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Arquivo de janeiro, 2009

31/01/2009 - 07:42

Tribuna Livre

A Tribuna vai ficar livre por um bom tempo. Aproveitem.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
29/01/2009 - 14:46

No mundo das baratas tontas

Todo santo dia alguém lança uma nova projeção para o comportamento da economia mundial (e da brasileira) em 2009. O diabo é que nada bate com nada. O tempo vai passando e nada de se entenderem. Continua a mesma barata-tonta já apontada, no blog, em dois textos recentes (ver aqui e aqui). Sem falar no histórico baixíssimo índice de acerto das previsões da turma.

Aqui vão dez das mais recentes previsões para o comportamento da economia brasileira, em 2009:

Governo 4%*
Banco Central 3,2%
Banco Mundial 2,9%
Unctad (Comissão das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) 2,9%
BIS (”Banco Central dos bancos centrais”) 2,8%
Boletim Focus do BC (relativa ao dia 23/1) 2%
CNI (Confederação Nacional da Indústria) 2,3%
Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) 2,1%
FMI 1,8%
IIF (think tank da banca) 0,8%
Banco Morgan Stanley 0%
(*) O ministro Guido Mantega diz que não é projeção, mas meta.

Aposto que vai ter quem venha dizer que não importa o número exato, mas a tendência. E essa, em todas as projeções, é de baixa.

Muito bem. Mas entre a mais pessimista da lista acima e a mais otimista, tem uma diferença de uns 5 milhões de empregos. Esta é a diferença, caso se utilize a régua do custo da criação de novos postos de trabalho, entre crescer zero ou 4%. Mesmo dando de barato que existe uma moda nas previsões (o intervalo entre 2% e 3%), se está falando em algo como a criação aproximada de 1,5 milhão de postos de trabalho. Não é pouco, não.

Continuo achando que o problema não está nas previsões macroeconômicas – elas são úteis, de algum jeito, para sinalizar tendências. O problema está em acreditar exclusivamente nelas para pensar o mundo e, pior, tomar decisões.

Para cumprir tal tarefa, em tempos como o atual, de mudanças radicais no ambiente econômico, as previsões macro, com base em modelos de equilíbrio geral, embora continuem sendo produzidas aos borbotões, são imprestáveis.

* * *

Aviso aos navegantes

Sou, geralmente, adepto das idéias e soluções contracíclicas. Assim, quando boa parte está voltando, eu estou indo. Fico fora até o dia 10 de fevereiro. Volto, se for o caso, em edição extraordinária.

Vocês fiquem à vontade para manter a boa chama do debate.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: ,
29/01/2009 - 09:33

Tribuna Livre

A Tribuna volta, para dar a espaço a tanto assunto que eu não vou poder dar conta. Por exemplo, aumento do universo de beneficiados do Bolsa-Família, o plano de Obama, o baixo astral de Davos etc. etc.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
27/01/2009 - 19:12

Lambança no comércio exterior

A situação já não está nada simples, mas não custa complicar mais um pouco, não é mesmo? Essa idéia da licença prévia para importações, surgida quase do nada, é, como dizia minha avó, de cabo de esquadra.

Muitos já sabem, mas não custa repetir. Na sexta-feira, sem aviso prévio, sem discussão, sem nada, apareceu na tela do Siscomex, o sistema eletrônico no qual importadores e exportadores registram suas transações, um comunicado do ministério do Desenvolvimento, dando conta de que os importadores teriam de obter uma licença prévia de importação.

Isso, na prática, significa uma barreira não-tarifária, quase informal, ao ingresso de mercadorias importadas. A demora para obter a licença, dependendo do humor e dos objetivos dos analistas do pedido, pode chegar a até dois meses.

Barrar as importações com expedientes administrativos já foi uma prática comum na política de comércio exterior brasileiro e ainda é um mecanismo utilizado a granel no comércio internacional. A Argentina, por exemplo, nossa tensa e importante parceira comercial, aplica restrições do tipo de um modo desajeitado e sem muita diplomacia.

Mas outros, como os Estados Unidos e boa parte dos países da União Européia, também fazem das suas, ainda que com mais sutileza. Sem falar na Rússia ou na China, onde a prática é corriqueira e sem preocupações de dourar a pílula.

Bobagem – ou guerrinha política -, portanto, investir contra o mecanismo em si. Mas que o governo fez uma lambança – e das boas – lá isso fez.

Vamos começar pelo fim. Hoje à tarde, em despacho da Agência Brasil, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, em visita de trabalho a países do norte da África, explicou, de Argel, na Argélia, que a medida foi adotada porque havia “muita discrepância” entre as estatísticas de importação do Desenvolvimento, da Fazenda e da Receita Federal.

Seria, então, na explicação do ministro, uma mera freada de arrumação, até que os números do comércio exterior se encontrassem. Algo, como ele frisou, temporário e com o menor tempo de vida possível.

