MERCEDES SOSA
ENTRE AS GRANDES CANTORAS DO MUNDO
As boas cantoras do Século XX foram milhares. As cantoras geniais, que deixaram um rasto inesquecível não foram tantas.
Cada pessoa tem sua lista, suas preferências, como os comentaristas deste BLOG, sempre apaixonados e por vezes exagerados em suas opiniões.
A primeira cantora brasileira que me impressionou, com seu lamento de periferia carioca, foi Aracy de Almeida. Não se situa entre as maiores do mundo, mas seu apito estridente, fere nossos ouvidos burgueses.
O primeiro gênio que ouvi de perto foi Edith Piaf, no Teatro Cultura Artística. Baixinha, quase insignificante, com uma saia preta e uma blusa branca, modestíssima, parecia que entrou no palco para limpar o piano. Do primeiro ao último som, sublimou-se, sublimou-nos, e se eternizou para todos os que ficaram colados nas cadeiras, como objetos do pasmo.
A segunda foi Ella Fitzgerald, que só vi em vídeos e ouvi em CDs memoráveis, disponíveis nas grandes lojas e nos navios piratas, para quem gosta de música e despreza as leis.
A outra grande cantora, de proporções mundiais, é portuguesa. Com seus lamentos mouros, nos prova o quanto os árabes encantaram a península Ibérica. Com suas canções nos transmite o sentimento romântico e doloroso dos portugueses.
No Brasil há grandes cantoras, mas uma, re ensinou o Brasil a cantar. Tinha o timbre perfeito, a dramaturgia adequada, a voz incomparável. Morreu cedo, mas como o jovem Mozart, marcou o espaço definitivamente. Ellis Regina.
Também no Teatro Record, vi e ouvi outra grande cantora: Marlene Dietrich. Não tinha um caráter democrático, mas sua presença ecoou durante toda a segunda grande guerra. “Lily Marlene” eternizou-a ainda mais do que suas pernas longas e brancas.
Mercedes Sosa morreu ontem. Ao contrario de Marlene tinha um caráter definitivamente democrático. Se, cantava a vida, só entendia a vida com liberdade. Foi peregrina das canções latino-americanas e exilada crônica das ditaduras. Não compunha. Sua voz era a mensagem. Sempre escolheu canções de liberdade e dor. Seu timbre nos penetra como um cello ensandecido. Tê-la ouvido foi o bastante para eternizá-la.
