Mudança de idéia
Martin Wolf mudou de idéia. Se Martin Wolf, o ícone dos colunistas liberais de economia pode, eu, que nem chego aos pés, nem professo, em economia, a fé liberal, posso muito mais. Citando uma famosa frase atribuída a Lord Keynes (“Quando os fatos mudam, eu mudo de idéia”), Martin confessa ter demorado algum tempo para perceber as dimensões da crise. Ele acha que o medo atual é exagerado e o pânico, injustificado. Mas está convencido de que o pânico, mesmo injustificado, também produz devastação. Martin Wolf acha que os governos devem fazer “tudo” para salvar o mercado.
Longe de mim, repito, qualquer comparação com Martin Wolf, o célebre colunista-chefe do Financial Times, defensor intransigente da pureza do mercado, mas eu também mudei de idéia. Também acho que há exagero no pânico – mas, e daí? Fui iludido pela crença, talvez excessiva, na racionalidade econômica. Achei que a crise se restringiria ao mundo financeiro e imaginei que a economia brasileira, sempre uma das primeiras vítimas das turbulências globais, desta vez estaria relativamente a salvo. Esperei um tempo torcendo para estar certo. Mas agora estou certo de que errei.
Quando a crise começou a mostrar seus dentes, meu cálculo foi o de que os governos, liderados pelo dos Estados Unidos, deixariam de lado o discurso neoliberal e topariam algum tipo de socorro público aos até pouco antes louvados operadores financeiros privados. Até aí eu estava acertando. Isso me parecia suficiente para acalmar as coisas a ponto de dar espaço a uma reestruturação mais organizada das regulações de mercado. O socorro veio e não funcionou. Errei de novo.
Na quarta-feira, vai fazer um mês que Lehman Brothers quebrou. De lá para cá, a tão falada compostura liberal dos governos foi sendo substituída por um crescente desembaraço no despejo de montanhas de dinheiro público em instituições privadas apodrecidas e intoxicadas pela ganância sem limite – e sem controle dos reguladores. Mas constato que o resultado prático tem sido nenhum.
Na Bolsa de Nova York, o índice Dow Jones fechou a semana com uma queda acumulada de 18%. A maior da sua história em todos os tempos. Nas bolsas européias, tombos acima de 20%. Em São Paulo, na mesma semana, recuo de 20%. Uma queda livre, geral e irrestrita.
Jamais imaginei que fosse assistir ao que parece ser o próximo capítulo do melodrama em que se transformou o resgate dos mercados: a estatização do sistema financeiro nas economias avançadas. Em mais uma ironia das muitas que a História tem produzido nesta crise, é a Inglaterra, campeã das privatizações, que está puxando o trem estatista – um trem cada vez com mais vagões.
Reunido em Washington, por ocasião do encontro de outono do FMI e do Banco Mundial, neste fim de semana, o G7 anunciou que utilizará “todas as ferramentas disponíveis” para estancar a crise. Pode ser que, agora, eu fosse começar a acertar. Mas, é tarde, já errei bastante. Não tenho a cara-de-pau de alguns profetas da economia, que se fixam numa posição e ficam firmes até que o pêndulo lhes seja favorável (seria o caso de Noriel Roubini, o grande mago do momento?), valendo-se do “método do relógio quebrado”, segundo o qual, mesmo parado, o relógio acerta a hora duas vezes por dia.
Está uma correria para encontrar a fórmula que permita superar a generalizada desconfiança que se abateu sobre os mercados. A falta de confiança trava a liquidez e expõe as fragilidades de diversos setores da economia real. O canal de contaminação da crise financeira para a economia real é a falta de crédito. Vivemos uma inédita crise de crédito e sem crédito a economia real, mesmo bem estruturada e com alto potencial de produtividade, não funciona.
No Brasil, o que se pode enxergar ainda é uma crise de liquidez – não de solvência como, por exemplo, assola Estados Unidos e Europa. Mas, se o empoçamento persistir, a solvência entrará em zona de risco. A situação, lamento ter chegado a essa conclusão, não é nada simples e preocupa.
Além dos “produtos” financeiros que levaram a apostas insanas numa eterna valorização do real e, com a quebra da aposta, a prejuízos monumentais, sabe-se que, mais recentemente, acelerou-se a tomada de recursos externos pelos bancos e o repasse dessas linhas a empresas de todo o tipo, com cláusulas de correção cambial.
Também o governo brasileiro terá de fazer “tudo” para evitar o prolongamento do pânico e algumas quebradeiras. Também aqui haverá rearranjos setoriais, com transferências de controles, fusões e aquisições.
