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07/12/2007 - 17:37

Heróis ou vilões?

por Neoliberal

Nunca antes uma crise financeira foi tão anunciada. Há pelo menos um ano a imprensa vem noticiando os problemas com os tais créditos hipotecários “podres” do mercado imobiliário americano. Quem é previdente já havia colocado as barbas de molho há bastante tempo. Já os mais “impetuosos” se esbaldavam na farra nababesca em que se transformaram os mercados financeiro e de capitais mundo afora. Um dia, a festa acabaria e a ressaca viria cobrar a conta aos farristas.

Em qualquer mercado, os ganhos são sempre proporcionais aos riscos. Quem quer que se aventure pelos labirintos “especulativos” está cansado de saber disso. Se há um universo onde a ingenuidade passa longe é esse. Bancos, corretoras, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento, etc. Ali só tem macaco velho, como se diz na gíria. Todos sabiam dos perigos a que estavam sujeitos, mas muitos, ainda assim, queriam ganhar até o último centavo possível, mesmo que o risco fosse o de acabar a festa segurando o “mico”.

Mas eis que, quando tudo parecia perdido, quando os intrépidos jogadores já começavam a sentir os efeitos da ressaca, surgem os super-heróis para salvar-lhes a pele e aliviar-lhes a dor. Como todo super-herói que se preze, suas intervenções foram para livrar a humanidade do cataclismo que se anunciava, ou melhor, para salvar o mundo da famigerada “crise sistêmica” e suas conseqüências imprevisíveis. A dose cavalar de aspirina (liquidez) que aliviou a enxaqueca dos tubarões imprevidentes foi apenas uma “externalidade”, um efeito não intencional, porém inevitável – como diriam os economistas -, da ação dos nossos super-heróis e suas poderosas máquinas de fabricar dinheiro.

Como, ao que parece, o oceano de dinheiro que inundou o mercado não foi suficiente para debelar a crise, o presidente americano resolveu seguir o conselho de seu colega brasileiro e pôs o Tio Sam na parada para solucionar, de uma vez por todas, o problema. Para salvar a pele dos incautos e inocentes cordeirinhos, que se endividaram além de suas possibilidades, George W. Bush lhes colocou à disposição um grande “pacote” de ajuda federal, financiado com dinheiro dos contribuintes (of course!). Pouco importa se, por tabela, esse saco de bondades venha também salvar a pele de um punhado lobos malandros, sentados sobre uma montanha de créditos podres. São as externalidades…

Não sei por que ainda fico admirado com essas espúrias interferências da indefectível mão visível, já que estou careca – digo: desprovido de cobertura capilar, para ser politicamente correto – de assistir a filmes como esse. Não, não pense o estimado leitor que sou daqueles que pensam existir, por trás dessas intervenções, alguma teoria da conspiração para proteger banqueiros e especuladores. Acho até que os nossos super-heróis, travestidos de agentes públicos, as praticam com as melhores intenções. Em suas cabeças, malgrado a arrogância que tal raciocínio demonstra, estão fazendo o que acham melhor para a humanidade.

Como todo bom intervencionista, nossos heróis idealizam os mercados como sistemas bem arrumadinhos e imunes a crises. Não enxergam que a dinâmica do capitalismo está muito mais para a “teoria do caos” – em que um complexo padrão de organização (espontâneo) é obtido a partir de uma aparente e inelutável desordem – do que para aqueles utópicos paraísos terrestres, perfeitamente harmônicos, imaginados por Platão ou Thomas Morus, que povoam os seus sonhos mais íntimos.

Certamente desconhecem também que os agentes econômicos são seres racionais, que medem as suas ações de acordo com os riscos envolvidos. Qualquer banqueiro, administrador de fundos de investimento ou mutuário de hipotecas tenderá a elevar os níveis de risco de suas carteiras caso espere que os governos venham em seu auxílio na “hora H”, se algo der errado. Uma tal expectativa – derivada da última intervenção, no início da década, quando os BC’s reduziram artificialmente os juros para evitar os efeitos do estouro da bolha da Internet – certamente contribuiu para que a bolha atual chegasse ao ponto em que chegou, bem como influenciará fortemente as decisões futuras, repercutindo de forma perversa na dinâmica dos mercados, especialmente em relação à alocação ineficiente dos recursos, já que as análises de risco levarão em conta, a partir de agora, certas condicionantes que não levariam caso a mão visível dos bancos centrais não se fizesse presente.
Além do efeito acima, chamado pelos economistas de “moral-hazard”, a ação da mão protetora dos governos produzirá também um outro efeito daninho: impedirá que o mercado realize a sua, como dizer?, expiação e, a partir dela, produza a dolorosa – porém necessária – depuração, eliminando os focos de ineficiência na alocação dos recursos. Em resumo, a interferência dos nossos super-heróis reduzirá as chances de o mercado gerar, no interior de seu próprio organismo, aquele efeito revitalizante que Schumpeter apelidou de “destruição criadora”.