Bacana. O governo toma uma decisão absolutamente não transparente, autoritária mesmo, que afeta duas dezenas de setores e 60% das importações e nem se dá ao trabalho de elaborar um instrumento legal mais arrumadinho do que um comunicado na “intranet” do comércio externo. Mais: passa sinais errados na hora errada. E tudo isso para um simples acerto contábil?! Me engana que eu gosto.

O que se diz é que o objetivo do negócio era dar um troco na Argentina. Embora a coisa tenha sido bolada no Desenvolvimento, a Fazenda não se entusiasmou, mas tinha conhecimento.

De prático, não vai dar em nada, e ainda bem. Até porque não tem a menor lógica armar esquemas para conter importações na marra em época de esfriamento da economia.  

Restarão apenas arranhões políticos. Não faltará quem aponte, no governo, ímpetos intervencionistas irresistíveis – aquela coisa do burocrata de Brasília que toma decisões fundamentais sozinho e na calada da noite – e, até com razão, uma certa desorientação na condução da economia numa etapa de crise.

Só tem, em resumo, um nome para isso tudo: lambança.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , ,
23/01/2009 - 14:48

O tamanho do enrosco

Uma boa imagem vale mais do que mil palavras, não é mesmo? É o caso dessa aqu, que você vê quando clica em Bancos- Valor de mercado.

Dá pra sentir, só de olhar, o tamanho da bolha e a rapidez do ajuste. E a dureza que vai ser a recuperação.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
23/01/2009 - 14:26

Marketing sem ideologia

Deu no New York Times: a apresentação dos supersrtars da música erudita Itzhak Perlman e Yo-Yo Ma, na cerimônia de posse de Barack Obama, foi um playback. Os dois astros, que formaram um quarteto com a pianista Gabriela Montero e o clarinetista Anthony McGill, encenaram a execução do que haviam gravado dois dias antes.

A explicação dos organizadores do evento é que eles não quiseram arriscar, diante do frio e do vento previsto para o dia da posse. As condições do tempo, segundo os organizadores, poderiam danificar os instrumentos.

Beleza. O problema é que ninguém avisou que a apresentação seria uma encenação. Os organizasdores alegam que o pool de TV que transmitiu a posse foi avisado da possilidade. Mas não houve comunicação da realidade. Além da gravação, os instrumentos com os quais os artistas encenaram a apresentação também não eram os que eles utilizam nos concertos ao vivo.

Assim, como tantos artistas que, cada vez mais, preferem o certo de um playback ao incerto de um show verdadeiro, os astros da música clássica se juntaram à menina chinesa que “cantou” na cerimônia dos Jogos Olímpicos de Pequim, no ano passado, com a voz de outra.

A moral da história é que, na hora de fazer marketing, capitalismo e comunismo “flexibilizam” igualmente a ética.

Ah, a banda dos fuzileiros navais e o coro de crianças, que também se apresentaram na posse de Obama, dispensaram playback.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Além das contas Tags:
23/01/2009 - 13:16

Tribuna Livre

A Tribuna está livre.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
22/01/2009 - 11:59

Agora os juros caem, mas o suficiente?

O texto abaixo é a íntegra do post escrito ontem e publicado no Último Segundo do IG minutos depois do anúncio do corte nos juros básicos pelo BC (ao clicar aqui você vê o texto como publicado ontem). O post não foi para o blog porque o sistema de publicação de blogs do IG estava instável bem na hora da decisão do BC (instabilidade que, me informam no IG, ainda continua). A solução foi publicar diretamente na área do US. Mariana Castro, minha jovem e atentíssima chefe, foi quem comandou a operação de “salvamento”, com a garra e a competência  de sempre.

Com meus pedidos de desculpas pelo transtorno técnico, estou recolocando o texto no lugar próprio do blog, para que os leitores possam ter acesso a ele no espaço devido e para os eventuais comentários que queiram enviar.

 

* * *

O Banco Central surpreendeu ao cortar em um ponto a taxa básica de juros e acompanhar a maioria dos analistas – não no que eles achavam que o BC faria, mas no que achavam que deveria fazer. Até o fim, o mercado esperava uma redução nos juros de “apenas” 0,75 ponto percentual – o que já seria uma ousadia e tanto para o perfil do BC brasileiro.

Pode parecer que depois da mão a gente quer o braço, mas o fato é que o corte deveria ter sido maior ainda. Talvez 2 pontos, como fez, recentemente, o Banco Central da Turquia, nosso competidor mais próximo no campeonato dos juros mais altos no mundo.

Explico. Os últimos indicadores de atividade e de inflação mostraram números bem piores do que o mercado esperava. A segunda prévia de janeiro do IGP-M, divulgada hoje cedo pela Fundação Getúlio Vargas, mostrou deflação de 0,58%. O número levou a Tendências Consultoria (do ex-ministro Mailson da Nóbrega e do ex-presidente do BC Gustavo Loyola) a cortar de 6,3% para 3,8% a projeção de alta do índice em 2009, abaixo da meta de 4,5%..

