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Arquivo de novembro, 2008

26/11/2008 - 13:10

Meta de crescimento, sim ou não?

Não é do estilo do blog, mas… Estou em viagem, com agenda cheia e aborrecido por não encontrar um tempo para trazer um debate sobre o que foi anunciado, na segunda-feira, em Brasília, depois da reunião ministerial: a definição do crescimento como prioridade do governo em 2009. Só faltou o ministro Guido Mantega declarar que agora a política econòmica tem como meta crescer 4% no ano que vem.

Estabelecer meta de crescimento é coisa polêmica. Então, que tal vocês cuidarem do assunto enquanto eu estou no ar?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
24/11/2008 - 19:47

A volta dos que não foram

Por Leandro Modé

A disparada do dólar, no mercado cambial brasileiro – e de outros emergentes – reflete, antes de mais nada, o fato de que são economias emergentes e de moedas não conversíveis. Num mundo em que o dólar ainda não tem competidores como moeda de reserva global, crises, mesmo com epicentro na economia americana, provocarão a troca, tão rápida quanto possível, de moedas locais pela moeda de reserva – ou por suas quase congêneres, como o iene japonês.

 Mas a pressão também expressa uma piora das expectativas em relação às economias emergentes. Num primeiro momento, imaginava-se que esses países sobreviveriam incólumes à crise global. Depois, percebeu-se que a saúde de alguns deles não estava tão boa assim para suportar o tranco. Encaixavam-se nessa avaliação as nações do Leste Asiático, principalmente a Hungria. A derrocada das commodities, em especial do petróleo, provocou um ataque especulativo à Rússia. Agora, vive-se uma quarta fase, cujo foco está na América Latina.
 
Há grandes dúvidas sobre o futuro próximo de México (por causa do impacto na veia da crise americana), Venezuela (petróleo, tal qual a Rússia), Equador (ameaça de calote do presidente Rafael Correa) e Argentina (dúvida sobre a capacidade de honrar suas dívidas, também em decorrência da derrubada das commodities). Embora a visão sobre o Brasil não seja tão pessimista – ao menos por ora -, o real acaba sofrendo por tabela.
 
É nessas horas que fica claro um fato da vida.  As moedas emergentes adoecem de um mal de origem: não são conversíveis. “A crise financeira nascida nas mansões dos pródigos abastados barrou a entrada dos intrusos e mostrou que os saraus das moedas conversíveis não admitem penetras”, escreveu o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo na “Folha de S. Paulo”.
 
Seu colega americano Dani Rodrik, em texto reproduzido pelo Valor sexta-feira, vai na mesma linha. Ele abre o texto dizendo: “Se o mundo fosse justo, a maioria dos mercados emergentes estaria assistindo à crise financeira que engolfa as economias mais avançadas do mundo à distância.” Como sabemos, não estão. E suas moedas sofrem. Além de não ser justo, o mercado engana os incautos. Sorri para as economias que seguem suas diretrizes, mas as abandona à própria sorte na primeira turbulência.
 
Rodrik tem uma proposta para evitar que os emergentes sejam dragados pela crise americana. O FMI e os bancos centrais dos países do G-7 deveriam “fornecer liquidez ampla” para dar apoio às moedas dos emergentes. Além disso, defende que a China desembolse parte de seus US$ 2 trilhões de reservas com o mesmo objetivo. Rodrik nota que o gigante asiático é o país que mais tem a perder no caso de um aprofundamento da crise global.
 
Essa análise ‘estrutural’ do cenário, porém, não explica tudo. Há ao menos dois outros fatores que têm empurrado para baixo a moeda brasileira – ambos relacionados a questões internas. O primeiro deles está ligado aos derivativos tóxicos. Quanto mais alto é o valor da moeda americana, maior é a dívida das empresas que se meteram nessa encrenca.

Analistas observam que, com o dólar a R$ 2,10, R$ 2,20, a situação estava relativamente controlada. Agora, volta-se a temer pela solvência de alguns dessas companhias, sobretudo as de menor porte. Muita delas, desesperadas com a nova pernada da cotação, estariam indo ao mercado para comprar moeda para honrar seus compromissos, o que realimenta o ciclo de alta.
 
