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29/01/2008 - 20:23

Corrosão do caráter

Pode haver mais relações entre as ações do operador financeiro Jérôme Kerviel e as turbulências no mercado financeiro global do que as monumentais perdas que ele supostamente impôs ao Société Générale. Como se sabe, Kerviel, de 31 anos, é acusado de ter realizado operações fraudulentas que resultaram em prejuízos gigantes de 5 bilhões de euros ao banco para o qual trabalhava.

Preso no fim de semana, Kerviel foi solto na segunda-feira. Foi liberado porque, segundo alegaram seus advogados, não houve enriquecimento ilícito nas tramóias que armou. O operador confessou que operou como operou e no nível em que operou (a Société Générale informou que, em dois anos, seu funcionário comprou, em nome do banco, quase 50 bilhões de euros em ativos) de olho num bônus de desempenho de 300 mil euros.

Os bônus de desempenho são, crescentemente, a parte mais importante da remuneração de executivos mundo afora. A um salário fixo, normalmente modesto, as empresas oferecem a cenoura, normalmente generosa, da distribuição de parte dos ganhos que os funcionários obtêm com os negócios que realizam em nome delas.

Nesse sentido, o jovem bretão, embora tenha entrado para a história como o maior fraudador individual até agora conhecido, não é, em termos substantivos, uma exceção. Parece perfeitamente encaixado nas regras típicas do relacionamento contemporâneo das empresas com seus empregados. A principal diferença é que Kerviel carregou mais – ok, muito mais – na mão do que a imensa maioria dos executivos de hoje.

De todo modo, não dá para acreditar que suas ações, no volume em que se deram, tenham escapado dos controles da Société Générale. Mais cedo ou mais tarde, vai aparecer a conivência do banco com as operações de seu funcionário. Impossível tão poucos enganarem tantos por tanto tempo. Mas essa é outra história.

Já se fala que alguma regulamentação e algum limite em relação aos bônus pagos por desempenho a executivos teriam de fazer parte do projeto de reforçar a supervisão bancária, reclamado agora por todos no mercado financeiro. Há mesmo quem coloque no centro da crise – e da solução dela – o sistema de bônus e a ganância que ele alimenta em jovens executivos rapidamente acostumados a uma competição desenfreada.

Pode não ser tudo isso, mas, de fato, não é de hoje que as relações das empresas com seus funcionários vêm mudando, em meio a um ambiente empresarial também aceleradamente mutante, no rumo da aceleração e dos objetivos de curto prazo. Há sempre alguém vendendo, comprando ou juntando empresas em ritmo vertiginoso.

Culturas corporativas, longa e pacientemente construídas, são dissolvidas da noite para o dia, afetando, sem aviso prévio e quase nunca para melhor, a vida de milhares de empregados e suas famílias. A velocidade e o curto prazo estão na base da flexibilização das relações de trabalho, tida e havida como marca da modernidade – e da eficiência econômica.

Há dez anos, o sociólogo americano Richard Sennett, professor da London School of Economics, conhecido autor de livros e ensaios sobre os impactos das novas formas de trabalho no comportamento social, publicou um pequeno estudo em que projetava as possíveis conseqüências das modificações em valores pessoais e no próprio significado do trabalho, a partir do primado da flexibilidade nas relações trabalhistas. Chama-se “A corrosão do caráter”, foi publicado em 1998, está traduzido em português (editora Record, 204 páginas, tradução de Marcos Santarrita). Como diz o subtítulo, é um esforço para captar “as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo”.

Richard Sennett observava, já em 1998, que o abandono do longo prazo e a ascensão do que ele chamou de “capital impaciente” ditavam as novas regras. Os exemplos mencionados no livro impressionam: na década de 90, um jovem universitário americano deveria esperar mudar de emprego pelo menos onze vezes ao longo de uma carreira de 40 anos. Nos 20 anos anteriores à publicação do livro, segundo Sennett, o tempo médio em que investidores americanos e britânicos mantinham as mesmas ações reduziu-se em 60%.

