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Arquivo de outubro, 2008

30/10/2008 - 15:33

Marola ou tsunami?

Por Leandro Modé

O pessimismo com o desempenho da economia brasileira em 2009 aumentou, principalmente no mercado financeiro. Já há analistas que falam abertamente no risco de o País enfrentar uma recessão. Por ora, esse cenário é aquele que as consultorias e os bancos classificam com a letra ‘C’. Ou seja, antes dele há outros dois com probabilidades bem maiores de virar realidade. Chances percentuais à parte, o fato é que uma retração entrou no radar. 

É recomendável, porém, que essa brusca mudança de humor seja vista com cautela. Não é preciso dizer que uma das idéias que esta crise consolidou é a de que os analistas são incapazes de elaborar projeções econômicas confiáveis. Inebriada pela bonança dos últimos anos, a maior parte dos profissionais não conseguiu sequer prever um chacoalhão dos mercados. Agora, então, no meio da tempestade, fica ainda mais difícil acertar.

Mesmo assim, parece consenso que os efeitos da crise externa no Brasil irão além da “marola”, como disse há algumas semanas o presidente Lula. O relatório Focus do Banco Central, que traz um sumário das estimativas do mercado, mostra que a previsão de crescimento do PIB de 2009 caiu de 3,35% na semana passada para 3,10% nesta. Diversas empresas congelaram planos de investimento e, aqui e acolá, começam a surgir informações sobre demissões. Grande parte da indústria automotiva, por exemplo, deu férias coletivas aos empregados. E o crédito continua fluindo a conta-gotas (quando flui).

Esses são alguns sinais de que o ritmo de expansão da economia brasileira deve ser mais fraco do que se imaginava quando a crise se intensificou, após a quebra do Lehman Brothers, no dia 15 de setembro. Mas, assim como Lula minimizou a crise, imaginar que um tsunami se aproxima da costa brasileira ainda soa um pouco exagerado.

 

Comentário

Um novo paradigma parece em formação na ecologia econômica, em fins desta primeira década do século XXI: a volta do protagonismo dos governos no processo econômico e desta vez em amplitude inédita. Os governos parecem decididos a impedir as quebras, que produzem dores e depuram o ambiente, definindo de outro modo os perdedores e ganhadores.

A visão, já embaçada pelas incertezas que ainda dominam a economia global, fica mais ainda turva com o atual ativismo sem um pingo de constrangimento dos governos.

Melhor mesmo evitar conclusões definitivas, como fez o Leandro.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
29/10/2008 - 20:02

O Fed contra o dólar valorizado

Nesse mundo virado de cabeça para baixo, apareceu alguém para ficar com o mico do real. E é nada menos do que o Federal Reserve.

O banco central americano vai trocar uma linha de US$ 30 bilhões por reais, sem condicionantes ou restrições de espécie alguma. Com isso, o BC brasileiro aumenta a bala já anunciada para enfrentar ataques ao real de US$ 50 bilhões para US$ 80 bilhões. O dinheiro ficará disponível até abril. México, Coréia do Sul e Cingapura também receberam do Fed linhas do mesmo valor, em troca de suas moedas.

A razão da “generosidade” do Fed não está sendo escamoteada. Trata-se de evitar uma valorização excessiva do dólar e, no mesmo pacote, do iene. As duas moedas-âncoras estão aspirando os recursos do desmonte global de posições alavancadas.

Como escrevi na segunda-feira (Real, de objeto de desejo a mico) o Brasil, com suas taxas de juros exorbitantes e sua moeda supervalorizada, atraiu enorme massa de capital de arbitragem. O real e papéis de empresas brasileiras, sobretudo os originários de lançamentos iniciais (IPO) recentes, passaram a figurar entre as vítimas preferenciais da queima de ativos.

Daí a escalada do dólar no mercado cambial brasileiro. Agora, a tendência, pelo menos no curto prazo, é de que as cotações se acalmem e se acomodem nas vizinhanças dos R$ 2 por dólar.

