Dr. Olavo, um conservador moderno
Morreu, hoje de manhã, o banqueiro Olavo Setubal, o grande empreendedor do grupo Itaúsa – Banco Itaú, Deca, Duratex, Itautec. Estava com 85 anos.
Olavo Setubal foi um dos protagonistas históricos da formação do sistema bancário brasileiro – uma estrutura operacional e tecnológica incomparável no mundo. Engenheiro de origem, o dr. Olavo (todos o tratavam, no contato pessoal, como dr. Olavo, mas se referiam a ele como “Olavão”, menos pelo corpanzil do que pela voz de baixo profundo e a fala arrastada), fundou e consolidou também um grande e em geral eficiente conglomerado industrial, com empresas pioneiras e líderes em áreas tradicionais, como a construção civil e química, e modernas, como a informática.
Olavo Setubal fez parte daquele grupo, hoje raro no Brasil, de empreendedores privados com espírito público. É da estirpe de Roberto Simonsen, Horácio Lafer e Walter Moreira Salles. Prefeito nomeado de São Paulo, foi ministro das Relações Exteriores, nos primeiros tempos do governo José Sarney, e chegou a disputar indicação pelo então PFL ao governo paulista.
Da minha convivência com o dr. Olavo ficou a marca de uma inteligência aguda e a convicção de que podem existir, como ele, conservadores modernos. Nunca esqueci uma conversa com o dr. Olavo, em seu gabinete de prefeito, ainda no Parque do Ibirapuera, na época em que o general João Figueiredo, já indicado à Presidência da República, montava seu ministério.
Faz quase 30 anos, comecinho de 1979. Eu era subeditor de economia da Veja, e fui conversar com o dr. Olavo, juntamente com o jornalista Paulo Sotero, então da editoria de Brasil da revista, justamente sobre a montagem do ministério. Não era uma conversa para publicar, mas para obter informações e entender a movimentação do momento.
Depois de falar um pouco, fazer umas análises meio genéricas e algumas (poucas) conjecturas, ele nos surpreendeu:
- Eu já falei demais. Agora me contem o que estão falando de mim para esse ministério
Desconversei:
- Que é isso, dr. Olavo? A gente veio aqui para ouvir, não para falar. E também não sabemos nada. Por isso mesmo é que viemos procurá-lo.
O dr. Olavo tanto insistiu que, meio constrangido, tentei uma saída::
- Bem, o que se comenta é que o senhor pode ser convidado para o Banco Central.
A resposta veio imediata:
- Isso não interessa. Banco por banco, prefiro o meu.
Sem dizer, era claro que o interesse do dr. Olavo era o ministério da Fazenda. Por isso, ele insistiu:
- Vamos lá, vocês estão escondendo o jogo. O que tem para mim?
Emparedado, abri minha opinião:
- Dr. Olavo, o que eu acho é que os seus colegas banqueiros não querem o senhor no ministério da Fazenda.
Ele deu um suspiro e soltou a frase que nunca esqueci:
- Você tem razão. É isso mesmo. Eles desconfiam de mim porque eu acredito na luta de classes. Nem esperam que eu termine o pensamento. Porque eu acredito na luta de classes, sim, mas acho que é o nosso lado que vai ganhar!
Como o Príncipe de Salinas, de “O Leopardo”, o dr. Olavo sabia que as transformações sociais são inevitáveis. Como Tancredi, o sobrinho de Salinas, achava que era preciso levar em conta o “outro lado” – e mudar, para as coisas ficarem na mesma.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: bancos, Olavo Setubal
Foto: Edu Simões
Não estranhei o artigo-exaltação do jornalista Kupfer. É só ver seu currículo e perceber rapidamente para onde sua balança pende.
Um Olavo a menos na confraria… ruim, mas poderia ser muuuito pior: poderia ter sido eu!
José Paulo, va tomar no Kupfer!!!
Lembra dessa?
