iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
11/09/2008 - 22:19

Cabala econômica rege definição dos juros

Em suas famosas atas, o Banco Central e o Copom contam muitas histórias, mas não algumas das mais relevantes. Como os biquínis e as estatísticas, mostram tudo menos o essencial. Não há menção, naqueles textos lavrados em idioma torturado, ao “produto potencial” e, obviamente, muito menos como os doutos do BC chegaram a ele. Mas é o “produto potencial” que baliza a decisão sobre os juros básicos (em tempo, antes que alguém se agarre ao detalhe: o “produto potencial” aparece no trimestral e alentado “relatório de inflação”, mas não nas atas do Copom).

“Produto potencial” é uma das denominações pelas quais atende a taxa “natural” de utilização da capacidade de produção instalada que não provoca inflação. Trata-se de uma construção macroeconômica tão sujeita a contorções metodológicas que, no fundo, só pode ser aceita como crença na fé de que o comportamento econômico obedece a princípios naturais – e não aos incertos desígnios das ações humanas.

Não faz muito tempo, a mitologia econômica jurava que o “produto potencial” brasileiro era de 3,5%. Ou seja, crescimento da economia acima desse nível seria sinônimo de inflação. Com base nessa crença, a diretoria do Banco Central – e o Copom, seu braço na definição da taxa básica –, passou a subir os juros, para conter a economia, já partir de fins de 2004. No ano anterior, o PIB registrara evolução de 5,7%, muito acima do previsto e da “taxa natural”.

Com os juros escalando, em meados de 2005, um pico de 19,75% ao ano, o resultado foi um crescimento de apenas 2%, em 2005, e de 3,7%, A inflação, em 2006, de 3,14%, ficou abaixo do centro da meta, de 4,5%, e pareceu um exagero.

Houve, então, entre seus cultores, uma revisão generalizada do “produto potencial”. A partir de 2006, a taxa de crescimento que não provocaria inflação, de acordo com os cálculos (sabe-se lá quais) dos sábios, avançou para 4,5%.

Dava para imaginar que o “produto potencial” havia mudado de patamar com as explicações dos economistas neoliberais para o erro que cometeram na estimativa do crescimento da economia em 2007. Dos 3,5% previstos, a economia galgou 5,2% de crescimento. Uma falha grotesca de projeção.

Ao tentar justificar o erro, o economista Edmar Bacha, da PUC- RJ e do Banco Itaú, levantou a lebre. Segundo ele, houve uma subestimação do produto potencial. Samuel Pessôa, da FGV-RJ, foi na mesma onda. Até se defrontar com a combinação de crescimento econômico acima de 5% e inflação no centro da meta, que o produto potencial brasileira era de 3%. Depois, passou a achar que era de 4,5%. Uma mudança de 50%, assim, da noite para o dia.

Seja como for, esses 4,5% parecem ser, hoje, a taxa genérica vigente nas arcas neoliberal para o “produto potencial”, Crescer mais do que isso, reza o catecismo desse pensamento compartilhado pela direção do BC, só numa trajetória de descontrole da inflação. Tome, então, mais juros, para colocar a economia, “tempestivamente”, como gosta de registrar num idioma pseudo-culto o redator das atas do Copom, nos limites do “produto potencial”.

Não é por coincidência que, no boletim Focus, que divulga a mediana das projeções de uma centena de economias de bancos e consultorias, a estimativa de crescimento do PIB para 2008 ainda gira na casa de 4,8%, quando já é muito mais provável que fique acima de 5%.

A busca de taxas “naturais” na economia é um sonho antigo na história do pensamento econômico, que seduz um tipo de economista que prefere encarar a economia como uma construção de relações naturais, como a Física, e não um encadeamento de conceitos que dependem da História e do comportamento humano para se concretizarem.

O “produto potencial” não passa da última criação de uma moda neoliberal que tem início com a “Curva de Philips”, ainda nos anos 50 e passa, nos anos 80 e 90, pela “Nairu” (a taxa de desemprego que não provoca inflação, numa tradução livre da sigla em inglês para non-accelerating inflation rate of unemployment).

Da “Curva de Philips”, que relacionava, inversamente, desemprego e inflação, mas que, o tempo se encarregou de provar, só funcionava no curto prazo, chegou-se à Nairu, já nos anos 70. Esta, porém, foi fragorosamente levada ao museu das invenções econômicas ao longo do governo Clinton, quando o desemprego ficou abaixo de 4% sem produzir descontrole inflacionário, que a Nairu então estimava ser de, no máximo, 5%. Da Nairu, “evoluiu-se” para o “produto potencial”, que é a Nairu com a substituição do desemprego pelo nível de utilização da capacidade instalada que não acelera a inflação.

Há enormes controvérsias sobre a maneira de calcular e aplicar, quando se trata de encarar a dinâmica econômica, “taxas naturais” e “produtos potenciais”. Pelos resultados do momento, pode ser que o “produto potencial” brasileiro já tenha subido para 5%. Já há quem o estime nesse ponto, mas vai saber.

