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23/09/2008 - 15:28

O que vem por aí, na visão de Eichengreen

Comentei ontem com o Leandro Modé, meu amigo e colega do Estadão, a boa entrevista, publicada no domingo, que ele fez com Barry Eichengreen (leia aqui) Eichengreen é um economista que, no período vamos-que-vamos da economia global, andou na contramão da manada, chamando a atenção para os riscos do que hoje já sabemos não era só uma hipótese. O Leandro enviou um pequeno comentário à margem da entrevista.

Aqui, o texto do Leandro Modé:

O economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley), disse ao Estadão, domingo, que os Estados Unidos dificilmente vão manter, nos próximos 10 anos, o mesmo ritmo de crescimento da última década. Para ele, uma recessão na maior economia do planeta é certa já em 2009.
 
Eichengreen é um daqueles analistas que, nos últimos anos, foram rotulados de catastrofistas. Em uma entrevista concedida à revista Foco Economia & Negócios, no início de 2005, ele alertava: “O déficit em conta corrente dos Estados Unidos é um sintoma de que a taxa de poupança do país é inadequada. Isso advém de duas fontes. Em primeiro lugar, uma política monetária excessivamente solta, que encorajou as famílias a gastar, gastar e gastar. Em segundo, uma política fiscal também frouxa, o que significa despoupança do governo.”
 
Um dos vilões da atual crise é justamente o ex-presidente do banco central americano (Fed) Alan Greenspan. Seus críticos argumentam que ele foi o principal fomentador da bolha imobiliária, ao manter a taxa de juros muito baixa por muito tempo. Paul Krugman, um dos mais renomados economistas da atualidade, disse ao programa Roda Viva que há muitos responsáveis pela crise. Mas, se tivesse de elaborar uma lista, Greenspan a encabeçaria. Por isso, Eichengreen não finge modéstia e afirma: “Eu avisei.”
 
Passada a euforia com o anúncio do pacote de resgate do sistema financeiro americano, os investidores parecem ter convergido para uma análise semelhante à de Eichengreen. Na melhor das hipóteses, o plano de Henry Paulson (Tesouro) e Ben Bernanke (Fed) apaga o incêndio. Agora, vem o rescaldo. Como o fogo foi de proporções dantescas, é provável que muita coisa tenha de ser reconstruída – o que leva tempo. Até lá, a principal economia do mundo, a despeito de todo o seu vigor, parece mesmo fadada a “andar de lado” – para citar um dos clichês preferidos dos operadores do mercado financeiro.
 
Eichengreen não acredita que isso significará uma catástrofe para o Brasil. Mas avisa: “Os brasileiros devem apertar os cintos de segurança.”

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:

18 comentários para “O que vem por aí, na visão de Eichengreen”

  1. Romanelli disse:

    e por se falar em manter o ritmo, nós mesmos continuaremos a manter do nosso? Por quanto tempo?l

    Ainda vale a máxima de que o BRASIL, só pros netos, se tanto

    veja o TAMANHO DO ABISMO que criamos

    “…Entre 2001 e 2007, a renda familiar per capita dos 10% mais pobres no Brasil subiu 7% ao ano, enquanto a taxa de crescimento da renda familiar per capita dos 10% mais ricos foi de apenas 1,1% ao ano….”

    “…Nunca na história brasileira a gente teve uma queda de desigualdade tão persistente e tão acelerada…”

    “…O Brasil precisa de mais 18 anos de redução de desigualdade em ritmo semelhante ao observado entre 2001 e 2007 para que a renda per capita dos 20% mais pobres atinja a mesma posição no ranking mundial que a renda per capita dos brasileiros em geral….”

    http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL769427-9356,00-DESIGUALDADE+PRECISA+CAIR+POR+ANOS+PARA+BRASIL+ATINGIR+MEDIA+GLOBAL.html

    Vamos colocar em bom português …NA PRATICA UNS 50 anos

    coincidentemente quando a população tiver parado de crescer

    Sem querer tirar o mérito das novas práticas e programa adotados por LULA (aliás, muito ao contrário), mas parece que a primeira fase provocaria sim muito efeito …quero saber é daqui pra frente

    E sobre planejamento familiar e paternidade responsável, quase nada

  2. JOSE BRAGA disse:

    Quer dizer que o culpado é o A Greenspan… Em tempos recentes ele era o gênio… o ban, ban dos economistas para 10 entre 10 jornalistas economicos brasileiros…. sabia tudo!!!!!!!!!!!!!

  3. pedro disse:

    Os EUA ainda são os donos da bola, e se não deixarem eles jogarem eles levam a bola prá casa. Para jogar sem eles ou com outra bola só na base de todos contra um, mas é difícil imaginar os EUA só.

