Arquivo de dezembro, 2008
31/12/2008 - 18:28
Aqui vão algumas das manchetes que poderiam ser publicados no ano que está começando daqui a pouco.
Que manchetes, além dessas, vocês desejariam que fossem publicadas ao longo do ano que está começando?
A gente volta no dia 5.
Feliz 2009 para todos nós!
* * *
FMI recomenda aumento do gasto público
Meirelles revela preocupação com emprego e indica queda da Selic
Brasil deixa liderança do ranking mundial do juro alto
Com Selic a 9%, Fiesp elogia Meirelles
Congresso aprova reforma progressiva que reduz carga tributária
Crise financeira derruba lucro de bancos
Analistas reconhecem falha em cálculo de PIB potencial
Distribuição de renda tem melhora recorde no Brasil
Depois de anos de discussão, Rodada Doha, enfim, sai do papel
Com base no mercado interno, economia cresce 5% no ano
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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29/12/2008 - 16:29
Comparar as previsões dos economistas de mercado, para cada ano que começa, com o que de fato revelam os indicadores macroeconômicos, a cada ano que se encerra, é quase um exercício de sadismo. Já sabemos que a distância entre uma coisa e outra será de tal magnitude que, no fim das contas, indicarão mesmo de duas, uma, ou pior, as duas: 1) as previsões econômicas têm pouca serventia; ou 2) os economistas que as fazem não estão capacitados para fazê-las.
Não foi diferente desta vez. As discrepâncias são tais que falam por si mesmas. De todos os erros que chamam a atenção, o que mais chama, como, aliás, tem sido a regra, são os verificados no setor externo.
Aqui vão as previsões Focus para 2008, reunidas pelo Banco Central, em 4 de janeiro (e publicadas em 7 de janeiro), e, em seguida, os resultados do ano (a menos de pequenos ajustes), apurados em 26 de dezembro (publicação em 29 de dezembro):
Indicador 4 de janeiro 26 de dezembro
PIB (evolução no ano, em %) 4,5 5,6
Inflação (IPCA, em %) 4,39 6,03
Taxa de câmbio (fim do ano, R$/US$) 1,80 2,35
Taxa de juros (Selic, fim do ano, % ao ano) 10,75 13,75
Saldo em conta corrente (US$ bilhões) -4,35 -29,0
Saldo da balança comercial (US$ bilhões) 31,9 24,0
Investimento Estrangeiro direto (US$ bilhões) 27,5 36,45
O boletim Focus é uma espécie de cachorro que morde o próprio rabo. O Banco Central reúne as projeções de uma centena de macroeconomistas de bancos, consultorias e instituições diversas, semana a semana, ao longo do ano. Com isso, pretende obter informações sobre as tendências correntes na economia e, a partir delas, definir os rumos da política monetária (e cambial). Mas o BC também se vale do sistema de informações – um sistema que se retroalimenta dele mesmo – para enviar suas mensagens e, enfim, como dizem no dialeto do mercado, “coordenar expectativas”.
É justo dar um desconto na cobrança das discrepâncias porque, embora muitos desejassem que fosse diferente, os fatos não costumam consultar as projeções antes de ocorrerem. Principalmente em anos como este de 2008, marcado por uma crise institucional histórica, que virou a economia de cabeça para baixo.
Para não deixar de seguir a praxe, aqui vão as projeções pardo Focus para 2009, coletadas pelo BC em 26 de dezembro de 2008:
PIB (evolução no ano, em %) 2,44
Inflação (IPCA, em %) 5,0
Taxa de câmbio (fim do ano, R$/US$) 2,25
Taxa de juros (Selic, fim do ano, % ao ano) 12,0
Saldo em conta corrente (US$ bilhões) -25,0
Saldo da balança comercial (US$ bilhões) 15,0
Investimento Estrangeiro direto (US$ bilhões) 21,50
A crítica dos erros, de qualquer forma, não pode ser invalidada. Mesmo quando a evolução dos fatos econômicos podia ser considerada “normal”, a distância entre o previsto e o ocorrido tem passado muito longe da margem de erro tolerável.
Em outras palavras, os erros de previsão, pelo menos na economia brasileira, de tão amplos e tão costumeiros, deveriam reduzir o valor das projeções de mercado nas formulações de política econômica do Banco Central. Ma, pelo menos no atual mandato, a previsão de que não será assim é uma das poucas nas quais se pode ter certeza de que serão confirmadas pela realidade.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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26/12/2008 - 14:42
Destaquei, na véspera do Natal, com o título “O Brasil em movimento”, alguns depoimentos pessoais enviados a propósito do texto “A nova classe média”, publicado na segunda-feira. Nos comentários ao post dos depoimentos, foram enviados novos depoimentos pessoais.
Considerei dois desses novos depoimentos muitíssimo interessantes. Ambos narram experiências pessoais de vida, com foco na luta pelo progresso material pessoal e familiar. E, partir da rica experiência pessoal de cada um, os dois leitores extraem lições que dão forma a conclusões, digamos, políticas e “sociológicas”.
O mais interessante de tudo é que, partindo de uma história pessoal semelhante, Flavio Correa e Afonso Sena chegam a conclusões bastante divergentes.
Aí estão os depoimentos e as conclusões de cada um, para ajudar cada um de nós a encontrar, reforçar ou modificar as nossas próprias conclusões.
* * *
Enviado por: flavio correa
Gosto de debates e trocas de idéias. Mas tenho de avisar: sou anti-esquerda.
