2011 novembro | Jorge da Cunha Lima
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Arquivo de novembro, 2011

29/11/2011 - 13:46

Na Paulista. Na cabecça.

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Ocupy Wall Street é um brado contra a desproporção democráficca, entre os que decidem, 1% da população e os que pagam os impostos, 99% dos cidadãos americanos. No tempo de Maria Antonieta, quando houve a derrubada da Bastilha, cárcere real, a proporção era de 5% para 95.
Muitos afirmam que os meninos de Wall Street não sabem ou não conseguen expressar o que desejam. Isso é uma tolice. Depois da crise de 2008, nem os mais aclamados economistas ou financistas dos EUA e da Europa, sabem o que fazer com a crise. Mas todos constatam as consequências: depressão e desemprego. Maria Antonieta recomendava ao povo comer brioches ja que não havia pão. Hoje, os economistas de Harvard, recomendam, apertar os cintos.
O Brasi é surpreendente. Na Avenida Paulista, em singela manifestação, as pessoas que infernizam o trânsito já diabólico, sabem muito bem o que desejam, tanto quanto o professor Bresser Pereira. Querem que os juros abaixem já, em proporções maiores do que as propostas pela Copom. querem que o câmbio seja mais realista, a favor da industrialização nacional. Nada mais sereno, mais racional.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2011 - 22:11

Natal – uma festa difícil

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O Natal não é mais uma festa fácil. Depois que perdeu o sentido religioso, quando era uma festa da comunidade e não apenas da família, a comemoração ganhou imperativos categóricos a serem observados.

Há uma obrigação das pessoas se confraternizarem, mesmo quando o clima de concorrência, no trabalho, na família, nos partidos políticos, nas atividades artísticas, enfim, nas coisas da vida moderna, favorecem relações menos amistosas entre os homens. Os ajustes familiares, compulsórios, às vezes são penosos. Há uma obrigação de comemorar, e comemorar é comer e beber, como nos anúncios de cerveja, nos quais os homens se não forem “devassos”, são uns infelizes. Há essa obrigação cultivada pelo mercado consumidor, de dar presentes.

É claro que crianças gostam de presentes e esperam avidamente o Papai Noel, quando acreditam nele. Mas há uma oferta de desejos desproporcional à capacidade aquisitiva do homem comum, e o homem comum é a maioria da população. As pessoas se endividam ainda mais, pagam juros exorbitantes no crediário e nos cartões de crédito, para dar presentes.

Contudo, o Natal continua uma festa. E o povo gosta de festa. O ser humano gosta de festa. Não importa o mau gosto das decorações urbanas. Há uma grandiosidade nas mega-árvores-de-natal. A da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, este ano atingiu as alturas, anunciando copas e olimpíadas. Luzinha colorida é sempre um espetáculo bonito. Por vezes, muito bonito, como a iluminação do Parque Trianon.  Não é atoa que a decoração dos bancos e dos demais imóveis da Paulista, atraem milhões de pessoas durante quarenta dias, infernizando o trânsito, mas produzindo visível alegria aos transeuntes natalinos.

Contudo, há os radicais, que fogem do natal como o diabo, da cruz.

Preferem a fila dos aeroportos, das estradas e das rodoviárias ao confronto afetivo da natividade. A diáspora preferida são as praias. Parece que Natal e Ano Novo combina com praia.

Eu gosto de natal pois gosto de festa, mas fico confuso, com saudades da Missa do Galo, do São Bento.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/11/2011 - 14:59

gaiolas pós modernas

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Quando se enquadra o pássaro na moldura muda-se a liberdade em arte duradoura. Cala-se o pássaro, fala mais alto a moldura. Perde-se a ternura do pássaro, no dourado da moldura. Fala mais alto o ouro, que a doçura silvestre, nessa aura. Jaz o canto animal na floresta capital. Tudo virou arte no pagode tropical, até que a moldura cochilou, e o pássaro voou mais alto que o mercado pós moderno – pois nada é eterno enquanto dura

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Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/11/2011 - 13:30