  4. Lucinei disse:

    Outra coisa em que os EEUU são muito bons é em empurrar a conta para os outros. É isso que eles estão aprontando e os mercadores reclamando da demora. Empurraram a despoupança e a gastança pública e privada para o resto do mundo por um bom tempo… O que eles mais temem é a perda de valor do dólar como moeda de reserva internacional… vem ajuste pesado por aí.

  5. JOAOROCHA disse:

    FALTAM MUITAS RESPOSTAS. O que ninguem ainda perguntou e as respostas sinceras são muito importantes : – Por que até hoje o sistema financeiro americano e mundial não sabe, através dos Bancos Centrais, qual o verdadeiro montante dos títulos pobres que estão passeando pelo universo e na primeirissíma classe ? – Por que, com as comunicações online e com aprimorada tecnologia, os bancos centrais deixaram os barcos a deriva, mesmo sabendo que dispunham de instrumentos para torna-los de fácil localização ? – Por que somente nas proximidades de um recesso, o congresso americano recebe um pacote de USD 700 bilhões para injetar no sistema financeiro ? – Porque não havia nesse pacote uma previsão de recursos para ajudar as pessoas sérias e que realmente foram enganadas pela agiotagem e epropaganda enganosa ? – Por que não se perguntou até agora o montante de recursos transferidos aos COEs como lucros fictícios e outras rubricas ? – Por que ñ se perguntou quantas pessoas receberão + de 100 milhões de USD ?

  6. Anonimo disse:

    Até poderá ser que isso não venha a significar uma catástrofe para o Brasil. Mas, como disse Eichengreen na crónica de José Paulo Kupfer: “Os brasileiros devem apertar os cintos de segurança.”. Tudo bem até aí, pois mais vale prevenir do que remediar, mas será que a crise brasileira não será devido à crise americana, mas sim, à corrupção exacerbada aplicada? Sim, porque pelo andar da situação nós seremos os próximos.

  7. Vianna disse:

    Queria que o grande geógrafo Milton Santos estivesse vivo, entre nós, para comentar às gargalhadas no que resultou o globaritarismo (sic) financista liderado pelos EUA e pela gloriosa Albion, a detestável prima inglesa, agora mais do que falida e metida à besta…

  8. Clovis disse:

    Sr. José Paulo Kupfer, sempre leio seus artigos, e, hoje resolvi perguntar também ao sr.:
    Muitos já colocaram a questão do dolar como moeda mundial. E todos colocaram a mesma dúvida: Qual teria capacidade de substituí-la? Se o dolar cair, como ficam as transações internacionais? Com q moeda cobrar, receber, ou pagar uma passagem aérea?
    Na situação atual, acho que o dólar tem muito mais “poder de dissuação” que toda a estutura militar americana.
    Minha dúvida faz sentido?
    Sds,
    Clóvis.

  9. Clovis (11:13),
    Em meu blog, postei pequena análise a respeito da crise financeira e de suas reais origens. De passagem, faço referência à substituição do dolar como moeda de troca.

  10. Frank Bentes disse:

    Não sei não, acredito que toda essa histeria com o tal pacote americano não será mais do que fogo de palha. Segundo o Joelmir Beting, seriam precisos uns bons 15 anos para regulamentar de forma eficaz o mercado financeiro global, a se levar em conta ações conjuntas de governos de vários países. Parece não ser esse o cenário mais desejado, mas o que não se discute é o fato de que os mercados auto-regulados, tal como um deus ex-machina, não se sustentam por muito tempo nem nas teorias dos mais liberais entre os liberais.

  11. josé paulo kupfer disse:

    Clovis,

    Sua dúvida faz sentido. Nesse campo, a coisa é muito complicada mesmo.

    O resumo da coisa se chama confiança. Houve uma batalha em Bretton Woods, na reunião, em 1944, que organizou o sistema financeiro internacional, com a criação do FMI e do Banco Mundial, entre outras medidas. Ali, a idéia de uma moeda internacional, bancor, defendida por Keynes, foi derrotada pela idéia de fazer do dólar, lastreado em ouro, a moeda de conversão básica.

    OK, em 1971, o então presidente Richard Nixon, foi à TV e anunciou o que eu chamo do maior calote financeiro da história. Ele disse umas palavrinhas assim: “Senhores, o dólar não mais obedecerá à relação que mantinha com o ouro até agora”.

    Daí em diante, só mesmo a confiança na economia americana mantém o dólar (e os americanos, que detém o poder de imprimi-lo e a segnoriagem do fato, com a hegemonia). Isso continuará até um dia acabar. Mas, por favor, não me venha perguntar quando…e muito menos o que substituirá o dólar.

    Eu, aqui do meu canto, acho que essa crise, apesar de ser das boas mesmo, não terá esse poder de jogar o dólar para o museu da história das moedas de referência globais.

    Mas o euro tem avançado bem. Quer um exemplo? Responda essa pergunta: brasileiro quando vai pra Europa, tá levando dólar ou euro?

