A NEVE DE PAMUK
Orhan Pamuk, o poeta e romancista turco, fez uma bela conferência na Sala São Paulo, em dezembro de 2011, para mil leigos interessados. Falou da construção do romance, sua estrutura, suas histórias e seus personagens. Detalhou com minúcias o processo construtivo de um romance. Chegou a parecer exagerado, na importância que dava às particularidades.
Estou lendo NEVE, seu romance cuja ação se passa em Kars, na Anatólia Oriental, castigada pela nevada implacável e pelas lutas étnicas e religiosas.
A cultura norte americana nos ensinou a ver tudo como um todo indivisível, marcado por uma caricatura exponencial. O Iran é assim, o Brasil é assado.Nada, nem pessoas, nem países, são avaliados na sua imensa diversidade.
Eu mesmo, tinha uma idéia muito deformada da Turquia, como quase todos, temos uma idéia preconceituosa do mundo islâmico.
As mulheres, cobertas por seus mantos, nos parecem seres abstratos, indiferentes ao mundo e sem idéia própria sobre o mundo. Os súditos de Alá nos parecem fanáticos, sem qualquer dúvida metafísica diante do criador.
Pamuk nos mostra como somos apenas humanos, muçulmanos, judeus e marxistas, na dúvida, na fé, no amor, no ódio, na prepotência política, no preconceito e na generosidade. Realça as circunstâncias, de uma geografia de neve, de uma economia decadente e de uma política conflitante e apaixonada que leva ao crime e ao desespero e ao suicídio.
A Turquia não é apenas Kars,mas também é a Capadocia, o Bósforo, os turcos, os armênios, os curdos, os poetas, os militares, as mulheres envoltas em mantos e as mulheres descobertas.
Pamuk nos revela o homem, nas mais profundas circunstâncias do desespero. Pamuk nos faz distinguir a infelicidade da tristeza. A tristeza é um sentimento dentro do homem. A infelicidade é um sentimento do homem diante da tragédia humana.
Que grande livro, editado pela coleção Prêmio Nobel, da Companhia das Letras. E estou ainda na metade do romance. Ando devagar pela NEVE, para não congelar a minha alma.
