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Arquivo de novembro, 2009

14/11/2009 - 16:40

WHAT THE CAT SAW

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Náo sei o que o gato viu, mas
Malcolm Gladwell é um grande jornalista

Claudio Abramo me disse uma vez: -Transformar um foca em repórter a gente consegue em três meses, mas um grande jornalista só se faz com uma grande cultura.
Com o tempo creio que além da cultura, o que faz um bom jornalista é uma observação aguda sobre os acontecimentos e seus personagens.
Malcom Gladwell se transformou de jornalista do New Yorker em escritor, a partir de suas reportagens. Todas as suas investigações jornalísticas referem-se a pessoas notáveis e produtos excepcionais. Os títulos de seus livros já são instigantes: Como as pequenas coisas podem fazer uma grande diferença; A História do Sucesso ou O poder de pensar sem pensar.
Agora a Litle, Brown and Company lança O que o gato viu?
Não há ainda tradução em português, dos outros creio que já existem.
Malcolm se pergunta: Porque há tantas variedades de mostarda e só uma de ketchup. Malcolm descreve o perfil do criador da pílula. Do maior produtor de pequenas utilidades para cozinha, mostra como o genial Ron Popeil, vendia suas criações em programas noturnos de televisão que ele produzia e apresentava, num malho comercial imbatível.
Nos revela como uma notável redatora de publicidade, Shirley Polykoff alavancou o Clairol, a primeira tintura de cabelo manipulada pela morena que desejava ficar loira, em casa, sem ir ao cabeleireiro.
ELA QUER OU NÃO QUER. SÓ SEU CABELO SABE.
É VERDADE QUE AS LOIRAS SÃO MAIS FELIZES?
SE EU TIVER SOMENTE UMA VIDA. DEIXE-ME VIVER COMO UMA LOIRA.
É verdade que quando Shirley foi apresentada a sua sogra o primeiro comentário que ela fez foi: Essa moça pinta os cabelos.
Malcolm nos conta ainda a historia de dois investidores de Wall Street: um libanês americanizado, Taleb e Niederhoff de descendência austríaca. Resolviam suas questões da bolsa de valores de forma diferente: um gostava de Mahler, Taleb detestava coisas tristes. Niederhoff gostava das Walkirias e acabou falindo umas quatro vezes. Taleb antevia as crises. Só se lamenta de não ter previsto a queda das torres.
Eis um livro a ser traduzido. Uma bela lição de jornalismo transformado em livro.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/11/2009 - 19:17

BASTARDOS INGLORIOS

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UMA COMEDIA VIOLENTA

Tarantino serve a violência como se fosse um pastel. Por isso mesmo seus filmes agradam a todo o mundo, mesmo aos que não apreciam a violência no cinema.
Bastardos Inglórios, seu último filme exibido no Brasil, com interpretação de Brad Pitt e outros magníficos atores, mais parece uma comédia. O desempenho da crueldade, dos judeus americanos, que buscavam vingança implacável, lembra desempenhos olímpicos em filmagens das finais das diversas categorias esportivas. Um escalpela como se fosse um cabeleireiro de luxo. Outro usa o bastão do baseball com uma elegância incomparável. O caçador de judeus é uma figura irônica, cínica, implacável na atividade fim, descobrir e liquidar judeus. O chefe dos bastardos, Brad Pitt, compõe a figura de um red neck , do oeste americano, desprovido de cérebro, mas capaz de qualquer ação destruidora individual ou coletiva. Comanda como os instrutores do Boppe: quem não comer merda pensando que é o melhor chocolate do mundo, não serve.
Tem até um mocinho, de estilo hollywoodiano, herói de guerra alemão, que se apaixona pela judia, dona do cinema, em que a heroína e os bastardos pretendem assassinar Hitler e o alto comando alemão. Romeu e Julieta se matam na sala de projeção, ele, perdido de amor.
Na grande sala, Hitler assiste, como um garoto de 12 anos, rindo e aplaudindo o herói alemão, que sozinho no filme, mata 350 americanos do alto de uma torre. Não percebe que em poucos segundos será sumariamente assassinado pelos bastardos juntamente com todo o comando nazista e os socialites parisienses da segunda guerra mundial. Uma grande piada que deve ser vista a contada.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/11/2009 - 13:05

UMA NOVA TOMADA, QUANDO NÃO HOUVER APAGÃO

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DO “PAL-M” À TOMADA HEXAGONAL

