A mesma história, conclusões divergentes
Destaquei, na véspera do Natal, com o título “O Brasil em movimento”, alguns depoimentos pessoais enviados a propósito do texto “A nova classe média”, publicado na segunda-feira. Nos comentários ao post dos depoimentos, foram enviados novos depoimentos pessoais.
Considerei dois desses novos depoimentos muitíssimo interessantes. Ambos narram experiências pessoais de vida, com foco na luta pelo progresso material pessoal e familiar. E, partir da rica experiência pessoal de cada um, os dois leitores extraem lições que dão forma a conclusões, digamos, políticas e “sociológicas”.
O mais interessante de tudo é que, partindo de uma história pessoal semelhante, Flavio Correa e Afonso Sena chegam a conclusões bastante divergentes.
Aí estão os depoimentos e as conclusões de cada um, para ajudar cada um de nós a encontrar, reforçar ou modificar as nossas próprias conclusões.
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Enviado por: flavio correa
Gosto de debates e trocas de idéias. Mas tenho de avisar: sou anti-esquerda.
Vim de família humilde, mas digna. Digna apesar de meus pais não terem o 1º grau completo e meu pai ser alcoólatra. Mudaram para Brasília para construir a cidade (1957) e o próprio futuro, sem esperar nada de ninguém.
Decidiram ter apenas um filho para poder criá-lo com dignidade. Cresci num bairro simples; meus amigos eram ladrões, drogados, não gostavam de estudar, só de beber … como os que hoje querem concorrer com os MEUS filhos.
Minha mãe cursou o supletivo à noite, 1º e 2º graus. Com isso pôde fazer concurso público e melhorar a renda familiar. Aguardaram eu completar 18 anos para fazer o desquite; minha mãe optou por não pedir pensão, viver com dignidade própria e preservando a renda e dignidade de meu pai.
Se alguém me invejar por hoje ser funcionário público e ganhar bem, leia a receita acima e suas entrelinhas: dignidade, não depender de nenhum governante nem de nenhum santo milagreiro, muito estudo e trabalho honesto.
Infelizmente não é isso que a grande massa quer. Querem bolsa-isso, bolsa-aquilo, tudo na mão e sem esforço. Isso é preguiça.
Querem cotas para quem é negro, para quem se diz índio, para quem acha que é pobre … isso é auto-discriminação piegas, lei do menor esforço. Seus diplomas deveriam trazer a anotação: “Admitido na faculdade através do expediente de cotas para …”.
Considero-me classe média, apesar de alguns critérios oficiais me incluírem no sopé da classe alta (se é que isso existe).
Classe média porque tenho minhas necessidades básicas atendidas; quando puder atenderei aos meus anseios supérfluos, sem pensar nem olhar pros lados.
Quem me olhar com inveja ou ódio social, que vá culpar seus pais que tiveram tantos filhos, que ponha a mão na consciência e lembre quantas aulas gazeou pra jogar bola ou namorar ou beber ou brigar ou simplesmente poder dizer com orgulho besta “ee estou matando aula”.
Se eu estudei mais, se eu trabalhei mais, se eu tive mais sorte na vida … e com tudo isso formei um patrimônio, esse patrimônio É MEU.
Não vou dividi-lo com preguiçosos, filhos largados de vagabundos e inconseqüentes, com babacas que acham que infringir as leis e códigos morais da sociedade em que vivem é ‘o maior barato’.
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Enviado por: Adolfo Sena
Algumas colocações feitas em alguns comentários acima me deixam estarrecido mas não surpreso (uma vez que a internet ainda é um reduto de nossa elite egocêntrica e corrupta). Permita-me contar resumidamente a história de minha ascenção social.
Sou Engenheiro Eletricista, fiz mestrado e estou concluindo o doutorado. Atualmente trabalho em uma importante estatal de geração e transmissão de energia elétrica. Minha renda bruta é de R$ 5.200,00 e da minha esposa é em torno de R$ 3.000,00 o que resulta em uma renda familiar bruta de R$ 8.200,00. Grande parte da nossa renda familiar é comprometida com ajuda aos nossos pais e irmãos.
Meu pai estudou até a quarta série do primário e minha mãe nunca frequentou uma escola. Meu pai tinha um bar e o plano dele para o meu futuro era tocar este bar e, portanto, estudo era algo desnecessário. A minha mãe pensava de forma totalmente oposta. Ela dizia: “Não pude estudar, mas meus filhos vão todos se formar” e foi o que ocorreu.
Para que eu estudasse, eu e minha mãe vendíamos pasteis, vendíamos jaca na janela de casa, minha mãe lavava roupa para fora, etc. Além de todas estas tarefas, minha mãe era obrigada a trabalhar feito uma louca no bar do meu pai.
Sempre estudei em escola pública, quando fui para o ensino médio (em uma escola pública) em uma época em que a secretária de educação do estado era a senhora Terezinha Gueiros e ela havia introduzido o convênio nas escolas do estado o que melhorou consideravelmente a qualidade do ensino. Como conseqüência disso a taxa de aprovação das turmas do convênio nas escolas públicas foram muito altas, em especial na minha, portanto, graças a uma decisão de governo, algumas gerações de jovens foram salvas, inclusive a minha.
Ao entrar na universidade, tive muita dificuldade, pois os livros eram caros e a biblioteca estava sucateada (vivíamos na era Itamar e FHC), não tinha dinheiro para comprar os materiais didáticos necessários, etc. Eu corria o risco de ser um estudante medíocre. No entanto eu tinha a ajuda da minha mãe. Eu e ela vendíamos jaca para comprar ao menos os cadernos e alguns livros.
Aí eu descobri uma tal de “Iniciação Científica” em que o aluno participante pode realizar pesquisas em laboratórios e, desta forma, ganhar experiência e, principalmente, ter um computador a disposição, outra coisa legal era uma ajuda de custo (uma bolsa) de um salário mínimo, ao conseguir esta bolsa, já não precisava mais vender jaca ou qualquer outra coisa, passei a comprar meus livros e até dar dinheiro para minha mãe! Agora era irreversível, eu ia conseguir me formar e ser um Engenheiro Eletricista.
Portanto, meu sucesso se deve aos seguintes fatores:
1) Uma mãe (família) que incentive;
2) Vontade de progredir através do estudo;
3) Políticas públicas que melhorem a qualidade do ensino médio público (convênio pré-vestibular em escolas públicas);
4) Uma ajuda de custo (ou transferência de renda, bolsa de iniciação científica, etc.).
O que depende dos governos são os itens 3) e 4). Infelizmente, o item 3 depende dos governos estaduais que estão na mão de quadrilhas que só pensam em roubar o dinheiro público. O item 4 o governo Lula equacionou com o bolsa família para alunos que estão no ensino fundamental, já existem mecanismos para os alunos do ensino superior em universidades públicas, falta para os alunos do ensino médio. Devido ao problema do item 3) o governo Lula foi obrigado a criar as cotas para alunos de escolas públicas.
Após a conclusão dos meus estudos, as portas da classe média se abriram para mim, dizem até que pertenço à classe dos ricos!
O estudo é a única forma que lhe garante ascensão social, desde que ele seja levado a sério.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Tanto o Sr. Flávio Corrêa quanto o Sr. Adolfo Sena são grandes vencedores. Entretanto, eu senti um ponto de rancor com a sociedade do Sr. Flávio Corrêa, além de um pouco de egoísmo. Gostaria de dizer que vencer é importante mas, o mais importante, são as lições que aprendemos durante nosso trajeto às conquistas. Um pouco de amor no coração n~~ao faz mal a ninguém! Sucesso aos dois senhores.
P o Adolfo, a bolsa familia ou bolsa escola, tbm foi criação de FHC, Lula só ampliou e com mais dinheiro fez mais propaganda.
Vou ser um pouco duro – grosseiro, até -, tomando de empréstimo uma frase do Jorge Amado para adaptá-la ao primeiro comentário:
[
"Se não terminou com os racistas – sempre haverá imbecis e salafrários em qualquer tempo ou sociedade – Pedro Archanjo os marcou a ferro e fogo, apontando-os na rua, “eis, meus bons, os antibrasileiros”, e proclamou a grandeza do mestiço. Oh, que ousada opinião!
Jorge Amado, in Tenda dos Milagres.
]
Sempre existirão imbecis egoístas fascistas em todos os tempos e sociedades, não importa o que façamos. A melhor maneira é apontá-los. marcá-los, ridicularizá-los, enfim.
Esse Flávio acha que chego em que lugar? Tremendo babaca, reacionário.
Me perdoem as pessoas que escreveram seus depoimentos pessoais Sr. Flavio Correa e Adolfo Sena. Mas se puderem me respondam: Se estudo fosse sinônimo de ascenção social e profissional o Lula (que não tem nem o primeiro grau completo)não seria Presidente, o Ronaldinho (que só tem a 4ª serie do 1º grau) não seria o ex-melhor jogador do mundo e seus milhões de dólares já ganhos, os politicos (alguns mal sabem assinar seu nome) não seriam eleitos…… alguém sabe me dizer que PAÍS é este?
