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06/01/2009 - 16:26

Economia, um colateral no horror de Gaza

O horror das guerras torna compreensível a busca de explicações “racionais” para os conflitos coletivos entre seres humanos. A economia é uma das justificativas preferidas nessas horas. Mas, se questões econômicas, de alguma forma, permeiam as carnificinas a que, com freqüência absurda, assistimos, não são elas que, infelizmente, estão na raiz de suas causas. Infelizmente porque seria mais fácil – e muito menos doloroso – jogar para algo “externo” a culpa pela irracionalidade e a estupidez das guerras.

Sim, sim, há interesses econômicos envolvidos.  A poderosa indústria de armamentos e suas coligadas clandestinas na distribuição de armas; controle da produção de bens essenciais, como petróleo e alimentos, o que inclui disputas territoriais, e uma série vasta de etecéteras estão aí para oferecer uma pseudo-explicação confortável e ideológica às matanças entre humanos.

Acontece que a noção contemporânea de vida nos impõe uma ética. Em nome dessa ética, não podemos, por exemplo, à maneira dos gregos antigos, jogar do alto dos desfiladeiros as crianças nascidas com “defeitos”. As guerras, quaisquer que sejam as suas motivações, por óbvio, quebram, em escala terrível, a ética da vida.

Mas, como no caso dos suicidas, que também recusam essa ética, a explicação corriqueira nunca é a verdadeira. Ninguém se mata por amor ou por acumular dívidas impagáveis, para ficar em “razões” comuns de suicídios. Pela simples e suficiente razão de que a maior parte dos humanos que sofre desilusões amorosas ou se encalacra com dívidas não se mata. Observadas por esse prisma, fica claro que as motivações profundas do gesto trágico têm de ser buscadas no interior da alma do suicida.

Sugere-se o mesmo diante das guerras. Nem todos os conflitos econômicos, comerciais, territoriais ou políticos resultam em guerras. Mas, onde, além desses ingredientes, há intolerância, não existe saída fora da guerra. Intolerância, eis o nome próprio da causa profunda e verdadeira das guerras e das “soluções finais”. A força que a nutre é a incapacidade de convivência com a diferença e o contraditório. Daí resulta o Mal, assim, com maiúscula. O resto – a política, a economia, a defesa de patrimônios e territórios – tem peso, mas, na essência, é apenas colateral.

O atual conflito na Faixa de Gaza não passa de mais dessas demonstrações de intolerância que resultam na barbárie da qual a história da civilização é tão lamentavelmente pródiga. Retrata o terrível triunfo dos genocidas – com a amarga ironia de que envolve populações marcadas por genocídios em sua história.    

Não há heróis no horror da guerra. Repelir a reação de Israel pela assimetria de forças e pela desproporcionalidade da reação é aceitar que alguma reação israelense faça sentido. Não faz. Israel não é aquela terra prometida de judeus ilustrados, sobreviventes do nazismo, que sonharam com formas socialmente inovadoras de produzir e viver. É um estado militarista, belicoso, infiltrado de fundamentalismo religioso.

Mas, invocar a desproporcionalidade da reação israelense a “ataquezinhos de foguetes de fundo de quintal” não é aceitar que, se o poder de destruição das bombas lançadas pelo Hamas fosse maior, a reação seria aceitável? Parece claro que o argumento também não faz sentido. Independentemente de seu poderio bélico, o objetivo declarado do Hamas, um espelho igualmente belicoso e infiltrado de fundamentalismo religioso de seu inimigo, é varrer Israel do mapa.

Argumentos de guerra, de que lado venham, sobretudo numa situação em que há razões para todos – e, portanto, não há razão para ninguém –, são imprestáveis. Só os argumentos da paz fazem sentido.

Israelenses e palestinos, como quaisquer outras comunidades sobre a Terra, têm direito a um lugar onde possam viver, pelas gerações, com decência e segurança. Nenhuma guerra naquele árido e estreito pedaço do Oriente Médio, como já se sabe há 60 anos, tem sido capaz de garantir esse direito mútuo. Só a paz, a partir do reconhecimento por Israel (e pelos Estados Unidos) do estado palestino e de Israel pelos palestinos (e pelo Irã), tem tal poder. Utópica ou não, a tolerância é a chave da paz.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:

61 comentários para “Economia, um colateral no horror de Gaza”

  1. Sérgio disse:

    Caro Kupfer, muito lúcido seu comentário. Parabéns!!!
    Acabei de ler “A História Secreta do Império Americano” de John Perkins, ed. Cultrix (2008). Ele foi agente dos EUA e se arrependeu do que seu país, e ele, fizeram ao longo dos últimos 50 anos no mundo. É revoltante!!! Corrupção graúda, assassinatos e miséria mundo afora é apenas aperitivo.
    Israel, como diz o autor, é simplesmente mais um ato americano, visando exclusivamente interesses próprios econômicos (petróleo e armas) a fim de manter sua hegemonia no mundo, Um “inocente” útil plantado lá para desestabilizar a região, deliberadamente… Daí o eterno jogo de comadres EUA/Israel/Inglaterra…
    *antonio carlos 06/01/2009 – 17:08* resumiu bem. Basta ver a míséria em que vivem os palestinos. Relembra os guetos judeus da Segunda Guerra… PAZ é o que menos se quer…
    E o Presidente Lula foi corajoso e simplesmente falou a verdade.