Além disso, o emprego com carteira assinada despencou em dezembro e tudo indica que a carnificina continuou ao longo de janeiro. A produção industrial caiu fortemente em outubro e novembro, na esteira da paralisação das linhas de montagem das montadoras de veículos. Uma queda do PIB é certa no quarto trimestre do ano passado e praticamente inevitável nos primeiros três meses deste ano. Restam, de fato, poucas dúvidas de que vivemos um quadro de esfriamento continuado da atividade econômica (mentes burocráticas, no afã de repetir costumes bobocas de outras economias, chamam esse esfriamento de “recessão técnica”, o que não serve para nada, além de dar passagem a manchetes de jornal).
 
Dizem alguns que, diferentemente do que ocorre no mundo desenvolvido, no Brasil, a margem para a adoção de políticas contracíclicas é estreita. A ver a validade da afirmação. Mas, de outro lado, não há dúvida de que a margem da política monetária, que, nas economias desenvolvidas, e sobretudo nos Estados Unidos, já queimou praticamente todos os seus cartuchos, é agora bem ampla no Brasil.

Pagamos um alto preço para, enfim, dispor dessa margem, cuja origem foram os erros na condução da política de juros, mas agora deveríamos aproveitar e acertar o passo mais rápido. Enfim, o corte de 1 ponto na taxa de juros já ajuda a reduzir a esquizofrenia econômica no governo – o BC segura enquanto a Fazenda solta. A sinalização, no fim das contas, é boa e só resta esperar que não tenha vindo muito tarde.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
21/01/2009 - 09:41

Tribuna Livre

Tribuna Livre, em dia de Copom e depois da posse de Obama.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
20/01/2009 - 11:33

Desafio de Obama é equilibrar economia e cidadania

Cresce a consciência de que, na economia, os desafios de Barack Obama, que assume hoje como o 44º. Presidente americano, vão muito além da já dramática tarefa de recuperar a confiança de consumidores e investidores, a partir da recuperação da saúde do sistema financeiro. Ganhou corpo, no período entre a eleição de Obama e sua posse, a idéia de que a mudança, que serviu de mote na campanha eleitoral do candidato vitorioso, terá de ser posta em prática em versão radical.

Vê-se agora com mais clareza que o problema de relançar a economia não se limita à correção de excessos na desregulamentação no setor financeiro ou à recomposição pontual da capacidade de consumo das pessoas. Será preciso regular melhor, sim. E, também, recorrer de forma agressiva à política fiscal para “limpar” o lixo de papéis podres acumulado nos últimos anos e alargar a renda pessoal disponível, abrindo novos espaços para o consumo. Mas se for apenas isso, as bolhas continuaram a se formar e a furar, levando bilhões de dólares, milhões de empregos e zilhões de esperanças pelo ralo.

Quase quatro décadas de hegemonia do capitalismo neoliberal produziram distorções tão profundas na economia americana, com reflexos tão amplos no resto do mundo, que não bastará injetar dinheiro público nas empresas em dificuldades, salvando o bolso dos investidores, e engolir, também com dinheiro público, parte da dívida impagável dos consumidores.

Superar esse desafio exigirá retomar, em novas bases, mais sincronizadas com o atual mundo da comunicação instantânea e do mercado globalizado, os objetivos fundamentais da política econômica: prover condições para que a produção eficiente de bens e serviços e de modo a que seus frutos promovam o bem-estar e a qualidade de vida do maior número possível de pessoas, sem o que jamais será sustentável.

O domínio neoliberal, sem dúvida, prod uziu riqueza. Mas, por sua natureza estruturalmente concentradora, continha em seu âmago o veneno da própria destruição. A grande expansão do capitalismo, a partir dos anos 70, sob o padrão neoliberal, ancorou-se na redução do custo do capital, tanto para produzir quanto para consumir. Ao produzir concentração de renda e driblar o problema da absorção da produção com o endividamento das famílias, o neoliberalismo chocou o ovo da serpente.

Nas últimas três décadas, nos Estados Unidos, a parcela do lucro do setor financeiro sobre o lucro total, avançou de 10% para cerca de 50%. Mas, no mesmo período, os salários mais altos saltaram de 40 vezes acima da remuneração do trabalhador médio para quase 400 vezes. Um modelo insustentável, como as diversas bolhas que se formaram – e estouraram – nesse meio tempo cansaram de indicar.

Depois de limpar, com uma montanha de dinheiro público, o lixo produzido pela economia neoliberal, Obama terá de encontrar mecanismos eficientes para estimular os empreendedores e inovadores dispostos a se arriscar nas linhas de montagem ou no balcão das lojas.  Ao mesmo tempo, terá de encontrar mecanismos para incentivar uma melhor distribuição da renda produzida, o que inclui uma nova abordagem para os subsídios aos pobres, ao sistema público de saúde e previdência, assim como à representação política dos trabalhadores.

Barack Obama assume com o desafio de armar uma equação em que consumidores e investidores sejam também cidadãos, equilibrando economia e cidadania. É fácil dizer e difícil fazer. Mas – por que não sonhar? -, possível.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , , ,
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