O segundo fator é a atuação do Banco Central no mercado de câmbio, que tem sido duramente criticada por alguns profissionais do mercado financeiro. Segundo eles, a política do BC de fazer leilões diários do famoso swap cambial (para poupar as reservas internacionais) tem servido como um seguro para quem quer apostar contra o real.
 
O mecanismo é relativamente simples de entender: investidores, principalmente estrangeiros, vão à Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e compram dólar a futuro, o que pressiona a cotação no mercado à vista. Esses mesmos investidores compram contratos de swap cambial e ganham quando a variação do dólar é superior à do juro, o que vem acontecendo largamente desde que a crise se aprofundou, de setembro para cá. Ou seja, o mesmo investidor ganha duas vezes: com as posições no mercado futuro e com os swaps. Segundo os profissionais que criticam a atuação do BC, a estratégia atual é um convite à especulação contra o real.
 
Para eles, a solução é o BC ser mais agressivo na venda de dólar em espécie. Sem, evidentemente, torrar as reservas, como Gustavo Franco fez em 1998 para tentar segurar a paridade real-dólar. O argumento desses especialistas é o de que, ao vender dólar no mercado, o BC diminuiria o montante de swaps cambiais. Ou seja, tiraria parte do seguro desses investidores e, por tabela, tornaria mais arriscada a especulação, pois os leilões de moeda física poderiam fazer a moeda brasileira recuperar terreno ante o dólar.

Comentário

As críticas que o Leandro levanta podem fazer sentido. Mas é bom não esquecer que, ainda que tudo isso fosse feito nos conformes, a fuga das moedas emergentes para o dólar seria apenas amenizada.

O senso comum imagina que moeda forte significa economia forte. A verdade passa longe disso.    

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
23/11/2008 - 17:57

Leituras para o fim do fim de semana

Como tem gosto pra tudo, pode ser que tenha quem se interesse, nesta reta final de um domingão de feriado prolongado para uns tantos, por dois excelentes textos econômicos traduzidos por jornais brasileiros no fim de semana.

O primeiro, do respeitado economista Dan Rodrick, saiu no “Valor”, edição de fim de semana, sob o título “Salvem os mercados emergentes”, e trata do que ocorre com a moedas emergentes em situações de crise global como a atual (leia aqui). Complementa bem um artigo recente do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, cujo link está no penúltimo parágrafo do post “Carta de (boas?) intenções”, de 17/11, logo aí abaixo.

 O outro, do jornalista George Monbiot, colunista do The Guardian, de Londres, intitulado ”Não vale culpar Keynes”, saiu hoje no caderno Aliás, do Estadão, e explica muito bem, na minha opinião, o que foi jogado em Bretton Woods e o que está sendo jogado (fora…) agora (leia aqui).

Os textos servem também para que, toda vez que vieram com a conversinha dos “fundamentos macroeconômicos”, quando os tais “fundamentos” se fundamentam apenas em políticas monetárias, a gente lembre de que isso não passa de enrolação barata. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
20/11/2008 - 17:19

Concentração inevitável, controles indispensáveis

Com a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, o Banco Central terá de melhorar – e muito – sua atuação como agência reguladora do setor bancário, para que os clientes e investidores não sofram ainda mais do que já sofrem nas mãos dos bancos. Com o negócio anunciado hoje, os cinco maiores bancos em operação no País passam a concentrar mais de 80% do total de ativos do sistema. Sem regulação firme e fiscalização ativa, que impeça ações de oligopólio, os consumidores ficarão cada vez indefesos.

A tendência é de que a concentração, com novas e, tudo indica, inevitáveis aquisições, pelo próprio Banco do Brasil e pelo Bradesco, aumente ainda mais. Na América Latina, só no Peru, onde os cinco maiores bancos concentram quase 90% dos ativos totais, a concentração será maior. Na verdade, o Brasil é o único país da região em que o sistema bancário ainda não está inteiramente consolidado.

Depois da fusão do Itaú com o Unibanco, a compra da Nossa Caixa pelo BB era mesmo questão de tempo. Além do interesse do BB em não se distanciar dos novos líderes do setor, a Nossa Caixa, com R$ 15 bilhões em depósitos judiciais, que só podem ser recolhidos em instituições públicas, valeria muito menos se o comprador fosse um banco privado. O banco teria de ser entregue emagrecido da grana dos depósitos judiciais. A MP 443, que permitia a compra do banco paulista pelo BB, selou o destino da operação.