Quando fiz a reforma de meu apartamento, o eletricista me pediu verba para comprar 30 tomadas novas para substituir as velhas que estavam ainda em bom estado. Interpelei-o sobre esse luxo custoso. –É, doutor, agora precisa trocar tudo. A lei exige!
Soube então que uma lei havia unificado o padrão de tomadas elétricas. Nem a tomada redonda com saída de fio terra, nem a tomada americana, redonda mas chapada na superfície, mas uma tomada com uma caixa hexagonal afundada que exige plugs especiais de todos os aparelhos eletrodomésticos. Assim, ou trocamos as instalações das paredes ou compramos novas conexões para ligar os aparelhos que temos, no sistema que adotamos. Detalhe: não há como instalar fio terra nesse sistema, única coisa que justificaria essa modificação.
Não entendo nada de eletricidade mas fico perplexo com essa mania do brasileiro de ser diferente. Para televisão já havíamos adotado o sistema PAL-M, único no mundo. Agora essa de mudar a tomada. Um dia, ainda iremos adotar a direção dos automóveis, no lado direito, como os ingleses.
Engraçado é que isso passou rapidamente no congresso, sem que ninguém percebesse.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/11/2009 - 16:27

ABAIXO O MINHOCÃO

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KASAB E O MINHOCÃO

Gilberto Kassab é um político simpático. Assim, é com algum constrangimento que digo que sua administração perdeu o brilho no segundo mandato. Parece que quanto mais DEM, pior é o seu mandato. Uma vez disse ao prefeito que ele foi muito corajoso no primeiro mandato, limpando a cidade de sua poluição visual e de outras similares e que ele precisaria de alguma ação de impacto para marcar o segundo período pelo qual ele era o exclusivo responsável. – Você tem alguma sugestão, indagou com sagacidade? – No momento, não, respondi.
Assim, fui observando melhor, para chegar a alguma sugestão.
Outras questões foram sugeridas pela opinião pública, diante de atitudes impopulares e erradas, como a questão do lixo (a cidade anda muito suja), a questão escolar (a cidade não comporta diminuição de verba para a educação) e uma série de ortodoxias financeiras fora de contexto e mesmo de moda.
Com as chuvas incessantes e a falta de investimento permanente, os buracos voltaram a ferir o asfalto. Não se percebe dinamismo nem pressa em nada, a não ser a construção das novas marginais do Tietê, num contexto de obra estadual e municipal, de grande impacto eleitoral, apesar das críticas.
Ocorre-me uma idéia, para quem pretende ter coragem: demolir sumariamente o Minhocão no seu trecho central, da Consolação até o fim da Avenida São João. Dar de volta aos moradores as alamedas originais, ainda que congestionadas, pois tudo estará mesmo congestionado, até o fim da construção do Rodo Anel, a conclusão das novas faixas da Marginal e a construção intensiva de novas linhas de Metro e a substituição do transporte individual pelo transporte coletivo. As coisas demoram, mas a demolição do Minhocão, seria rápida e comemorada como a queda estética de um muro de Berlim urbano.
Coragem Kassab. Abaixo o Minhocão.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/11/2009 - 15:27

UMA NOVA GOVERNANÇA PÁRA O MUNDO

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A CARTA DE SÃO PAULO

O Instituto FHC, a CPFL e o Colegium Internacional, patrocinaram a Conferência de São Paulo para se discutir a idéia de uma nova governança para o mundo, no começo do século XXI. Reuniu no sábado, no Tivoli, uma tropa de elite, elite mesmo: MORAL, INTELECTUAL E POLÍTICA.
No comando da mesa o embaixador da França, Stéphane Hessel, com seus lúcidos 92 anos de idade. Combateu contra o nazismo. Foi um dos redatores e subscritores da Declaração dos Direitos Humanos. Fundou com outras personalidades a ONU. Enfim, suas credenciais valeram-lhe uma ovação no começo do seminário. Michel Rocard, ex Primeiro Ministro, socialista, da França. René Passet, humanista, economista especializado em desenvolvimento e um participante ativo do Primeiro Fórum Mundial de Porto Alegre. Fernando Henrique Cardoso, ex Presidente do Brasil.

Yves Saint Geours, futuro embaixador no Brasil; Danilo Miranda, presidente do Ano da França Brasil; Sacha Goldman, secretário do Colegium Internacional e Augusto Rodrigues, da CPFL, completavam o elenco diretivo do encontro.