    Ajudei?

    Abrs.

  12. Paulo Elias disse:

    Desde que o mundo é mundo todo mundo sabe que nos negócio o dinheiro não some. Pra fica mais claro: sew hoje eu compro uma ação que vale 100,00 e amanhã ela vale 10,00 eu perdi, mais o vendedor ganhou, viu o dinheiro não sumiu, porque então ajudar aquele que apostou no negocio e pedeu? Há já sei, voce é que não sabe, é que quem perdeu está no governo.

  13. Paulo Elias disse:

    É TAMBEM PORQUE TODO MUNDO QUER GANHAR SEM PRODUZIR, É TÃO SIMPLES A MAIORIA TRABALHA E UMA MINORIA GANHA, E CHEGA DE PAPO FURADO, É O QUE ESSES TAIS ECONOMISTA FAZEM

  14. HomusOtarius disse:

    Mestre Kupfer, me corrija se eu estiver errado. Em um sistema econômico normal, rentabilidade, segurança e liquidez nunca andam juntas. Se estes três itens estiverem juntos é sinal que há alguma errada na dita economia real. Eles (os governos) querem socorrer justamente aqueles que não levaram em consideração essa norma básica da economia. Se eles socorrerem esse pessoal que foi contra essa norma, não irá desacreditar o resto da população que não têm nada a ver com esta história?

  15. João Antonio disse:

    A crise americana só é comparavel a que ocorreu em 1929 e isso vai atingir o Brasil. Não de maneira devastadora como a que vai colocar os EUA a partir de 2009. Mas , seremos afetados no ítem mais produtivo de nossas exportações : as comodites. Se não forem tomadas medidas agora, para resguardar nossa economia, os efeitso do furacão americano serão mais danosos e atingirão de sobremaneira os mais carentes. Só aumentar a taxa selic não mais é garantia de equilíbrio e contenção inflacionária.

  16. Chirac disse:

    Comentário de Bush a respeito da Crise Americana aos cidadãos americanos . ” A crise financeira americana é muito séria “. – jornal Washington Post , New york Times – . Então onde estão os economistas que acreditavam “Bushement” na economia sólida, neoliberal, livre, e não estatizante do Tio San.
    Qual é a opinião deles ? Com certeza a vergonha e a fé que os levou a cegueira da má credibilidade americana , os fez vitimas.
    Vitimas e envergonhados que estão não aparecem para justificar o apoio á politica economica americana. Mas continuam rezando para que a Crise Monetária se dilua , o que certamente não irá acontecer . É o principio da quebradeira que se mostra. Os esqueletos dos Grandes Bancos são irrecuperáveis . A fé nos títulos americanos e no dólar despencou a níveis muito baixos.
    A desconfiança generalizada empurra os EUA para o abismo . Quem tem ações americanas , retiram o seu rico dinheiro e o colocam em porto seguro . E finalizo com as palavras do líder dos EUA . ” A crise americana é muito séria ” . – Bush – .

  17. Ram disse:

    Eichengreen e um estudioso cuidadoso de economia historica aqui na universidade. Sua opiniao e seus livros sao solidos. Um professor muito bom. Mas vale ressaltar um fato importante: acho que quem preve que algo vai dar errado, sempre acabara acertando eventualmente…

    A questao americana e muito mais complexa, como o proprio Eichengreen aponta em algumas entrevistas. Mesmo com uma recessao em 2009, a populacao enriqueceu em geral, relativamente aos outros paises. Estes ganhos e que mantiveram o curso original , que inclusive foi iniciado com Clinton. A questao seria se correcoes de curso poderiam ser feitas que evitassem o excesso que aconteceu…

    Por outro lado vale lembrar que a maioria dos economistas americanos nao e independente. Eles tem suas aliancas partidarias, e em momentos de eleicao, a idoniedade de suas opinioes pode ser questionada… O caso do Krugman, outro economista genial que gosto muito, e mais ou menos este… Em periodo de eleicao, ele e sempre contra as propostas economicas republicanas. E so um fato para o qual precsamos nos atentar, ja que nos, nao somos americanos, nem republicanos, democratas.

  18. HomusOtarius disse:

    “A bancarrota de um sistema financeiro global que penaliza os países pobres”. Quem afirmou isso? Será que foi algum desses “iluminados” que têm explicação prá tudo? Ou será que foi algum comunista? Algum socialista, talvez. Não!! Quem fez essa afirmação foi o mega-especulador George Soros, que ficou conhecido como o investidor que quebrou o banco da Inglaterra, apostando contra a libra esterlina, em 1992, e ganhou 1 bilhão de dólares em um único dia! Ora, se um ícone do capitalismo, que conhece os meandros de um sistema viciado, afirma que esse sistema fracassou, quem sou eu para duvidar disso?

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