2012 março | Jorge da Cunha Lima
iG

Publicidade

Publicidade

Arquivo de março, 2012

28/03/2012 - 10:40

LA TRAVIATA DE TERNO E GRAVATA

Compartilhe: Twitter

Nunca vi a Dama das Camélias num vestidinho moderno, talvez morrendo de câncer. Mas Violeta é a mesma, na encenação de Daniele Abado, no Teatro Municipal de São Paulo; uma menina desregrada que se apaixona por um jovem rico de outra camada social que a sua. Alfredo é filho de um pai rigoroso e conservador que deseja preservar a honra da família e não atrapalhar o casamento da filha , noiva de um Mauricinho. Toda história de amor se enquadra, em qualquer tempo, pois os preconceitos são os mesmos, assim como os interesses. Mas a Traviata de Verdi, um dos melodramas mais queridos, no mundo da ópera, é sempre apresentado em salões parisienses do fim do éculo XIX.

A recente montagem da ópera, em São Paulo, revoluciona, sem perder a ternura.

De cara, já no primeiro ato, espanta, com uma festa em preto, prenunciando o funéreo. A mesa do banquete não difere de uma urna funerária. Alegria profética da destruição.

Os intérpretes revelam-se magníficos desde o começo, refiro-me à estréia com Irina Dobrovskaia, no papel de Violeta, Roberto de Biasio, no papel de Alfredo e Paulo coni, como Giorgio Germont. Irina, além do mais belíssima, apaixona e Biassio deixa-se apaixonar, discreto e seguro, como um jovem de boa família. No segundo ato o canto percorre o roteiro sedutor da moral burguesa, a mesma, em qualquer tempo e qualquer geografia. O pai consegue convencer Violeta de que amor é sacrifício, tese fácil de se enquadrar no coração de um melodrama. Paolo coni faz isso com majestade.

A tragédia se consome no abandono, na incompreensão e na doença, emoldurada em cenários competentes, de luz e sombras. As juras de amor sucumbem ao perjúrio. O amor se destrói no corpo e nos comportamentos.

O libreto do Século XIX cai como uma luva na arquitetura do Século XXI, da mesma forma que as mesinhas que os irmãos Campana colocaram no bar do teatro.

A Traviata tem uma peculiaridade: todas as árias são lindas e só há árias. Até os diálogos dramáticos parecem árias. Abel Rocha encorpora tudo isso; rege no tempo adequado do espaço moderno.

O público percebe e aplaude, com força, mas sem o delírio das platéias do Bexiga

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/03/2012 - 15:36

THOR E O PÊNDULO DA JUSTIÇA

Compartilhe: Twitter

Muito se fala de Thor, porque Thor não é um cidadão comum. Thor é filho de Eike, que é um dos personagens da famosa lista dos mais ricos do mundo. Hoje, a riqueza atrai interesses, admiração e ódio, como a aristocracia nos tempos passados. Scott Fitzgerald já afirmava que os “muito ricos” têm uma natureza diferente do comum dos mortais.

Thor atropelou um ciclista pobre que se encontrava, ao que os testemunhos indicam, numa situação de risco, no meio da via pública.

Thor parou, atendeu o atropelado, fez que o conduzissem ao hospital, tudo conforme a ética da situação recomenda.

Mas Thor é um menino rico e o atropelado é um menino pobre. Da mesma forma que o rico , no Brasil, tem vantagens jurisdicionais, o pobre, nessa situação, tem vantagens midiáticas. A opinião pública sempre está com o time do mais pobre.

A grande questão moral que essa situação representa, será a decência do processo, quando a balança da justiça não deve pender nem para os preconceitos, nem para os sentimentos primários. Quando se diz, emblematicamente, que a justiça é cega, é porque ela não deve olhar para os interesses, nem para as emoções, mas deve agir segundo a convicção produzida pelo processo. O caso Thor não será o do julgamento de uma pessoa, mas do julgamento da Justiça.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/03/2012 - 10:14

É UMA VERGONHA – O CONGRESSO

Compartilhe: Twitter

Quando a presidenta Dilma anunciou a necessidade de mudança de hábitos e costumes para os pressupostos da governabilidade, deveríamos comemorar.

Sobretudo, deveria comemorar, a maioria dos deputados e senadores, que, membros do baixo clero, nunca têm voz no clube dos donos do Congresso.

Ao contrario, todos revestiram-se de um luto ofendido, arrogante e vingador. Melhorar os hábitos do parlamento parece um insulto, dentro e fora do clube.

