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06/11/2009 - 12:09

Convite

Recebi e aceitei convite do portal do jornal “O Estado de S. Paulo” – o estadao.com.br. Termino hoje minha participação no IG. Começo, no dia 16 de novembro, uma nova etapa do blog, em casa nova – uma casa repleta de significados para mim. Significativo também é, para mim, o fato de o convite ter partido do jornalista Pedro Dória, editor-chefe do portal do Estadão, pioneiro e referência no mundo brasileiro dos blogs.

Convido a todos a me acompanharem na nova aventura.

* * *

Quando comecei no IG, na primeira semana de dezembro de 2007, vindo já de uma experiência de três anos como colunista e blogueiro da revista virtual NoMinimo, publiquei uma declaração de intenções e princípios que permaneceu do começo ao fim na capa do blog como uma âncora do trabalho.

Com o título de “Aviso aos navegantes”, mantive no ar, nesses dois anos, o seguinte posicionamento :

“Um outro olhar, menos reverencial e, ao mesmo tempo, menos sectário, pode interessar aos leitores e é isso que nos esforçamos para produzir neste espaço de debate de ideias econômicas (…).  Para que não haja dúvidas sobre as intenções do autor: a política econômica que o blog pretende criticar é aquela que só tem olhos para o “investment grade”, só pensa no ajuste fiscal e não se preocupa com as pessoas que formam a sociedade. Para o autor, independentemente de posicionamentos partidários e/ou ideológicos, a política econômica só faz sentido quando objetiva reduzir, se não eliminar, as injustiças sociais, e também estender o bem-estar social ao maior número possível de pessoas.”

Acho que cumpri o prometido.

* * *

Foram dois anos no IG. Publiquei 373 textos que mereceram, em média, cerca de 50 mil visitas mensais. Nesses dois anos, o blog acolheu 17.500 comentários. Jamais moderei os comentários e fico orgulhoso de poder anunciar que o número de comentários que tive de retirar cabe nos dedos de uma das mãos.

No “Aviso aos navegantes” já mencionado, havia também uma declaração de princípios quanto à moderação de comentários:

“Detalhe importante: não há moderação ou censura de qualquer espécie nos comentários, exceto as vedações por ferramentas automáticas do IG. No modo de ver do autor, qualquer tipo de restrição ou critério de aprovação é arbitrário e, no mínimo, insuficientemente transparente. Além disso, a experiência permite acreditar que conteúdos respeitosos e honestos repelem baixarias e agressividades tolas. E que, conscientes das vantagens de um debate produtivo de ideias, os próprios leitores-comentaristas tratam de manter o espaço organizado e decente.”

Aos leitores e comentaristas, razão de ser do trabalho de qualquer jornalista que exerça seu ofício com independência e ética, meu sincero agradecimento.

* * *

Agradeço também à equipe do IG que deu suporte fundamental ao blog. Sempre fui tratado com respeito e jamais sofri qualquer pressão ou interferência no meu trabalho.

Agradeço, em especial, a Caio Túlio Costa, então presidente do IG, que confiou na minha capacidade profissional, e a Mariana Castro, gerente do canal de notícias Ultimo Segundo, minha chefe direta. Mariana é uma jovem, mas já experiente profissional, não só muito competente no ofício, mas também companheira no trabalho e sensível no trato pessoal.

* * *

A todos, muito obrigado.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
04/11/2009 - 19:32

Meio ambiente e discurso cínico

Recebi convite para participar da campanha TicTacTicTac, de esquentamento (desculpem o trocadilho) para a reunião da ONU sobre mudanças climáticas, em Copenhague, Dinamarca, no começo de dezembro, também conhecida pelos mais íntimos como COP-15.  Meu dia era este 4 de novembro. Eu deveria contribuir com alguma coisa – um texto no meu blog, por exemplo – para a campanha.

OK, mas minha contribuição não vai ser um oba-oba para os que movem campanhas contra o aquecimento global. Acho mesmo que, se não há dúvida que a sustentabilidade da vida na Terra depende de um uso mais eficiente e racional dos recursos que a Mãe Natureza colocou à nossa disposição, também não há dúvida de que, na onda da sustentabilidade, um tipo de discurso cínico encontrou terreno fértil para vicejar.

Empresas e pessoas que usam o tema da sustentabilidade apenas como ponto de marketing fazem circular esse discurso cínico. Contribuem para a sua circulação, por exemplo, aquelas empresas que apóiam campanhas de preservação do meio ambiente, mas em suas dependências, “esquecem-se” de investir em equipamentos e sistemas mais eficientes e econômicos – sem falar naquelas em que, “preocupadas” com o futuro do planeta, deixam disseminar no ambiente interno de trabalho, quando não estimulam, feroz competição entre os funcionários.