Ainda não estou convencido de que a economia real – a do Brasil, em especial, hoje bem ancorada no mercado interno –, ao contrário do setor financeiro das economias centrais, encontre-se em estado terminal. Mas não está tudo bem, como eu achava que, tudo bem pesado e no fim das contas, estava.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Kupfer, Parece complicado encontrar a saída deste labirinto.
Assim como parece complicado o Brasil sair desta crise financeira atual não é mesmo?
Pois saibam que para o país superar esta crise e ainda ter lucro com ela basta?…
Reduzir drasticamente a taxa selic, para no máximo no máximo 9% ao ano.
Rapidinho os bancos voltariam a emprestar dinheiro ao setor produtivo e ao consumidor.
Por que o BC não faz isso?
É presidido por um raposão.
Simples assim.
Também levei uma puxada de tapete no reingresso ao bovespa. Faz parte…
Não há pânico que perdure meses. Se o problema maior for o pânico as coisas se acertam em mês e meio, num nível mais baixo mas acertam. Também estou impressionado com o estrago e dou a mão a palmatória: O velho Soros não estava jogando.
Kupfer,
não há motivo para se desculpar
como diria a máxima, “Seja sempre você mesmo mas nunca seja sempre o mesmo”
Ideias vem, ideias vão, mas a essência fica…
Abraços
Assim como o Presidente Luis Inácio Lula da Silva acredita que este é o momento certo de regulamentar o setor financeiro mundial, eu também acho que chegou a hora de colocar limites para banqueiros exploradores, ou melhor, especuladores. É preciso dar um basta. De uma hora para outra, o mundo entra em crise por causa destes gananciosos.
O que me deixa surpreso é ver que quase todas previsões a respeito estão ruindo, ninguem consegue prever nada, sera que os grandes especuladores esqueceram que na matematica 2 +2 é igual a 4 ou sera igual a 50 vezes a ideia de reiventar a operação matemática.
Meu grupo de soluções, nenhuma será implantada.
1- queda da taxa selic. Ouvi entrevista do sr. Cipriano quando perguntado se não parece estranho uma empresa que vive só de emprestar $$ e cobrar ter tanto lucro como o Bradesco, e ele respondeu que o banco faz um trabalho social enorme. argumentou que emprega milhares de pessoas mas que tem R$ 130 BILHÕES de patrimonio e se demitisse todos , apenas um pequeno escritório com menos de 10 pessoas poderiam administrar todo esse recurso se investido em títulos do governo onde ele lucraria R$ 20 BILHÕES por ano, lucro maior do que a instituição consegue fazendo generosidades com toda a população na forma de varejo. Naquele dia entendi a importancia do governo prá um cara desses.
2- Outra medida: uma legislação trabalhista mais flexível, que não obrigue o patrão a manter um empregado desnecessário, nem tampouco o obrigue a demiti-lo só por conta da primeira adversidade que surge; aposto que será a 1ª coisa que o empresariado fará quando as vendas perderem fõlego, desencadeando um efeito cascata horroroso na cadeia social.
3- Eu aceitaria pagar 1 % de CPMF se não pagasse IR. É caro, porém justo. Esse $$ vai boa parte pro consumo, outra parte certamente pagar dividas. Uma população sem dívida é uma população propensa ao consumo no Brasil.
4- Última : pega aquela idéia da Maria de conceição Tavares e faz um cruzamento de dívidas abatendo o estoque de papel prá ver quanto é que cada um tem realmente. O governo tem dividas que “esconde” nos seus propensos créditos. Quem deve ao governo pode ter um crédito com alguém que tem o mesmo prá receber do governo. Eu chamaria de saneamento.
Minha participação cidadã está oferecida gratuitamente.
Dá uma olhada JP, vê se faz sentido.
No mínimo uma campanha pela reforma tributária voce pode ajudar, já que voce mudou de opinião.
Boa sorte / fdsemana
Oi Kupfer, fora os “mea-culpa” não entendi bem a sua posição.
Não é tudo incompreensível, só o começo, meio e fim.
Eu sou do Partido Radical, fundador e único membro, (nada similar com anarquismo) e proponho jogar fora esse fracassado e putrefato sistema capitalista. Tem que por nego para trabalhar neste mundo. Ficam brincado o ano inteiro com dinheiro dos outros, apostando nas bolsas, acumulando fortunas, que no fim farão falta a outros, pois não tem tanto dinheiro neste mundo que sobre. Vc já viu sobrando? Só em obras públicas. Aí é o bicho, extra super mega blaster superfaturamentos. Todos sabemos (e aí o nosso pecado, consentimos)
Vc consente e admite como certo neste mundo ocidental e capitalista viver para alimentar nosso status?
