Sinto uma enorme simpatia por empresas nacionais, sobretudo, empresas aéreas, que levam a imagem do Brasil pelo mundo afora.
Já voei nas asas da Pannair, pela Aerovias, pela Transbrasil, pela Vasp, pela Varig e pela TAM. Quando estudei em Paris, a Varig era o melhor consulado do país. Não havia Internet, então, a gente lia os jornais brasileiros nas confortáveis poltronas do escritório da Varig, na Avenida Champs Elysées. Tudo de graça, com cafezinho brasileiro. As empresas tinham carinho pelos clientes. Éramos então, um pouco mais do que um sórdido mercado.
Hoje, voar, é um desconforto físico, moral e psicológico. Se não podemos pagar bilhetes executivos, ficamos espremidos em bancos, cuja distância e conforto constituem uma afronta à dignidade humana do passageiro. Os horários são de uma impontualidade crônica. O atendimento, pior do que o das rodoviárias do interior. A comida é incomível.
Das grandes empresas sobrou a TAM, criada por um empresário talentoso, que sabia o que é um avião, um vôo e um passageiro. A empresa cresceu, o empresário morreu, o mercado se consolidou e o passageiro também morreu, com o doce Comandante Amaro.
Nos afins de conquistar público, a empresa lançou a campanha da milhagem, campanha tão permanente, quanto indecente. Por essa campanha, o passageiro ganharia bônus com viagens feitas, para utilizar em viagens futuras. Acabou, em alguns casos, por poder utilizar pontos ganhos com compras em cartões de crédito.
Acreditando na campanha, acumulei, milhares de pontos de milhagem. Há mais de três anos, tento realizar uma viagem internacional com minhas milhagens. Nunca há lugar. Nunca consegui utilizar as milhagens, mesmo escrevendo cartas ao presidente da empresa, contando minhas agruras e a vontade ou necessidade de voar pela TAM. Se o mercado está prenhe de passageiros que pagam e se sujeitam por necessidade a qualquer condição de vôo, porque a empresa não acaba com a Milhagem?
Se não podem honrar a milhagem, porque continuar com essa pilhagem da boa fé do consumidor?
Outro detalhe da pilhagem. Cada dia a empresa desvaloriza ainda mais o peso da milhagem na permuta por passagens. Mas isso não tem muita importância porque nunca há passagens disponíveis.
A justiça e as delegacias de defesa do consumidor estão mudas. Os passageiros são cordatos, como as manadas de carneiro, porque avião é uma coisa necessária e perigosa, no ar e na terra.
Minha paciência de consumidor-cidadão está se esgotando, e ela é apenas um pálido reflexo da paciência de milhões de consumidores desprezados. Um dia a casa cai, em cima do avião.