Há diversos aspectos interessantes na nova intervenção do Fed, que conta com o apoio dos bancos centrais dos países desenvolvidos. Um deles é a novidade da medida. Intervenções nos mercados monetários são raras - no caso do Brasil, é inédita. A última vez que o Fed atuou desse modo, para socorrer o euro, ocorreu em 2000. Antes disso, houve outra, em 1998, na crise da Ásia.

Outro aspecto que chama a atenção é o contraste da atuação do Fed com a do BC brasileiro. Enquanto aqui a valorização do real foi tenazmente perseguida e alegremente louvada, lá a valorização do dólar é tratada com uma maldição a ser exorcizada com todos os instrumentos, inclusive a troca de dólares por moedas inconversíveis, como é o caso do real.

Várias conclusões estão à disposição. Uma, quase uma constatação, é que os ortodoxos de lá não são tão ortodoxos quanto os daqui. Outra, é que, vai ver, os nossos ortodoxos é que estão certos e os de lá, coitados, são, como arrotam nosos ortodoxos, tão desqualificados quantos os que aqui cansaram de criticar a valorização excessiva do real. 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
28/10/2008 - 15:00

Viagem ao vendaval de 2008

Não faço parte do bloco dos profetas do eu-já-sabia ou dos gurus do eu-não-disse?. Tenho, na verdade, implicância com esse pessoal, entre outras coisas, porque nunca “já alertaram” para os erros de análise e previsão que cometem – só lembram que já haviam “chamado a atenção” quando acertam.

Revisando uns textos mais antigos, topei com esse de fevereiro deste ano. Revendo a tal nota de fevereiro, fica claro que eu “já sabia”. A ironia é que, mesmo “já sabendo”, errei depois na avaliação inicial do tamanho e da profundidade da crise, inclusive no Brasil (ver Mudança de idéia, que escrevi em 11 de outubro).
Não foi a primeira vez que errei e não errarei na previsão de que não será a última.
Melhor, enfim, reconhecer que eu, apesar de “já saber”, tenha, no fim, produzido a maior confusão. Fico mais humano, mais honesto e mais humilde.

Mas vejam aqui como eu “já sabia”:
27/02/2008 – 07:21

Viagem ao vendaval de 1998

Aparentemente, tem para todos os gostos nos números de janeiro do setor externo. Ainda mais que são números tão fora da curva que, aparentemente, fica difícil definir, com base neles, uma tendência clara. Mas, se a história vale de alguma coisa para entender o presente e projetar o futuro, é só na aparência que os números do setor externo em janeiro não indicam uma tendência preocupante.

Que tal uma viagem no tempo para ajudar a entender o ponto? Estamos em 1998, mais precisamente no começo do segundo semestre. Vai eclodir a crise russa, com uma estrepitosa moratória de sua dívida e um quase instantâneo aperto de liquidez no mercado financeiro internacional. Será a terceira crise de liquidez em quatro anos.

No Brasil, a banda cambial vigente havia sido alargada em janeiro, passando a variar entre R$ 1,12 e R$ 1,22 por dólar. Por conta de um câmbio excessivamente valorizado, o déficit em transações correntes caminhará para um recorde de US$ 33,4 bilhões, no fim do ano.

Com a colaboração de taxas de juros nas alturas de 30% anuais, a inflação está no chão e pouco passará de 1,5% quando acabar o ano. A economia estagnou, vai acabar crescendo décimos de percentagem, mas o dinheiro externo jorra. Investimentos estrangeiros diretos, engordados pela privatização das teles em julho, vão bater em US$ 25 bilhões no fim do ano. Nem a economia estagnada nem as nuvens que se formavam no setor externo impediriam a reeleição, com folga, em primeiro turno, do presidente Fernando Henrique.

As reservas cambiais, apesar da sangria das contas correntes, alcançam antes da crise russa, robustos US$ 60 bilhões. No fim do ano, ainda aparecerá o FMI com mais US$ 44 bilhões. Não é pouco para enfrentar uma dívida externa de US$ 235 bilhões, 60% dos quais de responsabilidade privada. Mas, a partir de agosto – e, de modo franco, depois das eleições de outubro – um terremoto vai sacudir a economia.