Contribuem para o discurso cínico da sustentabilidade aquelas pessoas que defendem o meio ambiente da boca para fora. Não cuidam da preservação do planeta em seu próprio quintal, consumindo água e energia elétrica sem restrições, sujando as calçadas e ruas e, sim, brigando no trânsito. Sem falar na compra, pela vantagem imediata de preço, de produtos pirateados ou claramente oriundos de áreas de extração predatória de recursos naturais. Ou, pior, de exploração de mão-de-obra. Ou ainda praticando “pequenas corrupções” no dia-a-dia

Não me anima, particularmente, as ações em defesa do meio ambiente resumidas a cliques em abaixo-assinados na internet. A própria campanha TicTacTicTac (www.ig.com.br/tck) incorre nessa prática. A democracia do clique, tão louvada, é, na minha humilde e restrita opinião, um jeito enganoso e não compromissado de aderir a causas nobres. Reunir milhões de assinaturas ou cliques, no mundo virtual, é mais fácil do que levar algumas centenas de pessoas a participarem, no mundo real, de ações efetivas em defesa da saúde do planeta.

Para não cansar a beleza de ninguém, resumo minha visão de que devemos nos engajar nas causas ambientais com a mesma e não adjetivável ética com que devemos nos apresentar como cidadãos. O resto é conversa fiada.

 

Atualizado em 06/11/2009 às 19hs

 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
03/11/2009 - 18:54

O Brasil não escolheu poupar como os asiáticos

O jornal “O Estado de S. Paulo” e o jornalista Fernando Dantas trazem, mais uma vez, material de valor para o debate sobre o futuro do País. Desta vez, é uma entrevista com o economista Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, publicada na edição desta segunda-feira, 2 de novembro.

Na entrevista, Pessôa abandona o discurso crítico dos gastos com a seguridade social pública, até aqui marca característica do pensamento econômico oposicionista. O economista, que assessora o senador Tasso Jereisatti (PSDB-CE), está mais identificado com linhas de pensamento neoliberais e, como tal, tem sido um crítico ativo das políticas fiscais relativamente mais frouxas, empreendidas no governo Lula. Daí a importância da entrevista que concedeu a Fernando Dantas.

Sob o título “Brasil já optou por baixa poupança”, Pessôa observa que o País, a partir da Constituição de 1988 e das políticas públicas de transferência de renda – seja de caráter previdenciário, assistencial ou condicionada –, voltadas para a correção de injustiças sociais e aplicadas desde a redemocratização, criou um sistema que desestimula a poupança pessoal. O modelo vigente no Brasil reduz a preocupação das pessoas em poupar para o futuro – tanto para garantir o padrão de vida quando pararem de trabalhar quanto para fazer frente aos gastos com saúde, crescentes com o avançar da idade.

Esse diagnóstico não é novo. A novidade, no caso de Samuel Pessôa – e dos que comungam da linha de pensamento que ele representa – está no parágrafo que introduz a entrevista. Não faz muito tempo, Pessôa defendia cortes nos gastos sociais como forma de libertar o crescimento da econômico de restrições fiscais. Agora, reconhece a escolha brasileira – e mais, não a demoniza, como muitos ainda o fazem.

Escreve Fernando Dantas, na introdução da entrevista:

“Pessôa, porém, acha que esse arranjo não é pior que o seu oposto, o modelo asiático, de alta poupança e câmbio desvalorizado, que pune algumas gerações para que as próximas deem um salto em termos de desenvolvimento. Ele prevê que haverá desindustrialização no Brasil, já que o modelo de baixa poupança e alto consumo é pró-serviços, enquanto o asiático é pró-indústria. Mas acha que o Brasil pode continuar a crescer com investimentos em commodities, em setores industriais que se diferenciarem, em serviços. O modelo, ele diz, é a Austrália, e não a China”.

 Algumas da conclusões de Pessôa sobre as consequências desse modelo de desenvolvimento – como a da inevitabilidade do câmbio valorizado e, a partir dessa constatação, uma suposta inclinação antindustrialização e pró-setor de serviços – talvez devessem ser mais aprofundadas. De todo modo, é alentador verificar que começam a surgir sinais de convergência nos modos de pensar o futuro do País. E que, ao menos uma parte da oposição econômica não mais oferece os baixos dos viadutos como alternativa de segurança social para os dilemas fiscais que enfrentamos.

