O MONÓLOGO DE PATRICE CHÉREAU
O GRANDE INQUISIDOR
O livro que li mais vezes em minha vida é “Os irmãos Karamazov”. A saga dos irmãos Aliocha, Ivan e Dimitri marcou a minha vida e, mais do que esse fato pessoal, marcou toda a psicologia do Século XX. Em nenhuma obra técnica de psicologia, os tipos psicológicos foram descritos com tanta propriedade, quanto os dos personagens desse livro. Certa ocasião, um monge de alta cultura e espiritualidade disse-me que a maior santa do século XIX era Grouchenka, a prostituta dos Irmãos Karamazov.
A parte mais complexa do livro é a grande dissertação sobre o Grande Inquisitor, na qual Ivan produz uma fábula para seu irmão, o místico Aliocha.
Jesus Cristo retorna à Terra, em Sevilha, no Século XVII, em plena Inquisição. O Inquisitor, cardeal católico, impactado com sua presença, tenta convencê-lo de que seu retorno à Terra era um absurdo, pois atrapalhava os planos de Igreja, de Deus, e que o seu perfil não servia mais para o mundo. Jesus não responde. O inquisidor acaba prendendo Jesus Cristo e o condena à morte. O inquisidor cobra desesperadamente uma palavra de Jesus. Jesus dá um beijo na boca do velho inquisidor de 90 anos, representante da igreja triunfante, em pleno expurgo dos hereges.
O diretor, cineasta e ator Patrice Chéreau elevou as comemorações do ano da França no Brasil, com a apresentação desse fragmento dos Irmãos Karamazov, no palco do SESC Villa Nova. Chéreau chegou perto da perfeição num monólogo com o tom exato da discrição. Nada a acrescentar. Nada a subtrair. Um artista cuja maturidade silenciou o grande público do teatro e conduziu-o a mais profunda estética da reflexão.
A aclamação que recebeu foi um ato de gratidão.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags: FRANÇA BRASIL