Dr. Olavo … meu pai fez parte da escolta presidencial do Banco Itaú por mais de 20 anos, então cresci ouvindo falar desse grande homem. Ouvia relatos do meu pai me contando como aquele homem era inteligente, questionador, preocupado com “pessoas”.
Os anos passaram e tive o prazer de fazer parte do quadro de colaboradores do Banco Itaú. Aí passei a ouvir os “velhos de casa” falarem como a instituição era mais “humanizada” quando ele era o presidente (pois cheguei na Banco na era Roberto Setúbal), e em como era prazeroso trabalhar sob seu comando.
Tive também o prazer de conhecê-lo e apertar sua mão, de receber telegrama carinhoso quando do nascimento de meu primeiro filho enviado por Dr. Olavo e sua esposa Dna Daise.
Meu pai já não trabalha na escolta há alguns anos, mas ainda hoje fala do Olavão como que de um pai ….. e por isso sinto como se houvesse perdido alguém da família …..
Se ele foi corretíssimo ou exemplar eu não sei, mas que deixou um legado extraordinário e fez história, isso não podemos negar.
Dick,
Obrigado pela participação. Posso pedir um favor? Pode me dizer para onde minha balança pende? Fiquei bem curioso. Também queria ter mais detalhes sobre seu método dedutivo. Pode ser?
Abrs.
Prezados J.Paulo e comentaristas,
Mudando de assunto, o governo americano soltou bombástica notícia sobre o crescimento econômico do país, no segundo trimestre.
Se for verdade e for tendência, boa parte do mundo sai da lama rápido – o Brasil não entrou ainda, diga-se de passagem -, mas há controvérsias se estes dados não terão sido um último suspiro estatístico.
Aos que ainda acreditam que não somos uma “ilha” e que devemos acompanhar os acontencimentos na economia global, leiam o link abaixo, que os remete à Business Week on-line.
http://blogdocredito.wordpress.com/2008/08/28/crescimento-da-economia-americana-repercussao-na-business-week/
Abraços,
Fernando
PS: gostei do comentário da Ana Paula (16:18), pela sensatez. Praguejar contra os mortos (independentemente da matiz ideológica) é pouco elegante, para dizer o mínimo. A Ana Paula me faz refletir que tendemos a ser mais generosos com aqueles que nos ajudam de perto, e o finado Dr.Olavo assim o era com aqueles da sua equipe. No entanto, poucos líderes conseguem disseminar uma cultura de tolerância e respeito por suas organizações. Eu nunca estive perto do Dr. Olavo, mas já fiz negócios com empresas do grupo dele e conheci um dos seus filhos – gente boa, simples, roqueiro dos bons, por sinal, assim como eu. Por outro lado, uma vez um diretor do Banco Itaú, da velha guarda, quis me contratar. Mas o sujeito – já aposentado – era de uma arrogância, de uma grosseria, que eu não quis a segunda conversa.
Outro comentário José Paulo,
Você certamente conhece o Alexandre S., ex-diretor da Área Internacional do BC e agora economista-chefe do Santander.
O link abaixo é uma das pérolas do blog dele. É um barato: um festival de acidez….
