Ironias da História
Os colunistas liberais do “Financial Times” estão dando um show de lógica e pragmatismo nesta crise. Martin Wolf, o ícone, e seu colega John Kay, escrevem com todas as letras o que muitos tentam camuflar. Não enrolam e vão direto ao ponto: reguladores jamais regulam suficientemente o sistema e, no fim das contas, governos intervirão para salvar o mundo financeiro da lambança que provocam.
Interesantíssimas as conclusões de Wolf para o que está ocorrendo. À pergunta “o que deu errado?”, ele mesmo responde – e, convenhamos, de modo surpreendente, para um liberal de casaca como ele. “A fé exagerada nos mercados não regulados comprovou ser uma cilada”, escreveu Wolf num artigo traduzido pelo “Valor”, em 17 de setembro.
Outro trecho do mesmo artigo:
“No mundo atual, governos socorrem economias abaladas por crises de quatro formas: oferecem generosa liquidez de credor de última instância, por meio de bancos centrais; contabilizam enormes déficits para compensar a transição do setor privado para o superávit financeiro; substituem dívida privada por dívida pública, para recapitalizar sistemas financeiros (muitas vezes por meio da pura e simples estatização); e podem adotar a erosão inflacionária do valor da dívida privada (e pública). Tudo é provável agora, inclusive, a última opção”.
Agora, John Kay, em texto também traduzido pelo “Valor”, em 18 de setembro:
“Assim como Martin Wolf, também anseio por um mundo em que os reguladores consigam moderar a instabilidade inata do sistema financeiro. Meu anseio, porém, é temperado por modestas expectativas sobre o que a regulação pode realizar. O realismo de Martin, que compartilho, admite que as expectativas do público são muito mais altas e os políticos alegarão que reagem a essas expectativas. Mas os políticos fracassarão. A próxima crise financeira será diferente em origem e as regras que serão implantadas para fechar as porteiras dos estábulos vazios de hoje provarão ser irrelevantes.”
E a conclusão:
“Martin e eu reconhecemos que, na próxima crise, como nesta, o contribuinte intervirá para financiar o cassino visando proteger a utilidade”. (“utilidade”, nas palavras de Kay, é o sistema financeiro que as pessoas e as empresas confiam ser capaz de intermediar suas transações normais, fazendo e recebendo pagamentos, tomando e emprestando dinheiro e quetais)
As reflexões de Wolf e Kay, no momento em que a Corporação Financeira Chinesa, o gigantesco fundo de investimento estatal da potência emergente comunista, negocia metade do capital do Morgan Stanley, segundo maior banco de investimento americano, numa das maiores ironias da História, ajudam a entender por que o socialismo naufragou e o capitalismo seguirá sua marcha.
É que o ideal do socialismo é socializar lucros, enquanto o do capitalismo é socializar prejuízos. Ninguém quer o primeiro e todos querem o segundo.
Atualizado às 22h57
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Irretocável. Agora vai chover ideologia liberal.
peraí, o ideal do socialismo não seria socializar lucros? não entendi, como socialista, o que o senhor quis dizer com privatizar os lucros ali…
È interessante como as discussões da moderna economia de mercado procede: Parece que existe um Deus-Ex Machine ,altamente previsìvel ,matematizado e regendo os fundamentos teóricos da macro-economia.Eu penso(ingênuamente?) que ainda existe muitos fatores desconhecidos em um sistema tão complexo e às vêzes decidido por “humores” de líderes polìticos!-como parece ser a “rationale” dos líderes dos USA na presente crise.Tenho tambem a opiniâo(simples de cidadão) de que existe uma nova maneira de “valorizar” internacionalmente os produtos das nações e carecendo de uma racionalidade clara(preço das commodities,prestação de serviços financeiros-taxas de juros,etc).Exemplifico(e pergunto): Por que a digitação de um texto custa 10 vêzes mais que o produto?,Como são valorizadas as “copyright” e patentes?. Por que acreditava-se cegamente nas agencias de “rating “internacionais?Acredito que esta “siliconização” globalizada de bens e produtos da economia moderna ainda levara a muitas crises financeiras e o unico remédio para elas é certamente a solidez do parque industrial -no seu sentido mais geral-;e a existência de nortes geopolíticos(economia política?) no planejamento estrátegico de um estado,mesmo estando imerso neste novo(e perigoso) mundo globalizado .Cito como exemplo a Petrobrás.Com certeza uma grande Empresa Comercial Multinacional de Exploração de Petróleo em águas profundas.Entretanto ,e estranhamente-; não possuimos uma única refinaria para refinar o Disel de tal petróleo.Alguma coisa está profundamente errada sob o ponto de vista da Geopolítica da Nação Brasileira.
Olha o sofisma aí gente!!!