Vim de família humilde, mas digna. Digna apesar de meus pais não terem o 1º grau completo e meu pai ser alcoólatra. Mudaram para Brasília para construir a cidade (1957) e o próprio futuro, sem esperar nada de ninguém.
Decidiram ter apenas um filho para poder criá-lo com dignidade. Cresci num bairro simples; meus amigos eram ladrões, drogados, não gostavam de estudar, só de beber … como os que hoje querem concorrer com os MEUS filhos.
Minha mãe cursou o supletivo à noite, 1º e 2º graus. Com isso pôde fazer concurso público e melhorar a renda familiar. Aguardaram eu completar 18 anos para fazer o desquite; minha mãe optou por não pedir pensão, viver com dignidade própria e preservando a renda e dignidade de meu pai.
Se alguém me invejar por hoje ser funcionário público e ganhar bem, leia a receita acima e suas entrelinhas: dignidade, não depender de nenhum governante nem de nenhum santo milagreiro, muito estudo e trabalho honesto.
Infelizmente não é isso que a grande massa quer. Querem bolsa-isso, bolsa-aquilo, tudo na mão e sem esforço. Isso é preguiça.
Querem cotas para quem é negro, para quem se diz índio, para quem acha que é pobre … isso é auto-discriminação piegas, lei do menor esforço. Seus diplomas deveriam trazer a anotação: “Admitido na faculdade através do expediente de cotas para …”.
Considero-me classe média, apesar de alguns critérios oficiais me incluírem no sopé da classe alta (se é que isso existe).
Classe média porque tenho minhas necessidades básicas atendidas; quando puder atenderei aos meus anseios supérfluos, sem pensar nem olhar pros lados.
Quem me olhar com inveja ou ódio social, que vá culpar seus pais que tiveram tantos filhos, que ponha a mão na consciência e lembre quantas aulas gazeou pra jogar bola ou namorar ou beber ou brigar ou simplesmente poder dizer com orgulho besta “ee estou matando aula”.
Se eu estudei mais, se eu trabalhei mais, se eu tive mais sorte na vida … e com tudo isso formei um patrimônio, esse patrimônio É MEU.
Não vou dividi-lo com preguiçosos, filhos largados de vagabundos e inconseqüentes, com babacas que acham que infringir as leis e códigos morais da sociedade em que vivem é ‘o maior barato’.
* * *
Enviado por: Adolfo Sena
Algumas colocações feitas em alguns comentários acima me deixam estarrecido mas não surpreso (uma vez que a internet ainda é um reduto de nossa elite egocêntrica e corrupta). Permita-me contar resumidamente a história de minha ascenção social.
Sou Engenheiro Eletricista, fiz mestrado e estou concluindo o doutorado. Atualmente trabalho em uma importante estatal de geração e transmissão de energia elétrica. Minha renda bruta é de R$ 5.200,00 e da minha esposa é em torno de R$ 3.000,00 o que resulta em uma renda familiar bruta de R$ 8.200,00. Grande parte da nossa renda familiar é comprometida com ajuda aos nossos pais e irmãos.
Meu pai estudou até a quarta série do primário e minha mãe nunca frequentou uma escola. Meu pai tinha um bar e o plano dele para o meu futuro era tocar este bar e, portanto, estudo era algo desnecessário. A minha mãe pensava de forma totalmente oposta. Ela dizia: “Não pude estudar, mas meus filhos vão todos se formar” e foi o que ocorreu.
Para que eu estudasse, eu e minha mãe vendíamos pasteis, vendíamos jaca na janela de casa, minha mãe lavava roupa para fora, etc. Além de todas estas tarefas, minha mãe era obrigada a trabalhar feito uma louca no bar do meu pai.
Sempre estudei em escola pública, quando fui para o ensino médio (em uma escola pública) em uma época em que a secretária de educação do estado era a senhora Terezinha Gueiros e ela havia introduzido o convênio nas escolas do estado o que melhorou consideravelmente a qualidade do ensino. Como conseqüência disso a taxa de aprovação das turmas do convênio nas escolas públicas foram muito altas, em especial na minha, portanto, graças a uma decisão de governo, algumas gerações de jovens foram salvas, inclusive a minha.
Ao entrar na universidade, tive muita dificuldade, pois os livros eram caros e a biblioteca estava sucateada (vivíamos na era Itamar e FHC), não tinha dinheiro para comprar os materiais didáticos necessários, etc. Eu corria o risco de ser um estudante medíocre. No entanto eu tinha a ajuda da minha mãe. Eu e ela vendíamos jaca para comprar ao menos os cadernos e alguns livros.
Aí eu descobri uma tal de “Iniciação Científica” em que o aluno participante pode realizar pesquisas em laboratórios e, desta forma, ganhar experiência e, principalmente, ter um computador a disposição, outra coisa legal era uma ajuda de custo (uma bolsa) de um salário mínimo, ao conseguir esta bolsa, já não precisava mais vender jaca ou qualquer outra coisa, passei a comprar meus livros e até dar dinheiro para minha mãe! Agora era irreversível, eu ia conseguir me formar e ser um Engenheiro Eletricista.
Portanto, meu sucesso se deve aos seguintes fatores:
1) Uma mãe (família) que incentive;
2) Vontade de progredir através do estudo;
3) Políticas públicas que melhorem a qualidade do ensino médio público (convênio pré-vestibular em escolas públicas);
4) Uma ajuda de custo (ou transferência de renda, bolsa de iniciação científica, etc.).
