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24/12/2008 - 14:50

PAPAI NOEL 2008

Papai Noel não teve tempo de fazer a crônica da fortuna ou do infortunio neste Natal. Está muito ocupado em preencher o universo de sonhos que invade o coração das pessoas nesta época.

Melhor. Teria que entender aquela multidão amontoada na 25 de março para cumprir o prazer ou o dever de dar presentes. Teria de ficar um hora esperando o taxi ou o mesmo, tempo para catar o próprio carro num estacionamento distante, ou ainda teria que localizar o ónibus que trouxe o infortunado comprador do interior e estacinou sabe deus onde.

Papai Noel teria que decidir se fica do lado da marola ou da tempestade. Se acreditar no presidente vai continuar comprando endoidado e dando presente aos ricos e aos pobres. Se fiar-se nas agências de ratting vai enfiar a cabeça no chão e esperar o pior. Na hipótese de ter colocado as economias no fundo do Madoff, poderá chegar ao extremo, como aquele aplicador francês. Mas Nietszche não é leitura habitual do Papai Noel.

Passou por cima ds enchentes com seu trenó voador, e pode ver as consequências da furia implacável de São Pedro, nome cristão de Jupiter. Mas tudo tem jeito, mesmo em Santa Catarina. Peguei esse flagra de conversa na minha médica. Uma faxineira conversava com a secretária e dizia: ” Fiquei penalizada com essa enchente. A pobre velha com o filho menor no colo, morto. Chorei junto”. Percebendo o tom trágico que se impôs foi logo corrigindo: -”Mas Deus é grande. Depois da tormenta sempre vem a bonança. O Brasil vai sair dessa e de outras”. E logo estava num animada conversa sobre a alegria de viver.

Um cara cujo restaurante no centro vive repleto anunciou-me que aquele era o último almoço, pois tinha fechado o negócio. – Mas isto vive cheio de cliente depois de 30 anos, como é que você vai vender? Ele me respondeu: ´-E verdade, mas no ano que vem pode estar vazio.” Percebi que nem o natal afasta o pior dos inimigos da crise: a desconfiança. Se o cara não acredita, a crise se instala como a neve, sem pedir licença.

As ruas, as árvores, as fachadas, os viadutos estão bonitos e enfeitados. A Av. Paulista é uma festa. De mau gosto, não importa, mas festa. Não há nada que o público goste mais do que o espaço público. A beleza do espaço público, bem mais bonito que sua estética de periferia. Essa é uma dívida permanente do estado ao povo de uma cidade: cuidar da linha do olhar do homem que passa na rua. É nesse foco que o homem comum se apropria da civilização.

Feliz Natal, enquanto a rua está em festa.  

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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