iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
15/01/2008 - 23:04

Incertezas globais e teoria econômica

por José Carlos Braga*

Os percalços do debate econômico sobre as conseqüências para a economia mundial da crise imobiliária americana refletem não só a inexorável dificuldade de conhecer o futuro, mas também a imperativa necessidade de renovar a teoria econômica diante de um capitalismo que vem sofrendo mutações estruturais.

A teoria econômica dominante baseada nos modelos de Equilíbrio Geral limita-se a aperfeiçoar o argumento de “falhas de mercado”, como se essas não fossem nós intrínsecos. Seus economistas, face ao “choque” de capitalismo real, aparecem nas horas de crises com explicações que deixam intactas as supostas virtudes do sistema de mercado e da feroz concorrência instabilizadora que o acompanha na globalização.

Na Economia Política as novidades históricas têm exigido e implicado inovações analíticas. O primeiro problema detectado por um economista político do século XX foi o desemprego involuntário e a exclusão social. O drama apontado por John Maynard Keynes tem piorado, pois os mecanismos públicos de estímulo à demanda agregada vêm sendo cerceados pelas reformas privatizantes. As finanças públicas são afetadas pela especulação financeira, assim como pela utilização de recursos para impedir que as crises financeiras se alastrem globalmente em direção à economia produtiva.

A utopia reformista de Keynes era fazer a eutanásia do rentista para salvar o capitalismo da propensão a produzir crises monetário-financeiras. A sociedade burguesa seria preservada desde que prevalecessem o produtivismo e o pleno emprego. Ao contrário, vê-se hoje a institucionalização do rentismo, uma economia global em que as finanças ditam os rumos da economia e da sociedade. O oposto ao espírito reformador que imaginava um capitalismo capaz de empregar quem desejasse trabalhar e de distribuir renda e riqueza.

Joseph Schumpeter, como é sabido, expôs o êxito do sistema econômico (evitam-se aqui a discussão sobre Ordem capitalista, instituições etc). A hipótese era a de que numa economia “trustificada” diferentemente da de livre concorrência haveria maior estabilidade já que as inovações – a única causa da instabilidade – estariam programadas pelas grandes empresas. O progresso técnico não mais seria controlado por novos empresários que surgiriam a cada novo ciclo, destruindo as antigas firmas etc. A economia formada por grandes empresas seria uma máquina de crescimento com menor instabilidade.

A globalização capitalista tampouco se mostra legitimadora da hipótese schumpeteriana de que a economia tornar-se-ía menos instável. Aqui, é importante lembrar que ele opunha-se à intervenção do Estado na economia. Os ciclos eram intrínsecos ao desenvolvimento capitalista e deviam “cumprir seu papel”. Ficariam mais “bem comportados” na fase do capitalismo oligopolizado.

Ora, tem sido justamente nas últimas décadas, após a retirada do Estado das funções de regulação e regulamentação, que ressurgiram flutuações, instabilidades e crises. Por outro lado, a despeito do investimento com inovações das grandes empresas, assegurar um patamar mínimo de acumulação de capital na economia mundial ele não tem sido capaz de garantir processos longos de prosperidade, como Schumpeter sugerira.

Michael Kalecki, como Keynes, um teórico da dinâmica capitalista, preocupava-se com a distribuição da renda nacional. Previu que haveria um ciclo político, em que, quando a gestão governamental promovesse o crescimento e o pleno emprego, forças contrárias a aumentos de salários reais recomendariam a desaceleração mesmo que não houvesse risco inflacionário. Hoje se verifica um fenômeno que talvez possamos denominar de um ciclo político da plutocracia. Sempre que melhoram a taxa de emprego e os índices de remuneração do trabalho, na economia americana, por exemplo, surgem vozes, que clamam pelo aumento da taxa de juros para uma suposta prevenção da inflação. É a defesa preventiva do valor da riqueza financeira.

