FARISAÍSMO NA CRACOLÂNDIA
Eutanásia pode ser considerada um suicídio racional, praticado pela vontade pessoal de um moribundo em condições insuperáveis de dor e de certeza da morte.
O crack é uma eutanásia social, coletiva, praticada por populações muito pobres, que leva clinicamente ao desespero, à loucura e à morte. Não é um ato de vontade pessoal e racional, é uma cilada urbana, que atinge cada dia mais adeptos.
A droga é um vício social, em todas as suas escalas. O crack é a mais social das drogas, pois se processa no espaço público da convivência humana.
Transportar essa desgraça para a plataforma eleitoral, é imoral, quase degradante.
Toda violação sistemática da saúde é uma questão médica. Toda degradação da ordem jurídica e social torna-se uma questão policial.
A Cracolândia abriga as duas questões, por mais hipócritas ou farisaicos que venhamos a ser em nossas avaliações.
Assim a assistência médica, dever do estado e da sociedade, não dispensa a assistência judicial, que se inicia com o processo policial.
Uma ação pública sempre será espetacular, quando se trata do saneamento de uma área inteiramente degradada, como a Cracolândia, no próprio centro de São Paulo. Não existe ação policial angélica nem intervenção médica anódina.
Essas intervenções mexem com a nossa sensibilidade e atiçam nossas convicções ideológicas.
Isso não deve despertar nosso oportunismo político, como está acontecendo em São Paulo. Os candidatos perderam a compostura no trato da questão. Acusam-se uns aos outros, pouco se importando com o destino as vítimas efetivas da questão, que são os viciados.