* * *

Para quem se interessar, segue a entrevista no Estadão:

 

 

”Brasil já optou por baixa poupança”

  

Com o sr. vê a questão da poupança no Brasil?

 A sociedade brasileira poupa pouco. Desde a redemocratização, há uma demanda enorme da sociedade por uma série de benefícios do governo, por mecanismos de indexação de benefícios previdenciários, por expectativas de ganhos futuros no valor desses benefícios. Não é, portanto, só a existência da rede em si. É preciso ver as regras de concessão, elegibilidade, reajuste e aumento dos benefícios. Todos esses mecanismos, que dão segurança quanto ao futuro das pessoas, fazem com que os brasileiros poupem muito pouco. O valor da nossa poupança, na casa de 16% a 17% do PIB, é pequeno, mas torna-se ainda menor quando se pensa na etapa da transição demográfica pela qual passamos.

 Como assim?

 O momento demográfico em que estamos indica que era de se esperar que estivéssemos poupando muito mais. Países asiáticos que já passaram por essa etapa, como Japão e Coreia do Sul, poupavam muito mais quando tinham as características demográficas que temos hoje – poupavam próximo de 35% do PIB. Estamos no auge daquilo que os demógrafos chamam de bônus demográfico – um período de cerca de 30 anos, no qual o boom populacional já se arrefeceu, o grande contingente de crianças já virou adulto que está entrando no mercado de trabalho. Mas ainda não há muitas pessoas idosas. A sociedade tem folga para respirar, por que não há proporcionalmente muitos velhos e crianças dos quais se cuidar. É uma fase em que muitas pessoas poupam para a aposentadoria, mas, como ainda não há muitos velhos g astando suas poupanças depois de se aposentar, a resultante é uma taxa de poupança alta. No Brasil, porém, as regras previdenciárias são tão generosas que, mesmo no auge do bônus demográfico, poupamos como países de demografia madura.

 E os gastos do setor público? Também influenciam a poupança?

 A poupança pública é a soma do superávit fiscal do governo e do investimento público. De 2005 até o terceiro trimestre de 2008, foi um período em que o governo ajudou, e a poupança pública aumentou. Os juros caíram, o superávit primário e o investimento público aumentaram. Do terceiro trimestre de 2008 para cá, a poupança pública despencou.

 O sr. mencionou a redemocratização quando começou a falar da poupança. Poderia explicar melhor?

 Há uma demanda da sociedade para que a gente saia do atraso social rapidamente. Essa baixa poupança é resultado das instituições que começamos a construir na Constituição de 1988, e está muito associada a como se deu a redemocratização. É um processo que foi mantido e se aprimorou desde então. Fizemos uma Constituição que tem mais direitos que deveres. Nossa rede social é uma escolha social que vem sendo reafirmada ao longo das eleições – não vejo como se pode mudar isso.

 Quais as consequências econômicas dessa escolha?

 Teremos de conviver com um câmbio valorizado, quando se compara com o câmbio do chamado modelo asiático. A base do modelo asiático são poupanças cavalares. Quem poupa muito consome pouco. É possível demonstrar que, à medida que uma sociedade consome mais, os serviços aumentam seu peso na cesta de consumo em relação aos produtos industrializados. Essa demanda maior por serviços faz com que seu preço cresça em relação aos produtos industrializados. Como, de forma geral, os serviços são tipicamente não comercializáveis internacionalmente, e os industrializados são comercializáveis, um país de poupança alta e consumo baixo é um país com produtos comercializáveis internacionalmente relativamente baratos em relação aos serviços, que estão ligados ao custo de se produzir e ao níve l salarial. Em outras palavras, podem vender produtos no mercado externo por baixos preços. Em termos de moeda, isso se traduz em câmbio desvalorizado.

 Isso quer dizer que o modelo asiático é impossível para nós?

 A sociedade brasileira já escolheu, e não quer o modelo asiático. Acho que é totalmente incompatível conosco, não faz sentido, e a tentativa de implementá-lo ia acabar gerando inflação. O governante que quiser modelo asiático vai perder eleição. Não dá para ir contra a maré. Além disso, não dá para dizer que o modelo asiático é melhor que o nosso. Como ele é baseado em poupanças muito elevadas, significa jogar sobre uma ou duas gerações o custo do desenvolvimento econômico. Essas gerações têm que ter uma vida muito restrita, de muita privação, para que os seus netos tenham um padrão de vida de primeiro mundo. Enquanto a opção brasileira é fazer esse processo mais lentamente, diluir de forma mais equitativa entre as diversas gerações o esforço do crescimento.

 Mas e quanto ao risco de desindustrialização?

 De fato, ela deve acontecer em algum grau. Como expliquei, o nosso modelo tem um viés pró-serviços, enquanto o asiático tem um viés pró-indústria. Na verdade, não houve desindustrialização até agora com a apreciação do câmbio, mas acho que isso se deve ao fato de que a demanda da China por commodities elevou a renda da América do Sul, que foi às compras, e são clientes tradicionais das nossas manufaturas. Mas prevejo que esse processo vai acabar dentro de alguns anos, porque a China aumentará a oferta de manufaturas para a América do Sul.

 Não é ruim a desindustrialização?

 Há economistas que eu respeito que acham que pouca produção de manufatura é ruim, por dois motivos. Dizem que a manufatura gera uma dinâmica tecnológica maior e crescimento econômico maior por possibilidades maiores de absorção de tecnologia. Além disso, dizem que a manufatura gera uma demanda por trabalho de mais qualidade. Eu entendo que pode ser um problema, e acredito que poderíamos ajudar a indústria com política tributária, retirando a contribuição para a Previdência da folha de salário. Mas o fato é que a desindustrialização no Brasil não tira o meu sono, como, por exemplo, a péssima qualidade da nossa educação.

 E por que não?

 O Brasil está melhorando, e acho que vai continuar melhorando. Podemos ser um país com grande sucesso em diversos setores ligados a commodities, em indústrias relacionadas a esses setores, em outros setores industriais que consigam se diferenciar, e em serviços. Se continuarmos na direção da evolução institucional que seguimos já desde os anos 90, com manutenção dos contratos, situação fiscal sólida, e melhorando, mesmo que a passos de cágado, a nossa escolaridade, a qualidade da nossa força de trabalho, etc, o Brasil é um país com grandes opções de investimento. E, se tem investimento rentável, o setor privado vai investir. E, se não temos poupança, a diferença entre a a poupança doméstica e o investimento vai ser financiado com poupança externa.

 O uso de poupança externa não cria vulnerabilidade?

 Depende, aí eu acho que entra o papel da política econômica. Nós vamos ter de conviver com poupança externa, e a política econômica tem de ser feita de forma a impedir um aumento da vulnerabilidade. Precisamos manter o câmbio flutuante, que permite ajustes automáticos de desequilíbrios externos. Precisamos manter as contas públicas em ordem e o setor público solvente, já que muitos problemas externos derivam de desequilíbrios do setor público. Quanto ao setor privado, precisamos estimular o investimento estrangeiro em renda variável, como bolsa e investimento direto, que não cria problemas, porque se paga menos dividendos quando a economia vai mal. Em relação ao endividamento externo de empresas, devemos estimular o hedge (proteção contra a variação cambial), e a melhor forma de faze r isso é o governo deixar claro que não dará hedge para decisões erradas do setor privado. Outra condição é não dar calote, manter contratos, ter uma relação amistosa com o resto do mundo. A Austrália faz tudo isso, e tem déficit em conta corrente há 25 anos na casa de 4,5% do PIB. E cresce. Eu acho que o nosso modelo é a Austrália. Não temos vocação para chineses. Poupar 50% da renda é horrível. Você consegue imaginar viver a vida toda gastando só metade do que você ganha?

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
30/10/2009 - 18:11

Hora do caldo de galinha

Não há qualquer razão real para o Ibovespa, principal índice de valorização das ações listadas na Bolsa de São Paulo, recue 4% ou 5% num dia e escale 5% ou 6% no outro. A única explicação razoável é que os cachorros grandes estão acertando posições. E jogando isca para os desavisados.

Nessas horas, em geral, as explicações dos chamados analistas servem para tudo, menos para explicar o que realmente ocorre no mercado de ações. Notícias desencontradas da economia americana, índices de confiança que sobem e depois descem – e vice-versa –, juros em alta na Austrália ou na Noruega, uma unha encravada no dedão do pé esquerdo de Barack Obama…

Outros investidores, sobretudo os pequenos, que, recentemente, podem ter entrado em penca no mercado, encantados com a escalada do Ibovespa, nos últimos meses, deveriam esquecer a gangorra das cotações e esperar a onda passar. Até porque, se tudo o que se diz da economia brasileira em 2010 for verdade – e, em boa parte, parece mesmo ser – não haveria o que temer com relação às ações das melhores empresas.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
29/10/2009 - 15:12

“A crença nos mercados eficientes provou estar errada”

Aqui, no Brasil, infelizmente, quase não existe, mas, lá fora, é intenso o debate sobre o que levou à crise global de 2008 e quais suas consequências.

Martin Wolf, o celebrado colunista principal de economia do “Financial Times”, por exemplo, tem escrito muitos e muitos artigos na tentativa de entender o que houve e, com base nos diagnósticos produzidos, propor novas abordagens para evitar que crises dessa magnitude se repitam.

O jornal “Valor” publicou na edição desta quarta-feira, a tradução de mais um desses artigos. Na maior parte do texto, Wolf se refere a um livro de Andrew Smithers, classificado por ele como alguém que combina profundo conhecimento de economia e longa experiência no mercado financeiro.

Os pontos levantados por Smithers, que Wolf endossa, são as seguintes: 1) os mercados de ativos são apenas “imperfeitamente eficientes”; 2) é possível determinar o valor dos mercados; 3) desvios imensos para cima no valor justo – as bolhas – são economicamente devastadores, particularmente se associados ao aumento na concessão de crédito e à subestimação da liquidez; e 4) os bancos centrais deveriam tentar furar tais bolhas.

Smithers diz que é preciso estar preparado para considerar que “recessões moderadas” periódicas sejam o preço a pagar para evitar as grandes. Wolf confessa que não estava disposto a aceitar essa visão, mas, depois da eclosão da crise, mudou de ideia.

Trata-se, para quem ainda não entendeu, de uma defesa da intervenção dos governos na economia, com protagonismo suficiente para se antecipar aos desastres anunciados. Lembre dispensável, mas talvez útil: bancos centrais, ainda que em alguns casos possa não parecer, fazem parte de governos.

A conclusão do artigo de Martin Wolf vale para boas reflexões:
 
“Acabou a era em que os bancos centrais podiam ter como alvo a inflação e presumir que o que ocorria nos mercados de crédito e ativos não eram de sua conta. Os preços dos ativos não apenas podem ser avaliados; precisam ser. “Ir contra o vento” exige discernimento e sempre será algo controverso. As políticas monetária e de crédito também perderão sua simplicidade. Ter simplesmente a inflação como alvo e a crença nos mercados eficientes provou estar errado. Essas crenças precisam ser abandonadas.”

* * *

A íntegra do artigo de Martin Wolf para o “Financial Times”,  na tradução do “Valor”, está aqui:

http://docs.google.com/Doc?docid=0AY5uonV50BaeZGdyMmhidzhfNDRjcnYydHhnZg&hl=en

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
26/10/2009 - 19:00

Luciano Coutinho com a palavra

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, foi manchete do Estadão de domingo. Coutinho deu uma entrevista ao jornal em que falou, conforme avisa o texto da reportagem, “em caráter pessoal”. Segundo ele, uma das questões prioritárias da agenda econômica brasileira de médio e longo prazo é como garantir uma taxa de investimento anual em torno de 25% do PIB. Só com isso, disse Coutinho, o Brasil crescerá, sustentadamente, por volta de 6% ao ano.

Para alcançar a meta de investimento que desenhou, Coutinho defendeu cortes nos gastos de custeio do governo e reformas no sistema previdenciário. Defendeu também “fortes incentivos” à poupança das famílias e o desenvolvimento de poupanças institucionais.

O que deve ter chamado a atenção dos editores do jornal é que, de fato, esse não é o discurso usual de economistas com cargo de relevo no governo Lula – com a exceção do Banco Central – e muito menos de um “heterodoxo” histórico como Coutinho. Terá o economista sucumbido ao discurso neoliberal e dado início, na entrevista aos jornalistas David Friedlander e Ricardo Leopoldo, ao processo público no rumo de pedir que esqueçam tudo o que escreveu?

Ainda que a entrevista possa insinuar um “sim”, as declarações puras e simples de Coutinho não autorizam tal conclusão. Na mesma entrevista, além de listar os setores da economia em que as possibilidades de expansão são mais favoráveis, Coutinho também defende uma “política de fomento” à indústria manufatureira. E isso pode ser traduzido pela defesa de uma política industrial, algo tipicamente “heterodoxo”.

De qualquer forma, o economista que se encontra no comando do BNDES, ainda que em caráter pessoal, ficou devendo um detalhamento do que entende por cada ponto levantado. O custeio do governo, por exemplo, é um balaio de variados gastos.

Vai das despesas com grampos de papel nas repartições públicas às transferências de renda do Bolsa Família, passando pela folha de salários dos servidores do governo, pelos benefícios da previdência rural, subsídios e isenções a empresas.