O seminário apresentou e discutiu as propostas intelectuais que resultaram na CARTA DE SÃO PAULO, dirigida aos participantes do Encontro de Copenhague, a partir de exposições feitas pelos membros da mesa e discutidas pela assembléia de convidados inscritos. FHC defendeu a prevalência da humanidade sobre os poderes nacionais. Citou Grubachev quando o líder russo propôs, por medo da destruição atômica, que classe e nação não são mais suficientes. René Passet afirmou que as ortodoxias são mortais. Produziram a crise energética e ambiental, a estagflação e os sub-primes. Advertiu que quando um paradigma morre, ele continua a viver até o surgimento de outro que o substitua. Precisamos substituir o paradigma mecânico pelo paradigma da vida e concluiu: o todo não é o topo mas o resultado das bases. Doyle, o pensamento saxônico presente à mesa, propôs um melhor entendimento das pequenas necessidades. A sustentabilidade é sempre prejudicada pelas pequenas misérias como a malária, por exemplo. Solidariedade não é coisa moral, mas uma visualização diária da pobreza e da riqueza.
Michel Rocard, a grande estrela do encontro, propôs na primeira abordagem, apenas o seguinte: PROIBIR A PRODUÇÃO PARA EXPORTAÇÃO, DO PETRÓLEO, EM QUALQUER PARTE DO MUNDO. Explicou o que é o Colegium e vaticinou ainda a criação de um fundo para a luta contra a proliferação nuclear. Em sua palestra aponta as três vertentes da crise econômica: a crise dos produtos derivados, a baixa do poder de compra e a presença enorme do desemprego. Comentou que a transposição pacífica do crédito para a escroqueria, causou um imenso prejuízo, pago por todos os países do Ocidente. No final da Conferência de São Paulo leu-se a Carta de São Paulo, aclamada pelos presentes e cujo texto integral poderá ser encontrado no site do Instituto Fernando Henrique Cardoso

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/11/2009 - 20:30

LÉVI STRAUSS EM SÃO PAULO

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SÃO PAULO DE LÉVI STRAUSS

Entre 1881 e 1981 a cidade de São Paulo edificou e destruiu o equivalente aos efeitos de duas bombas de Hiroxima. De fato, a cidade inexpressiva do período colonial cresceu vertiginosamente com a economia do café e a presença imigrante. Mas deglutia o próprio crescimento com transformações sucessivas. Lévi Strauss percebeu o fenômeno quando viveu aqui nos anos trinta, trazido para participar da fundação da USP e fazer suas pesquisas com indígenas brasileiros. Notou a velocidade com se fazia e desfazia a cidade. A burguesia ignorante tinha pressa, até para esconder a falta de conteúdo de seu passado. Fernando Barros e Silva, que ocupa a coluna de Clovis Rossi, na FSP, transcreveu dois pensamentos de Leví Strauss, lapidares, sobre as elites paulistanas: “A elite formava uma flora indolente e mais exótica do que imaginava” e considerava que a cultura “ até época recente, era um brinquedo para os ricos”. Creio que Strauss se afeiçoou por São Paulo, apesar de tudo, tanto é que escreveu “Saudades de São Paulo” juntamente com “Saudades do Brasil”. Produziu belas fotografias sobre o centro da cidade, que o Instituto Moreira Salles, conserva com muito cuidado. Sua cultura, sua vida e sua reputação como o maior sociólogo do Século XX, devem muito ao contato profundo que teve com este país e com São Paulo.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/11/2009 - 13:32

CRÔNICA DE UM COMENDADOR EM TRÂNSITO

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Congestionamento Carioca

O gentleman está encurralado nas poltronas brancas da Mercedes Benz. Cutuca com a bengala de Ipé o ombro erecto do chauffeur, a ver se o servo competente acelera os cavalos castrados da limousine na avenida parada.
- O tráfego está condenado, comendador, pelos motores de menor potência, e prosegue:
- No Rio, Excelência, só Escola de Samba tem trânsito livre na Avenida. — – E nós, Belizário, vamos perder a audiência com Da. Lily Marinho?
Pergunta em angústia o distinto.
Só os flamingos, em sua placidez cubana, vão aceitar o atraso de um comendador sem helicóptero.
No desconforto de uma sabiá sem bico o pássaro cacareja como Cecilia Bártolli, sem o trinado de Maria Callas. Não há como não ser no mundo dos muito ricos. Qualquer congestionamento revela o tom menor de um passado sem compasso e de um presente sem equipamentos, apesar do colarinho branco, passado a ferro. O último esgar de sua ascenção social está barrado pela vulgaridade do congestionamento – único evento democrático na cidade maravilhosa. Não se pode mais visitar D. Lily, que exige horários precisos, como o chá.
O comendador já não se encontra nas poltronas brancas da Mercedez.Volta para detrás do balcão, de onde nunca mais sairá.
A metafisica do comendador não tem acesso ao Cosme Velho.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/11/2009 - 13:32

AS NOVAS TOMADAS ELÉTRICAS

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DO “PAL-M” À TOMADA HEXAGONAL