O reino do curto prazo, escreveu Sennett, é o da formação de equipes para a realização de projetos específicos, do trabalho segmentado e temporário. Não há tempo para que se consolidem obrigações formais, compromissos mútuos ou senso de objetivo. Estes são valores de longo prazo, fundamentais para a família, mas cada vez mais ausente nas empresas. “Esse conflito entre família e trabalho impõe algumas questões sobre a própria experiência adulta”, escreve Sennett. “Como se pode buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis?”, indaga ele. “O capitalismo de curto prazo corrói o caráter, sobretudo aquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros”, conclui Richard Sennett.

Qualquer semelhança com Jérôme Kerviel e com tantos outros no mundo corporativo e financeiro atual não é mera coincidência.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:

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39 comentários para “Corrosão do caráter”

  1. CAZUZA disse:

    A burguesia fede,
    A burguesia quer ficar rica,
    Enquanto houver burguesia,
    Não vai haver poesia..

  2. Neoliberal disse:

    Lucinei,

    Você poderia dizer qual a relação entre a sua aula sobre o Estado de Direito – com a qual eu concordo em gênero, número e grau – e a suposta precariedade do liberalismo?

    Eu nunca ouvi dizer – e olha que já estudei muito o assunto – que a doutrina liberal seja refratária ao Estado de Direito. Muito pelo contrário, quem costuma solapar os princípios básicos do Estado de Direito, em nome de uma suposta justiça social, são justamente os socialistas. Abrs.

  3. Antonio M disse:

    Para encerrar esse papo de liberalismo, democracia e liberdade, temos o exemplo que vem da américa Central:

    “Fidel Castro foi reeleito deputado da Assembléia Nacional por seu distrito, próximo a Santiago de Cuba. Obteve 98,3% dos votos válidos. Era o único candidato que o Partido Comunista de Cuba, único partido legal na ilha, apresentou.

    Já em seu distrito, Raúl Modesto Castro Ruz teve – pela primeira vez -votação melhor que a de seu irmão: 99,4% dos votos válidos. Raul também concorreu pelo PCC….”

    Isso que é democracia !!!!!! O resto é ditadura neoliberal !!!!!!

  4. Sergio disse:

    O Neoliberal tem toda razão!
    Aqui no Brasil, um ex-presidente (eleito democraticamente) foi derrubado por um golpe de esquerda, como todos sabem!
    No Chile, a mesma coisa: o tal do Alliende, que era um direitaço, foi derrubado pelo socialista — e defensor dos direitos humanos e socias — Pinochet!
    Ora bolas! Ideologia tem limite!

  5. Lucinei disse:

    Neoliberal,

    permita-me corrigi-lo mais uma vez: voce deveria ter escrito que nunca ouviu eu dizer que a doutrina liberal seja refratária ao Estado de Direito. Claro: eu escrevi: “Quando se fala de liberdade deve-se lembrar dessas coisas, e não somente liberdade econômica (como Karl Polanyi advertia). Esta, é a parte mais precária do liberalismo, que é essencialmente uma doutrina política.”

    Antes de qualquer coisa, neoliberal, seria importante compreender o que esta sendo dito pelo interlocutor para que o diálogo não seja um monólogo de dois (de sua parte, eu acuso, discutindo com o “comunista imaginário”, provavelmente com inspiração dos tempos de gremio, dce, ou até mesmo da figura paterna).

    Mas, voltando ao ponto: refiro-me ao liberlismo como uma doutrina essencialmente política que visava um limite externo ao poder do Estado Monárquico Absoluto. Este limite externo, pois, viria a ser o Direito Natural. O fundamento do poder, portanto seria dado pelo acordo de vontades dos indivíduos; tudo isso em oposição ao fundamento do poder por direito divino (não me venha sofismar que o liberalismo é contra a religião e que isso é idéia do “comunista imaginário”….)