Onde o economista quer fazer os cortes? Quem deve ser sacrificado na Previdência? Que tipo de reforma tributária incentivará a poupança de forma mais eficiente e socialmente mais justa? E mais uma longa fila de etecéteras.

Com a palavra, o economista Luciano Coutinho…

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
23/10/2009 - 18:28

Câmbio: a bola está com o BC

Já parece claro que o IOF de 2% sobre capitais externos, isoladamente, não será suficiente para conter a trajetória de valorização do real frente ao dólar. Está claro também que, se nada mais for feito a valorização do real, em breve, entrará para a história das crônicas anunciadas dos desastres econômicos brasileiros.

O debate sobre as alternativas para conter a alta do real, por isso mesmo, está aceso e o leque de opções, de acordo com a linha de pensamento do freguês, é relativamente grande. Vai do fatalismo de não fazer nada ao ativismo extremo de reintroduzir o câmbio fixo.

Levando em conta que o regime de câmbio flutuante não necessariamente é a expressão de um mercado livre de câmbio, há, no meio desse leque de alternativas, algumas possibilidades interessantes. Mas elas exigem ação menos passiva do Banco Central.

Quando o dólar disparou, no auge da crise global, há um ano, não foram poucos os que criticaram o BC por permitir a forte alta da moeda americana, apesar das reservas que, à época, já somavam mais de US$ 200 bilhões. A prova de que a ação do BC deixava a desejar, na condução da política cambial, foi dada com a ascensão da moeda brasileira ao posto mais alto no pódio das moedas mais voláteis em todo o mundo.

 As críticas voltaram agora, mas no sentido inverso. Critica-se o BC por permitir a forte baixa do dólar. O BC, na operação cotidiana do câmbio, não parece ser mesmo assim uma brastemp.

Numa entrevista ao jornalista Marcio Aith, de Folha de S. Paulo, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, trouxe para o público o sumo das ideias defendidas no momento pelos não ortodoxos. Belluzzo acusou o BC de “dar milho aos bodes” com a sua estratégia de intervenção no câmbio, considera apenas reativa.

São basicamente duas as propostas. A primeira delas é que o BC, em vez de apenas secar diariamente a sobra de dólares em leilões vespertinos, adotasse uma estratégia que, no mínimo, confundisse os especuladores. Isso poderia ser obtido se o BC interviesse no mercado, numa manhã qualquer e, em outras ocasiões não previamente determinadas, fazendo megacompras de dólares – algo como US$ 10 bilhões ou US$ 15 bilhões. Com isso, a noção de risco de mercado, que a atual forma de atuar do BC praticamente elimina, retornaria ao cenário.

Tal manejo seria executado em combinação com a volta do BC ao mercado futuro. Nada impede que o BC, além de comprar ou vender moeda no mercado à vista, também opere no mercado futuro – o que não é feito não se sabe bem a troca do quê. Afinal, faz tempo que as posições de investidores no mercado futuro puxam o câmbio à vista.

O resumo da ópera é que no lado fiscal – que é o que a Fazenda pode manejar –, as ações efetivas para conter a derrubada do câmbio são limitadas. Mesmo os efeitos no câmbio de uma maior austeridade fiscal, no curto prazo, são incertos e, talvez, operem no sentido inverso ao pretendido. A bola para impedir que o desastre de um dólar a R$ 1,40, na verdade, está com o BC.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
21/10/2009 - 16:04

O “transtorno do apocalipse now” e a realidade

As reações iniciais à taxação de IOF nos capitais externos que ingressam no País para aplicações em renda fixa e bolsa de valores, como era de se esperar, foram descabeladas. Uma conhecida síndrome, que poderíamos chamar de “transtorno do apocalipse now” (TAN), varreu as análises dos analistas de sempre.

Como esses, na imensa maioria, além de economistas titulados, são  operadores no mercado financeiro, não dá para saber o que realmente eles analisavam: se as consequências das medidas para a economia ou para seus bolsos e de seus clientes.

As análises desses entes anfíbios também são anfíbias. Segundo nos informaram, a taxação do IOF, de um lado, promoverá grandes estragos na economia, mas, de outro, não terá força para inverter a tendência dos mercados. Como uma coisa pode ocorrer ao mesmo tempo em que a outra é que não dá para entender.

No momento em que escrevo, uma irrelevância – mas irrelevância muito interessada – toma conta das manchetes dos sites noticiosos. Trata-se do cálculo do valor de mercado na Bolsa de São Paulo, na terça-feira, primeiro dia de vigência da nova taxação do IOF sobre capitais externos.

O Ibovespa recuou quase 3% e as empresas listadas em Bolsa, segundo calculou a Economática, especializada nisso, “perderam” US$ 55 bilhões em valor de mercado – ou, como a empresa informou, no press release, para facilitar a comparação, as empresas listadas na Bolsa “perderam” uma AmBev inteira.

Neste mesmo momento, 15h30 da quarta-feira, a Bolsa está em alta forte – de 2,5%. Significa que as empresas listadas em Bolsa “ganharam” cerca de US$ 50 bilhões em valor de mercado – quase uma AmBev inteira de “lucro”. Será que o cálculo dos “lucros” vai aparecer com tanto destaque?

Não se sabe como os pregões fecharão hoje – no mercado cambial, neste momento, a cotação do dólar voltou a cair e o Banco Central até promove um leilão de compra da moeda. Não se sabe nem mesmo qual será a tendência, depois dos primeiros ajustes nos pregões. Mas, como era de se esperar, o cheiro é o de que a simples e isolada volta do IOF sobre os capitais ingressantes não será suficiente para reverter ou, pelo menos, estancar os movimentos de alta no mercado de ações e de queda do dólar.

De todo modo, a vida real deu um troco rápido na turma que, quando seus interesses ou convicções são contrariados, é acometida de surtos de TAN. O IOF não será, obviamente, o fim do mundo. Talvez nem mesmo seja o começo de um outro, cada vez mais necessário.

* * *

O relevante nessa coisarada toda é a briga da Fazenda com o Banco Central. Não é nem um pouco novidade na história da condução da economia brasileira, mas, novamente, enquanto um puxa, o outro estica. Assim, a política econômica vai em frente com mais ineficiências do que o necessário.

O fato é que o BC emudeceu desde que a Fazenda soltou os primeiros balões de ensaio do IOF e o presidente da instituição, o geralmente falante Henrique Meirelles, sumiu do mapa. Seu silêncio passa a mensagem óbvia de que ele está dizendo que essa suposta “barbeiragem” do IOF não é com ele.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
19/10/2009 - 20:13

IOF no câmbio: os ortodoxos, mesmo os carecas, de cabelo em pé

A volta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para os capitais externos que ingressem no País é uma medida óbvia – que vem tarde –, diante do quadro oferecido pela conjuntura econômica. Adotado anteriormente em março do ano passado, o IOF sobre capitais ingressantes foi revogado em outubro, quando se instalou a crise global ainda em curso.

Difícil saber se o IOF de 2% será suficiente para amenizar a pressão dos dólares que têm aportado por aqui com crescente avidez e equilibrar o mercado de divisas na economia brasileira. Mas é um começo a um tempo necessário e prudente.

Os ortodoxos de casaca, mesmo os carecas, estão de cabelo em pé. Eles não aceitam nada que passe perto de algum controle de câmbio. A aplicação de do IOF, a uma alíquota de 2%, está no limite do que são capazes de aceitar, ainda que a contragosto.

Há um leque conhecido de argumentos ortodoxos para reagir a ações fora da política monetária clássica para conter o ingresso excessivo de dólares. Todos parecem considerar que qualquer intervenção no mercado cambial fará cessar, imediata, inapelável e absolutamente, os fluxos de capitais externos. É algo fora da realidade e do bom senso, que só expõe um radicalismo extremo.

Medidas de “controle” cambial são tomadas com o objetivo de elevar o “preço” do ingresso de recursos, promovendo uma seleção de interessados. Os que estimam uma taxa de retorno abaixo do novo custo de ingresso desistirão de aplicar seu dinheiro aqui, diferentemente dos que projetam ganhos, mesmo com os novos “preços”.

É uma apelação para a falta de argumentos mais sólidos afirmar que isso prejudica, pela elevação forçada dos custos, o financiamento dos projetos do governo e os investimentos em capital fixo das empresas. Preços sempre expressam valores relativos – o que é caro para uns é barato para outros.

Dizer que tal manejo é impossível ou ineficaz também não passa de um dogma. Nada é mais controlado, por exemplo, do que os capitais externos ingressantes na China. Mas nem por isso os investidores evitam o mercado chinês.

Ao contrário, mesmo com controles caso a caso, sem lei e sem ordem, obedecendo ao humor dos burocratas de plantão, a China atrai capitais com uma economia pujante e com potencial de crescimento acelerado e sustentado. Guardadas as proporções, é o que hoje o Brasil também oferece.