Faz dez anos, nem tanto tempo assim. Parece que muitos, já bem vivos naquele período, não se lembram – ou, mais provavelmente, não querem se lembrar. Em menos de seis meses, as reservas evaporaram diante de um vendaval especulativo, que forçou a mudança do regime cambial e, em seguida, abriu espaço para a formalização de um sistema de metas de inflação.

Voltemos a 2008. De novo, os riscos de turbulências e de contração da liquidez internacional estão nítidos na linha do horizonte. Mais uma vez, um câmbio excessivamente valorizado revira as entranhas das contas correntes. Como antes teve quem achasse, tem gente hoje que acha bom.

Lá vem a ladainha. Déficit em conta corrente que preocupa tem de ir a 4,5% do PIB. O de 2008, dizem, nem na pior hipótese chegará a 1% do PIB. Dizem também que o déficit é bom porque significa aumento de importações – e estas, além de frear a inflação, ajudam na renovação do parque industrial e no aumento da produtividade. Idem em relação às remessas dos lucros gerados pelos investimentos externos diretos.

Vale dar mais um pulinho em 1998. Enquanto a onça bebia água no setor externo brasileiro, a conversa era exatamente a mesma. Era como dissessem que déficit em conta corrente não passa do apelido pejorativo de virtuosidades: poupança externa, produtividade, lucratividade. Deu no que deu.

Perguntar não ofende: não há alternativa a deixar o dólar escorregar de vez ou continuar comprando reservas em troca de dívida interna pública? Falando em português mais claro: quando chegará a hora de definir algum tipo de barreira não monetária à entrada de capitais externos?

Não se venha escapar do problema com a argumentação vazia de que os tempos são outros, os fundamentos também. Podem até ser na superfície. O drama é que, na essência, o problema é o mesmo: uma política monetária que estimula a entrada descontrolada de capitais externos.

Sob o risco de repetir a história – que, sabemos, quando se repete, é sempre como farsa -, as respostas honestas não podem vir, novamente, só depois do vendaval

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
27/10/2008 - 07:30

Real, de objeto de desejo a mico

O desmonte das posições alavancadas dos fundos de hedge (lá fora e aqui dentro) e de outras aplicações está em curso, mas ainda não terminou a queima de ativos sem lastro. Por conta da busca por liquidez e da fuga para o dólar (e para o iene), outras moedas estão começando a derreter. Deu no alto da primeira página do “The New York Times” do sábado que a lista inclui moedas de economias emergentes, como Brasil, Ucrânia e Coréia do Sul, e até mesmo de países industrializados, caso da Inglaterra (ver aqui, em inglês).

É grande a preocupação com esse movimento. Tão grande que já está sendo aguardada, para os próximos dias, mais uma intervenção do Fed e de bancos centrais de países desenvolvidos. Desta vez, o objetivo seria vender dólares (e ienes) para conter o avanço da moeda americana (e da japonesa) alta e estabelecer um piso para as moedas emergentes sob pressão.

Intervenções de bancos centrais dos países ricos em mercados de moeda são relativamente raras. A última vez que o Fed interveio no mercado de moedas foi em setembro de 2000, quando, em coordenação com o Banco Central Europeu e o Banco do Japão, socorreu o euro. Antes disso, houve uma intervenção em junho de 1998, durante a crise da Ásia.

A preocupação com as conseqüências do desmonte de posições, principalmente nos fundos de hegde, por natureza os mais alavancados,  atravessou o Atlântico. Na medida em que o Brasil, com suas taxas de juros exorbitantes e sua moeda supervalorizada, atraiu enorme massa de capital de arbitragem, o real e papéis de empresas brasileiras, sobretudo os originários de lançamentos iniciais (IPO) recentes, passaram a figurar entre as vítimas preferenciais da queima de ativos.

Não é à toa que tem gente em Brasília com o coração na mão. Tomara que suas expectativas não se confirmem.

* * *

Do ponto mais baixo de sua cotação frente o dólar, no comecinho de agosto, até o fechamento do mercado na sexta-feira, 24 de outubro, o real sofreu uma desvalorização de quase 50%. É algo semelhante, ainda que em proporções por enquanto apenas ligeiramente menores, ao ocorrido na mudança do regime cambial, nos primeiros meses de 1999.