Quem é (ou são) esse “NINGUÉM” que quer o socialismo?
Será que é o mesmo “TODOS” que quer socializar os prejuízos?
Quem paga a conta (o contribuinte) não quer socializar os prejuízos de quem não quer o socialismo (os banquerrotos).
Quem é “ninguém” e quem são “todos”, ó cara-pálida?
Radical,
Obrigado pelo toque. É claro. Já corrigi. O socialismo, nesse minha “teoria”, objetiva socializar lucros…rs
Abrs.
Miguel,
Obrigado pela participação. É uma brincadeira e uma provocação. É claro que nem todos se recusam a socializar lucros e nem todos querem socializar prejuízos. Mas…
Abrs.
Kupfer,
Até compreendo esse frisson da esquerda com as bobagens que o Tio Sam vem fazendo. Agora, chamar esses dois de liberais? Aí já é demais. Esses caras não tão liberais quanto Delfim Neto é socialista. Liberal de fato é o sujeito que fez o discurso aí abaixo, EM 10 de SETEMBRO de 2003, há cinco anos, portanto, perante o Congresso americano. Parece coisa de profeta, eu sei, mas é só um liberal estudioso e coerente com suas idéias. O que ele diz, os jornais não gostam de publicar, pois é tido – tachado seria mais justo – de radical. E nem podem dizer que se trata de um desconhecido, afinal disputou as prévias para a presidência pelo Partido Republcano.
Eu sei que a maioria não vai ler o que vai abaixo, mas pelo menos você deveria, até para manter-se bem informado sobre a “ideologia” que você tanto combate. Abrs.
Mr. Chairman,
“(…) I hope this committee spends some time examining the special privileges provided to GSEs by the federal government. According to the Congressional Budget Office, the housing-related GSEs received $13.6 billion worth of indirect federal subsidies in fiscal year 2000 alone. Today, I will introduce the Free Housing Market Enhancement Act, which removes government subsidies from the Federal National Mortgage Association (Fannie Mae), the Federal Home Loan Mortgage Corporation (Freddie Mac), and the National Home Loan Bank Board.
One of the major government privileges granted to GSEs is a line of credit with the United States Treasury. According to some estimates, the line of credit may be worth over $2 billion. This explicit promise by the Treasury to bail out GSEs in times of economic difficulty helps the GSEs attract investors who are willing to settle for lower yields than they would demand in the absence of the subsidy. Thus, the line of credit distorts the allocation of capital. More importantly, the line of credit is a promise on behalf of the government to engage in a huge unconstitutional and immoral income transfer from working Americans to holders of GSE debt.
The Free Housing Market Enhancement Act also repeals the explicit grant of legal authority given to the Federal Reserve to purchase GSE debt. GSEs are the only institutions besides the United States Treasury granted explicit statutory authority to monetize their debt through the Federal Reserve. This provision gives the GSEs a source of liquidity unavailable to their competitors.
The connection between the GSEs and the government helps isolate the GSE management from market discipline. This isolation from market discipline is the root cause of the recent reports of mismanagement occurring at Fannie and Freddie. After all, if Fannie and Freddie were not underwritten by the federal government, investors would demand Fannie and Freddie provide assurance that they follow accepted management and accounting practices.
Ironically, by transferring the risk of a widespread mortgage default, the government increases the likelihood of a painful crash in the housing market. This is because the special privileges granted to Fannie and Freddie have distorted the housing market by allowing them to attract capital they could not attract under pure market conditions. As a result, capital is diverted from its most productive use into housing. This reduces the efficacy of the entire market and thus reduces the standard of living of all Americans.
Despite the long-term damage to the economy inflicted by the government’s interference in the housing market, the government’s policy of diverting capital to other uses creates a short-term boom in housing. Like all artificially-created bubbles, the boom in housing prices cannot last forever. When housing prices fall, homeowners will experience difficulty as their equity is wiped out. Furthermore, the holders of the mortgage debt will also have a loss. These losses will be greater than they would have otherwise been had government policy not actively encouraged over-investment in housing.
Perhaps the Federal Reserve can stave off the day of reckoning by purchasing GSE debt and pumping liquidity into the housing market, but this cannot hold off the inevitable drop in the housing market forever. In fact, postponing the necessary, but painful market corrections will only deepen the inevitable fall. The more people invested in the market, the greater the effects across the economy when the bubble bursts.
No less an authority than Federal Reserve Chairman Alan Greenspan has expressed concern that government subsidies provided to GSEs make investors underestimate the risk of investing in Fannie Mae and Freddie Mac.