Quando fiz a reforma de meu apartamento, o eletricista me pediu verba para comprar 30 tomadas novas para substituir as velhas que estavam ainda em bom estado. Interpelei-o sobre esse luxo custoso. –É, doutor, agora precisa trocar tudo. A lei exige!
Soube então que uma lei havia unificado o padrão de tomadas elétricas. Nem a tomada redonda com saída de fio terra, usada na Europa, nem a tomada americana, redonda mas chapada na superfície, mas uma tomada com uma caixa hexagonal afundada que exige plugs especiais de todos os aparelhos eletrodomésticos. Assim, ou trocamos as instalações das paredes ou compramos novas conexões para ligar os aparelhos que temos, no sistema adotado. Detalhe: não há como instalar fio terra nesse sistema, única coisa que justificaria a modificação.
Não entendo nada de eletricidade mas fico perplexo com essa mania do brasileiro de ser diferente. Para televisão já havíamos adotado o sistema PAL-M, único no mundo. Agora essa de mudar a tomada. Um dia, ainda iremos adotar a direção dos automóveis, no lado direito, como os ingleses.
Engraçado é que isso passou rapidamente no congresso, sem que ninguém percebesse.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/11/2009 - 10:47

AGORA. MENORES DE ESTRADA.

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ONDE VAMOS PARAR?

O Centro de São Paulo abriga um número relativamente pequeno de menores de rua. Dizem que há mais ONGs cuidando do assunto do que menores propriamente ditos. Contudo, o assunto é sério, porque os menores preferem viver na rua: tem mais relacionamentos afetivos, tem comida garantida, tem o que fazer; as condições de vida e relacionamento em suas casas ainda são piores do que o das ruas.
Mas na rua se propagam, atuam no campo do pequeno roubo e no tráfego de drogas, além de consumirem cada vez mais crack.
Há contudo uma geografia controlada, uma estatística controlada e a possibilidade de uma ação de cunho social.
O estadão anuncia em reportagem patética, a existência de menores de estrada, meninas que se prostituem a cada 26 km para comprar comida ou fumar crack. São pontos de exploração sexual conhecidos pelos usuários e, às vezes, as meninas cobram apenas dois reais por uma relação sexual para consumirem a droga.
Um levantamento da Polícia Rodoviária aponta a cifra absurda de 1.819 pontos vulneráveis e favoráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes. Pará, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Minas Gerais têm as estradas mais sujeitas a esse tipo de exploração.
Os leitos das estradas nacionais já estavam em ruínas segundo estatísticas feitas pelo próprio IBGE. Agora se transformaram em prostíbulos. Enquanto isso a gente só pensa no PIB.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/11/2009 - 19:51

ONDE ESTÁ VANDRÉ?

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Um encontro inesquecível

A última vez que vi Geraldo Vandré faz mais de 30 anos, quando eu estava assessorando a criação do primeiro loteamento ecológico do Brasil, o Patrimônio do Carmo. Era um belo escritório, ultramoderno, do empreendedor que conciliava um pragmatismo árabe com uma enorme sensibilidade.
Vandré vestia um poncho esfarrapado e sua cara era só dor. Queria alguma ajuda, mas uma ajuda impossível: ser o que havia perdido. Exilado, depois do Caminhando e cantando, foi para os Andes. Não sei de ninguém que conheça a história verdadeira. Sou testemunha das conseqüências. Sabíamos por alto que ele foi torturado e que lhe administraram drogas pesadas que o enlouqueceram. Outros alegam que foi a tortura sem drogas. Outros, pensam que foi apenas a tristeza mais funda do mundo.
Há momentos em que a impotência da piedade nos impede qualquer gesto. De fato não sabia o que fazer com aquele cantor magnífico, que nos deslumbrara no Maracanãzinho, mesmo perdendo troféu para o Chico Buarque. Desde então, apesar das canções inesquecíveis, nunca foi o primeiro. Compôs com Alaíde, Carlos Lira, Baden Powel, cantou músicas de Vinicius. Produziu álbuns inesquecíveis e sua Canção do Nordeste ainda é uma das mais belas musicas regionais jamais compostas no Brasil e pouca gente falou do amor come ele, talvez Camões, talvez Vinícius, talvez Shakespeare.
Mesmo seu exílio não foi exaltado por nenhum memorialista da esquerda sofrida, nem da festiva. Sumiu como a fuligem. Ninguém canta suas canções ou quando entoa seu hino de guerra, muitas vezes não sabe quem foi o herói da saga musical. É um hino sem autor.
Ontem encontrei no baú uma coletânea de suas vinte gravações escolhidas. Sua voz tem uma juventude e uma dor adolescente. Sua idéia do amor rejuvenesce o amor. Sua idéia da pátria engrandece a pátria.
Meu patrão, há trinta anos, ficou muito chocado de eu estar recebendo gente com aquele aspecto tão suspeito. De fato, não há nada mais suspeito do que um homem desesperado. Perdi meu emprego.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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