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09/09/2008 - 16:07

A ortodoxia só vale ao sul da linha do Equador?

A ortodoxia liberal, obviamente constrangida, teima em não usar o termo correto – reestatização – para classificar o resgate de Fannie Mae e Freddie Mac. Começa lembrando o caráter paraestatal de ambas e segue alegando que a intervenção não significa estatização porque as ações das companhias não foram compradas ou nacionalizadas. Mas comprar ou estatizar o que já virou pó?
 
Nossos liberais ortodoxos não deviam se contorcer tanto. A operação, que poderá custar aos cofres públicos até US$ 200 bilhões, configurando o maior plano de salvação de empresas já levado a cabo pelo governo americano, era mesmo inevitável. Na realidade, o problema não é a intervenção, mas saber como ela vai funcionar, quem vai se dar bem ou não e, enfim, se vai funcionar.

Vamos falar claro: nada contra a intervenção do governo americano nas gigantes das hipotecas. Pode-se chorar a porta arrombada, pela ausência de controles e pela regulação frouxa, mas nem por isso é o caso de deixar uma enxurrada passar pela porta.

Vamos continuar falando claro: não ser contra a intervenção é admitir que o mercado falha. Foi o que ocorreu no maior, no mais aberto e se não no mais, num dos mais desregulados mercados do planeta. Aliás, não foi a primeira vez e, com toda a certeza, não será a última.

Não dá para louvar a infalibilidade do mercado, esfregar a acumulação de riquezas que beneficia uns tantos na cara dos outros, como prova da superioridade do sistema, e depois justificar a socialização dos prejuízos com o pragmático “era-preciso-evitar-o-risco-sistêmico”.

E não dá para impor a ortodoxia somente abaixo da linha do Equador.

Sim, é óbvio que se deve evitar riscos sistêmicos. Mas é muito melhor evitá-los, quando não for possível impedi-los, sem a hipocrisia do discurso ideológico das vantagens do laissez-faire. O discurso do laissez-faire, aliás, é o que torna impossível evitar a assunção de riscos sistêmicos.

A história, inclusive a recente, é pródiga em episódios de hipocrisia desse tipo. No domingo mesmo, o Estadão publicou artigo do editor da prestigiosa revista Foreign Policy. Moisés Naim, em que são listados alguns desses episódios.

Naim lembra, por exemplo, que, em 2001, quando o governo coreano socorreu a Hyundai, o Senado americano aprovou uma moção que exortava o governo Bush a assegurar que a “ajuda ilegal” seria suspensa. Lembra também que o governo americano pressiona países africanos devastados pela AIDS a não comprar medicamentos genéricos do Brasil ou da Índia, mas, também ameaçou comprar genéricos, para enfrentar os ataques terroristas com antraz, se a Bayer, detentora da patente, não reduzisse os preços. E nem estamos falando do caso do Long Term Capital Management (LTCM), fundo de hedge impedido de quebrar, em fins dos anos 90, por instituições privadas, mas num arranjo coordenado pelo Federal Reserve, de Nova York. Ou da ajuda à Chrysler, nos anos 70. Ou…a lista é longa.

Vamos também deixar de sofismar: aceitar intervenções no mercado financeiro, da mesma forma que defender ações afirmativas, como as de cotas, ou políticas setoriais, não é defender o “estado-babá”, nem a apropriação da coisa pública por “eleitos” privados. Esse é um golpe retórico manjado, que tenta inverter os termos do problema. O que se deve aceitar é que o mercado não se auto-regula – pelo menos nem sempre ou na dimensão necessária.  

Atualizado às 17h29

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , ,

35 comentários para “A ortodoxia só vale ao sul da linha do Equador?”

  1. Neoliberal disse:

    Lucinei,

    Se estamos falando de uma democracia, estou inteiramente de acordo com o seu rigor conceitual. Somente nas tiranias, a coerção é instrumento e fonte do poder.

    Não discuto tampouco que, na esfera política, sempre haverá ganhadores e perdedores. Faz parte do jogo democrático. Porém, nas melhores democracias mundo afora, são garantidos os direitos individuais elementares das minorias, a fim de que não sejam escravizadas pelas maiorias. Dentre esses direitos elementares, está a liberdade de expressão para defenderem, democraticamente, as suas idéias. Isso é exatamente o que nós, liberais, fazemos atualmente aqui nesse Brasil estatista.

    Quanto à outra afirmação, de que no livre jogo do mercado haverá sempre ganhadores e perdedores, desta eu discordo absolutamente. Na grande maioria dos casos, as trocas efetuadas livre e voluntariamente no mercado são benéficas para ambas as partes envolvidas. Até porque, se assim não fosse, elas simplesmente não se realizariam.

    Abrs

  2. Neoliberal disse:

    Fernando Blanco,

    Perdoe-me, não tinha ainda reparado em seu comentário. Pelo que entendi, você está dizendo, do alto de seu vasto conhecimento, que o intervencionismo – que você, a exemplo daquele velho milionário húngaro, chama de regulação “com mãos de ferro” – é necessário para salvar o capitalismo de si mesmo? Grande sacada! Mas já que o capitalismo liberal está fadado mesmo ao fracasso, como você garante, eu prefiro que ele morra de causas naturais.:-)

  3. josé paulo kupfer disse:

    Surf,

    Se você é o mesmo velho de guerra do NoMinimo, é a prova de que os bons filhos voltam pra casa. Muito legal!

    Bem-vindo!

  4. Radical Livre disse:

    Mas, Neoliberal,

    eu tinha a impressão que uma das causas do débacle de 1929 foi exatamente a lentidão do governo em reagir e a ideologia, vencedora no início, de que era melhor deixar tudo quebrar para ‘purgar o capitalismo’. A crise de 1929 só começou a ser resolvida quando as medidas keynesianas passaram a ser tomadas a partir de 33.

    Em relação à crise das bolsas de 1987, não foi quando passaram a usar a modalidade de bloquear os negócios quando o nível de baixa atingisse um determinado patamar?

    rapaz, eu devo estar enganado…

  5. Radical Livre disse:

    e NeoLiberal,

    ’surfando na jaca’ é um velho frequentador de blogs. Suas posições, sérias, estão sempre à esquerda. Não vá descambar o debate para o lado do deboche, por favor.

  6. José Paulo Kupfer disse:

    Amigos,

    Estou emocionado. O nível do debate está bom e, apesar de alguma tensão no ar, sei que vai seguir nesse bom modelo. Além disso, alguns dos antigos estão saindo das profundezas.

    Fico feliz e grato. Bem-vindos à velha casa.

    Abrs.

  7. Neoliberal disse:

    Radical,

    A crise de 1929 foi incrementada porque, no auge da crise aguda, o governo resolveu apertar a política monetária (exatamente o contrário do que fez agora), causando uma falta absurda de liquidez no mercado. Os estudiosos daquela crise têm certeza de que, não fosse aquela decisão desastrada, a coisa teria sido bem menos grave.

    Quanto ao seu amigo sruf, saiba que o conheço de velhos carnavais. Se você se desse ao cuidado de ler direitinho o debate, veria que eu nada mais fiz do que devolver um deboche dele.

    Abrs

  8. Radical Livre disse:

    Neo,

    ok quanto ao surf. Em 1929, o que você chama de apertar a política monetária eu chamaria de “manter a política liberal, aumentando ainda mais a dose do remédio”. Um pouco como aqueles médicos do século XVIII, que receitavam sangria para todo tipo de doença e, quando o paciente morria, lavavam as mãos dizendo terem feito tudo ao seu alcance.

    eu estava errado em relação a 1987?

  9. Saulo Hipólito Ribeiro disse:

    A teoria neoliberal sempre recai em um grave problema, a falta de caráter do ser humano, pensar que mercado se auto regula é crer em coelhinho da páscoa, existem aqueles que querem levar vantagem, a criação de cartéis e outras ações que mostram que o estado tem que fiscalizar e intervir antes que ocorram estes erros e problemas, o estado não é para ajudar, mesmo que haja crise, a mesma deverá ser um sinal de amadurecimento do sistema econômico, ou o capitalismo vive sem o estado ou vamos mudar de sistema econômico, o que não dá é banqueiros e investidores mal intencionados sendo socorridos em cada crise, e os correntistas de bancos não devem ter seu dinheiro garantido por governo algum, tem é que quebrar a cara, pois não arriscaram em um banco não sólido, que aprendam a conviver com seus erros.

  10. Cassio B. Jemael disse:

    Pô… Legal…

    Embora eu ainda seja adepto de Sócrates e Platão, quando afirmam pela simples lógica que ninguém regula ou modera a si mesmo, gostei do autor…

    Ele debate com o pessoal….

    []s

  11. JOAOROCHA disse:

    A DIFERENÇA QUE EXISTE ENTRE BRASIL E CHINA, ESTÁ NO PLANEJAMENTO E NA EXECUÇÃO.

    JOAO DA ROCHA

    1 – Já é, induscutivelmente, a quarta potencia mundial e não teve sérios prejuízos no mercado financeiro mundial, de acordo com informações.

    2 – Recebeu no primeiro semestre + de US$ 52 bi em investimentos estrangeiros diretos e sádios (IED), sem a preocupação da volateleidade.

    3 – Criou na semana passada + um monstro do Aço, a Guangxi Iron e Steel Group, para aumentar, em dois anos a produção de Aço em 30 milhões de toneladas, com investimentos de US$ 30 bilhões, para ñ depender de importações. Ainda tem a maior reserva mundial de aço, ferro, carvão e petróleo, como o Brasil e que estão sendo exploradas com maior celeridade.

    4 – Exportou até agosto, US$ 937,69 bi e importou US$ 785,69 bi., com saldo positivo de US$ 152 bilhões na balança comercial

    5 – Produziu 501 milhões de toneladas de grãos em 100 milhões de hectares e o Brasil produziu em 46 milhões de hectares, 143 milhões de toneladas de grãos.

