Calma que o Brasil é nosso!
Estou colocando dois links para textos mais antigos que, na minha opinião, talvez ajudem a entender um pouco melhor os agora dramáticos acontecimentos no mundo financeiro global.
O primeiro é um artigo brilhante do economista Luis Eduardo Assis, publicado originalmente no “Valor”, em fevereiro deste ano, que eu reproduzi aqui no blog em março (na categoria “textos e estudos”). O título, “Salvos pela simplicidade”, diz tudo sobre a menor possibilidade de o sistema financeiro brasileiro vir a ser abalado pela crise internacional (leia aqui).
Vou repetir o que escrevi sobre Assis, naquela ocasião: ex-diretor de política monetária do Banco Central, no começo dos anos 90, e ex-professor de economia na PUC-SP e na FGV-SP, Assis é, além de bem apetrechado analista da cena econômica mundial, sobretudo da financeira, um privilegiado observador de seus movimentos. Ocupou, nos anos recentes, várias posições importantes no HSBC do Brasil, e esteve, inclusive, à frente do departamento que administra os fundos de investimento do bancão inglês aqui. Nos últimos sete meses, teve, em Londres, assento no comitê que assessora a presidência mundial do HSBC, em questões de investimento. Em fins de agosto, voltou ao banco, no Brasil.
“Salvos pela simplicidade” é um daqueles textos que os jornalistas veteranos, caso deste que vos escreve, classificariam como consistente. Para nós, quando um argumento de momento – típico da natureza do jornalismo – se sustenta por mais de quatro meses, é prova provada de que o argumento acertou no alvo.
O segundo texto é meu mesmo. O título é “Deu a louca na roleta financeira” e registra, com base em uma pesquisa anual do McKinsey Global Institute, a evolução do descolamento do volume de ativos financeiros globais dos bens e serviços produzidos pela economia real, com dados até 2006. Os dados são estarrecedores e a conclusão era que, se a coisa não fosse freada, o resultado só poderia ser um crash (leia aqui).
Bem pesadas as circunstâncias, na minha visão, o problema é fundamentalmente do lado financeiro da economia. Por conta do ocorrido no mercado financeiro, a economia real vai sofrer e encolher, mas sairá desta para uma melhor. Inclusive a americana, que, sustentada por uma taxa de produtividade invejável, resistirá bravamente. Um capitalismo mais regulado, à la européia, como já disseram, é o que de mais provável emergirá da tormenta.
Não acho que o Brasil vai sair relativamente incólume da refrega porque esteja “blindado” ou por conta outras criações, até compreensíveis, de marketing governamental. Embora a integração econômica com o mundo tenha avançado, ainda estamos longe de ser uma economia não insular, independente do mercado interno. É esse relativo isolamento que, neste momento, nos protegerá.
No campo financeiro, em termos das “inovações” globais, ainda estamos nos anos 60, como se aprende no artigo de Luis Eduardo Assis. Do ponto de vista do comércio internacional, nem com todo o avanço no fluxo de comércio com o exterior, ultrapassamos míseros 1% do mercado. Ainda bem… (isso não vale para sempre, claro, mas, no momento, é uma sorte).
Reforçar o mercado interno, não temer avanços da massa salarial, insistir, apesar da gritaria, em valorizar o salário mínimo e acertar o foco nos programas de transferência de renda, impedir o desmonte da Previdência Social, eis aí a diferença positiva, que agora se verá com mais clareza, do governo Lula para anteriores.
Agora, quem se meteu no cassino, sem tomar as devidas e indispensáveis precauções, vai ver sua riqueza minguar ou, se der sorte, apenas encolher. Fazer o quê? Quanto ao resto dos viventes, que é a imensa maioria, não parece haver razões para descabelar com os ventos fortes e a onda que sobe lá fora. E que arrasta (provavelmente com a saída de estrangeiros para cobrir posições nos mercados centrais) a bolsa daqui.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
Marcelo,
Essa sua foi demais. Como se dizia antigamente, me escangalhei de rir. Obrigado.
Abrs.
Meu boim Rypl,
Você não aceita o “tabelamento” do mínimo, mas aceita o “tabelamento” dos juros? Os juros básicos de curto prazo, piso de referência do mercado de dinheiro (como o mínimo é do mercado de trabalho) não são decretados por oito sábios, de 45 erm 45 dias? Me explica os dois pesos e as duas medidas.