    Por que tudo isso? Era momento de transição. Hoje, mesmo os chamados Direitos Fundamentais são positivados (”posito”, posto) por ato de vontade, tanto quanto o direito de propriedade (e é aí que vem a precariedade do liberalismo econômico). Digo isso por que pode-se discutir se o direito à propriedade privada dos meios de produção é bom ou ruim (este é o pomo da discórdia entre o liberalismo econômico e o comunismo); eu digo que é bom, mas isso está na esfera dos valores; não há fundamento racional-lógico para fundamentá-la (e quando se fala de direito natural procura-se isso: um fundamento racional). É somente uma questão de valores. Repito: a “burguesia” conseguiu realizar a sua revolução (todos eram proprietários, ou seja, essa discussão foi facilmente atropelada) etc. etc. mas isso não é o fim da história.

  6. Fabiano disse:

    Só fazendo um comentário rapidinho sobre uma coisa que chama a atenção logo de cara:

    300 mil dividido por 50 BILHÕES dá quanto, mesmo? 0,000006?! 0,0006% de comissão para o sujeito? Quer dizer que o cara movimenta sozinho mais que a economia de metade dos países do mundo e recebe como bônus de desempenho o preço de um apartamento?

    Alguém por favor me diz que esses cálculos estão errados, porque eles são inacreditáveis…

  7. Neoliberal disse:

    Desculpe, Lucinei, mas se queres ser entendido, deves ser claro. Nem todos têm o seu nível de erudição e cognição, especialmente se se fala por códigos.

    Quanto ao resto, vc está redondamente equivocado. A idéia e as vntagens da propriedade privada encontram-se sobejamente fundamentadas pela análise empírica e pela lógica racional. Leia Adam Smith, Von Mises, Milton Friedman, Bastiat e muitos outros. As vantaens econômicas da propriedade são, portanto, um fato perfeitamente mensurável e não têm nada a ver com “esfera de valores”.

    No mais, aqui não há comunistas imaginários, mas comunistas de verdade, mesmo que alguns prefiram esconder-se atrás de uma certa máscara social-democrata. A propósito, deixe-nos saber, dentro do espectro ideológico e doutrinário, onde você se encaixa, já que, pelas suas opiniões, realmente não dá pra saber.

    Sérgio,

    Chamar a ditadura militar de liberal é brincadeira. Nunca houve nada mais estatista e menos liberal do que aquilo. Mas não me espanta. Afinal, vocês dizem que o coletivismo nazista era liberal…
    Abrs.

  8. Lucinei disse:

    Neoliberal,

    mais uma vez: não se equivoque com sofismas: “Quanto ao resto, vc está redondamente equivocado. A idéia e as vntagens da propriedade privada encontram-se sobejamente fundamentadas pela análise empírica e pela lógica racional. Leia Adam Smith, Von Mises, Milton Friedman, Bastiat e muitos outros. As vantaens econômicas da propriedade são, portanto, um fato perfeitamente mensurável e não têm nada a ver com \\”esfera de valores\\”. ”

    Há vantagens em garantir a propriedade privada e é bom que nosso direito positivo a tenha reconhecido (eu afirmei isso no post anterior; em nenhum momento falei que era ruim ou que traria “desvantagens” – eu já percebi que você gosta de supor que alguém disse algo para o que você já tem a resposta elaborada em sua discussão permanente com o “comunista imaginário”.

    Volto a dizer: não há fundamento racional-lógico para se afirmar que o direito de propriedade é um direito natural. Isso é assunto de escolha. Eu escolho garantir a propriedade privada; os proprietários, lá atrás, formaram este consenso e fizeram a revolução deles. Não falaram com os não proprietários, é claro, e estes procuraram seus meios de fazer a revolução que lhes parecia melhor.

