Concentração inevitável, controles indispensáveis
Com a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, o Banco Central terá de melhorar – e muito – sua atuação como agência reguladora do setor bancário, para que os clientes e investidores não sofram ainda mais do que já sofrem nas mãos dos bancos. Com o negócio anunciado hoje, os cinco maiores bancos em operação no País passam a concentrar mais de 80% do total de ativos do sistema. Sem regulação firme e fiscalização ativa, que impeça ações de oligopólio, os consumidores ficarão cada vez indefesos.
A tendência é de que a concentração, com novas e, tudo indica, inevitáveis aquisições, pelo próprio Banco do Brasil e pelo Bradesco, aumente ainda mais. Na América Latina, só no Peru, onde os cinco maiores bancos concentram quase 90% dos ativos totais, a concentração será maior. Na verdade, o Brasil é o único país da região em que o sistema bancário ainda não está inteiramente consolidado.
Depois da fusão do Itaú com o Unibanco, a compra da Nossa Caixa pelo BB era mesmo questão de tempo. Além do interesse do BB em não se distanciar dos novos líderes do setor, a Nossa Caixa, com R$ 15 bilhões em depósitos judiciais, que só podem ser recolhidos em instituições públicas, valeria muito menos se o comprador fosse um banco privado. O banco teria de ser entregue emagrecido da grana dos depósitos judiciais. A MP 443, que permitia a compra do banco paulista pelo BB, selou o destino da operação.
A concentração de mercado é uma tendência natural do capitalismo. Fusões e aquisições ocorrem nos períodos de expansão, quando os mais eficientes engolem os menos competitivos, e nas fases de contração, quando os mais capitalizados absorvem os mais endivididados.
São conhecidos os esforços dos governos em tentar barrar a natureza monopolística do capitalismo. Tais esforços, não por coincidência, são (ou pelo menos, foram, até certo tempo atrás) mais visíveis nos Estados Unidos, exatamente onde o capitalismo é mais poderoso e avançado. São emblemáticos episódios como o das “baby bells” – as sete companhias telefônicas regionais resultantes da divisão da ATT&T, por força da lei antitruste americana, em 1984 – e, mais recentemente, a longa e, afinal, infrutífera, briga judicial para dividir a Microsoft.
De tão natural dentro do sistema econômico, a concentração de mercado deixou, na prática, de ser combatida. As estruturas governamentais de defesa da concorrência foram perdendo musculatura. Deram lugar a agências reguladoras. As agências não combatem diretamente a concentração, mas tentam atuar sobre seus efeitos sobre a sociedade e, em especial, sobre a sociedade na pele de consumidor. Os bancos centrais são, em teoria, as agências reguladoras dos bancos. O que se tem visto, inclusive com bastante nitidez na grande crise global do momento, é que a teoria não se transformou em prática.
No caso brasileiro, o Banco Central, mais preocupado com a supervisão das condições que assegurem a solidez do sistema e das instituições que o formam, nunca mostrou eficiência na defesa do usuário dos bancos. O BC, aliás, resistiu bravamente a dividir à tarefa com os órgãos de defesa do consumidor, lutando, junto com as instituições, para impedir o enquadramento dos bancos nas leis de defesa do consumidor. O lobby dos bancos não funcionou para driblar a decisão de considerá-los prestadores de serviço a consumidores, como outro setor comercial qualquer, mas tem funcionado para dificultar o cumprimento das determinações com origem nas leis do consumidor.
O resultado é que os bancos brasileiros, embora sólidos e tecnologicamente avançados, figuram entre as empresas com mais reclamações nas listas dos Procons. Ninguém gosta dos bancos, nem mesmo os bancos. Tem um que até propagandeia que nem parece banco. De fato, os bancos cobram juros exorbitantes, expõem clientes a filas intermináveis e por um serviço deficiente cobram tarifas em quantidade e valor absurdos.
Dizer que a concentração é boa porque fortalece as instituições e dá mais segurança aos depositantes e investidores é tão verdade quanto dizer que a abertura do mercado a bancos estrangeiros, como vendido na época do Proer pelo governo, favoreceria a concorrência e propiciaria queda nos juros e nas tarifas, além de melhorias nos serviços oferecidos.