  2. Gabi disse:

    Que comentário lúcido: Israel não é aquela terra prometida de judeus ilustrados, sobreviventes do nazismo, que sonharam com formas socialmente inovadoras de produzir e viver. É um estado militarista, belicoso, infiltrado de fundamentalismo religioso.

    Parabéns!

  3. argo disse:

    “Mas se for… temos mesmo que falir aquela nação. De algum jeito…”

    Vanderwaalls

    Antes disso, teremos que expurgar (não entendam como violência, longe disso) os babacas que só vêem a riqueza dos EUA, os deslumbrados, a elite colonial brasileira.

    Quando eles não tiverem mais apoio de quem os paga para não trabalharem (essa que é a tendência do aumento da participação da conta Serviços [leia-se juros] no PIB norte-americano), sua queda será questão de anos (não pensem que será fácil, mas até Roma caiu).

  4. CASAGRANDE disse:

    È não existe dúvida de que o Casa,faz você soltar o verbo;
    Verdades realmente são doloridas,principalmente por que fatos não é possível contraDITÁ-los,e imagens de inocentes ensaguentadas,por mais que se seja, dono da mídia, não dá para omitir.
    Sabe até pensei que estava lendo, parte das justificativas expostas nos textos, postados lá no síte,do homem do chapéu.
    Agora querer comparar armas fabricadas com a melhor tecnologia,comprada dos senhores da guerra,aos morteiros fabricados em fundo de quintal,inclusíve com falta de peças,pois não consegue, se quer ter direção,É querer extrapolar o racioninio de qualquer ser minimamente informado.
    Realmente é muito díficil explicar INFINITA desproporcionalidade,afinal lançar lançar FOGUETES com mira de raios layser em cima de crianças,praticando o mesmo exterminio de que já foram vitimas,só demonstra que nazista apenas não concluio o serviço.

  5. saldini disse:

    Parabems Sr JOSE PAULO KUPFER PARABEMS uma ejemplar traducçao da realidade no mundo algo que uma pesoa nou pode ficar calado e a crueldad deste conflicto ta demais pra uma pesoa emgulhir a retorica de los meios de informaçao que mostram uma foto do enterro de um palestino e o enterro de um sionista e muita ipocresia sendo que de um lado som asesinados 700 pesoas e do outro 3 ? e mais eu nou so palestino,judeo,comunista e nada por lo estilo eu so simplemente um ser humano me mora neste mundo

  6. saldini disse:

    Gente no e los americanos eles som tamvem carne de canhao como nois o que domina a economia,politica,industria e a apac e os americanos som meramente um intrumento nas maos dos sionistas ya que todo politico americano,ingles e franceses actual tivieram que faser o juramento de defensa de israel antes de ser electos caso contrario eles nou tinhan o finaciamento de campanha e difamaçao por a midia

  7. josé disse:

    tolerãncia zero para os terroristas do hamas

  8. eduardo disse:

    A incurssão de Israel, no momento, tem mais de um ingrediente. As eleições no estado sinista estão próximas. O estado sionista foi criado dentro dos territórios palestinos em 1948, e expulsou 700 mil palestinos. Na guerra dos seis dias israel oculpou boa parte de territórios, e continua expropriando terras principalmente dos palestinos, portanto são invasores, e devem deixar as terras que invadiram, só assim (talvêz), se consiga a paz na região.

  9. Warrior for freedom disse:

    Marcelo,

    Entendo o seu ponto, mas perceba que o que Israel fez foi, em sentido estrito, justamente “chamar a polícia”. Não esqueça que a polícia só é a polícia porque o seu poder de reação é (ou deveria ser) sempre desproporcional (maior que o de todos os demais membros ou grupos).