Falar nisso, o que será que aconteceu com o investimento do lendário Warren Buffet no real, que ele tanto alardeou? Será que o guru dos investimentos se desfez da posição na moeda brasileira antes dessa maxidesvalorização? Ou será que ficou com o mico?

 

Atualizado às 16h50

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
23/10/2008 - 14:52

Tiros no alvo errado

A medida provisória que permite a estatização de bancos e outras instituições financeiras (e de empresas de outros setores, pela Caixa Econômica Federal) tem um objetivo e pelo menos um efeito colateral. O objetivo é evitar, de qualquer maneira, a quebra de alguma empresa e o efeito colateral é apressar a própria aplicação da MP.

Consultei gente do mercado, procurando opiniões diversificadas de profissionais qualificados, com trajetórias e especializações diferentes. Há convergência na conclusão, que é, resumidamente, a seguinte: 1) Não há qualquer problema com os grandes bancos comerciais e o alvo da MP são, com exceções pontuais, os pequenos bancos (ativos totais abaixo de R$ 5 bilhões), cujas fontes de financiamento secaram ou estão muito insuficientes; e 2) Ainda que possa contribuir para realizar a profecia que tenta evitar, o governo fez bem em editar a MP antes que alguma quebra acontecesse.

Mas o que se vê na mídia? Uma notável guerra de barragem contra as iniciativas do governo. A presunção de que tudo não passa de oportunismo ideológico preside as mais variadas – e, em alguns casos, inconsistentes – análises. O viés anti-estatizante caiu em exercício findo nas economias desenvolvidas, mas entre nós a luta contra o leviatâ estatal continua…

A partir da idéia de que o governo estaria se aproveitando, de forma solerte, da rara chance de embarcar no novo estatismo do “mundo civilizado”, para avançar em seus arreganhos anti-mercado, argumentos sem sentido, parciais ou invertidos estão sendo lançados ao ar. 

Pode ser o argumento de que o mercado não precisa disso, que não há risco de quebras, tanto no setor bancário quanto no da construção civil. Uma derivação desse lero-lero desinformado agrega um sub-ataque: “Não dá para entender, já que, como insiste o governo, está tudo bem”.

A argumentação pode ter também um viés provinciano. Embora em tudo semelhante ao que está sendo feito lá fora (não se exclui, é verdade, uma espécie de “efeito demonstração” nas medidas que o governo de Brasília anda adotando), lá tem responsabilidade e aqui, não. Aqui, essa versão “esperta” das medidas “corretas” do “mundo civilizado” pode desandar numa esbórnia com dinheiro público. Aqui – lá não? – o pessoal vai sair detonando o patrimônio das instituições, deliberadamente ou por sentirem que serão salvos na beira do precipício, para cair nos braços do governo.

Tem mais. Tem, por exemplo, uma comparação malandra com o Proer – aquele programa que “salvou os bancos, mas não os banqueiros” e que “propiciou a atual solidez do sistema nacional”. Comparação, claro, desfavorável ao governo atual: “o Proer, tão atacado pelo PT, era mais transparente”. 

 Além da falta de comprovação dessa suposta maior transparência, falta algo mais.  Nenhum dos que hoje louvam o Proer parece ter idoi às fontes para conferir o que aconteceu com os banqueiros “condenados” pelo programa, que evitou, com dinheiro público, a quebra de bancos, nos primeiros tempos do Plano Real. Se tivessem ido lá, verificariam que, por conta de liquidações defeituosas e advogados cheios de truques processuais – como, aliás, é a praxe geral e ocorre também nos casos cabeludos de crimes do colarinho branco –, não há um único – repetindo, um único – ex-banqueiro alcançado pelo Proer que não tenha ficado mais milionário do que já era, à custa de dinheiro público obtido em ações judiciais contra o Banco Central. 

O fato é que, independentemente da argumentação ideológica e meramente oposicionista, há, sim, problemas no setor de bancos e nas construtoras. E, sim, é correto estabelecer um arcabouço legal preventivo para evitar dores de cabeça posteriores.  Perguntem ao economista Gustavo Loyola, que presidia o Banco Central na época do Proer e até hoje se vê às voltas com processos, o que ele acha de deixar essas questões para depois.