O GRANDE POETA – NELSON CAVAQUINHO

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Sempre considerei que os quatro maiores poetas da lingua portuguesa são: Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drumond de Andrade e João Cabral de Mello Neto. Ouvi atento as palavras de nelson Cavaquinho no show que lhe dedica Carlinhos Vergueiro. Sem dúvida, o poeta da mangueira é p quinto maior poeta da lingua. Sua linguagem expressa todo o sentimento da condição humana. Suas rimas são necessárias e precisas. Nada é demais em Nelson Cavaquinho. Fala da morte com muita consciência e mesmo prudência. Só lhe atribui o que o homem é capaz de ofertar-lhe. Aos inimigos perdoa, porque o ofensor é sempre uma criança. Nunca teve medo da dor de corno, pois sabe rimá-la com as dores naturais da vida. Vale pegar as suas duzentas canções e apenas lê-las como poesia, e o que eu afirmei estará devidamente provado

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/11/2011 - 16:02

A LONGA MORTE DE GLÊNIO BONDER

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A vida é sempre causada e anunciada; a morte, ao contrário, nos pega de surpresa. Foi assim a morte do Glênio Bonder, 20 anos mais moço do que toda um geração de amigos brasileiros.
Conheci o Glênio na Embaixada do Brasil, em Paris, num 7 de setembro, em visita oficial, quando eu era Secretario da Cultura. Era um jovem brilhante, falava todas as linguas necessárias, trabalhava na ONU, tinha uma Mercedes e morava na Rive Gauche, ainda na rue Saint dominique, num belo apartamento. Ficamos amigos e fomos assistir um concerto da Orquestra da Radio Difusão Francesa, regida por um outro jovem braileiro, o Flavio Chamis. Villa Lobos, na cabeça.
Ficamos amigos, os três, e percebi, que desde então ele tinha obsessão pelo escritor judeu Albert Cohen. Tinha, na ocasião, uma namorada austríaca, casada, o que o assemelhava bastante com o personagem de Cohen, em “A Bela do Senhor”.
Durante os anos que convivi com o Glênio, percebi a idéia fixa de fazer um filme com o roteiro da “Belle du Seigneur”. Glênio casou-se com a filha de uma armador grego, teve duas filhas com ela, em Londres, mas manteve-se fiel a Paris, e ao apartamento novo da Rua Guinemere onde hóspede,diversas vezes, pude deliciar-me com as quatro estações do ano que se revesavam no Parque du Luxembourg.Paola tinha uma metade da ilha de Itaca, na Grecia, para onde Ulisses retornou em busca de sua mulher, ultrajada por uns play-boys, tão logo vingados pelo herói e seu filho. Certa ocasião, nessa ilha de Ulisses e Penélope, resolvemos subir uma montanha para ver as escavações que faziam do palácio de Ulisses, ao meio dia, num sol infernal. Eu já não era criança, quando, de repente, senti um sol resplandecer nos meus olhos, e pensei que fosse uma aparição do próprio Ulisses. Comecei a delirar. Era um princípio de insolação. Estava sózinho porque o resto da fogosa juventude de gregos e franceses, já andava muito adiante, quase nas escavações. Quando retornei à paisagem da razão me senti um fraco. Só me consolei, ao descer, quando umas meninas bem jovens, começaram a desmaiar. Mas não há nada que a Grécia não resolva: pulamos na água azul profunda e ressuscitamos.
Cohen já estava morto. Sem condições de filmar a Bela do Senhor, Glênio fez um documentário sobre o escritor, com ajuda de sua viuva,uma velhinha suissa, muito simpática, com a qual almocei em Paris. O documentário foi um sucesso, o que estimulou meu amigo a procurar financiadores e produtores para o filme. Passaram-se 25 anos. Glênio fez de tudo. Foi fotógrafo de moda, diplomata, trabalhou na ONU, foi documentarista, desquitou-se da Paola, recasou foi para Londres, mudou-se para outra casa, da qual saiu com uma das filhas e deixou a mulher em outros amores. Fiquei algum tempo sem vê-lo. Casou-se com a irmã do rei do Marrocos, apesar de ser judeu, mas contou-me que ela era de uma descendência ilustre de bérberes, que na origem eram a mesma coisa que os judeus.Se entendi bem, em nossa última conversa, de dois meses atrás, ela pretendia ter um filho seu e não poderiam vir para o meu aniversário, para o qual os convidei, pois haveria uma festa religiosa la no reino.
Contou-me que o filme, finalmente estava pronto, com atores importantes, Jonathan Rhys Meyers e Natalia Vodianova, e seria lançado no ano que vem.Vou passar o natal com minha filha, que mora na Europa, e no dia 17 pretendia estar com o Glênio Bonder, mas a morte não respeita estréias nem encontros.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/11/2011 - 13:26

