LA TRAVIATA DE TERNO E GRAVATA
Nunca vi a Dama das Camélias num vestidinho moderno, talvez morrendo de câncer. Mas Violeta é a mesma, na encenação de Daniele Abado, no Teatro Municipal de São Paulo; uma menina desregrada que se apaixona por um jovem rico de outra camada social que a sua. Alfredo é filho de um pai rigoroso e conservador que deseja preservar a honra da família e não atrapalhar o casamento da filha , noiva de um Mauricinho. Toda história de amor se enquadra, em qualquer tempo, pois os preconceitos são os mesmos, assim como os interesses. Mas a Traviata de Verdi, um dos melodramas mais queridos, no mundo da ópera, é sempre apresentado em salões parisienses do fim do éculo XIX.
A recente montagem da ópera, em São Paulo, revoluciona, sem perder a ternura.
De cara, já no primeiro ato, espanta, com uma festa em preto, prenunciando o funéreo. A mesa do banquete não difere de uma urna funerária. Alegria profética da destruição.
Os intérpretes revelam-se magníficos desde o começo, refiro-me à estréia com Irina Dobrovskaia, no papel de Violeta, Roberto de Biasio, no papel de Alfredo e Paulo coni, como Giorgio Germont. Irina, além do mais belíssima, apaixona e Biassio deixa-se apaixonar, discreto e seguro, como um jovem de boa família. No segundo ato o canto percorre o roteiro sedutor da moral burguesa, a mesma, em qualquer tempo e qualquer geografia. O pai consegue convencer Violeta de que amor é sacrifício, tese fácil de se enquadrar no coração de um melodrama. Paolo coni faz isso com majestade.
A tragédia se consome no abandono, na incompreensão e na doença, emoldurada em cenários competentes, de luz e sombras. As juras de amor sucumbem ao perjúrio. O amor se destrói no corpo e nos comportamentos.
O libreto do Século XIX cai como uma luva na arquitetura do Século XXI, da mesma forma que as mesinhas que os irmãos Campana colocaram no bar do teatro.
A Traviata tem uma peculiaridade: todas as árias são lindas e só há árias. Até os diálogos dramáticos parecem árias. Abel Rocha encorpora tudo isso; rege no tempo adequado do espaço moderno.
O público percebe e aplaude, com força, mas sem o delírio das platéias do Bexiga