    Você falou em ONU. Suponhamos, para efeito de argumentação, que Israel cedesse e concordasse com o cessar-fogo proposto pela Comunidade Internacional, a exemplo do que já ocorrera na guerra contra o Hezbollah, no Líbano, poucos anos atrás. O que ganharia ele em troca? Será que desta vez a ONU sequer tentaria deter o suprimento de armas pesadas para as milícias do Hamas? Que garantias se dariam ao povo israelense de que não seguirá sofrendo os ataques dos mísseis provenientes de Gaza, ou de que esses mísseis não virão, num futuro próximo, carregados com ogivas químicas e biológicas?

    Ponha-se no lugar da população israelense e me diga o que você esperaria que o seu governo fizesse?

    Israel não está diante de um inimigo que pretenda dissuadi-lo de alguma coisa ou que esteja atrás de qualquer barganha. Seus objetivos não são econômicos ou políticos. O propósito dos jihadistas (eles próprios se auto-intitulam assim) do Hamas e de outros grupos terroristas é meramente destrutivo. Estão envolvidos numa “Guerra Santa”, justificada unicamente pelo ódio contra os chamados “infiéis”. Sua primeira missão é a completa extinção do Estado de Israel. Do alto da sua suprema intolerância, enxergam o povo judeu como a personificação do mal em sentido absoluto. Que espécie de diálogo pode haver com essa gente?

    Para eliminar a violência, meu caro, não basta não fazê-la ou pedir para que não seja feita. Acreditar que bastam boas intenções e apelos emocionais para extirpá-la das relações humanas é um tanto ingênuo. Infelizmente, a paz precisa ser construída com energia e, muitas vezes, a violência precisa ser combatida com armas, não apenas com palavras. Assim não fosse, não precisaríamos de uma polícia armada para nos defender, não é mesmo?

    Abrs

  10. saldini disse:

    Warrior for freedom
    1) las terras que ocupa israel son terras usurpadas e obtidas em forma extremistas matando palestinos e expolhando tudu lo que eles tinhan
    2) se vc invade a mia casa e toma conta de tudu lo que meu e eu que o que vc quer que eu fasa falar com vc tudu bem e seu eu to indo em vora
    e se eu defendo o que e meu e so extremista legal

  11. Marcelo disse:

    O Saldini fez uma colocação bastante razoável. Apesar destas terras já terem sido dos judeus há 2000, há mil anos são dos palestinos. Mas já morou por lá mais de duas gerações de israelitas, não é?
    A tentativa de intimidar através da violência foi implementada por diversos povos: Roma o fez sem sucesso contra os bárbaros, a Alemanha também e outros.
    O que torna tão importante a posição de Israel para o seu povo? Não é o fator religião?
    Israel tem o poder de varrer os palestinos do mapa será que eles temem uma reação a nível global ao implementar essa ação?
    O estado de Israel atende a interesses poderosos. Alguém está ganhando muito com essa guerra, então para quê terminá-la?
    Será que após tantos mortos os palestinos vão desistir de sua guerra santa? Fácil assim?
    E aquele seu vizinho barulhento? Não é mais simples você se mudar para não se aborrecer?

  12. Marcelo disse:

    “Assim não fosse, não precisaríamos de uma polícia armada para nos defender, não é mesmo?”

    Sinceramente? Na minha opinião a nossa polícia armada me aflige mais do que tranqüiliza.

  13. Volnei Corbellini disse:

    Kupfer, concordo com você em quase todos os aspectos, mas discordo em relação aos suicidas – há sim uma lavagem cerebral de cunho religioso que impulsiona esses desatinos – para quem viu a reportagem do Fantástico do último domingo sobre uma brasileira vivendo em Gaza e um brasileiro vivendo em Asklon isso fica claro – ela diz que, apesar do medo, ela não quer sai de lá, porque o “martírio” leva a Deus (Alah); isso é fanatismo puro, que impede as pessoas de pensarem por si próprias; sendo um pouco “catastrófico”, acredito que a 3ª Guerra Mundial vai ser de cunho religioso e começará quando o Irã atacar Israel com bombas nucleares.

  14. vic disse:

    O texto do Kupfer foi brilhante , resumiu e liquidou muito bem o assunto. …Parabens….!

    Ao menos teoricamente,
    porque na prática, espremendo o assunto até gritar, parece que faltou ao Kupfer nos explicar que a intolerancia pode ainda ser o resultado de um longo e tortuoso processo, com muita gente morta pelo caminho, e outras misérias históricas.

    Nesta situação, os agentes gritam “CHEGA” e tornam-se intolerantes por experiência, história e imposição.
    A intolerancia neles é irreversível – uma segunda pele cascorenta e agressiva..

    Daí não há mais escolhas – a guerra e aniquilação do outro é que definirá o futuro. Quando os vencidos obedecerem aos vendedores , é feita a paz!.

    De pensar pouco, lembro várias situações históricas que
    ilustram esta notável característica do gênero Humano.

  15. Warrior for freedom disse:

    Marcelo,

    Eu não acho que um problema com um vizinho mal educado e inconveniente deva ser resolvido da forma que você sugere, tipo: “os incomodados que se mudem”. Mas aí já entramos no campo do subjetivo, de juízos de valor.

    Quanto à polícia, esta é uma instituição praticamente universal e o fato de que algumas polícias não funcionem a contento, como a nossa, não a faz desnecesária.

    Abrs

  16. hilson m.breckenfeld filho disse:

    povos irmãos brigando por interesse econômico,essa confusão remota ao início do século vinte em que a maioria dos países nessa região eram colonizados,e a intervenção européia de extinguir os recursos naturais sem se importar com as consequências; o fato embaraçador é que todas as potências européias estão envolvidos até o pescoço com esse entrevero e a indústria de armamentos que lucra muito com o conflito não é a raiz do conflito, toda essa confusão começou com o expurgo dos judeus da europa que eles ajudaram a construir,mas que no inicío das pesquisas genéticas( eugenismo) toda população ocidental assitiu as conclusões sobre raça superior,e as pessoas alojadas por séculos, tiveram que migrar para região da qual já haviam saído, e a intolerância dissiminou-se tal como os flagelos( febre amarela e que tais) só que nessa expulsão a desculpa era o tamanho da caixa craniana por pesquisador hoje esquecido mas que à época era referência mundial,e de uma simples experiência não comprovada milhões de pessoas( já européias há muito) tiveram que ir para a região em nome da harmonia entre os povos;criou-se em 1946 o maior barril de polvóra,e hoje as autoridades competentes dizem que vão solucionar o conflito, surgido pelas suas mãos e mentes insanas de limpeza étnica; o comércio que existe é o menor dos problemas,mas a memória humana é volátil já dizia(freud) e referendado depois por hannah arendet.e a frança foi uma das nações mais envolvidas na extradição de pessoas( dreyfuss) denunciado por humanistas na época mas os politicos e a igreja católica não quiseram se expor

  17. terrorista disse:

    gay warrior bicha freedom

  18. Heitor disse:

    Kupfer, acho que a tolerância está mais para convivência a contragosto do que para indulgência. Mas uma das condições para que ela ocorra é a impossibilidade de extermínio do outro, que impõe a obrigação da convivência. Parece consenso que Israel tem as condições materiais necessárias para exterminar o povo palestino. Falta-lhe, entretanto, condições políticas para tal.
    Se é verdade que o Estado de Israel é uma cunha cravada no Oriente Médio para manter a região desestabilizada, sendo parte ativa do exercício dos interesses imperialistas naquela região, também é verdade que sua existência tem suas próprias razões para levar a cabo sua política de autodefesa – tão terrorista quanto aquelas dos grupos fundamentalistas que pregam sua extinção. Só para ilustrar, a utopia dos sobreviventes do nazismo citada em seu texto – terra prometida de judeus ilustrados – consome 80% da água do Rio Jordão para, entre outras coisas, plantar hortaliçãs no deserto, em detrimento da água disponibilizada para a sobrevivência dos palestinos. Até o bíblico Mar Morto tem sofrido as consequências face a queda do volume de água despejado nele pelo Rio Jordão.
    Como ferramenta imperialista, Israel exerce suas razões ignorando as consequências de seus atos, tal e qual seus aliados e patrocinadores. As desigualdades de toda ordem entre um e outro é o que determina a intolerância, penso eu.

  19. alexandre/SP disse:

    Lost Warrior,
    que garantias tem o povo israelense de segurança de um governo que vai à guerra por uma ELEIÇÃO? E vc te ALGUMA dúvida de q esse MESMO povo vai sofrer retaliações,com mais e mais atentados? O MEDO vai acabar após esse governo corrupto do sr.Olmert e cia. assinar um acordo,ou mesmo (DUVIDO) acabar com o Hamas, ou com o terrorismo em Gaza? Aliás vai acabar com o puco q RESTA de Gaza,mas não acaba com o terrorismo.
    E 205 crianças mortas, q tal para vc? Justo? E a disseminação do anti-semitism(AINDA…) q está pesando sobre judeus de todo o mundo,vc acha um preço RAZOÁVEL? MUITOS não estão achando. Olhe ao redor…
    Quanto ao Kupfer,para variar,sempre lúcido,parabéns. Releiam o q ele escreveu e PENSEM.
    Ser contra a Bestialidade do governo de Israel NÃO é ser anti-semita.Não caiam na ARAPUCA.

  20. roberto disse:

    Não da para falar nada amigos. A historia se repete, apenas mudam-se os atores. Estes acontecimentos estão gerando muitos rancores e isto vai acabar mal.

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