O conceito de capital fictício foi outra “criatura” da Economia Política. Neste caso, de Karl Marx. Fictício pois a expandir-se monetária e financeiramente independentemente do ritmo de valorização do capital produtivo. Evidentemente, sujeito a alternâncias de valorização e desvalorização. Mas, com a globalização, toda uma parte da economia passou a ser especulativo-fictícia. Nesse sentido, coexistem estruturalmente uma Macroeconomia da Riqueza Financeira e a tradicional Macroeconomia da Renda e do Emprego subordinada àquela.

Pelas razões acima expostas, chamar de bolhas especulativas a esses processos que são estruturais, recorrentes e de longo prazo é pobre retórica e teoria. O agravamento dos problemas detectados por aqueles autores fundamentais acerca da dinâmica capitalista impõe a reflexão renovada sobre a fase atual do capitalismo.

Há textos de Economia Política que com base em “velhos argumentos” prevêem há décadas uma Grande Crise do Capitalismo que repetiria os anos 1930. Nada disso se viu até agora. A crise tem assumido novas formas em razão das mutações em curso. Mudanças no dinheiro e nas finanças, nas corporações que se tornaram simultaneamente produtivas e financeiras, nas decisões de investimento, nas decisões de consumo, nas interações entre juros e câmbio, nas operações dos bancos centrais, nas relações entre Estado e mercado, na natureza das relações entre países centrais e periféricos etc.

Chegou agora com o estouro da malfadada “bolha imobiliária” a hora de uma grande crise? Indeterminação. Não está disponível teoria “arrematada” que esclareça com o mínimo de confiança qual a tendência em curso. Sabe-se que o sistema é incapaz de autoregular-se, que sem os bancos centrais as dificuldades já seriam mais graves. Sabe-se que colapsou a concepção neoliberal, que é necessário redefinir as relações Estado e mercado e o sistema monetário-financeiro internacional face às mudanças da problemática globalização capitalista.

Sabe-se que avançar na teoria econômica da Economia Política é preciso e é um caminho promissor na medida em que as categorias de análise se abram às mudanças trazidas pela História.

José Carlos Braga é professor livre docente do Instituto de Economia da Unicamp. Foi secretário de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda (1986-1987). Este texto foi publicado no jornal “Valor Econômico”, em 11 de janeiro de 2008

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos Tags:

9 comentários para “Incertezas globais e teoria econômica”

  1. Antonio M disse:

    Não me lembro de alguém aqui ser contra a regulação pelo Estado. Aqui no Brasil pode ser pois as agência foram aparelhadas pelos companheiros dos poderosos de plantão e o que menos fazem é regular o mercado. A prova disso é a ANAC, mero balcão de atendimentos para as empresas aéreas e seu papel inócuo nas tragédias aéres e crises.

    E José Carlos Braga foi secretário de Estado do governo Sarney e ficou somente uma ano lá !!! Deve ser do tipo “teórico”, daqueles que escrevem muito bonito mas, não sabem colocar a mão na massa e não aguentam o trabalho pesado….

  2. Antonio M disse:

    Nunca vi alguém aqui ser contra o Estado estar participando da regulação da economia. O problema é o exemplo do Brasil onde as agências foram transformadas em cabides de emprego da companheirada inconpetente e se transformaram em balcão de atendimento para as empresas. Vide a ANAC com seu festival de passagens grátis para seus diretores e assessores ficarem passeando de graça enquanto tregédias e crises pipocam. A recessão americana se vier não deve durar um ano e com a poupança que fizemos para eles com as reservas em dólar aqui do Brasil, ajudaremo-os a sair dela numa boa e ainda deve sobrar 1 US$ bilhão para investir em Cuba!!!!

    E José Carlos Braga foi secretário de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda no governo Sarney de 1986 a 1987. Um ano apenas. Deve ser do tipo “teórico” e quando teve que encarar um batente pesado não aguentou, pulou fora e voltou correndo para os livros. O engraçado é que este artigo também está no site do PCdoB. Devem estar ávidos por notícias sobre o fim do capitalismo e qualquer coisa nesse sentido vira destaque. E Hobsbawn deve estar soltando rojões ….