Apesar do pântano técnico em que são obrigados a se embrenhar os aventureiros que tentam calcular as “taxas naturais” da economia, eles insistem. Agarrados a uma cabala econômica, não estão nem aí para os fatos da vida real e, pior, para as dificuldades e os sofrimentos que ajudam a perpetuar.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , , ,

7 comentários para “Cabala econômica rege definição dos juros”

  1. Niva dos Santos disse:

    Aumento de juros não controla inflação coisa nenhuma. No Brasil, dizem, a inflação atual (ridiculamente mascarada pelo governo em algo como 5%, na minha casa já passou de 50%, pelo visto num futuro próximo vou ter que entrar com novos processos contra o rouba do meu dinheiro, como estou fazendo atualmente com o Plano Verão) é causada pelos preços dos alimentos. Aumento de juros não reduz preços de alimentos, mas o contrário; safras “recordes”, este circo ouvido todos os anos, também não. Logo, a inflação vai abaixar coisa nenhuma. Aumento de juros só alavanca os ganhos de agiotas praticados pelos bancos brasileiros, com o aval do superliberalismo do PT. Quem duvida é só procurar uma revista Carta Capital de alguns anos atrás (descumpem, não me recordo o número), onde o falecido dono do Bradesco diz que Lula “é o melhor presidente que o Brasil já teve”. Saravá!! Bem vindos ao maior paraíso de lucros do mundo (nem assim a “nossa” Bolsa de valores reage!!)!!

  2. gentefina disse:

    Acertou, o mundo cabalistico vem das trevas, por isso os desfavorecidos sofrem e os cabalisticos fizeram pacto para ficarem mais ricos.
    Por isso essa riqueza não é dividida e esta nas mãos de pucos.

  3. gentefina disse:

    Tio san vai entrar numa crise pesada, injetou bilhões de dolares no fundo imobiliario, é que nem sangue pisado, é sugado dia a dia, porém o osso está fraturado e esmagado, a economia tem que crescer sem injeção, por trabalho e produção.
    2009 dolar já era vem Euro.
    2010 até 2012 catastrofe no Oriente e Asia e Améica Central.
    Fortalecimento do Real e sul América.
    Acredite se quiser?

  4. joseh Ososdrac disse:

    Infelizmente, o aumento de juros controla a inflação, ou então aumento de impostos, mas esse ultima criaria um mau estar politicos e nos meios empresariais.
    O proprio EUA , as vezes aumenta a taxa d e jruos para conter crescimento e inflação.
    Pior que a inflação é a deflação, então por isso o juros vem sendo um instrumento poderoso de controle desses ciclos.

    O Brasil ao meu ver esta bem, mas se crescer acima de 6% , pode criar desabastecimento ou tera que importar par a nao ter inflação.

    Então a ferramenta maligna ´´ JUROS`´ ao meu ver a unica arma no momento.

    Voce pensa, mas se o governo baixar o juros, ira ter mais investimentos , compra de maquinas, mais produção, mais emprego, mais oferta de produtos e serviços , havera um equilibrio, então como pode ter inflação ?
    Respostas : enquanto se paga os salarios até poderiamos importar certas mercadorias caso venha faltar , vistos que nossas reservas monetarias estão boas., não prejudicariamos o cambio. ok.
    Então aumentamos a podrução, importamos, Mas temos um problema maior falta infra- estrutra para escoar a produção, mesmo importando sera que o produto chegara a mesa do consumidor ? havera especulação ? desperdicios ? correria ? , ai o desequiblibrio esta instalado.
    No momento apenas o maligno Juros pode conter a inflação .

  5. carlos disse:

    o brasil é um país dos contrários. pensem nisso.

  6. Romanelli disse:

    Acho que as coisas se interagem, se influenciam e se complementam

    Nada é ao acaso, há inclusive concorrentes que se fazem de amigos …simplesmente pq disputam a mesma sombra, o mesmo lugar ao sol

    De onde vem a maioria destas TEORIAS ? Em que realidade elas são/foram observadas ? Como são provadas ? Quem as formula, as põe em prática, sob que condições ?

    …nem vou mais continuar as infindáveis indagações e combinações

    ECONOMIA não é ciência exata, não é física …em economia uma palavra mal dita dum presidente pode entornar todo o caldo, ou provocar um milagre

    …quase tudo é questão mkt

    A CHINA desrespeitou muitos dogmas. Com muito mais problema que a maioria, mais gente e menos recursos, chegou em 25 anos a 2a economia do mundo

    …fez o jogo dela, o MELHOR pra ela

    Hoje ela produz 500 mm de ton de grãos. Nós, c/toda terra, subsídio, intervencionismo, latifúndio, maquinas e tecnologia, com TANTOS nhôs e gado no pasto, agora, e só agora, chegamos a 145 mm

    claro que antes ela teve que ter a POMBA da PAZ, a bomba

    Qtos países como o BR tem nossos, territorio, nossa gente, nossas PIRÂMIDES ócio-econômicas. Qtos aguentam pagar o JUROS mais alto do mundo? Qtas tem bancos que vivem só de emprestar pro governo e de cobrar tarifas do publico?

    Qtos países permitem que os cartões cobrem 5% de taxa pra vender a vista ? E o povo paga sem saber ?!

    E o modelo tributário, a infra-estrutura, o clima, os PASSIVOS, qtos são parecidos, qtos são como nós.

    Qtos tem a mesma INdependência ou NÂO de dólares, a mesma divida publica (em volume, custo e prazo), de produtos essenciais ou de bagulhos a serem importados ?

    enfim, a aplicação de fórmulas e manuais tem LIMITE

    Infelizmente estamos sendo governados pela previsibilidade que interessa ao MERCADO financeiro

    …deixa pra lá, tenho certeza que vc já entendeu aonde quero chegar

  7. Bob Jeff disse:

    O PIB potencial, guardadas as devidas proporções, seria
    como a MClaren do Hamilton na Bélgica, Campeão potencial,
    na foto estática da linha de chegada.
    Mas, menosprezaram a Ferrari do Massa e, os fiscais de
    pista, que representam o regulamento.
    A bola de cristal do BC, não consegue vislumbrar o PIB,
    abaixo da camada do pré-sal.
    Joga a bola no lixo! (tá na música)

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo