Corrosão do caráter
Pode haver mais relações entre as ações do operador financeiro Jérôme Kerviel e as turbulências no mercado financeiro global do que as monumentais perdas que ele supostamente impôs ao Société Générale. Como se sabe, Kerviel, de 31 anos, é acusado de ter realizado operações fraudulentas que resultaram em prejuízos gigantes de 5 bilhões de euros ao banco para o qual trabalhava.
Preso no fim de semana, Kerviel foi solto na segunda-feira. Foi liberado porque, segundo alegaram seus advogados, não houve enriquecimento ilícito nas tramóias que armou. O operador confessou que operou como operou e no nível em que operou (a Société Générale informou que, em dois anos, seu funcionário comprou, em nome do banco, quase 50 bilhões de euros em ativos) de olho num bônus de desempenho de 300 mil euros.
Os bônus de desempenho são, crescentemente, a parte mais importante da remuneração de executivos mundo afora. A um salário fixo, normalmente modesto, as empresas oferecem a cenoura, normalmente generosa, da distribuição de parte dos ganhos que os funcionários obtêm com os negócios que realizam em nome delas.
Nesse sentido, o jovem bretão, embora tenha entrado para a história como o maior fraudador individual até agora conhecido, não é, em termos substantivos, uma exceção. Parece perfeitamente encaixado nas regras típicas do relacionamento contemporâneo das empresas com seus empregados. A principal diferença é que Kerviel carregou mais – ok, muito mais – na mão do que a imensa maioria dos executivos de hoje.
De todo modo, não dá para acreditar que suas ações, no volume em que se deram, tenham escapado dos controles da Société Générale. Mais cedo ou mais tarde, vai aparecer a conivência do banco com as operações de seu funcionário. Impossível tão poucos enganarem tantos por tanto tempo. Mas essa é outra história.
Já se fala que alguma regulamentação e algum limite em relação aos bônus pagos por desempenho a executivos teriam de fazer parte do projeto de reforçar a supervisão bancária, reclamado agora por todos no mercado financeiro. Há mesmo quem coloque no centro da crise – e da solução dela – o sistema de bônus e a ganância que ele alimenta em jovens executivos rapidamente acostumados a uma competição desenfreada.
Pode não ser tudo isso, mas, de fato, não é de hoje que as relações das empresas com seus funcionários vêm mudando, em meio a um ambiente empresarial também aceleradamente mutante, no rumo da aceleração e dos objetivos de curto prazo. Há sempre alguém vendendo, comprando ou juntando empresas em ritmo vertiginoso.
Culturas corporativas, longa e pacientemente construídas, são dissolvidas da noite para o dia, afetando, sem aviso prévio e quase nunca para melhor, a vida de milhares de empregados e suas famílias. A velocidade e o curto prazo estão na base da flexibilização das relações de trabalho, tida e havida como marca da modernidade – e da eficiência econômica.
Há dez anos, o sociólogo americano Richard Sennett, professor da London School of Economics, conhecido autor de livros e ensaios sobre os impactos das novas formas de trabalho no comportamento social, publicou um pequeno estudo em que projetava as possíveis conseqüências das modificações em valores pessoais e no próprio significado do trabalho, a partir do primado da flexibilidade nas relações trabalhistas. Chama-se “A corrosão do caráter”, foi publicado em 1998, está traduzido em português (editora Record, 204 páginas, tradução de Marcos Santarrita). Como diz o subtítulo, é um esforço para captar “as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo”.
Richard Sennett observava, já em 1998, que o abandono do longo prazo e a ascensão do que ele chamou de “capital impaciente” ditavam as novas regras. Os exemplos mencionados no livro impressionam: na década de 90, um jovem universitário americano deveria esperar mudar de emprego pelo menos onze vezes ao longo de uma carreira de 40 anos. Nos 20 anos anteriores à publicação do livro, segundo Sennett, o tempo médio em que investidores americanos e britânicos mantinham as mesmas ações reduziu-se em 60%.