Montadoras de automóveis fabricando todo ano carros mais sofisticados e caros a um preço superlativo, incrivelmente caro, devido aos impostos. E a nossa mentalidade estúpida e materialista no afano de acumular bens nos impele a comprar e ou trocar todo ano de veículo deixando fortunas estimáveis nas mãos de políticos corruptos entre outros.
Quantas pessoas humanas que nem nós existem abaixo do nível da pobreza na palestina, na áfrica e outras partes do mundo, inclusive na América?
Você acha bom esse contraste? É justo nosso sistema capitalista, este mundo neoliberal? Só os egoístas o acham.
Nos paises socialistas um pedreiro e um médico ganham igual. O verdadeiro lucro está na qualidade de vida e nas vantagens que o governo nos oferece. Desde que seja bem organizado.
Cuba é um exemplo do não apego aos bens materiais. Vive-se para estudar, aprender, viver e curtir a vida, sem miras em lucros excessivos ou ganâncias elevadas. Tudo aquilo que uma família acumular a mais, com excesso, equivale a varias famílias que passarão privações. Nossa mentalidade capitalista não absorve por enquanto essa idéia, de que somos todos iguais, mesmos direitos, e o bolo deve ser dividido para todos em forma igualitária.
Com certeza que num mundo assim, não se falaria de crise de bolsas pois não existiria o capital especulativo.
Existiriam crises antes de inventar o dinheiro? Evidente que não.
Parece difícil de entender, uma utopia, mas é o nosso caminho, o da humanidade.
Lamento que nenhum comentarista queira sair dos clichês e apostem só em assuntos e soluções ortodoxas e ultrapassadas.
É falta de criatividade ou de informação?
Pode um colunista ter a flexibilidade de optar por idéias próprias e fugir do “padrão”?
Ou deve-se encaixar sistematicamente dentro do “sistema” sob pena de ser simplesmente excluído?
Já li muito sobre isso, a linha deve ser mantida, padronizada, sem muitas opiniões divergentes nem exageradas.
É o editorial padrão que domina, nada de sobressaltos nem idéias próprias. Existe uma cerca virtual e não se pode fugir muito dela sob pena de ganhar um ostracismo.
Pode apostar nesta teoria Kupfer que com certeza desta vez pelo menos vc não vai se enganar.
Chegaremos a isto com certeza, seremos um gigantesco formigueiro, tudo perfeitamente planificado e o melhor, funcionando. Só nos resta saber, mas quando será assim?
Espeeeera, espeeeera, que chegaremos lá.
É sem dúvida o fim previsto para a humanidade.
O que está ocorrendo é mais ou menos como se uma pessoa estivesse morrendo afogada e alguém pretendesse salvar a vítima oferecendo um copo d’água.
Caro Kupfer,
Diante da situacao, voce concorda com o Presidente Lula de que os brasileiros terao um “Natal dos Sonhos”?
Independente da posição de cada profissional, a humildade em aceitar mudança e o de que errou em alguma previsão, são características de pessoas que mercem confiança. E você merece Kupfer.
É isso que os nosso Altos mandatários da Economia , principalmente o presidente Lula,precisam reconhecer ,ou seja; a coisa é mais feia do que eles imaginam.
Concordo com o Pres. Lula que o Natal vai ser sensacional, só se for la no Pálácio que sempre gasta mais do que tem, independente do que acontece aqui fora.
O presidente e também muitos comentaristas econômicos, estão sugerindo que os Paises sérios devem tomar providências drásticas com os especuladores financeiros.
Que tal começarmos por aqui?
Esses dias um oportunista financeiro foi preso pela policia federal, exatamento pelas maselas financeiras que ele vinha ou vem praticando, o que culminou com a demissão de policiais federeais, crise no Judiciário, determinação do( SR. Gilmar Mendes) para soltá-lo), crise no sistema nacional de inteligência..
Agora prenderam o VAlério, por esse tipo de envolvimento elegal, coisa que ja deveriam ter feito antes.
Normalmente os grandes escandalos começam com alguns testas de ferro.
Será que o presidente Lula, não esta perdendo a chance de cortar o mal pela raíz ou vai esperar um estouro maior?
Depois nã venha dizer que não sabia de nada.” Vide mensalação e mensalinho”
Para ser diferente como os nossos mandários andam preconizando, é preciso agir diferente e não dó dar sugentões diferentes.
Brasillllllllllllllllllllllllllllllll.
mesmo não entendendo nada de Economia, Engenheiro réu confesso, outros por aí que entendem e ainda estudam ,não conseguem entender a Matemática judia bancária, mas quem tem a nossa poupança nas mãos, via impostos segue a cartilha! mas fiquei muito impressionado com a máfia russa emprestando(lavando) dinheiro com o bacalhau da Islândia! Hare Krishna!
PREZADO JOSÉ PAULO
Ontem escrevi meu comentário sobre este lado real da crise.