Líder da corrente majoritária, só pode ser uma pessoa de confiança pessoal da presidenta. Nada mais natural. No congresso não. Liderança, lá, é uma cadeira cativa de interesses atendidos.

A Câmara Federal declarou guerra às iniciativas do poder executivo. E Sarney já avisou que não está morto nem dormindo, e que o Dono do Mar também é Dono do Senado.

Mas o congresso é necessário. Mas o Congresso é perigoso.

Necessário, porque não há democracia sem legislativo.

Perigoso, porque nem sempre é democrático.

O segundo poder já derrubou muitos governantes. O próprio Collor advertiu a presidente que não se pode mexer com os interesses do Congresso.

Quando se trata de manter interesses e privilégios, deputados viram uma fera. Afinal, foram eleitos para quê?

Nesta semana os deputados se desnudaram inteiramente, sem qualquer pudor. Não perceberam que se aviltaram.

É uma vergonha. Um Tsunami, esse sim. Até que a cidadania acorde os inconscientes.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/03/2012 - 08:50

VOCÊ ESTÁ MUITO BEM.

Compartilhe: Twitter

Quando alguém afirma que você está muito bem, há um pressuposto de que você não deveria estar tão bem. Há mesmo uma frustração de perspectiva no interlocutor, pois você não poderia estar muito bem.

Pois, sinto-me muito bem e às vezes me pergunto; Como um velho pode estar tão bem?

Você está muito bem:

Quando tem capacidade de se apaixonar, ainda que isso possa parecer ridículo.

Quando você gosta dessa coisa que parece muito inadequada, que é trabalhar, enquanto deveria gozar as delícias da aposentadoria.

Quando você pode almoçar todos os dias com as netas, e percebe que elas sentem-se a vontade, como num recreio.

Quando se torna mais prazeroso gastar, do que economizar.

Quando as horas de sonho são maiores do que as horas de insônia.

Quando você tem mais amigos do que súditos ou patrões.

Quando ser triste não se confunde com ser infeliz.

Quando entramos sozinhos num restaurante e nos sentimos acompanhados, de nós mesmos.

Quando achamos que a morte, quando vier, chegará na hora certa.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/03/2012 - 16:30

NOVOS CANDIDATOS NOVOS E SERRA – O QUE ISSO SIGNIFICA?

Compartilhe: Twitter

É indiscutível que o PT deseja abocanhar todas as instâncias do poder, apesar dos acordos de governabilidade. Sobretudo, os quadros tradicionais do PT desejam, como nos outros partidos, indicar os candidatos a cargos majoritários.

Lula quebrou essa cadeia eleitoral quando indicou Dilma candidata a sua sucessão. Dilma provinha do PDT, não fazia parte de nenhuma das correntes majoritários do PT, carregava um perfil de administradora e um passado de lutas políticas, que incluía prisões e torturas.

Agora, Lula quer repetir a dose. Quer um candidato fora dos quadros etários e tradicionais do PT, com a indicação de Fernando Haddad, seu ex-ministro da educação.

No PMDB, Temer segue o mesmo caminho, indicando um cristão novo, com bom potencial eleitoral, ideologicamente desvinculado das correntes fisiológicas do partido, Gabriel Chalita.

O PPS, partido de forte tradição ideológica, aposta na popularidade da vereadora Soninha, ativista de causas urbanas e ecológicas, mas desligada das velhas tradições do partido.

O PRB, partido dos evangélicos, não apresentou nenhum pastor, mas um jovem líder de causas do consumidor, radialista defensor do cidadão comum em suas relações com o mercado usurpador.

O mais ortodoxo e precocemente fisiológico dos partidos ideológicos, o PCdoB, vai de Netinho, jovem artista de visíveis tendências populistas.

Todas essas candidaturas contrariam a regra habitual dos partidos, de candidatar seus caciques ou os grandes nomes, a exceção da escolha de Lula, que se considera acima do partido e com melhor intuição do que a de seus pares.

O PSDB também estava propenso a buscar seu candidato entre os quadros novos, ou semi-novos, numa prévia que indicaria tendências e preferências dentro do perturbado sistema partidário. As boas perspectivas eleitorais, a experiência administrativa e política, e a disposição de confronto pesado com o PT, levaram o PSDB a solicitar a Serra, a candidatura de Serra, que acabou por aceitar o encargo.

Só a eleição nos dirá o que isso tudo significa, e quem tinha razão, diante da história e das urnas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/03/2012 - 19:48

HELL

Compartilhe: Twitter

A peça de Babenco, estrelada por Barbara Paz, já percorreu muitos palcos, quase dois anos em cartaz. Fui assisti-la no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura.