A concentração de mercado é uma tendência natural do capitalismo. Fusões e aquisições ocorrem nos períodos de expansão, quando os mais eficientes engolem os menos competitivos, e nas fases de contração, quando os mais capitalizados absorvem os mais endivididados.

São conhecidos os esforços dos governos em tentar barrar a natureza monopolística do capitalismo. Tais esforços, não por coincidência, são (ou pelo menos, foram, até certo tempo atrás) mais visíveis nos Estados Unidos, exatamente onde o capitalismo é mais poderoso e avançado. São emblemáticos episódios como o das “baby bells” – as sete companhias telefônicas regionais resultantes da divisão da ATT&T, por força da lei antitruste americana, em 1984 – e, mais recentemente, a longa e, afinal, infrutífera, briga judicial para dividir a Microsoft.

De tão natural dentro do sistema econômico, a concentração de mercado deixou, na prática, de ser combatida. As estruturas governamentais de defesa da concorrência foram perdendo musculatura. Deram lugar a agências reguladoras. As agências não combatem diretamente a concentração, mas tentam atuar sobre seus efeitos sobre a sociedade e, em especial, sobre a sociedade na pele de consumidor. Os bancos centrais são, em teoria, as agências reguladoras dos bancos. O que se tem visto, inclusive com bastante nitidez na grande crise global do momento, é que a teoria não se transformou em prática. 

No caso brasileiro, o Banco Central, mais preocupado com a supervisão das condições que assegurem a solidez do sistema e das instituições que o formam, nunca mostrou eficiência na defesa do usuário dos bancos. O BC, aliás, resistiu bravamente a dividir à tarefa com os órgãos de defesa do consumidor, lutando, junto com as instituições, para impedir o enquadramento dos bancos nas leis de defesa do consumidor. O lobby dos bancos não funcionou para driblar a decisão de considerá-los prestadores de serviço a consumidores, como outro setor comercial qualquer, mas tem funcionado para dificultar o cumprimento das determinações com origem nas leis do consumidor.

O resultado é que os bancos brasileiros, embora sólidos e tecnologicamente avançados, figuram entre as empresas com mais reclamações nas listas dos Procons. Ninguém gosta dos bancos, nem mesmo os bancos. Tem um que até propagandeia que nem parece banco. De fato, os bancos cobram juros exorbitantes, expõem clientes a filas intermináveis e por um serviço deficiente cobram tarifas em quantidade e valor absurdos.

Dizer que a concentração é boa porque fortalece as instituições e dá mais segurança aos depositantes e investidores é tão verdade quanto dizer que a abertura do mercado a bancos estrangeiros, como vendido na época do Proer pelo governo, favoreceria a concorrência e propiciaria queda nos juros e nas tarifas, além de melhorias nos serviços oferecidos.

Nada contra a presença de estrangeiros no mercado e, mesmo contra algo inevitável, como a concentração bancária. Mas, assim como as marés, que também são inevitáveis, precisam ser controladas, a concentração de mercado, igualmente, deve ser. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
20/11/2008 - 08:08

Cuidado com as projeções

Em tempos bicudos, quando a oferta se contrai, a oferta de projeções econômicas é uma das poucas que costuma acelerar. Nesse mercado, em que poucos exigem certificado de origem dos “produtos” oferecidos, o importante é sair na frente.
 
É aí que a “regra Bill Gates” prevalece. Cada vez mais dominante, a “regra Bill Gates” ensina que primeiro se deve lançar o produto e depois ajustá-lo – a correção dos bugs fica para depois, nas novas versões que vão saindo. Azar dos “early adopters”.
 
Estamos vivendo um tempo para lá de bicudo e, portanto, de grande aumento na oferta de projeções econômicas. Boa parte delas, naturalmente, segue a “regra Bill Gates”. Assim, fica um primeiro alerta: todo o cuidado é pouco com as projeções do momento sobre o futuro da economia. No caso do Brasil, a recomendação, não é preciso perder tempo explicando, é de que o cuidado seja redobrado.
 