 O que apurei a respeito está publicado desde ontem, na série de perguntas dos internautas que estou respondendo no IG (ver aqui). O que fica claro é que, digam o que disserem, à luz do que ocorre nas economias centrais e da própria história das crises de liquidez, seria, isto sim, imprudente demais não dispor, antecipadamente, de instrumentos legais para enfrentar as dificuldades do gênero.

Seria igualmente insensato, diante do padrão conhecido do desenrolar desse tipo de crise na economia, esperar a tramitação legislativa de um projeto de lei para armar a defesa institucional de um processo de intervenção.

É de duvidar, falando nisso, que os críticos da MP 443 não baixariam a lenha, se o governo primeiro interviesse e só depois providenciasse o instrumento legal da intervenção. Ou, nesse exato momento de turbulências, enviasse um projeto de lei sobre o assunto para o exame ordinário do Congresso.

Uma coisa é discutir a constitucionalidade e a aderência às leis do texto da MP 443. O Proer, por exemplo, criado por medida provisória, depois aprovada pelo Congresso, deu margem a inúmeros processos de contestação de suas imposições.  Outra coisa, porém, é considerar que, por aparecer na forma de MP, a medida do governo interdita a ação da sociedade na defesa da transparência e dos interesses do País. Ela terá de ser discutida no Congresso e poderá ser alterada antes de se transformar em lei.

Não se pode condenar um instrumento legal apenas por conta do seu histórico mau uso pelos governos. Se, realmente, muitas são as MPs que não deveriam sê-lo,  não parece ser o caso justamente dessa.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
21/10/2008 - 13:56

Pobre Keynes

Tudo indica que o crash de 2008 decretou o fim da atual etapa de predomínio conservador na história do pensamento econômico – pelo menos até que o pêndulo volte a oscilar. Foram cerca de quatro décadas de desregulamentações, de esforços no sentido da redução da presença dos governos na economia e de renovação da crença de que os mercados, livres de interferências dos governos, são os promotores superiores da eficiência, da estabilidade e, enfim, do desenvolvimento. 

Não surpreende que o longo período de estreita vigilância sobre a “a apropriação privada dos recursos públicos” – mote a que os neoliberais reduziam toda e qualquer tentativa de aplicação de políticas afirmativas, seja no campo produtivo, seja no campo social – esteja chegando ao fim com a maior apropriação privada de recursos públicos de que o mundo já teve notícia. E que a intervenção, de proporções inéditas, tenha sido decidida e executada por governos conservadores. A História, afinal, é um tecido costurado com a linha das ironias. Sinal da crise das idéias econômicas neoliberais, a velha e surrada expressão “agora somos todos keynesianos”, a que os conservadores lançam mão para legitimar a hipocrisia do recurso à intervenção salvadora, está de volta.

Aos adeptos das formulações liberais está sendo compreensivelmente duro largar o osso. Vai daí que ganham corpo as tentativas – algumas não mais do que patéticas – de transferir a “culpa” do acontecido a intervenções governamentais. O crash não teria sido causado pela ausência dos governos, que deixaram de lado os controles das boas práticas no setor financeiro e confiaram na lorota da auto-regulação dos mercados, mas, justamente ao contrário, pela sua presença excessiva. Com políticas monetárias frouxas, juros baixíssimos e leniência abusiva com déficits fiscais gigantes, os governos teriam levado o setor financeiro ao desastre e arrastado a economia real para a recessão. A conclusão desse risível contorcionismo mental é que, diferentemente do que dizem os “abutres anti-mercado”, a política econômica que levou ao desastre foi keynesiana.
 
Pobre Lord Keynes. Os velhos detratores estão aí, mais uma vez, usando seu nome em vão. Valem-se de um senso comum chinfrim para tentar esconder gritantes falhas de um sistema em que acreditam de um modo religioso. É um comportamento recorrente: sempre que seus dogmas são recusados pela realidade, reagem como feras feridas, procurando distorcer os fatos e transferir as culpas.

