ANTONIO MEDINA
A MORTE DO FILOSOFO
Perguntei à Marcia, filha do Professor Medina: -De que morreu seu pai? –Da absoluta falta de humanidade, respondeu. -Porque? -Sentiu-se mal, sem respiração e ficou quatro horas sem atendimento no Hospital da USP, depois de pequenos exames, mais quatro horas. Teve um enfarte, que se complicou por consequência.
Esse foi o tratamento desumano dado a um grande humanista.
Medina deu algumas aulas para nosso grupo de filosofia: eu, Glorinha Kalil, Teca Ionescu, Fabio Ionescu, Suzy Arida, Jabor, Joyce e até o Nizan que passou por lá.
Medina não era deste mundo, exatamente porque era deste mundo. Pobre, quando criança, ajudava o sustento da família lendo textos na porta das casas, na Penha, o que foi lembrado no singelo réquiem do seu sepultamento neste domingo. Com esforço formou-se, em grego, mas sabia tudo de cultura, poesia e filosofia. Lecionou no Anglo, onde todos se tornaram seus discípulos, alunos, professores e funcionários. Fez concurso para titular de Grego na USP. Nao era o maior linguista entre os candidatos. Assim mesmo, o presidente da bancada pediu que o escolhessem. Em dois anos, afirmou, ele saberá mais grego do que todos nós, e hoje já sabe mais filosofia , mais literatura, mais da vida. O dia seguinte já confirmou as previsões do presidente da banca. Suas aulas eram assistidas dentro da sala, pelas frestas da porta e pelas janelas, também soube no funeral. Em nossas aulas percebi que o Medina era diferente. Tinha uma narrativa pautada pela alegria: a alegria da vida e do conhecimento. Um só verso de Homero já o inspirava para falar de futebol, de sexo e até de rock. Suas molduras foram inesquecíveis, pois o que permanecia sempre era o conteúdo do quadro. Uma vez afirmou que o Viagra mudaria toda a literatura do Século XIX e começo do XX, muito inspiradas pela impotência. A nova literatura traria mais felicidade.
Sem perceber que a vida tem agenda caprichosa, no sábado, lendo Os Persas, de Esquilo, havia, ao lado do prefacio um texto de Medina sobre o tradutor, Junito Brandão, a tradução e o sentido da tragédia. Guardei, na cabeça, esse texto do Medina: “Mas, a medida que o bem nos fala ao coração, nos envolvemos em esfera de amor mais alta que os sentidos. Das aparências saem essências. Do amor vem o amor, quer dizer, o saber. Isso nos fará entender o mundo, um dia”.