A enxurrada de dólares que tem ingressado na economia brasileira está provocando uma perigosa valorização do real. As armas até aqui usadas pelo governo para evitar os impactos econômicos negativos desse tipo de situação – e, acreditem, são muitos – estão se mostrando insuficientes.

Fora da ação do Banco Central, há a permissão para que empresas importadoras e exportadoras mantenham dólares no exterior. Vigoram também algumas medidas de desburocratização e flexibilização nos prazos de financiamento e pagamento no setor externo. E há um ainda inoperante fundo soberano.

No caso do BC, os esforços para conter a alta do real frente ao dólar se concentram na acumulação de reservas internacionais, com compra de moeda, diretamente no mercado ou por operações compromissadas. Mas o fato de o Brasil ter se tornado credor líquido externo, uma grande novidade na história econômica do País, faz com que a manobra de acumular dólares se transforme numa também inédita pressão fiscal.

Embora os benefícios da manutenção de reservas robustas ainda sejam maiores do que os custos fiscais, fica claro que, no novo quadro de credor líquido, a estratégia quase exclusiva de acumular de reservas para evitar uma excessiva valorização do real tem limites.

Uma condução responsável da política econômica exige a aplicação de outros mecanismos. O IOF sobre capitais externos ingressantes, no fim das contas, é um tímido primeiro passo.

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
16/10/2009 - 17:48

Impactos econômicos do Bolsa Família

O jornalista Fernando Dantas publicou no Estado de S. Paulo desta sexta-feira uma reportagem com os resultados de um estudo recente sobre os impactos do programa Bolsa Família na economia. A conclusão do trabalho é que, o acréscimo no valor dos benefícios pagos, entre 2005 e 2006, de RS 1,8 bilhão, resultou num crescimento adicional do PIB, no período, de R$ 43,1 bilhões. Resultou também em receitas tributárias adicionais de R$ 12,6 bilhões. “O ganho tributário”, escreveu Dantas, “é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa Família em 2006, que foi de R$ 7,5 bilhões.

Esses cálculos foram feitos pelo economista Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o antigo Ibmec-São Paulo, que também é professor na Faculdade de Economia da USP, e por seu aluno na graduação do Insper, Paulo Henrique Landim Júnior. É de se notar que o Insper e Naercio filiam-se a correntes do pensamento econômico situadas a anos-luz de distância das teorias heterodoxas ou mais à esquerda e não têm nada de lulistas.

Não é novidade que programas bem focados de transferência de renda, como é o caso do Bolsa Família, produzem relevantes efeitos multiplicadores no conjunto da economia. Isso só não é verdade para os que não conseguem levantar o véu ideológico que tolda a visão sobre os programas de inclusão social, para os que resistem a repartir melhor a renda produzida ou para os cegos pelas paixões partidárias. Faltava, porém, uma medição quantitativa da dimensão do impacto econômico específico do programa Bolsa Família.

Pois bem, segundo as estimativas de Menezes e Landim, um aumento de 10% no repasse médio per capita do Bolsa Família leva a uma expansão de 0,6% do PIB, no ano em que ocorre o aumento e no seguinte. Em outras palavras, ou melhor, em outros números, cada R$ 0,04 do Bolsa Família aumenta o PIB em R$ 1.

Fica assim provado, com números, que o “assistencialismo” do Bolsa Família move profundamente a economia. Com a vantagem de que, como indicaram os cálculos de Menezes e Landim, o setor mais positivamente impactado é o da indústria – aquele em que os empregos são de mais qualidade. Enquanto no PIB agrícola cada 10% a mais nos repasses do Bolsa Família não apresenta impactos significativos, o efeito nos serviços é de 0,19% no PIB setorial. No PIB industrial, onde o impacto é maior, efeito multiplicador de cada 10% adicionais nos repasses do programa atinge expressivos 0,81%.

Uma tentativa leviana, mais ou menos recente, de confundir o Bolsa Família com programas de distribuição de cestas básicas, a partir de uma declaração crítica de um Lula ainda na Oposição, em relação à distribuição pontual de comida, tem sido largamente disseminada pela internet, via YouTube. Intelectuais de viés conservador utilizam o vídeo como gancho para sustentar suas retorcidas teorias anti-inclusão social e de preservação da renda em mãos de poucos. Com os dados agora disponíveis, o falatório reacionário fica apenas lamentavelmente ridículo.

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Aqui o link para a reportagem do “Estado de S. Paulo”

http://digital.estadao.com.br/download/pdf/2009/10/16/A9.pdf

Atualizado às 23h45

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags:
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