Doping na maratona financeira
por Fernando Blanco*
Lamentavelmente, virou moda no mundo dos esportes o uso de drogas anabolizantes e estimulantes. Como alta performance e recordes trazem muito dinheiro para atletas (e para toda ‘cadeia alimentar’…ou será ‘vampiresca’?), estes passaram a se dopar no intuito de obter melhores marcas, no mais curto período de tempo. Desta forma, mesmo atletas medíocres passaram a colher resultados antes jamais sonhados.
Analogamente, fenômeno similar se deu com a economia americana: consumista por excelência, esta acabou por se viciar em crédito para poder continuar comprando freneticamente, mesmo sem recursos econômicos para tal. O crédito tornou-se, para muitos, uma espécie de anabolizante creditício, que viabiliza o consumo antecipado e/ou exagerado de agentes econômicos desprovidos de liquidez para tal.
Assim como esportistas medíocres se tornam, temporariamente, campeões, economias que deveriam crescer a 0% ao ano acabam crescendo a 2 ou 3%. Cidadãos que poderiam trocar de carro a cada quatro anos, o fazem em dois. Ou quem deveria andar de ônibus e guardar dinheiro para momentos de crise, compra um carro financiado e fica sem dinheiro para consertá-lo quando quebrar.
As tão faladas “bolhas” são infladas pela entrada maciça de recursos (financiados por bancos e fundos) e que valorizam um determinado ativo em um determinado país. Foi assim na crise do subprime americano e em todas as demais.
E no Brasil, estamos livres desta praga no momento (e do momento)? A boa notícia é que aqui não existe crédito abundante e barato a ponto de podermos estruturar ativos exóticos como fizeram os americanos. Lá, estão até hoje contabilizando perdas bilionárias e ninguém (!) sabe até onde isto vai chegar. Mas atenção, o menor dos problemas está no fato de investidores e bancos gananciosos terem perdido fortunas. O drama americano, que contaminou o planeta, está na crise sistêmica de confiança que hoje impacta diretamente a capacidade do sistema de prover crédito ao cidadão e ao empresário. É como se tirassem o anabolizante do atleta antes da prova: além da crise de abstinência (questão puramente química), ele terá uma performance medíocre. É isto que está acontecendo com os americanos – e tende a piorar.
Voltando ao Brasil, aqui também temos uma ‘bolhinha’ e ela se concentra no consumo das famílias. Note-se que o volume de crédito na economia subiu de 22% para 36% do PIB no governo Lula. Foi bom? Foi, pois o país cresceu e em boa parte foi graças a isso. Mas cresceu rápido demais. Estou convencido de que deram esteróide anabolizante creditício para muita gente! Não que os tais 36%, em termos absolutos, sejam muito crédito – e não o é em país algum do mundo: é pouco! O organizado e estável Chile vive muito bem com 60% do PIB – e lá ninguém reclama de falta de crédito ou se preocupa com risco sistêmico algum.
Os neo-endividados – a qualidade da educação brasileira, todos sabemos, é sofrível. Como conseqüência, temos um igualmente desolador quadro de (falta de) educação financeira, que deságua na mais trágica ausência de conhecimentos sobre a dinâmica e a gestão do crédito em nosso país. E a coisa não se limita à diarista, ao porteiro do prédio ou ao taxista, não! A coisa se espalha nos meios empresariais, com especial destaque para os simpáticos, necessários e elogiáveis empreendedores. Estes se endividam mal, pagam mais juros do que precisavam pagar e vivem sob crônica e incômoda sensação de baixa liquidez.
Existe um grande número de indivíduos e empresários que nunca havia tomado crédito para valer. Com a oferta escancarada, foram seduzidos a se endividar por prazos longos e, pior, com alto comprometimento da renda. Estes são os neo-endividados: um pessoal bem intencionado, mas mal preparado para lidar com os riscos e as dores de cabeça que o endividamento traz.
Chegamos a esse quadro aqui no Brasil porque emprestadores e tomadores partiram de um pressuposto errado: o de que o Brasil era/é/continuará blindado contra as mazelas americanas. Ledo engano. Num capitalismo globalizado ao extremo, parece-me ingenuidade imaginar que com os grandes mercados consumidores do mundo – EUA e União Européia – à beira da recessão, mais China e Índia cheios de desequilíbrios internos, a começar pela inflação, o Brasil sairá ileso desta tormenta. Isto posto, quando a economia desaquecer por aqui, o desemprego aumentará, a renda real do trabalhador diminuirá, o crédito estará caro (ou sempre foi?) e mais escasso porque a inadimplência também terá aumentado.
Assim como o doping esportivo convencional leva a resultados desastrosos no médio-prazo (caso das punições esportivas, multas, fim de carreira e diversos tipos de câncer para aqueles que exageram na dose), o excesso de crédito também pode arruinar a vida de indivíduos, empresas e países.