Abraço,
http://maovisivel.blogspot.com/2008/07/um-dilogo.html
Tb concordo, não é legal praquejar contra mortos não
…mas pros que fizeram, acho que há lá de atenuantes
ainda mais em terras de vivos, bem vivos, por sinal,m que mesmo praquejados, sequer saem chamuscados
por exemplo PRIVATEIROS e empresários que passaram a vida se servindo dos bens públicos
ou daqueles que na “partilha e nomeação” só souberam se servir, fazendo-se conta do tipo “2 pra mim, 1 pros meus, 0,5 pro povo”
VIVOS que só sabem se ter em proporção DESCOMUNAL, o suficiente pra manter sua BILIONÉSIMA geração
que sequer AGRADECEM (ou pagam impostos proporcionais) com filantropia PROPORCIONAL ao enriquecimento e ganhos que tiveram …aliás, retribuição pro país e povo que permitiram que tivesse
vivos, vivinhos da silva, que sequer hoje podem adornar os braços com os braceletes da lei, as algemas
vivinhos que ao longo do tempo se criaram caprichos como:
-Direitos especiais e diferenciados
-fóro especial
-prisão especial
-acessos a INSTÂNCIAS e recursos superiores pra Vips
-prescrição de pena por tempo
-prescrição de pena por idade
-direito a mentira
-direito de não se gerar prova contra si
-direito a enrolar e adiar, postergar e embromar
-penas apenadas e SEMPRE reduzidas
-processos que se arrastam mais que 3 anos
-não PRENDER mesmo após prova provada, gravada e filmada
-prisão só em flagrante, mesmo depois do réu confessar
-DESCONSIDERAR provas mesmo que os méritos sejam VERDADEIROS
-acessar juiz ou justiça só com o advogado do lado, advogado sindicalizado e de honorário TABELADO
…e nosso países esta cheio desses vivinhos, muitos já mortos
Qto ao OLAVO, foi um cara realizador SIM, nasceu bem mas fez por merecer, agora, LONGE de ser santo ou paradigma de HOMEM PUBLICO
Prum cara que viveu como sendo UM DOS DONOS da terrinha, convenhamos, ele tem muito a ver com nossos ossos no armário
…e não era um dono qq, era dono de BANCO, atividade que se acostumou a retornos de 25% aa nos [últimos 20 anos. PAPAGAIO ?! não exsite almoço de graça, alguém pagou pela fuzarca, quem? quem? Raimundo Nonato?
Qta a mentira e falsos líderes, conceitos ou idéias ajudou a plantar? Vai saber …levou pro túmulo
Sei duma característica interessante DELE …ele carregava no “gen” a vontade sempre de DOMINAR, de ser o único …sei de famosos “inimigos” que só o foram pq se “atreveram” a abrir concorrência pra algumas das suas empresas
E o que dizer das terras incentivas e reflorestadas?
pobre liberalismo, pobre mundo de aparências
“Porque eu acredito na luta de classes, sim, mas acho que é o nosso lado que vai ganhar!”
Kupfer, fiquei chocado com essa frase. Muito triste ver todos os meios de imprensa louvando um homem que ocupou tantos cargos publicos e tinha a coragem de manifestar esse tipo de opinião.
Pelo tom do seu texto, não entendi direito se vc achou essa frase sabia ou cinica.
E vc kupfer, qual é o seu lado? O dos banqueiros ou o dos brasileiros?
España registra la mayor alza del paro de toda la eurozona en julio
ELPAÍS.com
El calado de la crisis lleva el desempleo español al 11% frente al 7,5% del resto de sus socios. -España y Reino Unido hunden la confianza económica
Alessandreo,
Obrigado pela participação. A frase não me chocou nem um pouco, ao contrário, achei marcante. Na minha interpretação, ela mostra um homem que sabe como funcionam as estruturas sociais e históricas e sabe a que classe pertence.
Na verdade, quando disse a frase, o Dr. Olavo apontou para o janelão do gabinete, como diz que tinha consciência de que deveria governar de olho na maioria que não fazia parte da elite a que ele pertencia, sob o risco de, isso sim, ser sacado na marra.
Se você leu bem o meu texto, não faço uma exaltação. Mas, louvo sim, o empresário – e banqueiro – que dá valor à Política.
Quanto à sua pergunta, eu, você e todos os banqueiros aqui nascidos ou que aqui decidiram viver, para mim são brasileiros.
Agora, não há a menor dúvida de que não sou banqueiro.
Abrs.
Ser banqueiro no Brasil, cobrando juros acima de 150% a.a., é fácil. Queria ver o Itaú, Bradesco e Unibanco irem para o varejo no Chile ou na Colômbia. Iriam quebra. Lá os juros que eles cobram é uma fração dos cobrados aquí.
Pende para o lado de quem esta mandando, meu caro. Sempre.