Cleide
Sobre os comentários: Alguns estão no lugar certo na hora errada, outros estão na hora certa e no lugar errado.
A hipocresia e inversão de valores existem em todos os lugares.
Somos obrigados a conviver com isso, afinal moramos em um país chamado BRASIL.
infelismente tem pessoas que nascem com o nazismo/facismo, dentro delas , sao pessoas que na realidade nao nao consegue conviver com outras pessoas, sao puro preconceito, sao pessoas que por mais q
A primeira pessoa , o Sr. Flavio se mostra uma pessoa com preconceitos que me parem nazista/facista, sao pessoas que por mais que estudeme se eduquem, tem um grande preconceito, como direitista que é, nao chegou a lu8gar nenhum, pois, é apenas um funcionario publico, deve servir ao publico , mas com esse preconceito?como ?
Sr. Flavio Correa
Não é exatamente exemplo de sucesso o “cara” é um revoltado e rancoroso não aprendeu nada com a vida.
Quem sabe um terapeuta ou um analista para acompanhar o processo. Talvez até um amigo, se você tiver sorte de contar com um. E como diz meu amigo o dinheiro tira o homem da merda, mas não tira a merda do homem. Sr. Flávio tome um laxante sua cabeça vai ficar mais leve.
Quanto ódio, Flávio Correa! Ao ler seu depoimento, pareceu-me de uma pessoa infeliz. Parebens pela sua garra!
Para o Sr. Bruno A. Bonvini (17:06)
Parabens Sr. Hugo sabias palavras
Parabens mesmo!!
Abraços.
Permitem-me fazer o seguinte comentário: Tanto o Sr.Flávio Correa quanto o Sr. Adolfo Sena, tem seus méritos na melhoria da vida profissional, até porque, segundo seus comentários, não eram de famílias com recursos financeiros suficientes para investirem nos seus estudos. Outro ponto importante é que ambos dão ênfase aos estudos e condicionam seus sucessos aos mesmos.
Claro que ao vivermos em um País de grandes dimensões e com tanta diferença social, estudar e progredir não me parece tarefa muito distante para as classes média, porém, estremamente dificil para aqueles enquadrados nas chamadas classe pobre.
A questão é que nosso País, principalmente o Nordeste Brasileiro, NÃO valoriza aqueles que estudam e as oportunidades ficam por conta daqueles que fizeram concursos públicos, são jogadores de futebol, político, artista ou cantor.
Nós, que estudamos e que, como bem comentou a Sra. Cleide, ” Alguns estão no lugar certo na hora errada, outros estão na hora certa e no lugar errado”. O Brasil precisa de investimento para poder crescer e gerar oportunidades para todos nós.
Esses dois senhores são exemplos vivos de que ter um sonho e lutar para que ele vire realidade é algo possível…
Mas vemos que cada um aprendeu uma lição na vida….
Quem teve sucesso….. um cara rancoroso q acredita q tudo q conseguiu se deve a ele mesmo…… ou um cara q agradece as oportunidades q teve?
Niguem deve ter inveja desse Flávio Correia. Ele nada mais é do que um profisisonal de concurso, que estudou e estudou para passar no concurso público, sem comprometimento com o trabalho. Será que ele conseguiria trabalhar sem garantia de emprego, duvido!. Acredito no servidor público, más pessoas como o esse flávio, são os primeiros a lutar para que a “mamata” não acabe e não fazem nada para demonstar dignidade no trabalho, pois é essa a função do verdadeiro servidor público trabalhar para que as pessoas tenham tratamento dígno.
Realmente, no Brasil, so’ ha’ duas maneiras de se sair bem na vida: ou se e’ politico ou via carreira publica. Bem, existe uma terceira; ganhar na loteria, contudo depende de muita sorte e persistencia, alem da poderosa ajuda divina, portanto melhor deixar de lado. Trabalhar na iniciativa privada ‘e melhor deixar para os banqueiros, pois tentar ser um micro-empresario – ou “mico-empresario” como costumam brincar – nao da’. Os impostos e burocracia sao enormes e o retorno infimo. Uma prova e’ que ha’ m,ais empregados publicos que privados no pais, segundo pesquisa ja’ publicada nos jornais.
mas o que quero dizer ‘e o seguinte: no Brasil se divulga mais a ideia do ter que a do ser. Todos querem ser ricos, ter varios carros na garagem, viagens ao exterior, casas na praia, joias, computadores, tvs, etc,etc,etc. Isso e’ viver? Isso e’ a razao e o significado da vida ??? O consumo ‘e a base da felicidade?
Ninguem percebe que viemos para um mundo lindo que nos oferece a oportunidade do conhecimento, de viver a natureza, entender como tudo funciona e respeitar a natureza e o meio-ambiente? Que nao ha’ necessidade de nos “entupirmos” de bens de consumo para sermos felizes? Que tudo por aqui e’ passageiro? Que nada nos pertence? Chegamos e vamos embora sem hora determinada? Que o importante para vivermos bem ‘e lutarmos por um mundo justo e digno, sem desequilibrios absurdos em que um possui de tudo e outros nao tem nem o que comer? Nao, nao sou religioso, madre Tereza de Calcuta’, nem Ghandi, apenas, apos 50 anos bem vividos consegui ver a “luz|” que ilumina o espirito e viver o dia-a-dia , batalhar pelo necessario, nada de acumular riquezas ou bens desnecessarios; superfluos, mas sim sabedoria, conhecimento, ler muito, ouvir bastante, procurar entender as pessoas e ajuda-las quando precisam. Como disse anteriormente, nao sou religioso mas li um livro biblico chamado “Eclesiastes” – antigo testamento- quem conhece vai entender o que falo, nem parece um livro sobre teologia ou religiao, mas sim um manual de vida.
abs
Não é bem… “a mesma história”. Em termos que é a mesma história. Famílias simples sim, mas o pai faz a diferença. O pai de Flávio Correa faz a diferença para ele> Até hoje seus momentos de dor e frustração, quando criança, quando via seu pai chegar bêbado em casa todo visivelmente derrotado pela vida, reverberam em sua mente como na hora em que ele escreveu esse depoimento. Ecoa quando brada contra os “babacas, preguiçosos, vagabundos!!!” Eu sou “pro-esquerda”, sempre fui, meu pai era alcoolatra getulista, derrotado, e eu estou quase no mesmo caminho dele se não me cuidar… só que tenho inteligência e uma enorme vontade de mudar, pensar no futuro… pois ainda sou jovem. Minha experiência pessoal me faz pensar nas milhares de possibilidade que a vida abre para todos e, ao mesmo tempo, pensar nos milhares de obstáculos e armadilhas que o destino nos impõe idependentemente da nossa força de vontade. Acho que existem sim os acomodados, os em permanente estado de letargia e inconsequência… os que o Sr. Flávio chama de vagabundos. E olha que ele não deixa de ter um pouco de razão, apesar de seu ódio quase fascista. Muitas vezes nos acomodamos, nos aproveitamos e encostamos em benesses várias. Mas nas histórias desses acomodados existe sempre um pai, uma mãe, uma história pessoal que forjou sua personalidade e, por outro lado, existem fatores sociais que também ajudam a tornar a história familiar mais triste do que é. A chave da felicidade está no equilíbrio. Só isso pra encurtar a conversa. As pessoas têm que ter atitude, levantar e estudar, ter determinação e disciplina. Isso tudo. Mas existe uma geração imensa de jovens que não têm reserva moral e psiquica de onde tirar isso tudo. Cabe um trabalho social, psicológico que o estado – e a sociedade como um todo – têm sim que fomentar. Quanto aos fatores externos – condições de saude, educação etc – estes nem precisamos falar, o MUNDO já sabe que é tarafa básica do estado, pelo menos de uma sociedade madura e equilibrada. Que o divan – sem ironia ou ofensa – ajude o Flávio e que o Adolfo e sua família continuem estudando muito. Brilhante postagem José Paulo. Abraços a todos!
“principalmente o Nordeste Brasileiro”
Caro Fernando
Qual o porquê do destaque negativo para o nordeste? Tudo de bom é no sul/sudeste, de ruim no norte/nordeste? Não é esta uma forma de preconceito?
Quanto mais eu combato assombrações, mais demônios me aparecem…!
Os comentarios criticos sobre a historia do sr. Flavio me pareceram mais rancorosos do que as opinioes da maioria dos leitores. Uma opiniao(que por sinal é muito comum entre pequenos ou medios empresarios, ou pessoas empreendedoras ou mesmo de pessoas que passam por vezes anos de suas vidas estudando para concuros é absolutamente normal, embora eu mesmo considere que o segundo relato tem um ponto positivo no aspecto politico: uma boa escola publica é fundamental.
De resto, a filosofia “do correr atras” e nao gostar de politica assistencialista ao infinito é a mesma opiniao minha, apenas permeada pela caridade que todos nos devemos praticar.
Parabéns pela publicação desses textos. Raramente leio blgos, mas valeu cada vírgula lida.
É com tristeza que ouço algumas posições do Sr. Flávio Correa mas, espaço democrático é assim.
Ao (futuro) Dr. Adolfo Sena, tudo de bom, persevere.