O reino do curto prazo, escreveu Sennett, é o da formação de equipes para a realização de projetos específicos, do trabalho segmentado e temporário. Não há tempo para que se consolidem obrigações formais, compromissos mútuos ou senso de objetivo. Estes são valores de longo prazo, fundamentais para a família, mas cada vez mais ausente nas empresas. “Esse conflito entre família e trabalho impõe algumas questões sobre a própria experiência adulta”, escreve Sennett. “Como se pode buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis?”, indaga ele. “O capitalismo de curto prazo corrói o caráter, sobretudo aquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros”, conclui Richard Sennett.
Qualquer semelhança com Jérôme Kerviel e com tantos outros no mundo corporativo e financeiro atual não é mera coincidência.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
Foto: Edu Simões
José Paulo Kupfer,
Ler Richard Sennett e escrever um artigo como o seu…, tudo isso já é cuidar do longo prazo…, conservar um pouco do mundo…
O dinheiro todos sabemos que leva a conquista de um mundo novo mas o preço pago é muito alto se duvida coloque o dinheiro em primeiro lugar em sua vida e depois de passado um certo tempo volte a afirmar da mesma forma, abraço
DUAS ESTÓRIAS NADA EDIFICANTES
1. Um israelense apaixonou-se por uma aeromoça brasileira, da Lufthansa, casou e veio morar no Brasil. Dominava técnicas de irrigação por gotejamento, desidratação de frutas… e resolveu investir no ramo. Associou-se a um grupo de empresários e, numa rotina de exportação, constatou que um funcionário da empresa estava “subtraindo” pequenas quantias por meio de corriqueiros “expedientes”. Muniu-se de provas, procurou seus sócios e pasmou-se: eles já sabiam desde sempre. Entre boas gargalhadas, a explicação: em troca dos pequenos desvios para seu bolso o empregado prestava-se a grandes desvios para o bolso dos patrões. Era um “laranja” consciente e garantindo o caixa dois dos patrões garantia seu emprego e o pão de seus filhos. Era boa pessoa e agia com naturalidade. Ingênuo, meu amigo israelense demorou um pouquinho para descobrir que essas práticas vicejam em tomo o mundo globalizado.
2. Uma empresa jornalística sobrevivia por duas gerações da família de seu criador e proprietário. Seus funcionários – publicitários, gráficos, jornalistas, motoristas, porteiros, auxiliares administrativos – formavam uma grande, eficiente e feliz família. Todos prosperavam e, como sói, mais os patrões. A terceira geração, formada nas melhores escolas e na melhor sociedade, a seu tempo assumiu a organização. De início, passou a exigir dos novos funcionários que assinassem contrato abrindo mão de vantagens concedidas espontaneamente pelos antigos patrões, tais como hora extra em dobro aos domingos, adicional noturno a partir das 18 horas… E chegou ao ponto de exigir que se entregasse a caneta bic vazia na solicitação de uma nova. As medidas foram introduzidas após consultoria prestada por economistas pós-graduados. Um choque de gestão. Um desastre!
Francisco Hugo Vieira de Freitas
chicohugo@superig.com.br
Essa parece aquelas histórias bem comuns em certo país da América Latina aonde os cachorros grandes chegam pro pé-de-chinelo e ditam: “ô georgina, assina aí e assume tdo sozinho q nós cuidaremos bem d vc, no bom sentido claro hehehe”. Outro livro interessante sobre assunto embora tb passados quase 20 anos é o incomodamente hilariante “Liar’s Poker” de Michael Lewis, escrito do ponto d vista não d 1 acadêmico ou teórico mas d 1 operador e prático
@jpkupfer
Não ficou claro pra mim.. Afinal, você acha que essas mudanças nas relações de trabalho são ruins ou são boas?
Kupfer,
Interessante, também, do mesmo autor é “O Declínio do Homem Público”. Bem mais parrudo, trata da individualização e “psicologização” da vida moderna…
Para mim o Banco sabia. Quando a situação ficou irreversível botou a culpa imediatamento no operador.
Caro JPKupfer
o mais grave do que você aponta é a influência dos valores imediatistas na vida cotidiana das pessoas.
