RODA VIVA – O MONSTRO SAGRADO
Difícil mexer em monumentos mediáticos. Como as pessoas idosas, eles tem orgulho até dos seus defeitos. Mas quem não se renova não desova. Assim, uma televisão deve mudar ciclicamente seu ritmo, suas cores, sua dinâmica. Os programas devem refletir essas mudanças.
Roda Viva não precisa mais ser um programa heróico. Não precisamos derrubar nenhuma ditadura nem implantar uma democracia estável.
Precisamos consolidar uma nação e a consciência de sua grandeza. Roda Viva deve, então, ser um programa dialético. Buscar no embate de idéias de jornalistas experimentados com um entrevistado relevante uma síntese de conhecimentos necessários à compreensão dos temas e da conjuntura nacional.
Marília Gabriela, que estreou nesta segunda feira trouxe ao Roda Viva 40 anos de experiência televisiva e a humildade de se sentir honrada com o convite feito por João Sayad.
O programa está bem produzido. Maria Helena Amaral conhece televisão e conhece as potencialidades da entrevistadora.
O colorido está um pouco sombrio, não sei se por problemas de iluminação ou pelo verde garrafa do cenario.
A entrevista com Eike Batista mostrou dinâmica, ás vezes até demais. Ele estava no meio de uma resposta e já havia a ansiedade por outras revelações. Mas a bagagem do entrevistado leva necessariamente a essa curiosidade jornalística e política.
O expediente de dois entrevistadores permanentes ao lado de Marília deve dar maior profundidade aos debates, sobretudo pela natureza dos dois. Augusto, tranqüilo como um repórter da BBC e
Paulinho Moreira Leite, atilado e atirado, como um adolescente fora de série. Marília controlou o espetáculo sem se exibir, o que é uma sabedoria. Necessário dar mais oportunidades aos entrevistadores convidados que podem ficar inibidos ao lado de 3 feras jornalísticas.
A colocação dos interlocutores num mesmo patamar não tirou a graça de uma roda viva e deixou os entrevistadores no mesmo nível de responsabilidade, sem a proteção de um degrau superior.
O primeiro round está vencido. Televisão é qualidade e continuidade. É dessas virtudes que o controle remoto se aproxima.