Lolita Pille era uma menina muito louca, da elite parisiense. Gostava de roupas novas, grifes e sapatos saídos do imponderável. Afirma que uma noite entrou em uma boate e nunca mais saiu de lá. Fez tudo o que o corpo pode agüentar: vinho, vodca, cocaína, sexo, amor, desamor, paixão, encontros de esperança e encontros de desesperança. Muito amor, abandono e morte. Enfim, o percurso de uma geração que se afogou em si mesma, por excesso de tudo o que se torna inútil.

Babenco fez a primeira transposição do romance para teatro. Apoiou-se numa equipe brilhante e na sua experiência de cinema, de ótimo cinema. Colheu a concepção das imagens de Giovanni Bianco. Paulo Azevedo faz o contraponto do impossível amor.

Barbara Paz fala com o corpo, do olhar aos pés bem calçados. Nos ensina que muito mais sensual do que o “strip-tease” é vestir-se. Vestir-se de vagar, em si mesma. A marionete perdida nas cordas da química, freme. Em alguns momentos seu corpo nos dilacera na ingenuidade das poltronas do teatro burguês.

O painel de uma vida nos percorre tais quais barquinhos brancos de cocaína a percorrer os túneis do sangue.

Um belo espetáculo, a embaçar as vitrines do desejo. Mas consumir é preciso, até que o Porsche se transforme em luto.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/03/2012 - 13:02

É BOM SABER

Compartilhe: Twitter

Candidatos mudos até o horário gratuito

Não sei por que o STE, Superior Tribunal Eleitoral, proibiu a veiculação de twitter dos candidatos a prefeito, antes do inicio da caçada eleitoral. Twitter é um utensílio democrático, aberto a todos os candidatos. Melhor, que o quanto antes, os candidatos digam a que vieram, em mídia equivalente para todos os candidatos.

Copa – os compromissos do Brasil

A questão da Copa não é simples, mas é lógica. O Presidente da República, em festiva cerimônia de escolha do Brasil para sediar a Copa, assinou com a FIFA a lista de compromissos que deveriam ser aceitas pelos países candidatos. Isso está escrito e não se discute. Mas agora o Brasil quer mudar o compromisso assumido. Pura e simplesmente não pode.

Villa Lobos

Todas as partituras de Villa Lobos estão na França, com editores franceses aos quais nossos músicos devem pagar direitos, até que estejam liberados, pelo decurso do tempo legal. A OSESP, com um bom número de musicólogos está organizando e revisando as partituras das dez sinfonias de Villa Lobos. Trabalho de gigante. Necessário, porque há escritas apagadas, erradas e até mesmo perdidas, como a quinta sinfonia. Felizmente, em alguns anos teremos essas partituras no Brasil, disponíveis a todas as orquestras que desejem executá-las.

O advento da bicicleta

Melhor um par de rodas andando do que quatro paradas. Apesar dos riscos e das poucas condições de tráfego de bicicletas em São Paulo, a utilização da bicicleta, como veículo habitual, está aumentando bastante. Como veículo de prazer já é alto o número de usuários, até porque, nos domingos, há faixas para ciclistas. O uso vai explodir quando houver faixas, pistas e tráfego mais seguro nas vias comuns. Tirando o acesso ao espigão da Paulista e alguns bairros nas fraudas da Cantareira, um bom pedaço de São Paulo é plano, facilitando o uso de bicicletas. Já  há uma iniciativa em algumas escolas públicas de fornecer esse veículo aos alunos. O hábito vai pegar.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/03/2012 - 15:40

O TSUNAMI É AQUI MESMO

Compartilhe: Twitter

Faz um ano. A tragédia do Japão abalou o mundo. Quando eu era criança tinha horror de maremoto. Vi um maremoto num filme sobre Pompéia, quando as larvas do vulcão se juntaram às ondas do mar. Uma barbaridade da Metro Goldwin Mayer.

No Japão, a onda do Tsunami parecia efeito especial de cinema, mas era real. Arrastava tudo e todos, estradas, pontes, prédios, até que um navio inteiro ficou ancorado em cima de um edifício que sobrou. As pessoas perderam tudo.

Logo, logo, o Japão nos ensinou algumas coisas. Ninguém roubou nada nos destroços. Se, achou, devolveu. Qualquer pessoa, com duas batatas, dividia as batatas com os outros.

Um ano depois os documentários são inacreditáveis. Todas as obras de infra-estrutura estão reconstruídas. Ninguém fala em corrupção das empreiteiras dessas obras públicas.