A questão verdadeira é outra. Como lembra, em artigo recente republicado pelo jornal “Valor” (leia aqui), o economista Robert Skidelsky, celebrado biógrafo de Keynes, o que realmente está em questão “é o dilema sem solução mais antigo da economia: os sistemas de mercado são “naturalmente” estáveis ou precisam ser estabilizados pela política?”.  

“Keynes enfatizava a fragilidade das expectativas sobre as quais se baseia a atividade econômica em mercados descentralizados. O futuro é intrinsecamente incerto e, portanto, a psicologia do investidor é volúvel”, escreve Skidelsky.

Em contraposição, as idéias neoclássicas, que, em meados do século passado foram adaptadas aos tempos de estagflação com maior brilho por Nobel de Economia Milton Friedman, advogam que os mercados são mais estáveis e racionais do que Keynes imaginava e que é possível prever os riscos inerentes às transações econômicas e, portanto, o comportamento dos agentes no mercado. Assim, os preços, se livremente expressos, levarão, “naturalmente”, ao pleno emprego.

A novidade que havia sido introduzida por Keynes – e, em paralelo, por outros economistas, como o polonês Michal Kalecki –, nos entornos dos anos 30, em ambiente de profunda depressão econômica, foi exatamente a de comprovar que o pleno emprego não era garantido, como até então estabelecido, pelo livre funcionamento do sistema de preços. Na formulação keynesiana, o que garante o pleno emprego é a demanda agregada. É aí que aparecem o governo e seus gastos como elementos ativos do desenvolvimento econômico. 

O fato é que, diferentemente do que querem fazer supor os conservadores, Keynes não defendia a “gastança”, o déficit fiscal e quetais em qualquer circunstância. Defendia a ação do governo e, eventualmente, os gastos públicos, nas circunstâncias de uma demanda agregada insuficiente. Nem todo déficit público, portanto, é keynesiano. 

Depois da transferência, que ainda não chegou ao fim, de alguns muitos trilhões de dólares dos cofres públicos para o setor privado, governantes europeus falam em “refundar” o capitalismo. Esta é uma expressão grandiloqüente e dramática demais para a idéia de rever a governança econômica mundial, depois da incapacidade revelada pelo sistema de Bretton Woods, para lidar com o problema das dimensões do que agora atingiu a economia global.

Espera-se que, também nesse outro sentido, o nome de Keynes não seja invocado em vão.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
17/10/2008 - 09:42

Reflexões sobre o subprime verde-amarelo

por Fernando Blanco

Graças às perdas bilionárias que Sadia, Aracruz e Votorantim tornaram públicas, o espírito piadista brasileiro tratou de cunhar a expressão subprime brasileiro.

A operação é simples: a empresa toma um empréstimo. Junto com ele, vende derivativos que poderão ser exercidos pelo banco (que comprou o derivativo). Como o vendedor do derivativo (a empresa captadora) recebe um prêmio, o custo “all-in” do empréstimo ficava mais baixo. Só que as opções que eram “out-of-the-money” (isto é, quase impossível de serem exercidas), ficaram “in-the-money” (isto é, ficaram no preço para serem exercidas), gerando massivos prejuízos para os clientes dos bancos.

Tecnicamente falando, o drama acima não tem nada a ver com a hecatombe americana. Primeiro porque a extensão e a profundidade das crises são incomparáveis. Depois porque o problema lá é monossetorial (construção civil) e aqui é multissetorial. E também porque lá o lastro é crédito ruim, aqui é derivativo. Nos EUA o beneficiado era um cidadão sem crédito e aqui, uma empresa com crédito de sobra (em tese).

No entanto, pensando fora do “financês”, achei melhor redefinir a expressão subprime: “Estrutura de negócio vendida por agentes excessivamente ambiciosos, cuja meta é gerar receitas no curto-prazo, e que é comprada por clientes pouco esclarecidos. Todos os envolvidos, vendedores e compradores, negligenciam os riscos envolvidos na transação”.