Como sugerimos antes, os EUA foram pegos no exame antidoping nas ‘Olimpíadas Econômicas’. E se lá a situação é dramática por ser sistêmica, aqui o doping creditício também fará estrago, só que num grupo mais segmentado, majoritariamente formado por neo-endividados.
A dúvida é quando isso acontecerá e não se acontecerá.
(*) Presidente da subsidiária brasileira da seguradora de créditos comerciais francesa Coface e autor do blog http://blogdocredito.wordpress.com
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Convidados Tags: bolha financeira, crédito, endividamento, Finanças
Foto: Edu Simões
Não concordo com estes argumentos.
Os brasileiros da classe pobre(D e E) sempre viveram endividados.
Aliás, são bom pagadores.
A fonte de financiamento, até bem pouco tempo, é que era
‘oculta’.
Quem desconhece que agiotas, dos mais variados tipos,
financiam o povão, com juros criminosos, há muito tempo?
Quem desconhece as ‘caixinhas’ nas empresas(fundo mútuo)?
Quem não sabe de um ou outro, no bairro, que empresta a juros?
E os fiados nos comércios da periferia?
Na verdade, o crédito se tornou oficial.
E a renda média do brasileiro cresceu.
E vale perguntar, quanto deste percentual do PIB é crédito
consignado ou vinculado a aposentadoria, que tem juros bem
mais baixos, além dos financiamentos de imóveis. via CAIXA e BB, que também tem juros mais acessíveis.
Achei o texto e concordo que é muito bom e muito bem escrito. Transcrevo parte do comentário que escrevi antes no texto que se refere a este. Engraçado como ele ainda se encaixa.
“Concordo que o nosso crédito é estúpido, mas muitas vezes me pego imaginando como é que as pessoas que podem não recorrer a esse expediente, continuam alimentando esse câncer.
Não, não acho que isso seja ‘doença de brasileiro’. Basta olhar os EUA… Na verdade, a legislação precisa proteger as pessoas da sua própria cobiça e da esperteza alheia. Provavelmente é o que ocorre na Europa, que precisou de alguns séculos, guerras e alguns grandes pensadores e escritores. Poderíamos aprender a fazer isso mais cedo”.
O comentário de Bob Jeff é oportuno, no entanto. Acho que, dado o crédito caríssimo que temos, o efeito será realmente de menor monta.
O alerta é importante, mas acho que deveria se esclarecer a participação e a evolução no montante do crédito de cada segmento: pessoal, cartão de crédito, crediário, financiamento imobiliário, leasing, capital de giro e o destinado à ampliação de empresas.
Por outro lado, gostaria de saber também se os últimos aumentos na SELIC têm reduzido a oferta de crédito, já que, todos sabemos, não têm nenhuma influência sobre a demanda por crédito.
Tudo bem, mas… se:
“Chegamos a esse quadro aqui no Brasil porque emprestadores e tomadores partiram de um pressuposto errado” (o de que o Brasil era/é/continuará blindado contra as mazelas americanas).
E se:
“os neo-endividados (são) um pessoal bem intencionado, mas mal preparado para lidar com os riscos e as dores de cabeça que o endividamento traz”
Ou seja, há os mal preparados e os que assumiram pressupostos errados….
por favor!!! esses têm mesmo é que quebrar a cara!!!
Pois, pois… Kupfer,
Os parâmetros dados, nominadamente os referente aos EUA, estão escondendo um dado:
O endividamento dos EUA pelas ações militares e indústria de guerra;
A emissão desordenada de moeda para custeio de ações de guerra.
Dados aos quais o Brasil escapa, olhando da janela o cachorro no meio do tiroteio!
Tenho 70 anos, e sempre conheci o Brasil assim, quando melhora um pouco, se enrterram na dívida, o país sofre e em longos anos sempre voltou a se arrumar, quando melhora, gasta demais, se endivida e vem novo retrocesso. Em resumo nunca sai da rotina, mas no sobe e desce tem sobrado ainda pouco de positivo, que são os poucos anos em que o PIB do brasil cresceu. Ver que nos ultimos longos anos foram curtos de crescimento. NUNCA VÍ O BRASIL DIFERENTE, sempre desse jeito. Hoje vejo dois males no Brasil, ENDIVIDAMENT0 INDIVIDUAL DAS PESSOAS, DAS FAMILIAS e MULTINACIONAS (quero dizer filiais de multinacionais) Se a matriz sofre lá fora, o Brasil ajuda pagar o que é crize do pais onde está a matriz. E tem um outro negócio que não é saudáve: Plantar Cana e outros para trasnformar em combustiveis, quando a terra é para produzir alimentos.Imagine quanto melhor estaria o Brsil nessa hora se estivesse produzindo e vendendo a produção, se fosse só de alimentos… E neste setor sofremos menos concorência, e não vai ser bem assim que o mundo vai se safar da fome.