Todo o sistema de transporte está restabelecido. Toda a energia está distribuída normalmente. As pessoas vão se acomodando em casas provisórias, ninguém mais está em abrigos públicos. O comercio começa a ganhar vida.

As pessoas parecem tristes com os seres e o patrimônio perdido. Mas a cara tem dignidade. O futuro tem que ser encarado, inclusive com novas tecnologias contra os tsunamis.

Vendo isso tudo, sinto orgulho da condição humana, e me debruço sobre nosso país.

As chuvas dos últimos anos deixaram cicatrizes profundas. Verbas enormes foram disponibilizadas. Não se reconstruiu nada.

Nossas estradas, fora do Estado de São Paulo, estão destruídas, ocasionando acidentes monumentais. Desde que eu era criança o governo pretende construir a Regis Bittencourt, uma das estradas mais importantes do país. Continua um cenário de terror, com acidentes todos os dias.

Nossos aeroportos são indecentes, para dizer o mínimo, da esteira rolante às privadas.

Nossos portos são insuficientes para o maior exportador de cereais do mundo.

Nenhum Tsunami passou por aqui, além do Tsunami moral.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/03/2012 - 13:04

TV CULTURA A PERIGO

Compartilhe: Twitter

Está em votação no Supremo Tribunal Federal, a votação de uma questão trabalhista que poderá retroagir a TV Cultura, a uma identidade que nunca teve, a de Repartição Pública.

O Jornal O Estado de São Paulo publicou hoje um importante editorial, alertando sobre essa possibilidade. Editorial inspirado pelo lúcido artigo de Almir Pazzianoto, publicado dias atrás, no mesmo jornal.

Há pessoas interessadas em confundir a natureza jurídica da Fundação Padre Anchieta, seja por razões corporativas, seja por interesses políticos.

Afirmam que, por ser financeiramente dependente do estado, a Anchieta seria uma Fundação Pública de Direito Privado. Isso não é verdade. A Fundação recebe recursos da sociedade, inclusive dos governos, como inúmeras outras sociedades civis sem fins lucrativos.

Sodré criou a fundação como Fundação de Direito Privado e isso já foi testado, em decisões judiciais posteriores e na prática. Todas as vezes que a fundação foi atropela por interesse políticos escusos, o conselho, de uma fundação com autonomia política, intelectual e administrativa, reagiu, salvando a instituição da pretendida intervenção.

Mais uma vez estamos nas mãos da interpretação judicial. Esperamos que o Supremo, por decisão inadvertida, não leve a TV Cultura à ruína.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/03/2012 - 18:30

RECEITAS DE DONA BENTA PARA A TV PÚBLICA

Compartilhe: Twitter

TV Pública precisa de audiência. Universo de audiência, isto é, público suficiente em cada tipo de programação. Seja infantil, adolescente ou adulta. Apesar de nossas diferenças, da profunda diferença de missão, aprendemos com a Globo e com os super mercados, que televisão também precisa de carros-chefe, isto é, um programa forte que puxe os demais programas. Nas televisões públicas, esses programas são: um programa infantil fidelizante e um programa jornalístico independente e diferenciado.

No resto da grade, a lição é melhorar os programas tradicionais e inovar o conteúdo dos programas variáveis: séries, documentários, musicais e serviços. Inventar uma televisão nova a cada semestre é suicídio garantido. Impulsionar o que se tem, transformando o bom em ótimo é a meta mais sensata.

Quem me disse isso foi o Dr. Roberto Marinho, num almoço memorável que me ofereceu, quando eu era presidente da Gazeta. –Aqui, Jorge, mexemos em pouca coisa. Só me sobra espaço para intervenção permanente no jornal O Globo.  Por isso dedico-me mais ao Globo.

O dono todo poderoso de uma empresa privada, sabia que televisão tem regras, que fazem parte de sua natureza.

O público brasileiro quer ser correspondido na sua fidelização. Sou fiel, mas vocês também devem ser fieis à programação.

Na TV Pública os presidentes costumam ter mandato, e isso é bom, indispensável mesmo, mas, ainda que isso seja difícil, os diretores de programação também deveriam ter mandato. Em conjunto, deveriam propor uma linha de programação para o tempo do mandato. Depois, mãos a obra, sem fazer experiências “inovadoras” a cada trimestre.

Sem o longo prazo não há mensuração responsável de audiência, sobretudo em audiências próximas do um ou do zero, quando o 100%  de aumento não significa quase nada.

Se Dona Benta não fosse apenas um livro de receitas culinárias, a gente encontraria essas idéias em seu livro.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo