A vida é sempre causada e anunciada; a morte, ao contrário, nos pega de surpresa. Foi assim a morte do Glênio Bonder, 20 anos mais moço do que toda um geração de amigos brasileiros.
Conheci o Glênio na Embaixada do Brasil, em Paris, num 7 de setembro, em visita oficial, quando eu era Secretario da Cultura. Era um jovem brilhante, falava todas as linguas necessárias, trabalhava na ONU, tinha uma Mercedes e morava na Rive Gauche, ainda na rue Saint dominique, num belo apartamento. Ficamos amigos e fomos assistir um concerto da Orquestra da Radio Difusão Francesa, regida por um outro jovem braileiro, o Flavio Chamis. Villa Lobos, na cabeça.
Ficamos amigos, os três, e percebi, que desde então ele tinha obsessão pelo escritor judeu Albert Cohen. Tinha, na ocasião, uma namorada austríaca, casada, o que o assemelhava bastante com o personagem de Cohen, em “A Bela do Senhor”.
Durante os anos que convivi com o Glênio, percebi a idéia fixa de fazer um filme com o roteiro da “Belle du Seigneur”. Glênio casou-se com a filha de uma armador grego, teve duas filhas com ela, em Londres, mas manteve-se fiel a Paris, e ao apartamento novo da Rua Guinemere onde hóspede,diversas vezes, pude deliciar-me com as quatro estações do ano que se revesavam no Parque du Luxembourg.Paola tinha uma metade da ilha de Itaca, na Grecia, para onde Ulisses retornou em busca de sua mulher, ultrajada por uns play-boys, tão logo vingados pelo herói e seu filho. Certa ocasião, nessa ilha de Ulisses e Penélope, resolvemos subir uma montanha para ver as escavações que faziam do palácio de Ulisses, ao meio dia, num sol infernal. Eu já não era criança, quando, de repente, senti um sol resplandecer nos meus olhos, e pensei que fosse uma aparição do próprio Ulisses. Comecei a delirar. Era um princípio de insolação. Estava sózinho porque o resto da fogosa juventude de gregos e franceses, já andava muito adiante, quase nas escavações. Quando retornei à paisagem da razão me senti um fraco. Só me consolei, ao descer, quando umas meninas bem jovens, começaram a desmaiar. Mas não há nada que a Grécia não resolva: pulamos na água azul profunda e ressuscitamos.
Cohen já estava morto. Sem condições de filmar a Bela do Senhor, Glênio fez um documentário sobre o escritor, com ajuda de sua viuva,uma velhinha suissa, muito simpática, com a qual almocei em Paris. O documentário foi um sucesso, o que estimulou meu amigo a procurar financiadores e produtores para o filme. Passaram-se 25 anos. Glênio fez de tudo. Foi fotógrafo de moda, diplomata, trabalhou na ONU, foi documentarista, desquitou-se da Paola, recasou foi para Londres, mudou-se para outra casa, da qual saiu com uma das filhas e deixou a mulher em outros amores. Fiquei algum tempo sem vê-lo. Casou-se com a irmã do rei do Marrocos, apesar de ser judeu, mas contou-me que ela era de uma descendência ilustre de bérberes, que na origem eram a mesma coisa que os judeus.Se entendi bem, em nossa última conversa, de dois meses atrás, ela pretendia ter um filho seu e não poderiam vir para o meu aniversário, para o qual os convidei, pois haveria uma festa religiosa la no reino.
Contou-me que o filme, finalmente estava pronto, com atores importantes, Jonathan Rhys Meyers e Natalia Vodianova, e seria lançado no ano que vem.Vou passar o natal com minha filha, que mora na Europa, e no dia 17 pretendia estar com o Glênio Bonder, mas a morte não respeita estréias nem encontros.