O que depende dos governos são os itens 3) e 4). Infelizmente, o item 3 depende dos governos estaduais que estão na mão de quadrilhas que só pensam em roubar o dinheiro público. O item 4 o governo Lula equacionou com o bolsa família para alunos que estão no ensino fundamental, já existem mecanismos para os alunos do ensino superior em universidades públicas, falta para os alunos do ensino médio. Devido ao problema do item 3) o governo Lula foi obrigado a criar as cotas para alunos de escolas públicas.
Após a conclusão dos meus estudos, as portas da classe média se abriram para mim, dizem até que pertenço à classe dos ricos!
O estudo é a única forma que lhe garante ascensão social, desde que ele seja levado a sério.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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24/12/2008 - 09:45
Véspera de Natal é tempo de refletir, agradecer e insistir na esperança. Nada melhor, portanto, do que destacar depoimentos enviados por leitores sobre o que ocorre nas profundezas do Brasil invisível, mas real, muito real, motivo de discussão e contorção ideológica, mas raramente revelado pela mídia.
Os depoimentos a seguir, enviados a propósito de um post sobre a nova “classe média” que emerge no País, publicado ontem, 23 de dezembro, revelam que o Brasil e os brasileiros continuam em movimento. Apesar das dificuldades enormes, progridem.
Estes, dessa nova “classe média”, de resto um fenômeno global, saíram da linha de pobreza das estatísticas econômicas, mas continuam pobres. A diferença, fundamental, é que, nessa nova “pobreza”, há perspectivas. E dignidade.
Neste momento, em que somos chamados à reflexão sobre o milagre do nascimento e da esperança numa vida de dignidade, agradeço a todos os que, com a leitura e com os comentários, fazem deste espaço de debate um lugar de diálogo honesto (sem adesismo ou oposicionismo sectários) e vivo.
Feliz Natal e, sim, sim, paz na Terra ao homens de boa vontade.
* * *
Enviado por: Julio Barbosa
Eu me incluo nessa nova classe média, sou de família pobre, carioca, filho de nordestinos migrantes. Minha família sempre foi pobre, porém com um razoável padrão de vida. Morávamos em uma bela casa, mas no alto do morro, nunca nos faltou nada do bom e do melhor, nem comida, nem roupas, nem brinquedos. Meu pai era eletricista, seu salário nos garantia uma boa renda, e minha mãe dona-de-casa. Meus irmãos mais velhos começaram a trabalhar ainda adolescentes, não por necessidade, mas porque queriam ter uma relativa independência. Eu comecei a trabalhar aos 14 anos como menor aprendiz em uma estatal, posteriormente acumulei diversas experiência profissionais. Hoje, aos 31 anos, sou formado em Letras por uma universidade pública, servidor público federal e professor de uma escola particular. Tenho uma renda de mais de R$ 5.000,00. Entretanto, mesmo antes de me formar há 2 anos, quando entrei para a universidade em 2002, já tive acesso a oportunidades que não teria se não tivesse investido nos estudos. Em suma, a melhor maneira de um indivíduo ter uma ascensão social digna é através da Educação, do acesso ao conhecimento. Todavia, não podemos deixar de lembrar dos esforços que o Governo Lula tem feito para diminuir os abismos e assimetrias sociais existentes no Brasil.
* * *
Enviado por: emerson
Eu tenho esposa e 1 filha.
Acompanhe:
Renda Familiar bruta: R$ 4.200,00
Renda Familiar LÍQUIDA: R$ 2.900,00 (R$ 1.300,00 de encargos, hein?)
Despesas:
Prestação Apto 2 dorms (50m2)= R$ 450,00
Condomínio= R$ 300,00
Escola da minha filha de 2 anos = R$400,00
Compras de supermercado mensal (incluindo fraldas, lenços umed.,leite)= R$ 320,00
Luz= R$ 60,00
Combustível para o nosso “pois é” ano 95= R$ 250,00 (mensal)
Telefone: R$ 150,00
Acordos de dívidas de empréstimo que fui obrigado a fazer qdo minha esposa ficou 2 anos desempregada = R$1.000,00 (mensal)
Total: R$2.930,00
Obs: não computei o $ do pãozinho de todo dia, roupas pra minha filha (pq não compro pra mim faz tempo) e os raros passeios no Shopping Center, que ultimamente é a única diversão que consigo dar a minha filha.
Faz 3 anos que não sei o que é uma viagem, tbém.
Talvez eu e minha família figure na lista dos ricos em Pernambuco, Alagoas, Ceará, Tocantins, Amazonas (isso no interior). Porque nas capitais, principalmente em SP, R$ 10,00/dia, vc não faz praticamente NADA. Vc não VIVE. Como alguém que não ganha o suficiente pra VIVER pode ser considerado rico?
Talvez mtos aqui nessa coluna, achem que estou chorando de barriga cheia. Mas a idéia que estou tentando passar é a de que não basta simplesmente receber o salário, encher a barriga da família, pagar luz, gás, telefone e acabou. Sou parte dos 20% dos ricos no Brasil. Não é assim. É hipocrisia acreditar nisso.
O rico trabalha muito (qdo não é deputado, vereador,rsss), ganha um ótimo dinheiro, paga suas contas, passeia, se diverte, dá ótima educação e saúde pros seus familiares, compra roupas, enfim, VIVE. Há anos atrás, antes dessa parafernália que aconteceu na vida de todo mundo que foi o Plano Real, classe média era isso. O que consideramos o Rico hoje. E não existia essa facilidade de crédito que existe hj. Os juros eram altíssimos. A classe média tinha $$ pra VIVER, e hj ela se tem, é bem controlado. Eu mesmo, que nunca fui classe média, pagava meus estudos, viajava bastante, toda semana batia ponto no clube que eu era sócio, nadava, jogava, me divertia, tinha carro todo equipado. VIVIA.