Mr. Chairman, I would like to once again thank the Financial Services Committee for holding this hearing. I would also like to thank Secretaries Snow and Martinez for their presence here today. I hope today’s hearing sheds light on how special privileges granted to GSEs distort the housing market and endanger American taxpayers. Congress should act to remove taxpayer support from the housing GSEs before the bubble bursts and taxpayers are once again forced to bail out investors who were misled by foolish government interference in the market. I therefore hope this committee will soon stand up for American taxpayers and investors by acting on my Free Housing Market Enhancement Act.”
Dr. Ron Paul is a Republican member of Congress from Texas.
SOLUÇÃO: TAXA TOBIN NELES!
Se já houvesse uma instituição internacional aplicando e arrecadando recursos sobre a movimentação financeira de capitais, pelo menos entre países, com certeza o rombo dessas instituições quebradas não estaria sendo jogada nas costas do contribuinte americano e na economia do mundo, principalmente a produtiva que é a que efetivamente gera riquezas e tributos.
O difícil é achar o lucro do socialismo para repartir. O operário soviético foi na média mais rico um único dia do que o norte-americano? E quem pensa que o Liberalismo exclui regulamentação legal está bem enganado.
Tenho apenas o ensino médio, sou guarda patrimonial, não sou um homen culto. Porém, vejo nos jornais os “especialistas” da área dizendo que: Banco Central tem que ser independente; o mercado se auto-regula, entre outras baboseiras. Mas os dirigentes dos bancos centrais não vem de instituições privadas, e sistema finaceiro não é muito forte para regular os mercados? Kupfer, na realidade parece que tudo é um jogo e só quem ganha são esses que querem um mercado totalmente livre.
E os economistas, rsrs, acho que eles tem que pegar umas aulas com as donas de casa. Pois nas ultimas “décadas” só erraram.
Prezado Kupfer,
Mesmo temendo pela saúde emocional de boa parte dos comentaristas deste blog – de direita e de esquerda – forneço abaixo o link que os levará para a solução que está sendo engendrada em Washignton, visando a solução final da crise.
É notícia fresca.
Boa leitura e Lexotan.
Abraços,
Fernando Blanco
http://blogdocredito.wordpress.com/2008/09/19/solucao-definitiva-para-a-crise-eua-debatem-criacao-de-super-fundo/
Só Nash, e não Smith, salva.
FANTASTICO O FINAL.
Muito bom mesmo. Parabéns pela coluna. É exatamente isso, é uma ironia sem tamanho. Abs. Boa noite.
Parabens ao sr. luiz.C.L.Botelho pela lucidez do seu comentário sobre o oleo diesel.
O governo atual esta construindo uma refinaria em Pernambuco para produzir Oleo Diesel e ja existe programação para construção de outra no estado do Ceará.
O que é mais ineressante e que ambos terão como materia prima o petroleo pesado, exatamente o que se se extrai no Brasil.
Outros Governos não atuaram deste maneira por questão, digamos, de picaretagem. Imagine quantos “famosos” irão deixar de receber gordas comissões na importação e exportação.
Melhor ainda é o pensamento do Governo Atual de não exportar petroleo cru e sim produtos refinados.
O grande problema são os maus comunistas e os maus capitalistas.
Na década de 70 surgiu um artigo numa revista que nos informava da vida de muitos políticos russos (da extinta URSS, lembra!) do partido comunista, e um deles estava de férias na sua 8ª casa de inverno, enquanto a população estava de madrugada na fila do pão para receber a sua cota, o pão era comunista e a casa de inverno não, ou seja, eles dizem “sou defensor destas idéias” mas subentende-se “para os outros e não para mim”.
Da mesma forma os capitalistas, eles dizem “defendo os ideais de livre mercado, justo e honesto” mas “para os outros e não para mim (meu banco)”. Um banco não quebra da noite para o dia, este banco já estava arriando das pernas há muito tempo, só que os maus capitalistas não nos informam da situação para não serem lesados (rabo preso), não há uma regulamentação.
Há boas coisas do comunismo e do capitalismo, mas reafirmo o que estraga são os maus comunistas e os maus capitalistas.
Os americanos resolveram acabar definitivamente com a crise, porque já conseguiram se beneficiar de tudo o que era possível extrair dela.
A decisão de ontem à noite, criando um fundo para acomodar os títulos pobres, acabou de sacramentar a valorização do capital especulativo e improdutivo, em detrimento dos interesses da sociedade.
Os Bancos Centrais mostraram, mais uma vez, que realmente continuarão a serviço dos cartéis especuladores, que voltaram com força redobrada para cometerem os mesmos abusos e erros, pq estão imunes à penalidades. Cuidado, BRASIL.
Enquanto isso, mais de 900 milhões de pessoas estão passando fome no mundo inteiro e mais 4 bilhões trabalhando e pagando impostos para garantir as fortunas dos mais ricos.
E o mundo vai sair dessa crise bem fabricada e administrada pelo sistema financeiro americano, com OS RICOS MAIS RICOS E OS POBRES + POBRES.