Infelizmente, as decisões intervencionistas automaticamente excluem a solução alternativa da não intervenção, freqüentemente sugerida pelos liberais, razão pela qual é impossível estabelecer um comparativo empírico entre as duas possibilidades, sobrando somente a análise teórica. Uma coisa porém é certa: o mesmo excesso de liquidez proporcionado pela queda artificial dos juros, ditada pelos bancos centrais a partir de 2001, que impulsionou fortemente o crescimento econômico mundial dos últimos cinco anos, está na raiz da famigerada bolha imobiliária e a respectiva crise de confiança no mercado de créditos dela decorrente. Nossos heróis são, portanto, ao mesmo tempo mocinhos e bandidos.

Mas como é que indivíduos bem intencionados e que visam somente o melhor para todo mundo podem se transformar em vilões? A resposta a esta pergunta foi dada por Hayek. Por mais poderosos e bem armados que pareçam os agentes públicos, na economia globalizada de hoje, mais ainda do que na época em que o brilhante pensador austríaco ensinava sobre as virtudes da ordem espontânea, “não há entre os humanos ser capaz de conhecer todos os fatos do mercado ou todas as circunstâncias que os envolvem”, nem tampouco os efeitos de longo prazo de certas políticas. Daí os riscos incomensuráveis de qualquer intervenção governamental nos mercados, especialmente aquelas de amplo espectro, como esta que acabamos de presenciar.

Para complicar ainda mais as coisas, é sabido, pelo menos desde os tempos do suiço Benjamim Constant, que os erros dos agentes públicos possuem uma capacidade quase ilimitada de produzir danos (para alguns muitos lucros, verdade seja dita!), os quais espalham seus efeitos negativos sobre uma gama extraordinária de pessoas. Mas o pior de tudo, mesmo!, é que leva muito mais tempo para corrigir os danos causados por uma decisão equivocada de governo do que os prejuízos causados pelas ações e escolhas dos indivíduos no mercado.

Ora, já que os mercados (constituídos de indivíduos) não são perfeitos e os governos (também formados indivíduos) tampouco, por que devemos confiar mais nos últimos? Que garantias temos de que os “sábios” do governo, de dentro de seus gabinetes, irão decidir adequadamente o que é melhor ou pior para milhões, as vezes bilhões, de pessoas, tendo em vista não só os efeitos imediatos destas decisões, mas especialmente os de longo-prazo? Se mesmo os economistas mais renomados raramente se entendem sobre as melhores políticas, por que não deixar que o mercado, ou melhor, as pessoas, errem e corrijam esses erros por si mesmas? Por que confiar que determinados homens, somente porque investidos de poder político, são mais capazes do que o resto dos mortais?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Colaboradores Tags:

17 comentários para “Heróis ou vilões?”

  1. julio das candongas disse:

    Correto, correto. Então o governo Bush não devia fazer nada, o mercado que se resolva, bancos que se explodam e fechem, pessoas que fiquem sem emprego e outros milhares (ou milhões?) sem casa.
    Se a crise se alastrar azar, o mercado que se resolva, é assim?
    Esse endeusamento do mercado não passa de balela, por sinal sempre que uma grande empresa ou corporação está mal das pernas pede socorro ao governo, seja ele qual for. Aí vale?
    Outra coisa, pessoas bem intencionadas em um governo, podem e devem procurar regular ou mesmo intervir no mercado, se necessário, buscando uma melhor distribuição de renda dentro da sociedade e seu crescimento.
    Dizer que o mercado vai resolver qualquer dessas situações é desconhecer o caráter do capitalismo, onde como é natural, se busca a maximização de lucros, muitas vezes a qualquer custo.
    Chega de Neoliberalismo, esta visão já está superada e somente trouxe concentração de renda e sofrimentos as pessoas e aos países.