É pra isso que eu chamo a atenção. O Rico ele VIVE. Endividado continua dentro dos 80% restantes da população, os POBRES.
* * *
Enviado por: Hélio Franco
Meu caro Kupfer, eu posso acompanhar esse fenômeno mencionado em seu texto aqui mesmo onde moro: Valparaíso de Goiás, situada na fronteira com o Distrito Federal. Esse é um dos 15 municípios que mais crescem no país atualmente, e tem passado por um processo de intenso desenvolvimento de uns três anos para cá.
Nesse período foram inaugurados mais ou menos cinco lojas de grandes redes de eletrodomésticos, três supermercados de grande porte, duas concessionárias de veículos (mais umas cinco lojas de carros usados) e até faculdade.
É palpável esse movimento de “prosperização” da economia em Valparaíso, que até há uns anos era apenas uma “cidade-dormitório” de uma massa de cidadãos que todo dia se deslocava para o trabalho no Distrito Federal. Isso, os empregados e “bicos”, porque uma parte considerável estava desempregada.
Agora em dezembro, o shopping center, até então bem modesto, inaugurou uma filial das Lojas Americanas, outra da Marisa, e ainda vêm mais duas filiais de grandes redes para o centro de compras, que agora vive lotado de gente.
Tudo isso representa emprego para a população antes desempregada e sem perspectivas, e que agora vê seus filhos se tornarem os primeiros em gerações a freqüentarem faculdade, graças ao Prouni. Esses meninos também têm a chance de fazer vestibular para dois campi da Universidade de Brasília que foram inaugurados em duas cidades periféricas do Distrito Federal (Gama e Taguatinga), por conta da elevação do número de vagas nas federais públicas prevista no Reuni.
Sem contar as escolas técnicas que vêm sendo construídas em todo o Brasil – e o Distrito Federal também terá uma. O projeto de criação de Institutos Federais de Ensino Técnico e Tecnológico foi aprovado recentemente no Congresso, e vai à sanção presidencial, e cada unidade da Federação terá uma dessas instituições.
Nós costumamos a ter a visão limitada pelos preconceitos e por isso às vezes perdemos a noção do macro. O processo que nós observamos no Brasil é semelhante ao vivido em outros países emergentes. O Estado não só redistribui a renda, mas também fortalece o mercado interno com programas sociais como os que formam o Fome Zero, fazendo esse investimento voltar para a economia real, num ciclo que propiciou a ascensão social de 20 milhões de pessoas nos últimos anos e de quebra ainda nos tornou menos vulneráveis às oscilações externas.
É evidente que ainda há muito a ser feito. E muitos resultados desse conjunto de políticas que este governo vem adotando virão apenas a médio e longo prazo. Um jovem leva quatro anos para se formar numa faculdade, ou dois num curso técnico.
Hoje, já há carência de engenheiros e de outros profissionais de alta qualificação, por conta do aquecimento da economia, e essa massa de profissionais começa a ser formada agora, para só no próximo governo ingressar no mercado de trabalho.
O ponto chave de sua análise é a idéia de acesso, que obviamente não será proporcionado pelo “deus-mercado”, como foi muito bem lembrado. A modernização do Estado brasileiro passa necessariamente por essa reflexão, e a crise do suprime, com seus desdobramentos, nos mostra que a antiga idéia do Estado mínimo fracassou.
Nos resta agora buscar o equilíbrio entre o Estado provedor e as condições necessárias para a expansão dos investimentos e a manutenção do desenvolvimento econômico de forma sustentável. Mas tudo isso se dará de maneira menos traumática se soubermos prover acesso aos serviços básicos a toda a população. Crescendo a base, toda a pirâmide ficará mais bem fortalecida.
Saudações e um bom Natal a todos.
* * *
Enviado por: Profitel
Olha Kupfer, um ano e meio atrás me colocaram pra fazer o cadastramento da presença do “Bolsa Escola Federal”.
Nos três primeiros bimestres xinguei pra caramba, sou Técnico em Hardware e não digitador, como não havia mais ninguém pra fazer o serviço sobrou pra mim.
Bom, passei a chamar “Bolsa Esmola”, reclamar a cada período (eu passava 4 dias em casa trabalhando das oito às dez da noite, usando minha conexão, meu computador e a energia elétrica (fora o desgaste do equipamento) pra cadastrar 50 e poucas escolas,
Volta e meia escapava um que na dúvida eu excluía do sistema, no bimestre seguinte a diretora ou secretária da escola vinha explicar que a situação da família era essa ou aquela e que estavam passando necessidade por conta da falta do dinheiro.
Meu, caí na real, com um clique do mouse estava privando de uma (pra mim merreca) grana que faz falta a quem não tem porra nenhuma.
Só deixo esse depoimento, nem quero saber quem é o presidente, sei d’uma coisa, há gente pobre, mas, muito mais pobre do que vocês imaginam nesse País.
De boa, só isso.
* * *
Enviado por: argo
“Só deixo esse depoimento, nem quero saber quem é o presidente, sei de uma coisa, há gente pobre mas, muito mais pobre do que vocês imaginam nesse País.”
