ONDE ESTÁ VANDRÉ?
Um encontro inesquecível
A última vez que vi Geraldo Vandré faz mais de 30 anos, quando eu estava assessorando a criação do primeiro loteamento ecológico do Brasil, o Patrimônio do Carmo. Era um belo escritório, ultramoderno, do empreendedor que conciliava um pragmatismo árabe com uma enorme sensibilidade.
Vandré vestia um poncho esfarrapado e sua cara era só dor. Queria alguma ajuda, mas uma ajuda impossível: ser o que havia perdido. Exilado, depois do Caminhando e cantando, foi para os Andes. Não sei de ninguém que conheça a história verdadeira. Sou testemunha das conseqüências. Sabíamos por alto que ele foi torturado e que lhe administraram drogas pesadas que o enlouqueceram. Outros alegam que foi a tortura sem drogas. Outros, pensam que foi apenas a tristeza mais funda do mundo.
Há momentos em que a impotência da piedade nos impede qualquer gesto. De fato não sabia o que fazer com aquele cantor magnífico, que nos deslumbrara no Maracanãzinho, mesmo perdendo troféu para o Chico Buarque. Desde então, apesar das canções inesquecíveis, nunca foi o primeiro. Compôs com Alaíde, Carlos Lira, Baden Powel, cantou músicas de Vinicius. Produziu álbuns inesquecíveis e sua Canção do Nordeste ainda é uma das mais belas musicas regionais jamais compostas no Brasil e pouca gente falou do amor come ele, talvez Camões, talvez Vinícius, talvez Shakespeare.
Mesmo seu exílio não foi exaltado por nenhum memorialista da esquerda sofrida, nem da festiva. Sumiu como a fuligem. Ninguém canta suas canções ou quando entoa seu hino de guerra, muitas vezes não sabe quem foi o herói da saga musical. É um hino sem autor.
Ontem encontrei no baú uma coletânea de suas vinte gravações escolhidas. Sua voz tem uma juventude e uma dor adolescente. Sua idéia do amor rejuvenesce o amor. Sua idéia da pátria engrandece a pátria.
Meu patrão, há trinta anos, ficou muito chocado de eu estar recebendo gente com aquele aspecto tão suspeito. De fato, não há nada mais suspeito do que um homem desesperado. Perdi meu emprego.