Perfeito: temos então o nosso subprime verde-amarelo! Parabéns para o capitalismo nacional! Ou não…

Vale notar que a criação de uma estrutura financeira exótica não tem nada de excepcional. Elas existem para permitir que empresas e bancos possam se proteger ou se posicionar em determinado mercado. Parece obra de Deus.
Só que as três gigantes acima citadas têm expertise e balanço para fazer o que fizeram. Se correram tais riscos, sabiam o que estavam fazendo.

Agora, e aquele empresário amigo meu, de Avaré, que fatura R$ 20 milhões por ano, cujo gerente financeiro não tem MBA por Harvard ou Princeton? Pois é, ofereceram para ele também. E ofereceram também para um distribuidor de medicamentos local, que não tem um cent de dólar no balanço. Para que usar estruturas com derivativos de dólar?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores Tags:
15/10/2008 - 18:18

Tempo de exageros

Depois de, finalmente, entenderem que o socorro dos governos ao setor financeiro global focou no ponto certo e em volume suficiente, os mercados “descobriram” que, quando a guerra pela restauração da confiança terminar, o campo de batalha estará coalhado de corpos mutilados e escombros – ou seja, às voltas com uma combinação complicada de recessão e déficits fiscais, a economia real é que, numa quadra de reestruturações, necessitará de ajuda.

Antes, porém, de acabar de contar os mortos e recolher os destroços das economias, o mercado, observando a terra arrasada, continuará alternando surtos de pânico com momentos de euforia. São reações exageradas, mas, a esta altura, até previsíveis. Nos próximos meses, até que a grossa poeira comece a assentar e, principalmente, o novo presidente dos Estados Unidos assuma o leme do barco econômico mundial, será assim: oscilações, talvez aos poucos menos exageradas, mas oscilações.

Já é possível vislumbrar sinais de que a ação dos governos, quando a operação de resgate da confiança entrar em velocidade de cruzeiro, alcançará os efeitos esperados. As taxas interbancárias começaram a recuar e isso facilita aos bancos a decisão de emprestar – de resto, algo que não poderia permanecer em eterno empoçamento.

Feitas as contas, o total que deverá se despejado pelos governos no mercado para recuperar a confiança dos emprestadores e retomar o fluxo de crédito, ainda que em outras e menos flexíveis bases, não monta a algo inviável para nenhum governo. Mas o tamanho do saque de dinheiro dependerá do tamanho da recessão já em curso.

O presidente do Fed, Bem Bernanke, disse hoje que a economia americana já está em recessão e que a recuperação vai ser lenta. O “Livro Bege” – um relatório das unidades regionais do Federal Reserve – aponta desaceleração geral da atividade.

Essas informações, na visão dos famosos “analistas de mercado”, foram a senha para a violenta derrubada das bolsas registradas hoje. Mas, se, em seu último relatório, preparado para a reunião da semana passada, em Washington, o FMI projetou um futuro de derrubada da atividade econômica para 2009, sobretudo nos Estados Unidos e Europa, não o descreveu com tintas catastróficas. E o guru do momento, Nouriel Roubini, com todo o seu pessimismo, vaticina um ciclo recessivo relativamente curto, de um ano e meio a dois. Diante do estrago produzido pela liquidez irracional, até que dá para salvar os ossos.

Os tempos, enfim, são de exageros. Há pouco a fazer contra eles, a não ser esperar que as ações dos governos comecem a restabelecer o fluxo de crédito e se completem os ajustes econômicos impostos pelo crash e, em seguida, pela recessão.

 

Atualizado às 20h10

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
14/10/2008 - 18:40

Os atores da crise

Conversei ontem com o Leandro Modé sobre os protagonistas da crise internacional. Interessante notar que são todos governantes. Os comandantes do setor privado sumiram do mapa.

Chama a atenção o que ocorre com a reputação de Alan Greenspan. O “Maestro” do capitalismo nas últimas duas décadas, transformou-se num dos maiores, se não o maior, vilão da crise.

Aqui, a avaliação do Leandro. Qual é a de vocês?

 

Já há quem diga que a crise atual estará nos livros de história. Evidentemente, só o tempo vai mostrar se tais avaliações são ou não exageradas. Se quem diz isso estiver certo, alguns personagens ilustrarão as páginas dos livros. Aqui vai uma breve avaliação de alguns desses protagonistas.
 
