SÃO PAULO! COMOÇÃO DA MINHA VIDA,
A COMPREENSÃO DE SÃO PAULO
” São Paulo! Comoção da minha vida” .
Estes versos de Mario de Andrade revelam tudo o que se pode sentir por São Paulo. Mas, cada um tem sua maneira de sentir São Paulo. Eu diria de forma diferente. Para mim seria: São Paulo! Compreensão da minha vida.
O que há de importante numa cidade não é o que ela nos revela, mas o quanto ela nos revela, como um filme velado que, aos poucos, fosse surgindo na tela da existência.
São Paulo da minha infância foi na Aclimação. Tinha um parque lindo, com animais ferozes e um silo. Tinha um lago e quermesses beneficientes. Para se construir a paróquia. Com belos sanduíches de churrasquinho.
O colégio primário tinha professoras cujos nomes e cujo caráter me lembro até hoje. Lá fiz meu primeiro discurso com sete anos em prol dos aliados. Lá a primeira comunhão e o primeiro deslumbramento, pela Maria Silvia, vestida de Nossa Senhora para receber a hóstia.
No São Bento, no centro de São Paulo, descobri três coisas definitivas: a fé, a cultura e a amizade. Não é pouco para um segundo grau.
Na Faculdade de Direito, no largo de São Francisco, foi um tempo de engajamento político e religioso. Nas aulas de direito aprendi literatura. Mas sobrou um resíduo indestrutível de apreço à justiça, à democracia e à convicção de que na política, nada se conquista sem um esforço duplicado.
Um pouco de poesia e boemia vem dessa época. No Pari Bar convivíamos com Juliette Greco,a existencialista e Etiènne Gilson, o teólogo, sem esquecer Sergio Milliet no cantinho do bar. Os poetas explícitos Roberto Piva e Celso Paulini e os poetas implícitos da turma da biblioteca, FHC, Gianotti e outros de igual calibre. Deixava minha lambreta na calçada com a Lettera Olivetti amarrada na garupa e ninguém se lembrava de roubá-la
O escritório da família de empreiteiros era em frente à Biblioteca. Não era bem a minha vocação, mas éramos poderosos. Almoçávamos no Paddock; Happy Hour, na Baiúca; encontros no relógio do Mappin e noitadas etílico-culturais no Cave.
Fiz meu estagio de Sub Chefe da Casa Civil nos Campos Elyseos, com Carvalho Pinto. Aprendi tudo o que significa competência e correção, planejamento de governo, estratégia de comunicação e, paralelamente a ascensão e queda do império paranóico, com Jânio Quadros
No Vale do Anhangabaú dirigi a ULTIMA HORA, por um gesto calculado de Samuel Wainer, que precisava de um paulista, católico, ligado à burguesia política e econômica e ainda por cima poeta. Lá paguei os pecados de traidor da burguesia no dia 31 de março de 1954.
Sempre São Paulo desovando seu feto e seu afeto.
Tinha casado na Igreja de São Bento com pompas e circunstância com a menina mais linda e mais inteligente da cidade.Pena que morreu tão cedo.
Só duas vezes não morei em São Paulo. Numa vez, pela primeira vez fui a Europa e fiquei na Rue Madame, morando em Paris no Hotel de L´Avenir, o mesmo do Axel Munthe e do Alain Moreau. Depois foi em 64 quando fugi para o Rio para evitar a os aborrecimentos com a PM , os mackenzistas e o meu sogro. Embora eu adorasse o Rio dos anos sessenta (o melhor momento da minha vida), eu só escrevia sobre São Paulo.
Voltei com a democracia. Fiz a campanha do Montoro e me vi de novo no centro de São Paulo, secretário de Montoro,o maior democrata que o Brasil conheceu. N Secretaria da Cultura, no prédio Art Deco do Bahiana, na Líbero Badaró, o mesmo arquiteto do Viaduto do Chá, voltei ao centro de São Paulo.
Em São Paulo, fiz a melhor coisa da minha vida: coordenar a Campanha das Diretas. Quando vi a cidadania em corpo e alma na Praça da Sé, chorei. Chorei em presença da vida. Não decepcionaria o cacique aimoré.
Paro por aqui. São Paulo é uma das cidades mais fascinantes do mundo, não pelo acumulo de beleza e de virtudes, mas por sua humanidade. São Paulo nos sabe educar, como uma mãe condescendente.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags: O aniversário de São Paulo