Hoje, já as emissoras de televisão começaram a mostrar o despejo de milhares de frangos mortos, por falta de ração, pelo abandono do parceiro frigorífico ao parceiro fazendeiro.
Motivo: falta de crédito.
Mas os bancos possuem o dinheiro para o financiamento.
E por que não o fazem?
Inclusive, o governo federal, após longo período, abriu as amarras do compulsório, tornando o crédito mais fácil para o seu oferecimento ao produtor.
O que acontece então?
Parece que todos estão perplexos e imaginando que a safra pode não ser vendida ou exportada e que os milhões financiados irão virar farinha.
É o que você acima fala.
O medo.
Há uma fobia generalizada, por parte do sistema bancário e que financia a produção, sobre o que essa crise poderá resultar.
E infelizmente isto está nos atingindo.
O que fazer?
Talvez, a estatização do sistema bancário seja mesmo o melhor caminho, pelo menos temporariamente.
O Estado assumiria os riscos – isto em todo o mundo – e certamente o mercado não irá parar de rodar.
Pois o mundo precisa de alimentos e de energia para sobreviver.
E mais: os seres humanos tem milhares de necessidades, dentro do contexto de sua ofelimidade.
E certamente, acertando aqui, ajeitando lá, a roda terá que continuar.
O amigo alí de cima está lendo demais e esquecendo da coisa mais importante, a natureza humana. Não tem como conseguir implantar um sistema onde todos somos iguais, por que simplesmente não somos. Sempre haverá alguém ganhando encima de alguém. Pq um médico deveria ganhar a mesma coisa que um pedreiro? Não faz sentido. Talvez vc queria passar uma ideia niilista, aí sim, talvez eu concorde com vc, esperaremos e (não) veremos…
Abraços!
Não é somente Bin Laden o terrorista, mas os banqueiros internacionais.
O capitalismo está sendo assassinado, mas sob um olhar menos atento parecerá suicídio.
eu pergunto? prá que colocar dinheiro em instituições financeira privada. que já tiraram tanto dinheiro do povo brasileiro , e dos micro e pequeno empresário. com com juros altissimo porque o governo não da apoio a pequeno empresário, com suas instituições que tem juros mais barato …será que o governo também é ganancioso ao ponto de deixar 95% destes pequenos e micro que vão se arrebentar todo. esse esse dinheiro não devia ser aplicado nas micro e pequenas empresa que geram milhões de emprego neste pais. e outra nós não temos dinheiro prá aplicar em papeis podre e nem temos tempo prá ganhar dinheiro especulando, porque estamos sempre procurando trabalhar para pagar imposto e a flho de pagamento de funcionário . e nisto tudo já sabemos que nós é que sofreremos mais essa tal crise dos banqueiros do setor privado e a pessoa fisica deles continuaram ricos da mesma forma é triste mas é brasil.
Nós estamos numa situação bem melhor do que anos atrás.
F.H.C .teve que salvar vários bancos e sem $$. Nós sobrevivemos.
Hoje estamos com a taxa de juros num patamar elevado.
Inflação sobre controle, e com enorme massa de pessoas com.
Vontade de crescer. É só o Gov, usar o Fat e o Fgts, e outros recursos.
E colocar a economia p/ funcionar que nós tiramos está de letra..
Não acho que estamos tão bem como o analfabeto Lula diz que estamos, acho sim que estamos em um mundo multipolar, o qual não o era a tempos atrás, isso sim faz com que sejamos menos afetados, ou mais tardiamente afetados.
Tbm não acho correto bancos que durante anos se beneficiaram de lucros exorbitantes e que não dividiam com ninguém, queiram agora dividir prejuízos com o governo. Isto pra mim cheira a paternalismo puro, defendendo o filho inconsequente.
Em 1989 o Pastor Morris Cerullo teve uma revelação a respeito dos acontecimentos atuais no mundo financeiro. ¨Haverá um juízo financeiro sobre a ganância e o desrespeito aos mais pobres” . Não deu outra, os prejuízos já passam de US$ 10 Tri e vão continuar. Como foi escrito o mundo ficará perplexo. Já está.
Prezado José Paulo
Infelizmente, já existe pessoas que estão partindo para crucificar o governo pelos efeitos da crise internacional no País.
Esse não é o melhor caminho.
Tirar proveito político com a eventual desgraça de milhões de brasileiros?
Expressões como ” analfabeto Lula ” e comentários sobre o seu otimismo são bobagens totalmente desnecessárias nesta hora.
Se o presidente atual fosse do PSDB ou outro qualquer a situação seria melhor?
Ora, há muito que se fazer e é perda de tempo ficar fazendo comentáios políticos no momento de tantas incertezas na economia mundial.
Boa tarde.