CONGRESSO DOS ESCRITORES III

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Fernando Moraes participou de mesa na qual foi discutida a questão das biografias e as dificuldades com biografias de vivos e mortos, quando herdeiros ou descendentes ou o próprio contestam o direito de escrever livremente. Foi unânime a idéia de que os cidadãos tem direito de conhecer a vida dos biografados, que o patrimônio é da sociedade.Assim, Roberto Carlos não poderia ter impedido a circulação de sua biografia escrita por terceiro não autorizado. Outros biografos reclamaram que suas obras tem sido aproveitadas em filmes, sem que eles recebam qualquer participação nas bilheterias. Com relação aos mortos o grande problema tem sido com herdeiros ou descendentes, que além de direitos autorais julgam-se proprietários da própria história de seus antecessores. Antonio Penteado de Mendonça, falou sobre as perspectivas sociais adotadas pela academia, como traço de sua modernização. Palestras isoladas foram realizadas por Jorge da Cunha Lima, sobre A Cultura na Era Digital; por Afonso Romano, que fez uma dissertação primorosa sobre a política da leitura no Brasil e Frei Beto, que terminou o ciclo falando sobre Os escritores e as Ditaduras, revelando o quanto os evangelhos foram os primeiros escritos contra a tirania, produzidos pelo homem moderno. .

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/11/2011 - 14:03

CONGRESSO DE ESCRITORES II

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Mesas redondas, palestras isoladas e laboratórios de criação, realizados por dezenas de escritores nacionais, concluíram que as dificuldades não são poucas para os escritores de literatura.

A produção, propriamente literária, sucumbe às exigências do mercado, consagradas pela estratégia e pela prática das grandes editoras nacionais e internacionais, instaladas no Brasil. Segunda as pesquisas, por elas encomendadas: literatura não vende. Assim, publica-se apenas o que se vende. Há uma imensa produção de livros, 50 mil por ano, 50 % dos quais vendidos em São Paulo. Mas, pela ordem, vendem-se as seguintes categorias de escritos: autores internacionais consagrados e amplamente divulgados; autores de auto-ajuda, que preenchem o vazio de utopia do mundo atual e obviedades e platitudes de celebridades momentâneas.

Os jovens talentos e os velhos escritores de literatura, mesmo quando consagrados em concursos promovidos pelo Estado, por instituições portuguesas e pelo Jabuti, não são editados facilmente, ou simplesmente não são editados.

Os incentivos fiscais, propiciados pelos governos, federal e estadual, acabam beneficiando as grandes editoras, que tem finalidades lucrativas, em detrimento da produção literária.

Da mesma forma, a distribuição e a divulgação, apenas favorecem os produtos consagrados no mercado comercial do livro.

Já os conteúdos literários destinam-se ao esquecimento ou ao encalhe.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/11/2011 - 18:27

CONGRESSO BRASILEIRO DE ESCRITORES I

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Em 1985 a UBE ( União Brasileira de Escritores) realizou um memorável Congresso para comemorar o retorno à democracia.Tancredo estava tragicamente destinado à morte e Sarney substituiu-o na abertura, realizada no Teatro Sergio Cardoso, em São Paulo, com a presença ainda do Governador Montoro, do Ministro Zé Aparecido e de escritores vindos de todas as partes do Brasil. Sarney vivia o susto do poder e ainda não se habituara aos desvirtuamentos. Esteve ali como um escritor, apesar de presidente.

Emoção e compromisso caracterizaram aquele Congresso de Escritores, que a Secretaria da Cultura teve a honra de apoiar. Afinal, o futuro estava aberto ao livre exercício da criatividade literária e artística, em geral.

Passaram-se 26 anos e voltamos a nos reunir, agora em Ribeirão Preto, pelo esforço obstinado do presidente Joaquim Maria Botelho e dos escritores, membros da UBE do município.

Os tempos são outros. A reconstrução democrática assemelha-se a uma corrida de obstáculos, as utopias cederam lugar aos interesses, e a economia neoliberal virou imperativo categórico depois da queda do Muro de Berlim. O progresso tecnológico surpreendeu o mundo, sobretudo no campo da comunicação; a civilização não logrou o mesmo desempenho.

Os problemas dos escritores, como constatamos no decorrer dos depoimentos, e dos debates fecundos realizados neste Congresso, assumem aspectos diferentes dos constatados no Congresso de 1985, como vermos na seqüência destas crônicas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/11/2011 - 21:37

AMANHÃ NUNCA MAIS

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Todas as segundas feiras eu recebo no e-mail, uma fotografia de Tadeu Jungle. Tadeu tem olhar para as coisas do cotidiano. Suas fotos são estáticas, porque fotografia é sempre um flagrante.

Cinema é movimento e Tadeu sempre foi um filho do movimento. Agora, fez o seu primeiro filme de longa metragem – uma comédia moderna.

Comédia é uma vertente do Teatro Grego, a outra é a tragédia. A tragédia exalta a virtude e consagra o destino, e destino é túnel sem luz no final. A comédia desmistifica as virtudes e costuma dar saídas.

Do personagem de “Amanhã Nunca Mais” se poderia dizer o que Rimbaud disse de si mesmo: – Por delicadeza eu perdi a minha vida.

Mas, felizmente, é um personagem cômico.

Ninguém saia rindo do Teatro Grego porque comédia não é chanchada, nem tragédia é dramalhão.

Com usos e abusos de situação Tadeu desconstrói e constrói seu personagem, o Walter, de Lazaro Ramos, sai da resignação humilhante até o murro eloqüente. Passa por todas no trânsito desconfortável da vida.

No filme de Tadeu, o coro grego, como nos filmes de caubói, é representado pelas canções de Arnaldo Antunes, no prólogo e no posfacio.

Não quero comentar a obra do ponto de vista cinematográfico, para isso há os críticos de cinema. Para mim há o resultado artístico, e isso me basta.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/11/2011 - 09:44

JOSE GREGORI NA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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Uma carreira extensa com um só caráter, na bagagem de si mesmo: a integridade. Percorreu a juventude em gabinetes de grandes homens, apenas servindo a função e se enriquecendo de conhecimentos. Foi um grande orador desde a Faculdade de Direito e revelou-se definitivamente no discurso de formatura. Previu o futuro em compromissos de dignidade e sacrifícios. Atravessou a ditadura como alguns de nós, escanteado, mas não derrotado. Foi secretario de estado, ministro e embaixador. Sempre teve uma obsessão existencial e cultural pelos direitos humanos. Foi fiel a esse ideal na militância e não apenas nas palavras.

Foi conduzido por votação expressiva à imortalidade da Academia, o que nunca almejou. Logo percebeu que aquele era outro espaço de  militância. Militância da palavra culta para divulgar as idéias universais.

Sua posse, ontem, na Academia Paulista de Letras, foi uma consagração: desde o discurso do Desembargador Nalini, que o recebeu, do Presidente Fernando Henrique, que enalteceu abertamente suas virtudes, o que não é habitual na discrição de FHC, do presidente da Academia, talentoso e moderno, e do grande público de amigos, políticos e acadêmicos que afluiu à casa dos imortais.

No memorável discurso, de retórica clássica e vigor juvenil para um octogenário, precisou a trajetória dos antecessores, a importância da língua e das artes e o fascínio pelo futuro, que constitui a imortalidade real dos sonhos. Sonhos, dos quais José Gregori nunca se afastou.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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