    Hoje encontramos formas de apropriação coletiva muito diferentes (SA’s, por exemplo, que nos distanciam bastante daqueles tempos)

    sobre o espectro ideológico, suponho ser muito difícil, aí sim, falar de acordo com o seu código. Aliás, não há nenhum “espectro” em sua visão, há dois polos, somente, e estacionados nos seculos XVIII e XIX. Eu estou no século XXI, e, no Brasil principalmente, não há nem esquerda nem direita; há o cimo e o baixo; o à frente e o atrás… Estou acima e à frente, se queres saber.

  9. Neoliberal disse:

    Lucinei,

    Quem sabe um dia eu poderei, como você, considerar-me acima do bem e do mal. Alguém que, da extrema esquerda comunista, ao anarco-capitalismo não pode situar-se… Deixa pra lá.

    Sobre o direito natural à propriedade privada, você não acha natural reter e dispor dos frutos do seu próprio trabalho? Ser dono do próprio corpo e utilizá-lo da forma que bem quiser? Você por acaso acha natural a escravidão? Sim, pois ela nada mais é do que a perda do direito de propriedade sobre o próprio corpo e sobre os frutos do trabalho por ele executado.

    Desculpe, mas deixar que esse direito possa ser legislado ou retirado pela vontade do príncipe, ou mesmo da maioria (lembre-se que o direito positivo nada mais é, nos regimes democráticos, do que a vontade da maioria posta em prática) é, para mim, um grande absurdo, não só do ponto de vista moral, mas também lógico e racional.

    Foi Bastiat quem disse: “A vida, a liberdade e a propriedade não existem pelo simples fato de os homens terem feito leis. Ao contrário, foi pelo fato de a vida, a liberdade e a propriedade existirem antes que os homens foram levados a fazer leis”. Portanto, temos direitos que antecedem a qualquer governo sobre a terra; direitos que não podem ser afastados ou contidos pelas leis dos homens; direitos inerentes à nossa própria condição de seres humanos.

  10. Lucinei disse:

    O direito de propriedade como direito natural é o que mais carece de fundamentação racional-lógica. a vida (e a vida livre) pode ser comçpreendida por qualquer ser humano (mesmo no “estado de natureza) e, mais, ser reconhecida no outro. A propriedade, meu caro, não. Repito: não há relação jurídica entre pessoas e coisas (tampouco no estado de natureza); mas somente entre pessoas; e isso só pode ser realizado no estado civil.

  11. josé paulo kupfer disse:

    Neoliberal,

    O Lucinei é um cidadão paciente e louvável, na sua insistência em debater idéias. Você sofisma demais, usa a lógica formal (e a informal, se for o caso), casuísticamente, apenas para insistir numa posição imutável e tentar ganhar a discussão “no grito” (ainda que com fala mansa e educada, distorce quase sempre os argumentos, como o Lucinei também já norou). Eu, pelo menos, não acho legal assim. Cansei desse embate que, no fundo, não vai mudar em nada, não vai enriquecer o conhecimento. Não passa de um floreio meio vazio – quem sabe mais, quem vai ganhar.. Mas, confesso, não resisti a um ponto da sua argumentação do momento: quer dizer que se trata do fruto do trabalho de cada um? Certíssimo. Mas, e o trabalho do papaii ou do vovô, fica com quem? Esse é o ponto, amigo.
    Quer dizer também que Deus loteou a terra e a distribuiu antes de colocar o homem nela, já dizendo quem seria dono do quê? Você abomina a escravidão, como todos nós, mas e as invasões de terra, as grilagens e quetais, pode?

  12. Neoliberal disse:

    Zé Paulo,

    Com todo respeito que você merece, desculpe, mas se há alguém por aqui que não pode me acusar de sofista, de usar a lógica (e os números) de forma casuística, esse alguém é você.

    Sobre o fato de você ter “cansado do debate comigo”, isso quer dizer que não sou mais benvindo por aqui? Se for o caso, me avise, pois não terei qualquer problema em sumir do pedaço. Respeito seu direito de propriedade de, como dono do blog, escolher os debatedores que bem entender. Só lamento que você tenha mudado de opinião tão rápido, afinal há apenas poucos dias você convidava seus leitores a um “interessante” debate em que eu participava lá na aba de colaboradores.

