentados os bancos não lucrariam tanto.
A pergunta é simples: os bancos lucram pela quantidade de empréstimos ou pelos lucros proporcionados por eles? Essa resposta com certeza eles tem.
Numa economia onde a oferta de crédito é bem menor do que a demanda é de se esperar que o spread bancário seja tão grande.
Ora essa é a relação determinante em qualquer economia: demanda x oferta.
Apesar dos argumentos apresentados, ainda falta justificativas convincentes.
[...] 3a. Desde que foi publicado em mídia nacional que o Brasil é campeão dos spreads bancários, a Febraban e seu presidente, Fábio Barbosa, têm trabalhado feito porcos para se justificarem. Aí eu me deparo com dois blog posts sobre o mesmo tema mas com abordagens um pouco diferentes. O primeiro é do José Paulo Kupfer que defende a explicação de Barbosa — com todo o cuidado para não defender os interesses dos bancos — e acusa o BC, dentre outras coisas, de oportunista ao posar como herói responsável pela consistência do nosso sistema bancário/financeiro diante da crise mundial quando a verdade não é bem essa. A explicação detalhada aqui. [...]
Falo como funcionário público concursado (prefeitura e Estado (neste, sem aumento a mais de 4 anos)), trabalhando 14 horas por dia e pendurado em dois empréstimos (um para tratamento dentário e outro para uma mudança de residência urgente (o dono da casa morreu e a família pediu o imóvel).
Bom, aqui “do outro lado” a coisa é feia, numa situação emergencial a gente cai na mão do cartel e se lasca, já tentei quitar um dos empréstimos em cash, só aceitam se do total restante for abatido apenas 10%.
Os (pra ser gentil) indecentes que defendem os bancos brasileiros merecem paredão.
Alexandre.
Ah, ainda por cima um convênio com o Estado daqui nos obriga a receber num só banco, não há opção. Venham dizer que isso tá certo em qualquer país sério pra ver se não levam uma boa lambada até do judiciário…
:-/