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18/08/2008 - 07:30

Pré-sal: ideologia barata sai caro

O petróleo contido na camada pré-sal da costa brasileira ainda está lá inerte, mas as imensas reservas estimadas, embora ainda adormecidas, já se transformaram em combustível de uma disputa que promete lances pesados.

No largo espaço que vai da posição de deixar tudo como está, mantendo o modelo de concessões de exploração fechada dos campos, à defesa de uma mudança completa, com a reserva da área ultra-promissora a uma nova estatal, independente da Petrobras, são muitas as idéias que, depois do tiro de partida dado pelo presidente Lula, estão correndo na pista.

Nada será decidido tão cedo, nem a produção é para já. Antes de tudo, investimentos de muitos e muitos milhões de dólares terão de feitos para dimensionar com mais exatidão o tamanho da coisa, a conformação dos campos e as dificuldades de exploração. Mas, apesar de alguma gritaria contra, a discussão, já agora, é oportuna.

Um dado modelo, eventualmente adequado em certos momentos, pode se mostrar inconveniente em outros. As projeções das reservas contidas na camada pré-sal são de tal monta que sustentam a noção de que o modelo atual pode deixar de ser adequado, como teria sido até antes das novas descobertas.

De todo modo, vai ser dureza desenhar o novo modelo. Sobram interesses para todos os lados. Para começar, os da própria Petrobras e das empresas que investiram na prospecção das áreas. Para terminar, a questão dos royalties pagos a estados e municípios produtores. No meio, os acionistas da estatal e os investidores potenciais.

Nenhuma dificuldade no caminho das soluções para tantos conflitos de interesse, no entanto, deve ser invocada para fugir de uma revisão do marco regulatório, necessidade óbvia diante da nova situação das reservas.

Pode-se discutir, por exemplo, se a Petrobrás e seus acionistas já não foram devidamente recompensados pela elevação das cotações da ação da empresa, no período imediatamente posterior ao anúncio dos achados. Ou, também, por exemplo, se não é o caso de indenizá-los de alguma forma.

Também em relação à nova estatal que cuidaria da gestão das reservas, é possível discutir sua oportunidade, sem esgares ou xingamentos. Não é tão complicado evitar o espectro do cabide de empregos e de outros fantasmas do velho estatismo brasileiro.

À semelhança do modelo norueguês, que tem sido mencionado em esferas de Brasília como modelo a seguir, pode-se também, como na Noruega, restringir em lei o número de funcionários da empresa (na Petoro norueguesa, eles são um máximo de 60 profissionais) e atrelar seus orçamentos e planos de negócio à aprovação do Legislativo.

É preciso encontrar um consenso sobre o que se quer fazer – e, talvez, não fazer – com as novas reservas. Com o potencial de difusão do etanol e de outros combustíveis alternativos, manter reservas estratégicas de matéria-prima fóssil não renovável, como fazem, por exemplo, os Estados Unidos, é um ponto a considerar.

De outro lado, se temos um pingo de responsabilidade com as futuras gerações, é obrigatório pôr em discussão o destino da riqueza contida no pré-sal. Lula quer dirigir recursos para a educação e não é com a repetição do surrado mantra de que o problema da educação não é de dinheiro, mas de gestão que chegaremos a algum lugar que valha a pena.

Também nessa nova e promissora história do pré-sal, ideologia barata sai caro. Seu preço, altíssimo, é um eterno atraso, pago na moeda das injustiças sociais.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , ,

18 comentários para “Pré-sal: ideologia barata sai caro”

  1. Romanelli disse:

    Qtos interesses e interessados? Qtos maiores que os da imensa maioria da população?

    Desse jeito começo a acreditar que o Chaves esta certo

    Já desperdiçamos o pau brasil, ouro, diamante, borracha. Já demos muito de nossas matas, dos solos férteis, mercados, inclusive das reservas minerais e dos MAPAS c/a CVRD …o que mais agora?

    Os investidores da Petrobrás ou outros quaisquer JAMAIS contaram com tamanha sorte (inimaginável a qq risco)

    Qtos brasileiros participam do “mercado” e dela? NÃO SERIA UMA BOA OPORTUNIDADE?