Abrs.
Abrs.
Caro Romanelli.
Rezo que você esteja correto!.Eu também estou neste barco chamado Brasil.Entretanto, não acredite patióticamente e paulistanamente que a nossa tecnologia seja suficientemente autônoma para resolver os complexos problemas da exploração de águas profundas.Tudo é praticamente comprado nas Estatais Brasileiras,incluindo as Fôrcas “desarmadas” Brasileiras.Lembre-se que as empresas de prospecção geofísicas são todas made in “not in Brazil”.Lembre-se da Embraer!.As turbinas dos aviões Brasília são todas da Rolls-Royce! e a eletrônica (aviônica) também(incluindo a aviônica dos F-5E!)As plataformas de exploraçãosubmarina não são projetos da engenharia naval brasileira.Aqui sómente a montamos (provavelmente a um custo econômicamente proibitivo e por motivos de propaganda política). As armas leves da Infantaria Brasileira(IMBEL) são cópias tôscas de projetos italianos incluindo os visores de visão noturna para a moderna guerra na selva( só os SÍLVICOLAS lutam a luz do dia na selva!) Os reatores nucleares e as turbinas das hidroelétricas são todas de projetos francêses, as terméletricas são projetos americanos,e a nossa inteligenzia é toda educada através de sinopses de jornalistas estrangeiros-o porque do segundo nome do Brasil no exterior(incluindo São Paulo) ser a tristemente chamada terra dos papagaios!.è claro que existem ilhas com ALGUMA COMPETÊNCIA em São-Paulo, Rio de Janeiro, e talvez Minas. Olhe as Nossas Universidades e veja que ainda estamos longe deste seu propalado ufanismo.Tomara que eu esteja errado!
Kupfer,
tanto o tabelamento dos juros quanto o do mínimo são arbitrados por tecnocratas. Você sabe, por postagens anteriores, qual a minha posição em relação à moeda. Em princípio não aceito nenhuma das duas coisas como estão hoje. Agora, você sugere o controle burocrático do mínimo, mas não aceita o controle da moeda pela mesma entidade chamada governo. Para uma coisa o governo é competente, para outra, não. Aí estão os dois pesos e as duas medidas.
Abrs.
BOTELHO
do que sei…
-o MAIOR tanque de água salgada destinado a pesquisa, do mundo, é da Petrobrás
-Sei que a Petrobrás ganhou dvs prêmios internacionais, um deles em robótica
-pelo imprensalão li que ela ajudou a MARINHA a mapear toda a costa brasileira, a mesma que agora recebe por cima a frota americana
-ela é das mais rentáveis, tem muito bons técnicos e cientistas e emprega grande parte dos nossos melhores técnicos e engenheiros, e que ganham muito bem
-Dispõe de padrão de qualidade. Pra quem forneceu a ela já sabe, ela é uma indutora de capacitação, exige que fornecedores consigam galgar e obter certificações de excelência
..claro que ela, COMO TODAS AS OUTRAS, aluga ou compra boa parte dos equipamentos
A Petrobrás foi das poucas e das PRIMEIRAS que chegou abaixo dos 3,4,5 km de profundidade …não é fácil
Da camada de sal falam que é outro desafio. Já ouvi um geólogo falando que há pontos em que depois de você descer 3,4 km de lâmina d´agua, ainda tem que PERFURAR até 5 km de puro sal
…uma loucura, embora nem todos os pontos sejam iguais, há os mais rasos
Outro geólogo falava que o drama e obstáculos sao imensos, por exemplo, qdo se esta perfurando, fora da pressão e aquecimento, o sal, digamos a 2km, no ponto inicial, corre o risco de desabar e desmanchar
…eu não sei como fazer …confesso que tenho dificuldade até de manter castelo de areia na praia …mas ela já fez, mesmo que em camadas menos espessas
outra informação, apesar dela ter sido idealizada, montada, gerida e mantida por BRASILEIROS …hoje, após a onde de privataria e internacionalização forçada (lembra da PetrobraX e da venda – em baixa – do limite das ações por FHC ?), 62% de seus dividendos são distribuídos pela bolsa de NY …um dado interessante
nota final – eu particularmente, como cidadão, prefiro o ESTADO sendo participe do processo e se financiando muito mais por DIVIDENDOS do que por impostos regressivos e dados em consumo (encima do pobre) …mas parece que não era isso que os sábios piciformes pensavam sobre a CVRD, Petroquimica, siderúrgicas especializadas, teles MONOPOLIZADAS e Petrobrás, né ?