De fato, o capitalismo contemporâneo — extremamente calcado nos aspectos financeiros (ainda que, como dizem muitos, esses aspectos possuam íntima relação com a “economia real”) — não prima pela construção de laços sólidos.
No domingo passado, o Estadão publicou uma entrevista com sociólogo Zygmunt Bauman que recomendo a todos os interessados por essa questão. Entre outras coisas, ele aponta para uma dissolução dos laços sociais em geral, num processo que ele denominou de “liquefação” das relações.
As consequências desse estado de coisas ainda não são totalmente conhecidas embora já possamos ter uma pequena idéia …! O mais grave, a meu ver, é a perda de valores fundamentais para a construção de qualquer sociedade razoavelmente saudável, tais como a consideração pelo outro (em sentido amplo). Se meu horizonte é curto, o outro adquire uma dimensão meramente instrumental. Como não acredito que a História está escrita (ironia: antigamente os marxistas acreditavam num movimento inexorável da História rumo ao Socialismo; hoje são os neo-capitalistas que pensam que estamos no único mundo possível, quase como se estivéssemos numa espécie de “estado natural” das coisas”) creio que esse processo poderá ser revertido de alguma forma. Oxalá! Caso contrário, os horizontes serão curtos — como o capitalismo contemporâneo quer — e bastante problemáticos para o convívio em sociedade.
Sinais dos tempos…..
O que é que move o mundo? Sexo e dinheiro. Empresas e mercados não são relações humanas? E os dois se tornaram proridades absolutas. Muita banalização e isso começa em casa, não nas empresas.
O BBB8 é um pequeno exemplo de como a putaria move o mundo e isso chegou ao mundo corporativo. Como pessoas que tanto priorizam as relações não-afetivas, em baladas só querem ‘ficar”, até governos distribuindo pílulas do dia seguinte no carnaval, vão se comportar nas empresas? Do mesmo jeito. O resto é caretice nénão ?!.
Mas exageros à parte, acredito no mercado e nas pessoas e as coisas se equilibrarão hora dessas. E se não equilibrar, como já está previsto o fim da humanidade para daqui uns milhares de anos, estaremos apenas catalisando o fim dos tempos oras……..
Fernandinho Beira-Mar também é cria do capitalismo? Por favor, senhores, me poupem. O “maldito” tem só duzentos e poucos anos, enquanto a ganância, a bandidagem e a “corrosão do caráter” têm a idade do homem.
Os crimes podem estar até mais sofisticados, mas sempre existiram. A história da humanidade é toda ela marcada pela barbárie – mais ainda no passado que no presente. Esse homem ideal ou “um outro mundo possível” é utopia de adolescente.
A “burguesia” (não era assim o nome das classes mercantis?) seguiu sua utopia contra a tirania dos estados monárquicos e absolutos, fez sua revolução e lançou as bases da modernidade. Os comunistas buscaram superar a desigualdade que as sociedades burguesas apresentam etc. etc. etc. etc.
Hoje não se fala mais de revolução (o Direito e a Democracia são valores em crescente consolidação), mas, também, não é o caso de ficarmos buscando resolver os problemas de hoje somente dentro dos marcos do pensamento do sec XVIII e XIX, não é?
Caro Neoliberal
não pretendo começar nova discussão com você!
Desejo, apenas, lembrar que, se sempre houve “barbárie” (afirmação com a qual todos concordamos), ela deve ser compreendida no contexto histórico apropriado. Isto é, as causas das “barbáries” estão relacionadas aos momentos históricos em que ocorreram (causas econômicas diversas, causas culturais diversas, etc).
Dessa forma, no sistema capitalista e na idade moderna surgiu um novo tipo de barbárie (lembre-se das crianças que trabalhavam 14, 15 horas, a ausência de direitos sociais, como os conhecemos hoje, etc).
O capitalismo contemporâneo acrescentou a esse movimento inicial do capitalismo (não estamos mais na era da Revolução Industrial) novas variantes do assunto.
Tentar compreendê-las não me parece coisa de adolescente e sim de quem está interessado em entender essa dinâmica a fim de tentar (sempre tentar, é só o que se pode fazer!) evitar ou minimizar certos movimentos dramáticos que, aparentemente, são próprios da dinâmica social e econômica contemporânea.
Caro Sérgio
As barbáries podem ter diversas causas, sendo certamente influenciadas pelas circunstâncias de momento. Mas, acima de tudo, elas estão atreladas à índole imperfeita do ser humano e à sua inexorável compulsão ao auto-interesse.
Tentar compreender a história é algo muito diferente de querer descrevê-la como se o seu principal personagem fosse originalmente um ser virtuoso, corrompido pelas circunstâncias. O Homem é o que é. Ponto. Por exemplo: vivemos milênios escravizando o próximo – e o capitalismo nem sequer pensava existir. Aliás, há quem sustente que foi justamente a necessidade capitalista de construir um mercado consumidor o que tornou possível o fim da era escravagista, mas isso é outro papo.
O que não dá, meu caro, é para fazer proselitismo anti-capitalista em cima dos vícios humanos, como se eles fossem coisa nova e não estivessem por aí há milênios. Aí, é demais…
E é mesmo. Para quem acredita e é muita gente, milhões e milhões já queimaram Sodoma e Gomorra muito tempo atrás, bem antes do capitalismo, e por causa de “sexo, drogas, rock’n'roll, $$$$, poder etc.”.
E agora com licença que vou comprar roupas aluminizadas (de amianto parece que foram proibidas/condenadas) e volto depois. rsrsrsrsr!!!!
Alô, Sérgio!
Sua boa briga me inspirou:
POEMA AO ESTILO MILLÔR
Pois eu que desisti de ser humano
do que me é próprio não quero saber nada
Me entrego à compulsão à canalhice
Irrecorrível sina por Deus dada
Macunaíma eu sou, o sem caráter
Nascido adulto com pecado original
E como não tive adolescência
Bem vivo o mundo neoliberal
Francisco Hugo Vieira de Freitas
chicohugo@superig.com.br
O sonhador se queixa do vento e espera que ele mude. O realista ajusta as velas. Não me lembro o autor disso, mas nada traduz melhor a diferença entre um socialista e um capitalista.
PS: agora, minha singela homenagem ao grande poeta do blog:
Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Francisquinho quando dorme
Põe a mão no coração
Se já lemos o filósofo George Soros poderemos ler também o livro com o título “O animal moral”. A moralidade e o capitalismo andam de mãos dadas.
Muito boa essa nota.
Estava ouvindo o rádio do carro hoje, quando deu a seguinte notícia: “de agora em diante, quando a Polícia Federal fizer a prisão de um fora da lei, não serão permitidas imagens ou fotografias dos criminosos com algemas para serem exibidas pela mídia.”
Então pergunto: quando alguém pratica um crime, quais as finalidades da pena? Resposta: Castigo ao infrator,e, principalmente, para que sirva de exemplo aos demais. Este tipo de lei anula a segunda e mais importante finalidade da punição, estimulando a cultura da impunidade com consequente multiplicação da criminalidade. Antes de se culpar a competição econômica (o capitalismo) pela corrosão do caráter, por favor, alguém me ajude a investigar a origem ideológivca dessa lei e de outras que tratam a criminalidade unicamente como problema social.
Os neo-liberais querem privatizar os ventos, para que só os ‘gringos’ deles se beneficiem.
Já os humanistas, buscam alternativas aos ventos, para beneficiar um maior número de
pessoas.
Francisco Rypl,
suponho haver um princípio fundamental por trás dessa medida. Ou seja: a presunção de inocência: ninguém pode ser considerado culpado sem uma sentença transitada em julgado. Prisão não é julgamento (é bom que não o seja, embora muitos pensem que é). Tal garantia foi desenvolvida para garantir a liberdade humana contra o “alvedrio” do Estado. Quando se fala de liberdade deve-se lembrar dessas coisas, e não somente liberdade econômica (como Karl Polanyi advertia). Esta, é a parte mais precária do liberalismo, que é essencialmente uma doutrina política.
Por fim, lembremos do caso da escola base…