    No resto, direito de herança é subordinado ao direito de propriedade. Não é um direito do legatário, mas do legante, que deve ter o direito de dispor dos seus bens como bem entender.

    Lucinei,

    O direito de propriedade não é uma relação jurídica entre pessoas e coisas, mas uma relação jurídica entre pessoas, tendo como objeto as coisas. Assim como o direito à vida é uma relação jurídica entre as pessoas, tendo como objeto a vida.

    Depois o sofista sou eu…

  13. Célio Jorge Lasmar disse:

    Ora qualquer um sabe que este cidadão não passa de um tremendo laranjão, deveriam é pegar os speixes grandes que deram o golpe nos correntistas isso sim. Não difere nada daqui pelo jeito, so roda laranja.

  14. Neoliberal disse:

    Caro Zé Paulo,

    Você me acusa, invariavelmente, de distorcer argumentos, mas não olha para o próprio rabo. Senão vejamos:

    Eu nunca disse que o direito de alguém receber uma herança é natural. O que eu disse, e repito!, é que o direito de propriedade envolve o direito de se dispor dos próprios bens como bem entender. Se eu tenho bens, ganhos e mantidos de forma honesta, e é meu desejo que eles sejam transferidos para meus entes queridos (independentemente de serem filhos ou netos), ninguém pode opor-se a isso.

    Coloquemos a coisa nos seus devidos lugares, portanto. O direito natural é o direito de propriedade, ou seja: reter e dispor dos frutos do próprio trabalho. Não cabe falar do direito de alguém à herança. Isso não é um direito, mas uma circunstância da vida, como ganhar na loteria ou morrer atropelado.

    Todo o arcabouço lógico anti-escravagista está justamente apoiado na premissa do direito natural à liberdade e, acima de tudo, de propriedade sobre o próprio corpo e sobre os frutos do trabalho desse corpo. Repare que, se o direito natural não existe, como vocês querem, mas somente o direito positivo, dos homens, nada impede que, um dia, a maioria passe uma lei autorizando a volta da escravatura e todos teríamos que aceitar tal barbaridade, sem revolta.

    Você fala ainda que “o direito natural é bom para quem tem”. Ou que “só é bom para os poderosos”. Além de ser uma enorme falácia, o debate não é sobre se ele é bom ou ruim – eu não entrei nesse mérito. É sobre se ele existe ou não, moral, filosófica, jurídica, política, sociologicamente ou em que esfera se queira.

    Você confunde o que nós liberais chamamos de direito natural de propriedade, com a institucionalização da propriedade privada, mundo afora, pelas leis dos homens. Do ponto de vista liberal, a propriedade privada, sem reservas, é a melhor forma de impulsionar a prosperidade de uma sociedade. Você certamente já ouviu falar da “Tragédia dos Comuns”, da “Lei de Coase”, etc. Infelizmente, o espaço aqui é curto para tratar de todos esses aspectos.

    O mais importante, porém, é salientar que a recusa de aceitar a existência dos direitos naturais – vida, liberdade e propriedade – é uma porta aberta para a tirania. Não é à toa que, nas sociedades mais avançadas, são universais a proteção do Estado à vida, à liberdade e à propriedade dos indivíduos. Eu não conheço lugar algum onde o assassinato, o roubo ou o cárcere privado não sejam considerados crimes graves.

  15. Lucinei disse:

    Neoliberal,

    “Lucinei,

    O direito de propriedade não é uma relação jurídica entre pessoas e coisas, mas uma relação jurídica entre pessoas, tendo como objeto as coisas. Assim como o direito à vida é uma relação jurídica entre as pessoas, tendo como objeto a vida.