    Será que a verba tem que ser carimbada, pra depois, se sobrar, desperdiçada?

    Nossos doentes terão que esperar, a saúde, os presídios, os transportes coletivos, a justiça, nossa rede de proteção social, NOSSOS MERCADOS cartelizados, a infra-estrutura? tá tudo bom, não precisa de intervenção? então?!

    Acho que a grana tem que ir pro Estado que precisa ser redesenhado, não deve ser engessado, engessado pra facilitar do assalto. Tem que ser melhor administrado, mas TAMBÉM tem que atuar aonde as forças, carências e necessidades são assimétricas e pedem providências

    Quem sabe com o tempo tal dinheirama facilitaria nossa tarefa em buscarmos substitutos a estes impostos tão injustos e regressivos que mantemos, não?

    mas que …já tô vendo …daqui a pouco vão surgir daqueles que defenderão da privada pra guardar o que é público

    AO povo mesmo só sobrará mais do mesmo, cantar o hino, louvar a bandeira, jurar os filhos pra guerra (ou aeroporto) e torcer pro Brasil que nunca foi deles….

  2. josé paulo kupfer disse:

    Romanelli,

    Bem-vindo à casa redecorada. Você foi o primeiro, depois de uma certa dificuldade na migração.

    Aguardo os demais e a todos peço um pouco de compreensão com as dificuldades iniciais de adaptação.

    Abrs.

  3. Dulcinéia disse:

    Parab´nes pela casa remodelada e pelas inquietações que nascem das oportunidades.
    Na falta de consenso ou de projetos unânimes, só espero que o pré sal não fique pra história como mais um capítulo da série ” se fosse o que seria…”
    A busca pela perfeição costuma gerar um permenente estado de inércia. Que não vá pro sal essa reserva de esperança!

  4. Ligelena disse:

    Achei muito interessante este post

  5. Ligelena disse:

    Concordo, Zé Paulo!

  6. Bob Jeff disse:

    Espero que todos os interessados não pensem apenas nos bônus do pré-sal mas, também nos ônus .
    Quem desembolsa os investimentos para exploração?
    É o estado ou o município que se pretende ‘dono’ das reservas?
    Não, é o GF via BNDES , o orçamento da estatal e financiamentos
    externos.

  7. Luis Marcelo disse:

    Se riqueza natural fosse sinônimo de IDH a Suécia seria no oriente médio. É importante que o centro das discussões seja o que esse achado significa para toda a nação brasileira e não somente para alguns poucos.
    OBS: Acho difícil que nossa indústria naval dê conta de tanta demanda.

  8. Eládio disse:

    A Petrobrás vem investindo pesado, ha mais de meio século, para tornar o país auto-suficiente em petróleo. Os recursos para esses investimentos foram oriundos do trabalho, competência e dedicação dos seus empregados, que a tornaram uma empresa altamente eficiente. Sendo ela, talvez a única estatal auto-sustentável. Ou seja: sempre se manteve com seus próprios recursos, além de dar suporte ao orçamento da união em diversas oportunidades. Agora que essa auto-suficiência foi alcançada, querem lhe tirar o seu produto, a sua matéria prima, que é incorporada ao seu patrimônio, que é o componente mais importante de uma empresa. Se existe algo errado com os destinos dos lucros da Petrobrás, por que só agora isso vem à tona?

  9. Kupfer,

    Em primeiro lugar, parabéns pela reforma da casa. Parece estar bem melhor.

    Em segundo lugar, você saberia me dizer quem teve a “brilhante” idéia de criar uma nova estatal para explorar as novas reservas de petróleo?

    Abr.

  10. Romanelli disse:

    BOB JEFF

    Segundo o bairrista PHA, tudo deveria ir pra Macaé e seus vereadores

    CLARO que os recursos, pra mim, deveriam ir pra FEDERAÇÃO que trataria de reparti-los com critérios técnicos (verba por mil/hab etc) e estratégicos

    E sobre quem financia?