Profitel, é a pura verdade o que você escreveu. Moro no interior de Pernambuco, pobre eu também, mas não miserável como muitos CIDADÃOS BRASILEIROS, gente esquecida da maior parte dos bem-aquinhoados, daqueles que só sabem reclamar do governo, que só olham para o próprio umbigo.
Bem, de qualquer forma, após o governo Lula, a situação melhorou, e muito. Só o fato de constantemente se ter que enfrentar fila nos supermercados já demonstra isso. Todo o resto é frescurite política, debates inócuos – nocivos, até.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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22/12/2008 - 10:09
Muito interessante a entrevista do jornalista Rafael Pereira, na edição atual da revista Época, com o economista indiano Abhijit Banerjee (ler aqui). Banerjee, de 47 anos, é professor de economia internacional no MIT, e dirige o Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab, centro de pesquisas e estudos da pobreza no mundo, da prestigiosa escola americana.
Banerjee conduziu, nos últimos anos, estudos abrangentes sobre a chamada “nova classe média” dos países emergentes – na verdade, a parcela da Humanidade que, com uma relativa ampliação do acesso à educação, conseguiu melhorar seu padrão de renda e, com a ampliação do sistema de crédito, chegar ao mercado consumidor, saindo da linha de pobreza.
Valer notar, em especial, a semelhança entre o tipo-padrão dessa nova “classe média” com as pessoas e famílias que ascenderam ao mercado, aqui no Brasil, nas últimas duas décadas e, com maior nitidez e aceleração, a partir do governo Lula.
Em tempo: a “classe média” de Banerjee é aquele conjunto que, no Brasil, a idéia antiga e convencional ainda classifica como “pobre”, numa confusão com a vasta parcela de “miseráveis”, cujas possibilidades e aspirações são muito mais modestas. Essa nova ”classe média” reúne viventes com renda pessoal média diária entre US$ 2 e US$ 10. Favor não esquecer que, no Brasil, quem consegue ganhar US$ 10 por dia está entre os 20% mais ricos.
Segundo Banerjee, o sonho dessa “classe média”, de trabalhadores urbanos – ou de ”empreendedores” que, apesar do marketing e do discurso são mesmo trabalhadores por conta própria – é “manter o status e pagar as prestações em dia, ter uma TV e um veículo, que seria um carro compacto no Brasil e uma boa bicicleta na Índia, além de dinheiro para gastar nos problemas mais comuns de saúde”.
Mais uma vez – e pelas idéias e constatações de um economista indiano, na boa tradição intelectual que tem como ícone o Prêmio Nobel Amartya Sen -, somos lembrados de que o problema da pobreza faz tempo deixou de ser o de produção e se concentra na questão do acesso – renda, crédito, educação, saúde, segurança - aos bens e serviços já suficientemente produzidos para todos. Algo que o mercado, pelo menos sozinho, é incapaz de garantir.
Atualizado às 02:04, de 23/12/2008 (na última linha do quarto parágrafo é US$ 10 e não R$ 10, como antes estava grafado).
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
Tags: acesso, classe média, economistas indianos, pobreza
19/12/2008 - 20:50
Tudo bem que os americanos estão quase despejando dinheiro de helicóptero e já inundaram a economia, principalmente o setor financeiro, com trilhões de dólares do contribuinte, sem contrapartidas. Mas a ajuda às montadoras de veículos, que, finalmente, saiu nesta sexta-feira, tem regras e modos que deveriam ser lembrados e elogiados.
Para pegar o dinheiro, a GM e a Chrysler terão de apresentar um programa de reorganização de seu negócio. Até o fim de março, terão de mostrar o caminho das pedras para reduzir seus débitos em dois terços, e entabular negociações com a central de trabalhadores na indústria automobilística, para cortar salários e definir condições de emprego e trabalho. E, atenção para o detalhe: enquanto estiverem devendo ao governo, as empresas não poderão distribuir dividendos. Se a coisa falhar, vem a concordata e o governo se habilita, na frente dos demais credores, ao ressarcimento.
Em resumo, socorro com dinheiro público, só com o compromisso simétrico de todos os entes envolvidos – acionistas, executivos, trabalhadores.
Aqui, a proposta que surgiu até agora para enfrentar a redução do nível de atividades, patrocinada pelo governo Serra (o governador está mudo, mas seu secretário de emprego e relações do trabalho, Guilherme Afif Domingos, topou ser o mestre-sala da proposta e não se pode acreditar que não tenha combinado com o chefe), prevê um golpe na legislação trabalhista, a demissão na prática de trabalhadores, sem o pagamento de seus direitos, e o ônus para o governo de manter os “temporariamente” desocupados com uma extensão do salário-desemprego.
Em resumo, acionistas e executivos se beneficiam do socorro público e os trabalhadores pagam a conta. Depois, tem gente que não entende como o Brasil é um dos campeões mundiais de concentração de renda.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
Tags: crise econômica, direitos trabalhistas, socorro a empresas
18/12/2008 - 16:09
A fraude de US$ 50 bilhões do gestor de fundos americano Bernard Madoff atingiu, como já se sabe, o cofrinho de muitos brasileiros endinheirados. A coisa pegou num pedaço daquilo que se convenciona chamar de “investidor estrangeiro”. Na verdade, brasileiros ou residentes no Brasil que às vezes mandam dinheiro frio para fora e às vezes trazem de volta.
Como nenhum deles veio a público – e dificilmente virá – para abrir o tamanho das perdas, o terreno fica fértil para especulações. Operadores de mercado falam que o prejuízo total dos brasileiros “espertos” varia entre US$ 1 bilhão e US$ 8 bilhões. Só intervalo entre o piso e o teto das perdas estimadas mostra que a conta é puro chute. Não há como dimensionar com alguma exatidão os valores reais envolvidos pela própria natureza do negócio. Os advogados que estão sendo acionados, para tentar salvar o que for possível do dinheiro aplicado nos fundos de Madoff, confirmam que uma parte grossa dos recursos não foi declarada ao fisco.
Além de chutar montantes que giram na casa dos bilhões, o pessoal que opera no mercado se diverte em espalhar nomes de ricaços que teriam caído no conto do vigário global. E aí entram na roda freqüentadores assíduos das colunas sociais do eixo Rio-São Paulo. O grupo seria formado por conhecidos milionários à frente de grandes empresas tradicionais, consultores financeiros de grife e novatos nas listas dos mais ricos, a partir de lançamentos iniciais em bolsas de ações de suas empresas. A fofoca é que as perdas individuais não seriam inferiores a US$ 20 milhões, mas há relatos de que um teria perdido, sozinho, US$ 200 milhões e outro, US$ 500 milhões!
Os próprios investidores sabem que a chance de recuperar a grana é zero ou perto disso, uma vez que Madoff reconheceu que, dos US$ 50 bilhões, teriam sobrado US$ 300 milhões. O que os advogados brasileiros estudam é se há possibilidade concreta de tirar dinheiro das instituições financeiras – como bancos e gestoras de recursos – que repassaram o “produto” de Madoff.
A briga pode ser boa. Mas será cara, desgastante e arriscada. Agora, vem a fase dois, aquela em que quem ganha mesmo são os advogados.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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16/12/2008 - 11:44
A tropa de elite econômica do governo FHC, que expressa o melhor do pensamento neoliberal no Brasil, se reuniu para produzir um livro online, de acesso livre, sobre a crise econômica mundial, seus efeitos no País e as estratégias para evitá-los. É uma iniciativa louvável, que deveria estimular outras experiências no gênero. Mas o conteúdo de “Como reagir à crise? Políticas econômicas para o Brasil” decepciona (clique no título para acessar).
Organizado por Edmar Bacha e Ilan Godlfajn, expoentes desse pensamento, o livro reúne 17 textos de 20 autores e é uma produção do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (Iepe/CdG, do Rio de Janeiro. O Iepe/Cdg é um centro de estudo, pesquisa e difusão de idéias econômicas, que congrega, na maior parte, acadêmicos ou ex-acadêmicos de prestígio, ligados ao departamento de economia da PUC-RJ. O núcleo duro da instituição é formado por economistas que ocuparam altos cargos de governo (e de organismos internacionais), e hoje se dedicam a atividades financeiras, como executivos de bancos, consultores ou gestores de recursos. Alguns ainda dividem esse atividade principal com as salas de aula.
Não é ausência de diversidade nas visões da crise no mundo e das melhores estratégias para o Brasil evitar seus piores efeitos que decepciona no livro do Iepe/CdG. Não há mesmo diversidade, com uma ou outra notável exceção, mas isso é do jogo. O que decepciona é a superficialidade da maioria das análises. (Parênteses: há notícias de que Persio Arida, o intelectualmente mais inquieto da turma, estaria produzindo um texto para o livro, que não ficara pronto para o lançamento da primeira versão. Mas não há, nem no corpo do livro, nem no site do Iepe/CdG, menção ao fato, nem indicação de que, nas eventuais novas versões, algum texto de Arida estará presente.)
Autores que marcaram a história do pensamento econômico brasileiro, há não muito mais de três décadas, com trabalhos inovadores e corajosos, contestando, com consistência, o oba-oba econômico da ditadura militar, oferecem agora artiguetes com súmulas padronizadas de clichês neoliberais.
Pode ser que a intenção dos organizadores da obra tenha sido mesmo a do combate político. Textos curtos, em estilo “para jornal”, com muitas afirmações sem desenvolvimento da argumentação que leva a elas, sem ou com escassas referências bibliográficas, enquadram-se no formato. Mas, de qualquer maneira, fica parecendo que, concentrados na prática da vida financeira, perderam a embocadura teórica. Ou andam sem tempo para se dedicar ao estudo e à pesquisa, Em resumo, a maioria dos escritos dá a impressão de que está ali para cumprir tabela.
A conclusão do pequeno artigo de Armínio Fraga, ilustra essa sensação desconfortável:
“Concluindo, penso que para o Brasil neste momento seria recomendável uma
postura mais conservadora na expansão fiscal e creditícia, de forma a (i)
minimizar riscos em um cenário de aprofundamento da crise internacional, e (ii)
possibilitar uma queda na taxa de juros doméstica. Este progresso seria ainda
mais impressionante e mais provável se o executivo e o legislativo tiverem a
visão e a coragem de abordar de forma definitiva os desequilíbrios de longo
prazo do nosso regime fiscal, em especial os da previdência e do inchaço da
máquina pública.”
Tirando a menção à crise internacional, que é uma novidade, o resto é o diagnóstico de sempre, apontando para os suspeitos de sempre – com ou sem aprofundamento de crise, doméstica ou internacional.
O incômodo é que essa é a base da argumentação de quase todos os artigos. O roteiro é o seguinte: a crise externa vai ter impactos no Brasil; não se sabe de quanto, mas a economia crescerá menos; ao crescer menos, reduzirá a arrecadação tributária; a redução da arrecadação exigirá corte nos gastos públicos correntes, sem o que o investimento público, que já é baixo, ficará ainda mais prejudicado e as taxas de juros, que são altas, não terão como baixar. Em resumo: querer crescer e adotar estratégias para tanto, enquanto o mundo anda para trás, é um erro.
Há também uma repetição na análise da origem da crise. Os argumentos convergem para a constatação de que, sim, houve excessos na desregulamentação do sistema financeiro, especialmente no segmento não-comercial dos bancos, e despreocupação com os excessos de injeção de liquidez nos canais financeiros. Mas, segundo os autores, é preciso muita cautela no uso do diagnóstico para a correção das falhas. Na visão deles, este ambiente, agora demonizado, foi “peça fundamental para viabilizar o longo ciclo de expansão econômica mundial” anterior ao crash de 2008. Ou seja, devagar com a reforma do sistema financeiro.
OK, ainda que se discorde do diagnóstico, ele faz sentido, dentro de um tipo de visão da economia. O problema, que denuncia sua pouca utilidade, é ser tão genérico, que poderia ser usado, para se encaixar na tal visão, ontem, hoje ou amanhã, seja qual for o cenário e o ambiente econômico. Mais ou menos como certas pautas jornalísticas – compras e panetone no Natal, preparativos para o carnaval, ovos de chocolate artesanais na Páscoa, em que a população vai usar o 13º. salário etc. etc. Se a gente excluir o gancho temporal, a história é sempre mais ou menos o mesmo.
Um pouco fora do padrão, só mesmo o artigo de Gustavo Franco. O mais briguento da tropa de elite do tucanato neoliberal, diferentemente dos demais, centra fogo em sugestões práticas: desmontagem dos compulsórios, redefinição do mecanismo do overnight, com alguma “punição” para o excesso de recursos dos bancos repassados ao Banco Central; medidas tributárias, não apenas com base no IOF, com o intuito de reduzir o spread bancário (“agora que terminaram as ilusões sobre os efeitos que a lei de falências teria sobre a inadimplência e o spread”); estender alguma forma de garantia temporária ao interbancário, possivelmente envolvendo o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Gustavo também discorda do diagnóstico de seus pares na área fiscal. Considera que o encolhimento do déficit nominal e da relação dívida/PIB são significativos, “embora não sensacionais”, mas suficientes para que se possa afirmar que “não temos fraquezas fiscais” e que, portanto, não é por aí que se vai amplificar uma crise vinda do exterior e transformá-la numa crise doméstica. E defende cortes de impostos sobre faturamento e redução de encargos trabalhistas, como forma ideal de impedir uma interrupção dos gastos de capital das empresas. Pelo menos, sai do genérico.
Tudo considerado, a utilidade de “Como reagir à crise?” é baixa. Em relação ao potencial intelectual de seus autores, é baixíssima. Uma pena.
* * *
Para mim, que acompanhei, já como profissional, o nascimento público e a trajetória inicial de economistas como Pedro Malan e Edmar Bacha, fica um travo amargo. Acho que eles passaram muito tempo no exterior e perderam um pouco o pé da realidade brasileira. A passagem pelo governo, num período em que a hiperinflação era um dragão a ser preliminarmente vencido, também pode ter contribuído para desviar o foco das questões de organização da economia e do bem-estar social. E a decisão pessoal de garantir o ganha-pão prestando serviço ao setor financeiro, fechou o afastamento das preocupações e dos temas de preferência da juventude. Mas ninguém tem o direito de esquecer que, com seus estudos inovadores sobre distribuição de renda e, se me permitem a licença “poética”, em “macroeconomia social”, eles enfrentaram a ditadura com vigor técnico e coragem física. A resistência à ditadura e, no fim das contas, a redemocratização, muito devem a eles.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
Tags: crise econômica, imposto de renda, neoliberalismo, política fiscal, taxa de juros
12/12/2008 - 16:21
O pacote fiscal (e de crédito externo) que o governo soltou ontem não é nenhuma brastemp. É tímido, meio confuso, pouco abrangente e já veio tarde. Mas é muito positivo.
É positivo porque dá uma indicação mais concreta de que o governo está decidido a intervir para tentar evitar os efeitos da crise. Está claro que este não será o último conjunto de medidas que o governo despachará para estimular a economia. É de bom senso que seja assim, aos poucos, pois a quebra dos paradigmas nesta crise indica que o caminho é o da tentativa e erro – e que este deve ser trilhado, obviamente, testando cada passo diante da realidade. Mas, é claro, sem perda de tempo. A arte está em ir rápido, mas sem correrias.
O pacote é tímido não só porque seu impacto sobre a renda disponível e o crescimento da economia é pequeno. A renúncia fiscal estimada é de pouco mais de 1% da arrecadação federal prevista para 2009 e o acréscimo no PIB, segundo cálculos, sabe-se lá em que bases, do próprio ministro Guido Mantega, de apenas 0,3%. Também é tímido principalmente porque não amarra as pontas do que pretende estimular. Um aspecto importante dessa timidez é que são poucas – para não dizer nenhuma – as exigências de contrapartidas dos setores e empresas beneficiados.
De um lado, o alívio fiscal para os contribuintes não é grande o suficiente para assegurar uma reversão na tendência de contenção do consumo. De outro, o rebate de impostos no setor automobilístico não garante, por si só, redução nos preços dos veículos ou, o que seria mais importante, o nível de emprego na indústria.