    Depois o sofista sou eu… ”

    é por isso que ele só pode ser pactuado no âmbito da sociedade civil, e não no estado de natureza, home.

    talvez não seja sofisa de sua parte mesmo não Neoliberal… talvez seja aquela história da parede de vidro: a pessoa vê o outro lado mas não consegue atravessar…

  16. Neoliberal disse:

    Lucinei,

    Quem falou nesse tal “estado de natureza” foi você, meu caro, não eu. O que chamo de “natural” é aquilo que é característico, próprio do instinto; intrínseco à condição humana.

    Evidentemente, só há que se falar em direitos, quando existe interação entre indivíduos e eu jamais neguei isso. Eles derivam da relação entre as pessoas. Não há que se falar, por exemplo, de direitos de um ermitão, pois não há a figura do outro para ameaçá-lo.

    Aliás, há um ponto a salientar: O direito de propriedade, como de resto qualquer dos direitos defendidos pelos liberais, é um direito negativo, ou seja, estão estreitamente vinculados às limitações das ações do poder público constituído em relação aos indivíduos e destes em relação aos seus semelhantes. De acordo com essa concepção, o efetivo exercício de um direito não pode requerer que outros sejam forçados a agir para garanti-lo, mas somente que se abstenham de interferir para cessá-lo. O meu direito à vida não exige que você labore para manter-me vivo mas, pura e simplesmente, que se abstenha de matar-me.

  17. Sergio disse:

    Caro Neoliberal

    Creio que há muitos equívocos em sua argumentação!
    O que me parece relevante é você tratar questões complexas — que servem de base para a sua argumentação — como se fossem questões simples e óbvias.
    Vejamos um exemplo: “O que chamo de \\”natural\\” é aquilo que é característico, próprio do instinto; intrínseco à condição humana”.
    Você deveria saber — com certeza sabe — que essas questões merecem — mereceriam, pois aqui talvez não seja o lugar apropriado — reflexões mais sofisticadas. Falar de instintos ou de “intrinseco á condição humana” é algo que não se pode falar de forma impune.
    Por isso você comete alguns equívocos de saída (isso na minha opinião, claro; ressalto que respeito opiniões diversas). Melhor seria ficarmos na questão propriamente dita: o capitalismo nem sempre existiu; é fruto de uma conjuntura histórica (não dá para dizer que se trata de uma “evolução” natural das coisas) e como tal deve ser analisado.
    Nem todos saíram nessa corriga com alguma coisa, alguns nada trouxeram e não foi por falta de vontade e sim pela questão inerente ao processo de acumulação de riquezas. Dessa forma, é evidente que o “direito de propriedade” é uma criação humana e nada tem de “natural”. Isso não quer dizer que seja ruim em todos os seus aspectos. Ter o direito à propriedade da minha casa e saber que o Estado não pode invadí-la — a não ser quando previsto no Direito — é uma conquista positiva. Mas daí achar que esse direito não tem limites é outro coisa. Esse direito deve ser regulado na justa medida em que atenda a toda a população, em que todos possam usufruir do mesmo direito (ainda que seja em medidas diferentes).
    È isso!
    Espero ter contribuido para o debate!
    Ab

  18. Neoliberal disse:

    Meu caro Sérgio,

    Há coisas que são auto-evidentes.

    Experimente tentar tirar uma banana das mãos de um macaco. Tente invadir o território de uma leoa ou tomar-lhe uma presa. Com os homens dá-se o mesmo. Não conheço quem não se revolte em ter tomada de si, contra a sua vontade, alguma coisa que considera sua.

    O que eu defendo é simplesmente que o capitalismo não agride a nossa natureza humana. Não entro no mérito se essa natureza é boa ou ruim. Ela é assim. O capitalismo não foi inventado por ninguém, ele é resultado de um processo espontâneo, baseado na interação humana voluntária. Só isso. É um modo de organização social que não depende das virtudes humanas da bondade, da solidariedade, do desprendimento, etc. Essas são virtudes sempre muito bem vindas, mas, infelizmente, não estão presentes por aí em todo mundo. Abrs.

  19. BOB JEFF disse:

    Se macunaíma, financista fosse,
    jamais teria um desvio de caráter
    tão ‘heróico’.

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