    FATO, é um excelente investimento, senão não estaria havendo este jogo de intrigas. MUITO melhor que o rendimento pago por uma dívida publica. Se é bom pro banqueiro tem que ser bom pro brasileiro

    APOSTO que tá cheio de fonte externa que abre linha de financiamento pro Estado. Com a exploração, de RESULTADOS CERTOS, se paga em digamos 5-10 anos …e um abraço …pros próximos 400 anos é do POVO, do ESTADO, e não de George Soros …ou de Japonês, tipo a CVRD

    …preliminares, só da área de Santos, já teve uns que chutaram US$ 20 trilhões

    Imagine, se o BR, c/estas receitas, somar os impostos duma VERDADEIRA reforma tributária JUSTA (CPMF + IR+ IVA + comércio exterior + s/produtos especiais) e diminuir o pagamento com JUROS de agiota, acho que ninguém segura

    Claro que temos que ficar atentos a jogos de interesses menores. Enquanto a FEDERAÇÃO pode determinar, regular e fiscalizar o volume e velocidade da retirada, o mesmo compromisso pode NÃO ser tão importante pra um outro país ou empresa

    ..ainda mais c/reservas gigantescas que poderiam afetar os preços …HÁ fatores geopolíticos envolvidos

    Já ouvi que às vezes um poço de óleo se “esgota” por ter sido MAL e rapidamente explorado? Se esgota tendo ainda muito óleo por ser retirado?

    E aqui um lembrete, não devemos nos iludir, as pressões ambientais, somadas as novas fontes de óleo (Alasca, Antartida, Artico, Russia etc) de energia (permafrost – gás) e de tecnologias (células solares, eólicas, células foto-sensíveis, de combustíveis e baterias etc) pressionarão p/que o preço RELATIVO não continue a ser esta “brastemp”

    é como diz o meu vizinho, “pobre, qdo chove sopa, tá sempre de garfo”

    JPK

    Desculpe, sou meio desligado, parabéns pelo novo visual. Verdade é que não ligo muito pras aparências. Interessa mesmo que o conteúdo aqui continua a ser MUITO BOM, com ou sem fru-fru

    ahh sim, mas que eu fiquei honrado de ter sido o 1o (meio que sem querer) fiquei

  11. outro leitor disse:

    Creio que o regime de royalties do petróleo atualmente implantado é uma mera cópia da legislação de outros países, não levando em conta as particularidades brasileiras.

    Nossas reservas estão em alto mar, e caso haja algum impacto ecológico, quem vai pagar a conta é a União, de todo jeito.

    Por outro lado, a reforma tributária também prevê que o imposto seja arrecadado no destino, o que corrige a situação de um município produzir petróleo, que não é tributado, e ter arrecadação reduzida em relação à sua população.

    Manter os royalties como estão hoje agravaria ainda mais as disparidades regionais e os conflitos intra federativos. Minas Gerais, por exemplo, veria-se tentada a aumentar os royalties sobre hidrelétricas e mineração, e até a criar outros, por exemplo, para manter o Rio São Francisco revitalizado. Os amazônidas poderiam criar ainda outros, para manter a floresta em pé. O Juca seria levado, mais uma vez, pelo Nordeste.

    Como diria o avô do Aecim, não podemos nos dispersar… olha só a situação da Bolívia.

  12. Jorge Silva Aaraujo disse:

    Jose Paulo eu acho que nos temos dois obstaculos na questão do pré-sal.
    O primeiro e nosso velho e conhescido modo de tratar questões imprescindiveis. Com morosidade e enterece proprio dos nossos politicos.
    O segundo vem como uma ameaça eminente dos nossos vizinhos da america do norte (EUA) que pode ser apenas o primeiro numa vasta lista de inimigos que o nosso pais que realmente e terra de todos pode ter ao longo dessa jornada.
    Obrigado e vamos torcer para que tudo de certo.

  13. Eduardo CPQ disse:

    Caro João Paulo,

    Visito este local, não muito freqüentemente, confesso, e quase sempre fico de acordo com suas posições marcadas pela sensatez e equilíbrio.