A auto-regulamentação do sistema financeiro deverá continuar intocável. Voltou o excesso de liquidez para as especulações …
E os Bancos Centrais, mantidos pelo povo, mostraram que realmente estão a serviço da agiotagem mundial.
A maracutaia dos títulos podres, que serão jogados nesse Fundo, deve parir novos bilionários no mundo da fantasia.
Gostaria de apresentar alguns pontos que parecem preocupantes para aqueles leitores atentos do seu blog.Penso que esta crise financeira ainda esta muito longe de terminar e sou pessimista quanto a um desfecho “milagreiro” nestas questões econômicas nos EUA e Europa(e por conseqência todo o mundo industrializado).A razão de tal crença é baseada na minha percepçâo de leitor de que o fator de excessivo endividamento dos consumidores americanos foge a qualquer raciocínio contável e esta cançer econômico propagou-se em uma escala planetária incontrolável.Hoje tem-se a impressão (ingênua?} que o sustentáculo da América do Norte não é mais o tão temido Tesouro Americano!e sim as falsas reservas capitalizadas em dólares dos Países do Mundo nâo plenamente desenvolvido(incluindo o Brasil, a China, A India e a CEI nesta ultima classificação). Entretanto toda esta problemática macro-econõmica vinha sendo pseudo- equacionada por Whashington e transferida para um futuro otimista e produtivo de desenvolvimento de um mercado Globalizado(assimétrico para os paìses desenvolvidos). Infelizmente ,ocorreu o evento mega Geopolítico de “September eleven”, o que levou a um desequlíbrio deste processo de contenção de crise econômica latente no ãmbito interno dos USA.Fez-se uma guerra mega custosa e a perdeu-se no ponto de vista econômico.Aumentou-se letalmente a instabilidade do sistema: o Petróleo passou de U$30 para U$140 sem que houvesse escassez do produto!em um peródo de tempo mínimo. Alguém está pagando e ainda vai pagar muito as despesas das anti-econômicas Guerras punitivas do Gôlfo(não houve um plano Marshall para os Iraquianos-suposto objetivo principal das campanhas americanas para a Ocidentalização econõmica do Oriente Próximo(Reservas Petrolíferas).Penso que este são os mega fatores Geopolíticos a que me refiro nos meus comentários a este blog do Jornalists Kupfer.
E o Bovespa???? 9,8%!!!!
Irreal!
Muita calma nessa hora….
“É que o ideal do socialismo é socializar lucros, enquanto o do capitalismo é socializar prejuízos. Ninguém quer o primeiro e todos querem o segundo.”
falar mais o que? a bem da verdade mais nada
Apenas lembrar que os efeitos desta crise ainda precisarão ser sentidos e devidamente apurados pra termos certeza de que se não valeu mesmo salvarmos os dedos
Se pelo menos uma duzia deles fossem presos né ? a começar por BUSH com seus genocídeos, suas mentiras, seu tribunais e prisões imorais, suas guerras e conspirações fraudadas, inventadas ..seus artificialismos em nome dum certo tipo de capitalismo, talvez o mais BAIXO possível
se assim, ao menos eu estaria MINIMAMENTE contente
É interessante como as discussões da moderna economia de mercado procede: Parece que existe um Deus-Ex Machine ,altamente previsível ,matematizado e regendo os fundamentos teóricos da macro-economia.Eu penso(ingenuamente?) que ainda existem muitos fatores desconhecidos em um sistema tão complexo e às vezes, decidido unicamente por “humores” de líderes políticos,como parece ser a “rationale” dos líderes dos USA na presente crise.Tenho também a opinião(simples de cidadão) de que existe uma nova maneira de “valorizar” internacionalmente os produtos das nações e carecendo de uma racionalidade clara(preço das commodities,prestação de serviços financeiros-taxas de juros,etc).Exemplifico(e pergunto): Por que a digitação de um texto custa 10 vezes mais que o produto?,Como são valorizadas as “copyright” e patentes?. Por que acreditava-se cegamente nas agencias de “rating “internacionais?Acredito que esta “siliconização” globalizada de bens e produtos da economia moderna ainda levara a muitas crises financeiras e o único remédio para elas é certamente a solidez do parque industrial -no seu sentido mais gerall,juntamente com a existência de nortes geopolíticos(economia política?) no planejamento estratégico de um Estado-Nação,mesmo este estando imerso neste novo(e perigoso) mundo globalizado .Cito como exemplo a Petrobrás.Com certeza uma grande Empresa Comercial Multinacional de Exploração de Petróleo em águas profundas.Entretanto ,e estranhamente-; não possuímos uma única refinaria para refinar o Diesel de tal petróleo.Alguma coisa está profundamente errada sob o ponto de vista de planejamento geopolítico da Nação Brasileira.