  2. Neoliberal disse:

    Julio,

    Você precisa se decidir, meu caro. Ou bem você concorda que os governos devam agir para salvar empresas em dificuldade, ou não. E lembre-se de que um banco é uma empresa.

    No mais, eu concordaria com você se – e somente se – nós tivéssemos alguma garantia de que a ação desses agentes públicos (nem sempre!) bem intencionados fosse surtir os resultados desejados.

    O problema é justamente esse. Na maioria das vezes, os objetivos, pelo menos aqueles vinculados ao crescimento econômico, especialmente de longo prazo, não são alcançados e, por tabela, uma minoria influente acaba enriquecendo nas costas da maioria.
    Exemplos não faltam: vide as reservas de mercado, os subsídios, as tarifas aduaneiras, etc.

    PS: só mais um detalhe. Há uma enorme diferença entre regular, fiscalizar e intervir. Nada contra que os governos regulamentem, fiscalizem a atividade privada. Outra coisa, bem diferente, é intervencionismo.

  3. proftel disse:

    Em primeiro lugar, parabéns ao Kupfer, abrir esse espaço foi uma grande sacada.
    Em segundo, ao Neoliberal, belo texto, colocações claras.
    De minha parte volto a bater na mesma tecla “Estado (ou governo se preferirem) intervindo no mercado é como “abraço de afogado”, os dois vão prô saco”.
    A cada intervenção dessas os dois saem fragilizados.
    Um mercado forte é um mercado saneado, e para isso, quem tiver que quebrar que quebre, esse negócio de Estado intervir é fria.
    Posso estar errado mas, o que vem ocorrendo vai contra tudo quanto já foi pensado e escrito em economia.
    De resto, cumprimento a todos (as).

  4. Marcelo disse:

    Na verdade, Julio, se isso tudo que você listou viesse a ocorrer, porque não houve socorro do governo, seria apenas uma vez. Essa intervenção só torna mais provável que isso se torne fato repetitivo.
    Acreditar que há boa intenção de quem só faz inchar a tal “bolha” especulativa é acreditar em papai Noel. Alguém vai levar muita grana e não vão ser os mutuários norte-americanos. É o lobo disfarçado de cordeiro levando, como cúmplice, o estado mais poderoso do globo.
    “Darwinismo” puro travestido de intervencionismo.

  5. outro leitor disse:

    “Nada contra que os governos regulamentem, fiscalizem a atividade privada. Outra coisa, bem diferente, é intervencionismo.”

    Seguinte. Quer dizer, então, que no caso das subprimes faltou fiscalização do governo americano, antes da intervenção?

  6. julio das candongas disse:

    Prezados,
    Parece que todos estão contra, mas ninguém apresentou argumentos que pudessem me convencer que o estado não pode e nem deve, em situações determinadas, intervir no mercado.
    Se um governo deve ou não salvar empresas, inclusive bancos, como me foi perguntado, respondo: depende da situação, do custo benefício para a sociedade como um todo, e se salvar, deve incluir garantias de que o dinheiro investido retornará, nem que para isso seja necessário assumir o controle da empresa e depois, se for o caso, vende-la.
    Gostaria ainda de lembrar que, no caso brasileiro, se o estado não tivesse investido em uma indústria aérea, hoje não teríamos a Embraer, nenhum representante do mercado se interessou em investir pesadamente e pioneiramente no setor; o mesmo raciocínio vale, por exemplo, para o petróleo.
    O que não posso concordar é com o neoliberalismo, que provocou privatizações a qualquer custo e de qualquer maneira, como a privatização desastrosa da Vale, não pela privatização em si, mas pelo valor de venda, que para mim foi a maior negociata da história recente brasileira, maior que a soma de todas as outras. Também não concordo que se privatizem empresas monopolistas e estratégicos, as demais posso admitir desde que pelo preço justo e sem financiamento de pai para filho com dinheiro público.