George W. Bush: o ex-governador do Texas, atualmente com 62 anos, deve passar à história como um dos piores presidentes dos Estados Unidos – senão o pior. Além das guerras sem fim no Iraque e no Afeganistão, ele adotou uma política econômica expansionista, que contribuiu para a formação da bolha imobiliária, cujo estouro, hoje se sabe, engolfou toda a economia mundial. Durante a crise, teve um papel quase irrelevante. Foi à TV quase diariamente para tentar tranqüilizar a população, mas seu insucesso na empreitada revelou uma figura inteiramente desacreditada.
 
Henry ‘Hank’ Paulson: o secretário do Tesouro dos EUA deve sair da crise maior do que entrou. Embora seu plano de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro seja cheio de falhas, ao menos teve a coragem e a iniciativa de propor algo que, no fim das contas, ajudou a acalmar a situação. Antes mesmo de os europeus sonharem em resgatar seus bancos, já alertava que um plano semelhante ao americano seria necessário na região. Mostrou que estava certo.
 
Ben Bernanke: o atual presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) parece ter-se resignado em ser um escudeiro de Paulson durante a crise. Embora seja um dos maiores acadêmicos especialistas na crise dos anos 30, titubeou para implementar medidas que acalmassem os mercados financeiros. No início da crise, ficou preso à idéia de risco moral e, por isso, hesitou em baixar a taxa básica de juros. Foi obrigado, então, a promover cortes emergenciais. Não que estivesse totalmente errado, mas, no meio do tiroteio, risco moral parece ser o menor dos problemas.
 
Alan Greenspan: parece não haver dúvidas sobre o encolhimento do ‘maestro’ durante e, provavelmente, depois da crise. Se não bastasse o fato de ter mantido a taxa de juros baixíssima durante longo período, o que está na origem da bolha imobiliária, foi leniente com a regulação/fiscalização do sistema bancário. Sua fé cega na liberdade dos mercados mostrou-se equivocada. A conta da farra, só na Europa, deve superar os US$ 2 trilhões. Há que se dizer, a seu favor, que atuou duramente contra a bolha das ações de tecnologia – comportamento que nem de longe repetiu durante a formação da bolha imobiliária.
 
Gordon Brown: se tivesse mais carisma, o primeiro-ministro britânico poderia sair da crise como um herói. Foi quem primeiro entendeu a gravidade da situação e não hesitou em adotar medidas radicais para resolvê-la. Poucos se lembram, mas foi esculhambado quando decidiu nacionalizar (estatizar) o banco hipotecário Northern Rock, em fevereiro. Saiu na frente de seus pares europeus, ao anunciar um plano para resgatar o sistema financeiro, que incluía a compra de participação em bancos privados.
 
Nicolas Sarkozy: o presidente francês também entendeu logo o tamanho do problema. Chegou a convocar uma reunião em Paris, no dia 4 de outubro, para tentar convencer outros países da região a pôr em marcha, coletivamente, um plano semelhante ao dos EUA. Não conseguiu. Os mercados reagiram com quedas brutais das bolsas de valores na semana seguinte. O Índice Dow Jones, por exemplo, que é o mais tradicional da Bolsa de Nova York, perdeu 18% entre 6 e 10 de outubro. Foi a pior queda semanal dos 112 anos de história do indicador.
 
Angela Merkel: a chanceler alemã ficou para trás em relação aos colegas. Ficou presa aos aspectos morais do salvamento dos bancos e recusou, em um primeiro momento, um plano coordenado. Foi obrigada a voltar atrás. A Alemanha acabou adotando um pacote de salvamento do sistema que pode custar até 500 bilhões de euros.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
13/10/2008 - 18:58

Rapidinha

Anedota que o economista Luiz Gonzaga Belluzzo me contou ontem:

Sabe aquela piada sobre as características que diferenciam os brasileiros dos outros? Sabe aquela que diz que, no Brasil, prostituta goza, gigolô se apaixona e traficante se vicia?

Agora tem mais uma característica: aqui, exportador aposta contra o dólar.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
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