    Anteontem, por quase acaso, soube da existência de um geólogo aposentado da Petro-brás, que deu uma entrevista numa TV ou rádio do Rio de Janeiro.

    Fui ao Google e procurei, armado com o que dispunha, o nome João Vitor Campos.

    Não achei a citada entrevista, mas encontrei uma outra pequena entrevista, dada a uma dita Agência Petroleira de Notícias, em 18 de abril passado. Assunto: pré-sal

    Achei também um longo artigo, de 18 de março de 2.008, intitulado “A orquestração e seus reflexos”.

    Neste texto, bastante técnico, mas acessível e didático, ele coloca dois pontos, para mim fundamentais, mas que não aparecem na mídia. Os dois pontos aqui são três:

    1 – Quem investiu, para valer, objetivando conhecer as entranhas do pré-sal, desenvol-vendo meios de explorar e produzir em águas ultra profundas (mais de 2.000 m), pesqui-sar e encontrar meio de atravessar a camada de sal com segurança, desenvolver mode-los de interpretação dos dados sísmicos tão refinados, que permitem furar “na mosca” de campos do pré-sal, trabalhando neste empreendimento por décadas para agora, encon-trar hidrocarboneto potencialmente superabundante lá, foi uma única organização chama-da Petrobrás. Hoje, é a única capaz de retirar o óleo lá do fundo, gerando riqueza. Então, se temos tudo, incluídas fome e pobreza, por que dividir?

    2 – O sistema vigente de concessão não serve porque dá a propriedade do óleo desco-berto ao descobridor, que controlará a produção. Quem não procurará o retorno do inves-timento o mais rápido possível? Isto significará o que? Predação. No artigo do João Vítor, dois parágrafos mostram um caso real. Veja:
    <<<>>>

    O exemplo do México não é o único. Assim, para mim, o ponto central da mudança das regras é passar o controle da produção para o Estado, de alguma forma.

    3 – Agora, com a viabilidade de Tupi, pelo menos, tendo a Petrobrás já encomendado à Mitsui a construção e posterior locação de um FPSO (navio para perfuração, produção e armazenamento), que deve estar aqui no final de 2.010 para produção provisória de 100.000 barris por dia em Tupi, apareceu a nova “tecla da vez”, o investimento exigido, começando com US$ 600 Bi e já ampliado para US$ 1,25 Tri e que nem a Petrobrás nem o Brasil poderiam suportar, necessitando de recursos externos… Bem, com a existência do produto e os meios de obtenção comprovados, pode-se obter financiamento e, mais, não é preciso ir com toda a sede ao pote, se por mais não fosse, o aprimoramento das tecnologias poderão reduzir os custos no decorrer do tempo e a tendência, no longo prazo é de preços crescentes… vamos devagar com o andor.

    Abraço

  14. Eduardo CPQ disse:

    João Paulo,

    Eis a transcrição “censurada”. Espero que agora…

    <<>>

    Até

  15. Eduardo CPQ disse:

    JP, agora vai porque EU reescrevi!

    Até

  16. Eduardo CPQ disse:

    JP, Agora vai porque reescrevi

    <<>>

    Até

  17. Eduardo CPQ disse:

    João Paulo,

    Desculpe a lambança.

    Se quiser o material, envie seu E-mail para eu encaminhar a matéria do João Vitor.

    Por alguma razão, o trecho não vai.

    Abraço e bom fim de semana.

  18. Eduardo CPQ disse:

    JP, sou teimoso e vou verificar se foram as seta. Pela última vez

    Como resultado, as reservas mexicanas que atingiam 56,37 bilhões de barris em 1990, passaram a cair vertiginosamente a partir de 1995, passando de 50,78 bilhões a 12,62 bilhões em apenas 8 anos. Durante todo este tempo, o México figurou como o 2º maior exportador de óleo para os EUA, só perdendo para a Arábia Saudita.

    O PRI, antigo partido mexicano da situação, usou estes dados para acusar o governo Vi-cente Fox de dar prioridade à exportação para obtenção de lucro a curto-prazo, adotando uma política de aceleração da produção de óleo em detrimento do interesse nacional em aumentar as reservas.

    Vamimbora!

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