  7. angelo disse:

    É “interessante”, como alguns, enchem a boca, com a palavra “neo-liberalismo” ! Pois…, desde a antiga Roma, quem emprestava, tomava como escravo, aquele que não pagasse; com a conciente admissão, de quem tomava o emprestimo ! Era regra !Depois, o Estado, perante “abusos”, TEVE que intervir ! E DEVE intervir, com tomadas de decisões que…, ai sim ! -deveriam ser mais “ponderadas”, por alguma comissão de “sabios” no tema ! Mas, para evitar estas “perturbações” do “eterno” comerciar dos seres humanos…, o que deve ser feito, é ensinar as crianças, alem de noções de economia, “altas noções” de dignidade da pessoa humana! Deveriamos ensinar mais “honradez” ! Muito mais “VALORES” ! Para que a sociedade, entenda a importancia do ser humano, por cima da economia…! Base da Justiça Social ! Que nada tem a ver com “neo…, sei la ” e “esquerdas no sei das quantas ! Todas teorias demostradamente fracassadas !

  8. Heitor Bonfim disse:

    Até o Lula já se declarou um neoliberal que se locupleta do dinheiro público e aparelha a máquina pública com seus petralhas. O Guido Mantega exalta, agora, o neoliberalismo e disse, com outras palavras, que se metamorfoseou. Kupfer, você, mais do que ninguém, sabe que existem dois neoliberais, aquele primeiro que trabalha e estuda e o segundo que é político, este é apenas um neoliberal com a riqueza alheia.

  9. rundfunk hörer disse:

    Porque não um? Porque não o outro? Bem-me-quer? Mal-me-quer? Nossa, que papo decidido. Ou não, como diria Caetano.

  10. Marcelo disse:

    Julio,
    Eu acredito que o estado deve intervir, SIM, na economia.
    Se não fosse o estado o novo mundo não teria sido descoberto, não existiria internet, não existiriam satélites, etc… E não existe estado, no mundo, que seja mais intervencionista que o americano. Não é?
    Só que nesse caso específico dos subprime acredito que a intervenção estatal está onerando o contribuinte para sanar um erro da própria iniciativa privada. Afinal só é privado para os lucros, o prejuízo a gente divide…

  11. julio disse:

    Caro Marcelo,
    No caso da sub-prime confesso minha falta de interesse e ignorância, minha única preocupação com essa crise específica é que não nos atinja seriamente.
    Meus argumentos abaixo foram apenas para contestar e fazer frente ao pensamento neoliberal, ao meu ver perverso, da adoração ao deus-mercado e do estado mínimo, o qual sugere que o primeiro resolverá todas as mazelas da sociedade sendo que o segundo deve apenas assistir da arquibancada.
    abraço

  12. Paulo Dias Filho disse:

    Neoliberal,

    É simples. Devemos confiar mais nos agentes públicos, pois estes( em teoria) representam o conjunto da sociedade e seu fim é proporcionar o bem comum, não o lucro.

    Já os agentes do mercado têm como finalidade máxima o lucro, e não o bem comum.

    É verdade que ná prática a coisa não funciona bem assim. No entanto, por pior que seja o comportamento dos agentes públicos, em alguns momentos pelo menos,suas ações visam proteger a rés pública.

    O mercado já provou ser um bicho indômito. Não controlada, sua voracidade só aumenta o desequilíbrio social.

  13. Paulo disse:

    A resposta às perguntas do último parágrafo do texto do autor encontram-se em 1929, em Wall Street.

  14. Heitor Bonfim disse:

    A melhor coisa que o Lula fez foi não intervir no mercado ou na economia. Por que ele estava muito preocupado desviando dinheiro dos impostos para mensalão, ONG [Organização NÃO governamental] e outros. Com exceção da segunda parte, ele foi um perfeito neoliberal.

  15. Francisco Rypl disse:

    É de se ficar desanimado ao ver que em pleno século XXI ainda exista quem seja contra o lucro. O que pensam? Que vão aumentar a produção de feijão sem guardar uma parte da colheita para sementes? Talvez esse seja o tal caso do analfabetismo funcional. Lucro é poupança, é semente acumulada para ser plantada no próximo período. Se o governo nos toma 40% do que produzimos para esbanjar em coisas improdutivas, é obvio que sobra bem menos para investimento em áreas produtivas. É por isso que há cada vez mais pobres e miseráveis.É por isso que o Brasil não vai. Lamentável.

  16. chesterton disse:

    Muito bom o texto.

  17. Edmilson Fidelis disse:

    Qual estado, atualmente, não é um apêndice da iniciativa privada e principalmente do sistema financeiro? Me digam, sinceramente, qual estado deixaria que uma crise qualquer quebrasse uma meia dúzia de grandes sócios do sistema financeiro?
    Aquela história de governo do povo e para o povo já virou folclore há muito tempo.

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