Nada contra a presença de estrangeiros no mercado e, mesmo contra algo inevitável, como a concentração bancária. Mas, assim como as marés, que também são inevitáveis, precisam ser controladas, a concentração de mercado, igualmente, deve ser.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
ra ra ra ra ra ..e eu fiz a experiência …Não é que temos um colega INÉDITO e autêntico no mundo, ou no Google
vou dar mais uma sugestão pra ele e suas teses
…desenvolva um texto e coloque “o capitalismo promove a distribuição de renda”
se assim, e entre aspas, já já nosso colega vai pro GUINESS ..ou concorre ao ig-nobel né ?
Agora digite: “O capitalismo é concentrador de renda”
Qual o resultado? Será que fui eu o autor do texto?
Ou, então, digite simplesmente palavras-chave: capitalismo concentração (não delimite).
Quem escreve que o capitalismo não é concentrador?
O único texto defendendo a não concentração pelo capitalismo foi o seu, meu caro.
Concordo que minha maneira de argumentar é pífia, não sou um profissional, um simples diletante das letras. Apelo para os livros de minha formação. Inicio por História do Capitalismo, Michel Beaud:
(pena não ser num site, podendo-se usar diversas tags para facilitar – reitero meu convite de ir ao http://www.portaldocriador.org,)
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“Mas, sobretudo, sob a direção de um capitalista ou de
uma família, são realizados reagrupamentos de capitais sem
precedentes: trustes, grupos, que muito depressa dominam o
conjunto de um setor industrial nacional, principalmente nos
Estados Unidos e na Alemanha. Nos Estados Unidos, em
1908, os sete primeiros trustes possuem ou controlam 1638
sociedades;28 já em 1900, a parte dos trustes representa 50%
da produção têxtil, 54% da indústria do vidro, 60% do livro e
do papel, 62% da alimentação, 72% das bebidas alcoólicas
fortes, 77% dos metais não-ferrosos, 81% da química, 84%
do ferro e do aço. É notadamente a United States Steel
Corporation, constituída por J. P. Morgan e E. H. Gary, e
integrando as aciarias de Carnegie. É a Standard Oil, fundada
em 1870 por J. D. Rockefeller, que só refina então 4% do
petróleo americano, mas que em 1879 controla 90% das refinarias americanas, e em 1904 controla 85% do comércio nacional e 90% das exportações. Na Alemanha, é o império industrial constituído por Krupp: 7 mil assalariados em 1873,
78 mil em 1913; é a indústria elétrica AEG, que, graças a um
fulgurante processo de concentração, controla, em 1911, de
175 a 200 sociedades, emprega mais de 60 mil assalariados,
coopera desde 1908 com o outro grupo alemão Siemens e divide
os mercados mundiais com o grupo americano General
Electric (grosso modo, a Europa para a AEG e a América do Norte para a GE).
Na Grã-Bretanha esse movimento não é tão nítido; mas se observa durante esse período um importante processo de concentração bancária: 250 bancos privados em 1880, 48 em 1913; 120 Joint-Stock Banks em 1880, 43 em 1913. Da mesma forma, na Alemanha: por ocasião da crise de 1873, 70 bancos abrem falência; outra onda de falências durante a crise de 1890-1891; e a crise de 1901 é uma verdadeira “crise de limpeza”: o Deutsche Bank absorve 49 outros bancos, o Dresdner Bank, 46, e o Diskonto Bank, 28; sobram cinco ou seis grandes bancos, “sendo que cada grande banco era o núcleo financeiro de um conjunto de empresas, mas também, a fim de partilhar os riscos, vários bancos se associavam para patrocinar uma mesma empresa”. Do mesmo modo, nos Estados Unidos: dois “impérios financeiros” se constituem, um formado pelo First National Bank de Morgan, pela General Electric, pela Rubber Trust, pela US Steel, pelas estradas de ferro Vanderbilt e por diversas sociedades de eletricidade; o outro, formado pelo National City Bank, de Rockefeller, pela Standard Oil, pela Tobacco, pelo Ice Trust, pelas estradas de ferro de Gould e por empresas de telefones.”
(Michel Beaud, História do Capitalismo, Brasiliense, 1987, pgs. 224/225)
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Poderia citar algum autor afirmando não ser o capitalismo concentrador? Até agora, nunca li.
Uma pergunta: um empresário muito rico almoça e janta várias vezes por dia para consumir e esbanjar o máximo que puder do seu capital? Ou ele aplica esse capital com o objetivo da sua multiplicação?
É preciso enxergar o empresário como um agente do mercado, o empreendedor, aquele que faz a economia crescer e não vê-lo como um predador.
Prefiro concentrar o capital nas mãos de empresários parcimoniosos que fazem esse capital se multiplicar, gerando novos empregos (empregos reais), do que entregá-lo para o governo esbanjar.
Tem gente que acha que os políticos e os tecnocratas são melhores empreendedores do que os próprios empresários. Muito engraçado.
Argo e Romanelli
A lógica de vocês é, eu diria, muito peculiar. Não é a toa que, em pleno século XXI anda se dizem socialistas. Querer provar uma verdade pelo número de inserções no Google é, no mínimo, bizarro.
Ainda que não estivéssemos falando de concentração de renda, mas de empresas, eu fiz o teste que vocês propuseram. Eis os resultados:
“O capitalismo é concentrador” = 4 resultados
“O capitalismo não é concentrador” = 1 resultado (o meu)
Dedução de vocês: O CAPITALISMO É CONCENTRADOR.
Agora, eu proponho que façam um outro teste. Digitem:
“A terra é quadrada” = 1.430 inserções
“A terra não é quadrada” = 211 inserções
Pela mesma lógica utilizada, seremos obrigados a deduzir que:
A TERRA É QUADRADA
Não é fantástico?
Eduardo Giannetti escreveu um ótimo livro, chamado “Auto-Engano”. Vocês deveriam lê-lo.
“Prefiro concentrar o capital nas mãos de empresários parcimoniosos que fazem esse capital se multiplicar, gerando novos empregos (empregos reais), do que entregá-lo para o governo esbanjar.”
Bem, meu Caro Rypl, você, ao menos, concorda que o capitalismo é concentrador.
Agora, achar que o capitalista se preocupa com geração de empregos é uma falácia muito séria.
Prezado Warrior
Só para constar, um defensor do capitalismo – o caro Rypl – diz que prefere concentrar capital (aceitando a tese de que o capitalismo é concentrador) nas mãos de empresários parcimoniosos.
Só você teima?
Só queria que você citasse algum autor corroborando sua tese. Só para você não ficar tão solitário em sua argumentação.
eu me disse socialista ???
amigo, eu não tenho esta pretensão não …sou mais humilde
particularmente defendo um modelo que ainda não existe …e que talvez possa ser batizado em minha homenagem
Quá, quá, quá, fiz o teu teste sobre o exemplo de Terra quadrada/não quadrada.
Eu só queria saber como você chegou àquele resultado acima…
Ah, e outra coisa, e alguém AFIRMA ser a terra quadrada? Ou são alusões tangenciais a outros escritos? Citações, por assim dizer, tal qual a de Fernão de Magalhães?
Vôte!, como você sofisma…!
“e que talvez possa ser batizado em minha homenagem”
Gostei da humildade, Romanelli, eh, eh
Argo,
Leia Schumpeter. Lhe fará bem.
Mas se você quer dados estatísticos sérios, leia: “Destruição Criativa – Por que empresas feitas para durar não são bem sucedidas”. Nele, você ficará sabendo, entre outras coisas, que nos EUA, o tempo médio de permanência de uma empresa na lista das 500 maiores companhias é, atualmente, de parcos 10 anos, conquanto já chegou a ser de 65, num passado não muito distante. A previsão é de que, em 2020, 75% daquela lista será formada por empresas hoje completamente desconhecidas do grande público.
PS: Quem sofisma é … bem, deixa prá lá.
“PS: Quem sofisma é … bem, deixa prá lá.”
Calma, Warrior, estamos apenas conversando…
Humm…
Parece-me que você é um dos adeptos do livro “Marketing de Guerra”, não é?
Bem, que é uma publicação pra lá de medíocre, é certo.
Agora, faça as contas de quanto capital essas empresas que nascem e morrem no curto espaço de tempo representava.
Enquanto isso, as que contam mesmo, que vivem apenas trocando de nomes, já têm mais de 100 anos – ou foram encampadas por outras com o mesmo tempo.
A Microsoft está tentando encampar o Yahoo – não é concentração.
O Itaú fundiu-se com o Unibanco – não é concentração.
A Telemar adquiriu a Brasil-Telecom – não é concentração.
O Wal-mart é o dono atual do Bompreço – não é concentração.
A Vale está perseguindo um monte de mineradoras menores para comprar – não é concentração.
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Melhor parar por aqui – todos os terabytes (exagero típico de pernambucano, não reparem) da internet seriam insuficientes para comportar a relação de fusões de empresas, a concentração de capitais.
Warrior
Seu argumento de que a lista das 500 maiores empresas muda a cada 10 anos reforça ainda mais a característica concentradora do capitalismo. Senão, vejamos:
1998
1) Empresa A
2) B
3) C
4) D
….
499)JZ (combinando-se letras – não fiz o cálculo exato)
500) Empresa KA
501) Empresa KB
2008 (dez anos após)
1) Empresa A
2)B
3)C
4)D
499)JZ
….
500)KB
501)KC
O que aconteceu com a empresa KA? Simples, ela foi adquirida, de uma forma ou outra, por uma das companhias maiores que ela. Houve uma CONCENTRAÇÃO!
Como falei antes, é tão óbvio que chega a ser axiomático.
Vale lembrar que a Yahoo, há uns 15 anos, era a monopolista dos sistemas de buscas na Internet.
Hoje até a Microsoft refugou ela por que está capengando… Se ninguém pegar, em mais uns 5 anos ela acaba.
Hoje o “monopólio” dos sistemas de buscas da Internet é do Google. Isso em grande parte se deve por que o algoritmo que eles usam pra saber qual página você quer ver quando faz uma busca na internet (PageRank) está patenteado, e só eles podem usar.
Sério, se querem falar de monopólios/oligopólios/concentração de mercado, não usem o mercado de software como exemplo. Ele é péssimo pra isso.
“As duas únicas coisas em que a MS REALMENTE domina o mercado são em Sistemas operacionais para desktops caseiros (Windows) e ferramentas de processamento de textos (Word, Excel, etc). Isso por que tanto o sistema operacional quanto os processadores de textos deles são excelentes”
É Daniel, são tão excelentes que não conseguem ler o formato ODF (OpenDocument Format)… e se você quiser criar um documento PDF, tem de instalar uma impressora virtual, enquanto que no Open Office basta clicar num botão que ele cria automaticamente um arquivo neste formato… o que mostra que ela usa ao máximo o peso do mercado para definir seus padrões proprietários como o padrão de fato.
Ainda a respeito da Microsoft, há alguns anos atrás a União Européia vetou o Internet Explorer “embutido” no Sistema Operacional. Não fosse esta intervenção governamental, provavelmente estaríamos totalmente reféns da empresa de Redmond.
“Leia Schumpeter. Lhe fará bem.”
Ok, Warrior, se você também leu, vamos discutir Schumpeter (perdoe a pretensão, sou, repito, apenas um curioso na matéria, minha formação é praticamente zero).
Comecemos da afirmação do mesmo, em Preliminar, da Segunda Parte de “Capitalismo, Socialismo e Democracia”
“PRELIMINAR
PODERÁ S O B R E V I V E R o capitalismo? Não, não o creio. Essa opinião, todavia, tem tanto valor como a de qualquer outro economista que se tenha pronunciado sobre a questão.
Individualmente, carece de importância. O que importa em qualquer tentativa de prognóstico social não é a aceitação dos fatos ou argumentos em que a previsão se baseia, mas os próprios fatos e argumentos, que contêm tudo que há de científico no resultado final. O mais não será ciência, mas simples profecia. A análise, seja econômica seja de outro tipo qualquer, jamais produzirá outra coisa senão uma revelação das tendências de um sistema qualquer que foi objeto de observação. E essas jamais nos dizem o que sucederá ao sistema, mas apenas o que sucederia se tais tendências perdurassem no intervalo de tempo abrangido pela nossa observação e se não interviessem novos fatores. Inevitabilidade e necessidade nada mais podem significar senão isso.”
(Joseph A. Schumpeter, Capitalismo, Socialismo e Democracia, Editora Fundo de Cultura, RJ, 1961,)
(repito a questão da falta boas condições num blog [ou falta de prática minha, não é mesmo?], acho que num fórum ficaria melhor a discussão, quem sabe – em todo caso, abri um tópico em nosso site com esse título. Os interessados – todos, sem exceção – são bem-vindos:
http://www.portaldocriador.org/forum/viewtopic.php?f=51&t=3025
)
“o que mostra que ela usa ao máximo o peso do mercado para definir seus padrões proprietários como o padrão de fato.”
Outro Leitor
Ela, em suma, procura exatamente o quê? monopólio…