    6 – De acordo com dados da ONU, de ontem, reduziu o índice de pobreza de 80% para somente 18%

    7 – Investiu + de US$ 19 bilhões de janeiro a julho de 2008 na construção de ferrovias e projetou a renovação e construção de + 17 mil Km ( incluindo trem bala), com investimentos acima de US$ 150 bilhões

    8 – Mantem relações comerciais com mais de 180 países

    9 – Tem área agricultável limitida a 120 milhões de hectares, o Brasil, acima de 240 milhões, sem vulcões, terremotos, vendaval e uma infinidade de intempéries.

    10 – Mantém, a partir de 2008, um severo controle e monitoramento do capital especulativo estrangeiros e nacional e ampliou as facilidades para atrair o capital produtivo.

    11 – O modelo político chines não diferencia muito da democracia capitalista, quando verificamos que o continuismo familiar impera nos poderes executivo e legislativo, virando um cartel de oligarquias ( veja o exemplo família Bush) no Brasil e no mundo inteiro. Viramos uma democracia cartelizada.

    12 – No regime capitalista, o Estado praticamente perdeu o controle e
    Privativa Lucros e Socializa prejuizos, beneficiando minorias concentradoras de riquezas e somente os Estadois Unidos e Canadá concentram mais de 35% das riquezas mundiais, hoje calculadas em US$ 109 trilhão.

    13 – Em dois anos os chineses já serão os maiores importadores de grãos do Brasil e de comodities , influenciando positivamente na balança comercial.

    14 – Em 2 anos os Chineses já serão os maiores consumidores de produtos asiáticos

    Todas as colocações que estamos fazendo é para mostrar que o BRASIL é muito mais rico do que a China, nas riquezas do solo e do sub-solo.

    A diferenciação básica entre Brasil e China, é a seguinte:

    1 – Os chineses trabalham com Planejamento de longo prazo e que são executados, independentemente de quem está no Poder. No Brasil, temos Plejamento de quatro em quatro anos, deixando uma infinidade de obras inacabadas e gerando um fabuloso desperdício de recursos do Tesouro.

    2 – Os Chineses planejaram a geração de 10 milhões de novos empregos em 2008 e a meta já foi cumprida em 76%. e investem 1,2% do PIB em Tecnologia.

    Queremos mostrar que falta ao nosso querido BRASIL : PLANEJAMENTO DURADOURO E PESSOAS CERTAS NOS LUGARES CERTOS. ENTRE PLANEJAR E EXECUTAR, CONTINUAMOS DORMINDO EM BERÇO EXPLENDIDO.

  12. Jair Lenzi disse:

    CAro JPK,

    Dentre tantas coisas ruins que vemos em nosso país, tais como os Dantas da vida serem libertos sem que se respeite sequer o rito dos recursos por ordem aos tribunais superiores, que afinal é reservado aos que irresignam com as decisões de primeira instancia, é um prazer ler suas cronicas. Isso sem questionar se os Dantas devem ou não ser presos, uma vez lá deveriam entrar na vala dos mortais comuns e buscar o que acham direito e os responsáveis pelo direito, respeitarem o que lhes é determinado.
    Aí voce comenta sobre o intervencionismo americano na economia sob o angulo de que é necessário evitar o risco sistemico de uma quebra geral. Ótimo. Sem novamente me entreter se está correto ou não, fica uma pergunta? Não estamos vivendo uma desordem geral? Podemos até concluir – sem ser americanistas ou contra-americanistas – que afinal eles podem pois exercem desde o pós Roma – o chamado poder de império. Mas nós aqui, meros aprendizes de muita coisa, sem entendermos de quase nada delas, não podemos prescindir de pessoas que escrevem com a tua clareza. Além de se aprender um pouco, voce faz um forte contra-ponto sem se alinhar automaticamente com o produtor da versão.
    Parabéns e que Deus lhe de sempre mais sabedoria para continuar escrevendo e mexendo com o status quo. – Jair

  13. Joel Neto disse:

    Quando o pobre quebra o Estado não socorre. Quando o rico quebra o Estado atua para socorrer os pobres? Isso é conversa de agiota, rentista fazendo o financismo se impor ante o capitalismo. No dia que o Estado aplicar o ditado popular: Quem for forte se aguente, quem for fraco se arrebente, aí sim os capitalismo vão se preocupar com e$peculaçõe$.

  14. José Paulo Kupfer disse:

    Cássio,

    Tentando dar uma resposta á sua pergunta. Acho que, sim, estamos vivendo uma desordem bem grande. Um descolamento preocupante das coisas básicas e reais. Mas, sou otimista. Acho que dá desordem pode nascer o progresso e a melhoria das condições de vida para um cada vez maior número de viventes.

    Abrs.

  15. Joseh Ososdrac disse:

    JPK

    Uma breve observação.
    Vejo da seguinte forma, se o governo americano socorreu o sistema para que não houvesse a quebra em geral, acredito que o governo agiu como culpado pela crise, talvez pelas suas emissões de moedas e titulos afim de arrecadar dinhheiro para suas incursões ou invasões militares no mundo, reiniciada em 2002, onde mostrou sua arrogancia e poder, causando as tais consequencias economicas atuais.

    Nao comparo com periodo Vietnão e região, onde o dolar logo após perdeu o lastro em ouro, petroleo disparou e tudo mais.

    .Abrs

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