Uma novidade desses tempos bicudíssimos é a compulsão em determinar, o quanto antes, se uma dada economia entrou ou não em recessão. Não faz muito sentido, mas a pressão para se chegar logo lá é evidente. Qualquer 0,1% de retração por dois meses, como no caso do Japão (ou, ao contrário, como na França, que “escapou” por 0,1%), já é suficiente para que se decrete uma “recessão técnica” – com tudo o que pode ser desencadeado com isso. Profecia auto-realizadora é pouco.
 
Não é que as estimativas de queda no nível de atividade, de recessão ou mesmo depressão estejam fora da realidade. Já passou o tempo das dúvidas sobre a gravidade da crise. É grave, sim, aliás, gravíssima. E não deixará ninguém de fora. Mas qual a vantagem de amplificar o medo do escuro e, com isso, acelerar e antecipar a escuridão?
 
De mais a mais, recessão não é assim uma determinação automática, de acordo com regras invariáveis e genéricas. A tal “recessão técnica”, em moda no presente momento, é tão ridícula quanto certos exercícios econométricos – chutometria rústica com ares de grande ciência. Recessão, na verdade, é um estado econômico, sujeita às condições ambientais e às circunstâncias do momento.
 
Um crescimento anual de 6%, por exemplo. Pode expressar um fabuloso aquecimento no Brasil, coisa que não se vê por aqui há décadas e, ao mesmo tempo, fortíssima contração na China. Do mesmo modo, um crescimento de 2% pode ilustrar situações díspares. Na França ou na Inglaterra, até que não seria um mau negócio. Mas, no Brasil, como mostra a nossa experiência recente (esta foi a média de crescimento anual, nos anos FHC), configuraria uma típica recessão – a capacidade instalada teria folga e o desemprego tenderia a aumentar.
 
Já há quem projete uma “recessão técnica” no Brasil, ao fim do primeiro trimestre de 2009. Embora quase ninguém esteja prevendo crescimento abaixo de 5% em 2008, circulam estimativas de expansão zero ou mesmo ligeiramente negativo, no acumulado entre outubro e março de 2009.
 
Esses mesmos estimam uma expansão de 2% ou menos – alguns deles garantem que será para menos – em 2009. O governo ainda trabalha com um crescimento de 4% para 2009 e a maioria das projeções, por enquanto, está convergindo para um intervalo entre 3% e 3,5%. Recessão ou não, de qualquer forma, será um tombo de razoáveis proporções, em relação a 2008.
 
Para não encompridar demais a lenga-lenga, a velha anedota continua servindo melhor para definir a extensão e a profundidade de uma retração econômica do que muitas das mirabolantes equações dos nossos gênios dos modelos e filtros de estimação econômica. A anedota diz assim: você sabe que a economia está em recessão quando seu vizinho fica desempregado e que está em depressão quando você perde o emprego.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , ,
17/11/2008 - 17:53

Carta de (boas?) intenções

É preciso reconhecer que a diplomacia dos países desenvolvidos e dos emergentes mais importantes deu um show, em Washington, no fim de semana. A velha especialidade dos diplomatas – falar muito e dizer pouco – foi o destaque da reunião da cúpula do G-20.

Apesar de formar um texto com quase quatro mil palavras e meia centena de medidas a serem adotadas a curto e médio prazos, o documento divulgado no encerramento do encontro não passa de uma carta de intenções. A profusão de metas – e de adjetivos – denuncia o caráter preliminar e precário do acordo alcançado.

Seria mesmo demais pedir algo muito além disso. Não houve tempo hábil nem para rascunhar, quanto mais refinar, um verdadeiro acordo de reformulação da governança financeira e econômica global. Em todo caso, como diriam os otimistas, o resultado da reunião da cúpula do G-20 foi melhor do que a expectativa inicial – que era de puro e simples esvaziamento, principalmente por se realizar na transição de governo, nos Estados Unidos.

Mas, no fim das contas, o resultado foi melhor para quem? A sensação que a declaração de Washington transmite é, com licença da expressão crua, a de um prato feito, montado na cozinha dos países ricos.  O cheiro é que a coisa veio pronta do forno americano, temperado com especiarias européias e, em especial, inglesas.

Drenado das tautologias, sobra, naturalmente, um discurso que precisa passar pelo teste da realidade. Fiquemos com o item 13 da declaração, que recomenda não serem adotadas medidas protecionistas por 12 meses. A falação anti-protecionista, num período de contração dos mercados domésticos, diante dos exemplos históricos, tem tudo para não passar disso mesmo – falação.

Começando pela reação de Barack Obama. A reação do presidente americano eleito não é nada animadora. Como defender a indústria automobilística americana sem protegê-la dos concorrentes estrangeiros? E a Europa, com os franceses à frente, vão conseguir se livrar, assim num piscar de olhos, de sua tradição protecionista?
 
Um bom teste virá com o relançamento da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio, também decidida no encontro. A ver se, até o fim do ano, como determinado pelo G20, será possível concluir o acordo que naufragou no ano passado. Difícil escapar da impressão de que será surpreendente se der certo. 

A verdade é que as determinações dos líderes do G20 a seus ministros de finanças e aos organismos multilaterais, com vistas à aplicação das medidas anunciadas, a partir de abril de 2009, por enquanto, deixam mais perguntas do que respostas. E, no caso dos emergentes, as dúvidas são ainda maiores.

Decidiu-se, por exemplo, recomendar ao FMI que torne mais ativa, mais ágil e mais flexível a ajuda a países emergentes que enfrentem dificuldades de liquidez e travas no crédito. Beleza. De fato, como mostrou o economista Luiz Gonzaga Beluzzo, num pequeno, mas ilustrativo artigo, publicado ontem, na “Folha” (ver aqui), as economias desses países encontrarão maiores dificuldades para adotar políticas anticíclicas e mitigar os efeitos da crise nascida e alimentada acima do Equador. E uma grana poderia mesmo ajudar.

Mas, perguntar não ofende: a ajuda do FMI viria com ou sem condicionantes de política econômica?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
13/11/2008 - 18:35

Mudanças ou “mudanças”?

Em nossas conversas cotidianas, temos observado, eu e o Leandro Modé, que muitas das mudanças ocorridas na economia depois da quebra do Lehman Brothers, não passaram, pelo menos até agora, de “mudanças”. Nossa lista das “mudanças” que, afinal, parecem não ter mudado, tem três destaques:

1) O “decoupling” (o descolamento das economias emergentes da crise que pegou os industrializados);

2) a atração pelo dólar; e

3) reservas volumosas como seguro contra ataques às moedas locais.

Ainda não completamos nem dois meses de crise, mas, com essa ressalva, o que temos até aqui é:

1) O “decoupling” não existe;

2) O dólar, apesar da crise nos EUA, mantém a força de reserva global; e

3) Reservas grandes, como o caso russo, não garantem estabilidade às moedas.

* * *

O novo velho mundo

por Leandro Modé

O crescimento robusto da economia global nos últimos anos, o maior desde o pós-guerra, levou muitos analistas a acreditar que estávamos em um mundo novo. É inegável que houve mudanças significativas, entre elas o aumento do peso dos países emergentes. Mas a crise está mostrando que muitas das antigas premissas continuam aí, de pé, firmes e fortes.
 
Tome-se como exemplo a reação dos países emergentes. A idéia de que ficariam praticamente imunes a uma desaceleração do mundo desenvolvido (o famoso decoupling) não só foi totalmente enterrada, como se mostrou um equívoco brutal. O FMI, que muitos reputavam como uma instituição sem futuro, voltou à cena nas últimas semanas para socorrer, com pacotes bilionários, dois emergentes: Ucrânia e Hungria. 
 
Apesar da munição pesada para defender o rublo – mais de US$ 600 bilhões em reservas -, a Rússia está sofrendo um ataque especulativo, no estilo daqueles que derrubaram vários regimes de câmbio fixo na década de 90. O país já aumentou a banda de flutuação da moeda nacional ante o dólar e até elevou de 7% para 8% a taxa básica de juros para tentar conter a saída de capitais. As duas bolsas russas foram fechadas em diversas ocasiões de setembro para cá, em razão de quedas diárias superiores a 15%.
 
O caso da Rússia, aliás, derruba duas crenças de uma só vez. Além do ‘recolamento’ dos emergentes, mostra que o tamanho das reservas deve ser relativizado. Se nem US$ 600 bilhões são capazes de segurar o ímpeto dos investidores no meio do pânico, o que dizer dos US$ 200 bilhões do Brasil? É claro que é um bom seguro, melhor do que não ter nada ou quase nada. Mas afirmar que, por si só, US$ 200 bilhões blindam uma economia do tamanho da brasileira é uma temeridade.
 
É por essas e outras que o governo dos Estados Unidos faz onda com o G-20, mas não acena com mudanças efetivas na chamada arquitetura do sistema financeiro global. Eles sabem, e muito bem, que todo mundo, quando a coisa aperta, se refugia lá, mais especificamente nos títulos do Tesouro americano.
 
Basta ver a recuperação dólar ante todas as moedas globais desde o agravamento da crise, em meados de setembro. Essa, diga-se, é outra ‘crença’ da ‘nova economia’ que está sendo enterrada. As verdinhas ainda são o porto seguro do investidor global. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
12/11/2008 - 15:43

Nome aos bois

A União Européia fixa um teto equivalente a 3% da produção nacional para o déficit fiscal dos países associados. E nem todos cumprem a meta todo o tempo.

 No Brasil, o déficit fiscal (nominal), no ano terminado em setembro, ficou em 1,3% do PIB. Em diversos meses de 2008, o resultado fiscal (nominal) tem sido superavitário. O Brasil, portanto, do ponto de vista fiscal, não só estaria cumprindo as regras da União Européia como também dando uma lavada em algumas economias da Europa.

Mas o mantra da necessidade de corte nos gastos públicos, aqui no Brasil, continua ensurdecedor. Nem quando o mundo industrializado todo abre as torneiras e solta as burras, sem constrangimentos ou embaraços, o zumbido entre nós alivia.

Calma, não precisa avisar. É óbvio que o resultado de setembro – e o de um ano para cá – não vai se repetir. Ele se deve a um forte aumento de arrecadação, que acompanhou o ritmo acelerado da economia, em cima de uma base tributária pesada (que, nunca se deve esquecer, apesar da gritaria em contrário vocalizada pela mídia, pesa mais sobre o mais pobres do que sobre os mais ricos). Essa situação tende a ficar menos favorável com o desenrolar da crise e a já inevitável redução do crescimento.
 
Ainda assim, a matraca do corte de gastos é extemporânea. Todos os países estão aplicando políticas anticíclicas, a partir de instrumentos fiscais, com casca e tudo. Se o Brasil não vai ficar imune à crise, não é mesmo, tem por que fugir à regra?

São variadas as seitas da religião que prega cortes nos gastos públicos como valor fundamental, Tem gente, por exemplo, que defende a transferência de dinheiro público para o setor privado e, ao mesmo tempo, exige maior austeridade do governo. Acusam-no de não estar, diferentemente de outros países, levando a crise a sério, a ponto de nem mencionar preocupações com o aumento da própria poupança. Quanto a esses, só dá para constatar que não há mesmo limites para o cinismo.

Há também uns outros, mais comedidos, que aceitam as intervenções atuais – ou, convenientemente, fecham os olhos para elas -, mas reclamam da “qualidade” dos gastos. Insistem que o governo gasta mal porque gasta muito em custeio e sobra pouco para investimento. Estes são os adoradores do fim da “gastança”. Parece um discurso sensato, mas não passa de uma conversinha hipócrita. Para ser mais do que isso, fica faltando sempre dar nome aos bois.

“Gasto de custeio” tem cara de desperdício, de empreguismo, de marajá e de aparelhamento político de cargos públicos. Em parte é isso mesmo, mas na maior parte é outra coisa muito diferente – e de fundamental importante para uma sociedade que ser quer digna do nome. Sem falar que três quartos dos servidores públicos não recebem mais do que três salários mínimos e que, em qualquer comparação internacional, a relação entre número de servidores e o total da população, no Brasil, é baixa, “gasto de custeio” é o balaio de onde saem os gastos sociais. Gasto de custeio é, sim, a folha do funcionalismo e as despesas com viagens e festas, mas é também a Previdência Social, os programas de transferência de renda, a merenda escolar, a manutenção de hospitais e a segurança pública.

Já “investimento público” é alguma coisa com ar de eficiência, de provisão de infra-estrutura para o crescimento e de indução ao desenvolvimento. É isso também, mas, em palavras mais simples e diretas, também é transferência de dinheiro público para o setor privado. Ou, pelo menos, a assunção pelo governo de riscos que o setor privado não se dispõe a correr, para garantir o seu próprio funcionamento e seu próprio licro.

Resumo da ópera: quando se dá nome aos bois, o que aflora da gritaria contra os gastos públicos é o lobby dos poderosos, na disputa pelo dinheiro do contribuinte. Ou seja, a velhíssima luta pela apropriação privada dos recursos públicos, em detrimento da função social dos governos – no fundo, a regra de ouro do capitalismo, como o crash de 2008 está, mais uma vez, escancarando (ver, a propósito, o interessante artigo de Denise Gentil e Gilberto Marangoni, publicado no “Valor Econômico, em 27 de outubro). 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
10/11/2008 - 19:32

O G20 já caiu do telhado

O encontro do G-20 em São Paulo, neste fim de semana, comprovou que o redesenho da chamada arquitetura financeira global é tarefa, ao menos por ora, impossível. As demandas dos países estão longe de um consenso e vai ser preciso suar a camisa muito mais e por muito mais tempo para encontrar um denominador comum – se é que ele vai ser encontrado.

Defensora de mudanças mais radicais no sistema, a Europa usa a ambição dos emergentes por mais representatividade nos fóruns globais para pressionar os Estados Unidos. A Europa quer a criação de um organismo multilateral de supervisão, acima dos hoje existentes, com capacidade para regular todo o sistema financeiro.

O governo americano diz que topa algumas alterações, mas não desce aos detalhes e passa longe das pretensões européias, vocalizadas também por emergentes. No fundo, os americanos não querem largar o osso. Tanto que não é nada certo que, apesar do discurso mais flexível de Barack Obama, os EUA se disponham, no novo governo, a aceitar uma supervisão mais compartilhada do sistema financeiro.

Obama, na verdade, tem falado pouco sobre o assunto e o Congresso americano eleito, fortemente protecionista, poderá ser um empecilho, não a uma maior regulação dos mercados, mas a uma maior distribuição dos poderes de supervisão global. Por essas e outras, a reunião de cúpula do G20, sábado, em Washington, subiu no telhado e está dando uma sensação de um convescote de luxo para as despedidas de George Bush. Obama, o protagonista daqui para frente, passará longe do encontro.

Não bastassem as dificuldades políticas, a complexidade dos temas em discussão recomenda não alimentar ilusões sobre um suposto Bretton Woods 2, em prazo curto. A reunião de Bretton Woods, realizada numa estação de esqui chique de New Hampshire (EUA), em julho de 1944, durou três semanas e foi gestada nos dois anos anteriores. Bretton Woods foi o encontro que marcou a criação do FMI e do Banco Mundial e tem sido evocado pelos defensores de uma nova arquitetura financeira internacional, como o ministro brasileiro Guido Mantega.

Talvez o saldo da reunião do G-20 financeiro se resuma ao reconhecimento de que os países emergentes não escaparão da crise. Em São Paulo foi realizado o enterro da tese do “decoupling” (descolamento) e de que, no curto prazo, para evitar a catástrofe, o negócio é aplicar políticas francamente anticíclicas – até o FMI se rendeu aos fatos e celebrou o pacotão fiscal de US$ 600 bilhões anunciado pela China no fim de semana.

A síntese disso tudo é que a nova arquitetura do sistema vai ficar para depois. No curto prazo, o risco de uma recessão severa em 2009 e talvez em 2010 é muito maior do que se esperava antes – até porque os emergentes não vão segurar o rojão.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
10/11/2008 - 17:59

Direto ao ponto

Do Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, em sua coluna desta segunda-feira, no The New York Times (ver aqui, em inglês):

“É muito melhor, numa economia deprimida, errar no lado do excesso de estímulos do que no lado da escassez deles.”

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
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