Mas a oportunidade de que as medidas se aproveitam é evidente. A criação de alíquotas intermediárias no IR da pessoa física é um bom exemplo. Faz tempo que se debate, sem que se consiga sair do lugar, a necessidade de dotar o IR de maior progressividade. A crise fez o serviço, ainda que o ideal fosse que a mudança viesse no bojo de uma reforma tributária que, no conjunto, também levasse os que podem mais a contribuir mais.
O caso do mecanismo de financiamento de empresas brasileiras no exterior, com recursos das reservas internacionais, é ainda mais curioso. Quase saiu tapa quando se discutiu o natimorto fundo soberano. Agora que a fonte de empréstimos externos ficou seca, um dos papéis essenciais previstos no projeto do fundo soberano aparece como saída inteligente (e é mesmo) para um problema agudo – e é anunciado, com a boca cheia, pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, inimigo número 1 do fundo soberano.
No fim das contas, há um problema de fundo na condução da política econômica brasileira nos tempos da crise atual. O governo é um só, mas, na área econômica, dois de seus braços não se bicam. Pacotes de estímulo fiscal e de crédito não são nada incomuns hoje em dia – nem aqui e, literalmente, nem na China. Mas governos que soltam pacotes de estímulo e, ao mesmo tempo, amarram os juros básicos da economia – e, pior que isso, depois de inundar o mercado com um afrouxamento administrativo forte da liquidez -, essa é mais uma das peculiaridades nacionais.
Uma autêntica jabuticaba, se as jabuticabas não estivessem tão cansadas de comparecer para metaforizar esquisitices brasileiras.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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10/12/2008 - 16:07
Quando tudo está indo relativamente bem, o grau de acerto das previsões econômicas é baixo. Parece óbvio, então, que, quando o cenário está absolutamente incerto, a probabilidade de erro aumente, no mínimo, na mesma proporção. Por isso, em um momento de crise como o atual, a desconfiança sobre a bola de cristal dos analistas de mercado deve ser redobrada.
Desconfie quando alguém projeta recessão. Desconfie, também, quando alguém nega veementemente essa possibilidade. Fique com o pé atrás quando alguém diz que o investimento estrangeiro vai despencar em 2009. E o mantenha ali, bem escondidinho, quando outro especialista der como certo que o Brasil terá saldo comercial zero no ano que vem.
Esse é um resumo do que o Leandro Modé me passou, depois de uma conversa dele com o professor Simão Silber, da FEA/USP. O economista Simão Silber é um daqueles casos, relativamente raros, de profissional que alia conhecimento sólido com perfil low profile. Ele explicou ao Leandro que, em situações como a de hoje, ocorre um fenômeno conhecido como “quebra estrutural”, que se caracteriza por mudanças abruptas de cenário. “Quando um índice de bolsa cai 50% em um período curto (como ocorreu neste ano com o Ibovespa, por exemplo), há uma quebra estrutural”, diz o economista.
Nesses momentos, lembra Simão, os modelos matemáticos usados pelos analistas para “prever” o futuro revelam-se inservíveis. Em tal ambiente, passa a valer, mais do que nunca, a intuição, o conhecimento e, sobretudo, a experiência de cada um. Nos calorosos debates sobre o rumo da política monetária no Brasil, o ex-ministro Delfim Netto costuma dizer que o Banco Central precisa mais de arte do que de ciência. O BC, sem dúvida, precisa muito de arte, mas todos os que se propõem a enfrentar os desafios da incerteza na economia com ferramentas científicas não podem prescindir dela (veja aqui, a propósito, um curioso texto do ex-ministro, a esse respeito).
Quem se agarra cegamente aos modelos vem dando uma bola fora atrás da outra. Quando o dólar ainda iniciava a recente disparada ante o real, muitos saíram gritando em defesa de uma nova alta do juro básico já na reunião de outubro do Comitê de Política Monetária (Copom). Afinal, os modelos mostravam que, para cada 10% de valorização da moeda americana, havia um impacto de um ponto porcentual nos índices de preços ao consumidor.
Poucos atentaram para algumas atenuantes deste momento: altos estoques (o que pode, na pior das hipóteses, adiar o repasse aos preços), commodities despencando lá fora, crédito escasso e rápida propagação das informações sobre a crise, o que deixou os consumidores imediatamente mais cautelosos. Isso sem falar no famoso “produto potencial” – aquela prestidigitação econométrica que decretou a inviabilidade de uma expansão da economia acima de 3,5%. Como explicar um crescimento acima de 6% sem altas nos juros e sem descontrole inflacionário?
A teoria convencional ensina que, em regimes de câmbio flutuante, há comunicação direta entre taxas de juros e de câmbio. Juros altos induzem a um câmbio mais valorizado e vice-versa. Uma das razões para que isso ocorra é que, convencionalmente, juros altos atraem recursos em moeda estrangeira. Mas, numa hora em que a aversão a riscos parece infinitamente inelástica, haveria alguma taxa de juros suficientemente alta para fazer o serviço?
Daqui a pouco, no começo da noite, o BC e o seu Comitê de Política Monetária (Copom) vão mostrar se além das ferramentas convencionais de previsão, recorreram à arte de que todo economista digno do nome tem de se valer, para operar a ciência social (e política) – não uma ciência exata – que ensinaram (ou deveriam ter ensinado) a ele. No caso, a arte está em promover qualquer corte nos juros, sinalizando aos agentes econômicos que terão respaldo para empreender e consumir.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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