Rypl,
Nunca disse que não aceito o “tabelamento” dos juros. O governo ainda detém o monopólio da emissão de moeda nacional e a lei diz (e eu aceito) que aqui vigora o curso forçado. Logo, é preciso alguém para regular essa emissão. Logo tem de ter política monetária ativa.
A disucssão, quanto a isso, é apenas em relação ao volume que a autoridade deixa circular, em palavras simples, a definição dos juros básicos.
Acho, numa boa, por que você é bom sujeito, honesto e bem intencionado, que, quando a discussão não te é favorável, você apela para meios entendimentos, distorções e coisas que o outro, coitado, não disse nem defende. Se quiser, dá uma pensada nisso.
Abrs.
Kupfer,
Vamos ver se entendi: você quer que o governo atue no controle monetário, mas não do jeito que está fazendo. Você quer um maior aumento para o salário mínimo, mas o governo não dá. Ou seja, você quer a intervenção, mas apenas discorda de como ela está sendo conduzida. Há uma discordância entre você e o governo de como intervir nessas áreas. Se é isso, tudo bem, “não há dois pesos e duas medidas”. Ta ok?
Abrs.
Rypl,
Obrigado pelo esforço de compreensão. Isso é bacana.
Isso mesmo. Não sei se defendo um aumento maior do mínimo (acho que não), mas, no momento, defendo um aumento menor dos juros básicos. um é intervenção no mercado de trabalho, outro é intervenção no mercado de dinheiro.
Sou um intervencionista, digamos, soft, pois não sou estatista. Mas também não sou um privatista cego. Tem coisas, não a maioria, que o setor privado faz pior. E, nos monopólios ou oligopólios privados, sai de base.
No fundo, não acho que o mercado, a não ser ex-post, aloque perfeitamente os fatores de produção. E como meio de distribuição, o mercado é um desastre.
Como também acredito que existe a História, acho que o mercado deve ser regulado e aceito intervenções onde há falhas de mercado (concordo também que há falhas de governo e sei dos riscos da tecnocracia).
Por que acredito que existe a História, gosto da meritocracia, mas acho que ela não deve ser o único princípio a reger as políticas públicas. Grosso modo, netos de escravos não estão nas mesmas condições que netos de barões para a corrida da vida em sociedade. Então, em nome da sociedade, é preciso intervir e deixar todos com oportunidades iguais. Tratamento desigual para desiguais.
Saúde e educação de qualidade, pública e universal, seria um bom caminho, para que todos pudessem correr com as mesmas oportunidades, se tivermos paciência e não ficarmos presos a ideologias que tornem esse objetivo mais distante.
Abrs.
Caro Rypl,
Acho que todos nós concordamos que o mercado é produto, também, dos limites humanos. se ele, assim como o governo e a própria sociedade, deriva dos humanos é fácil entender suas falhas.
Quem não se utiliza de um parente, amigo que é um proeminente desembargador, um prefeito, um deputado/senador ou um grande empresário?
Então a pergunta que fica é:
- O liberalismo não é tão utópico quanto o comunismo?
E entre parenteses:
(quando defendemos uma utopia que não morreu, não estamos defendendos os interesses que não são os nossos? Como diz o ditado: Quem ganha a guerra conta a história.)
sds,
(Obrigado pelo agradecimento Kupfer, foi uma idéia que me veio de repente,kkkkk e realmente ficou engraçado).
Kupfer,
Só pra lembrar, nas crises anteriores a economia do Brasil era ainda mais “insular” e isto não impediu que nós quebrássemos a cara.
Este argumento de que estamos relativamente salvos por conta da nossa falta de sofisticação não se sustenta.
Marc,
Só para lembrar que, nas outras crises, tínhamos uma ponte gigante de dívida externa com o mundo financeiro global.
Abrs.