  3. Antonio M disse:

    Nunca vi alguém aqui ser contra o Estado estar participando da regulação da economia. O problema é o exemplo do Brasil onde as agências foram transformadas em cabides de emprego da companheirada inconpetente e se transformaram em balcão de atendimento para as empresas. Vide a ANAC com seu festival de passagens grátis para seus diretores e assessores ficarem passeando de graça enquanto tregédias e crises pipocam. A recessão americana se vier não deve durar um ano e com a poupança que fizemos para eles com as reservas em dólar aqui do Brasil, ajudaremo-os a sair dela numa boa e ainda deve sobrar 1 US$ bilhão para investir em Cuba!!!!

    E José Carlos Braga foi secretário de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda no governo Sarney de 1986 a 1987. Um ano apenas. Deve ser do tipo “teórico” e quando teve que encarar um batente pesado não aguentou, pulou fora e voltou correndo para os livros. O engraçado é que este artigo também está no site do PCdoB. Devem estar ávidos por notícias sobre o fim do capitalismo e qualquer coisa nesse sentido vira destaque. E Hobsbawn deve estar soltando rojões ….

  4. Virgulino disse:

    Beleza temos que mudar o capitalismo….
    Uma coisa é certa, para o planejamento central, não.
    Pq esse ja se provou inviavel.
    URSS, Cuba, China, polonoa, etc…
    Qual era a diferença entre as duas as regiões da Alemanha antes da divisão? Bem pouca. E depois?
    Quanto o muro caiu?
    Me apresente um modelo melhor que o capitalismo. Não apenas “detalhes” que “não deram certos” ou “pontos fracos”. Todo sistema, todos nós temos pontos fracos.
    Repito, me mostrem um esboço de um novo e melhor sistema antes de criticar o capitalismo.

  5. Antonio M disse:

    Desculpem-me os posts repetidos. Postei logo cedo e não apareciam e pensei que estava fazendo algo errado.

    Desculpem-me novamente.

  6. Neoliberal disse:

    Sabe-se… Sabe-se… Sabe-se…

    É engraçado como determinadas pessoas, na defesa de um ponto de vista pessoal, costumam expandir a sua opinião para fazê-la parecer mais abrangente ou até mesmo consensual.

    A propósito, sugiro um pouquinho do grande Thomas Sowell sobre o tema:

    “Ainda hoje, há quem acredite que a economia de mercado fracassou no crash da bolsa em 1929 e que a Grande Depressão que se seguiu, nos anos 1930, exigia uma intervenção governamental.

    Na realidade, a quebra do mercado acionário foi quase do mesmo tamanho e aconteceu quase no mesmo dia em 1987, sendo que, neste último caso, seguiram-se 20 anos de prosperidade, baixa inflação e desemprego.

    Qual foi a diferença?

    Os políticos – primeiro o presidente Hoover e depois o presidente Roosevelt – decidiram que eles tinham de “fazer alguma coisa” depois da quebra do mercado acionário de 1929.

    Em 1987, o presidente Ronald Reagan decidiu fazer nada – apesar das críticas amargas da mídia – e a economia recuperou-se por si própria e continuou a crescer.

    Nunca ocorre a quem pensa que o governo deveria “fazer alguma coisa” – e isso inclui a maior parte da mídia – comparar os registros do que acontece quando o governo faz alguma coisa e do que acontece quando o governo deixa o mercado se ajustar por si mesmo”.

  7. outro leitor disse:

    Estive lendo ‘Transformação e crise na economia mundial’, de Celso Furtado, onde, há mais de 20 anos, este economista expunha o seguinte raciocínio (não estou com o livro agora, então vai mal e porcamente assim): a atividade financeira, por trabalhar com dinheiro dos outros, é extremamente regulamentada dentro de uma economia nacional. No entanto, cada vez mais o capital financeiro e transnacional internacionaliza-se, criando liquidez sem qualquer regulamentação. Propunha ele, já naquele tempo, a criação de um organismo internacional capaz de regulamentar estas transações, e levar a economia internacional a operar com o pleno emprego.

  8. gaa disse:

    gente eu presizo de uma noticia so que ela tem que estar tranformada em uma cronica alguem pode colocar em um blog ou aqui memso neste site e me passa OBRIGADA depois a gente acerta!

  9. gaa disse:

    renho que entrega eu eeeteeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiii respondee logooooooo

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo