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29/10/2009 - 19:46

O NOVO FILME DE SERGIO BIANCHI

“OS INQUILINOS”

O filme de Sergio Bianchi, um dos anjos malditos do cinema brasileiro, estreado ontem, mostra maturidade, beleza e muita sutileza. Bianchi, apoiado num roteiro cinematográfico de Bia Bracher, sobre obra de um estreante da periferia literária, deu o mais delicado tratamento à violência, registrado no recente cinema brasileiro. A dupla constitui uma boa conexão entre a aristocracia espiritual e a anarquia intelectual.
Apesar da impactante iconografia da favela que abre e fecha a belíssima fotografia do filme, a anedota básica do filme, situa-se no quadro patético da baixa classe média. Não há a identidade da pobreza e da violência absoluta que se constata nos quadros militantes da favela. O conto de Wagner Giovani Serrer tangencia a grande favela, mas situa-se num resto de bairro de família, na qual o pai construiu tijolo por tijolo sua modesta casa, onde um vizinho velho deveria ser respeitado e no qual o pesonagem queria ser feliz, alí e para sempre.
A coproprietária do vizinho, sua ex-mulher, empresta a metade que lhe cabe naquele latifundio infortunado, a um triângulo de bandidos da favela próxima. A barbárie sonora, a prostituição, o contrabalndo e o roubo, inflamam a convivência com os vizinhos honestos e com o velho meeiro que a mulher deixou entre os bandidos.
O inferno se precipita na imaginação e no dia a dia de Walter, o inquilino honesto, que pretende defender a honra da mulher e o destino de um filho e uma filha menores. Apenas protegido pelos latidos ferozes que emite pedagogicamente para estimular o cão de guarda.
O filme não se engrandece pelo desenrolar trágico da história, mas pela covardia endêmica de uma classe média amedrontada, pela simplicidade com que se lava o sangue do traste que impedia a posse plena da moradia. O filme se engrandece pela novela da novela que o fuxico produz nas confidências da vizinhaça.
A mulher, geralmente mal humorada, só abre um largo sorriso, quando ve o marido furtivo, fuçando a cena do crime, como um “voyeur” profissional.
O ator, Descartes Marat, em sua candura covarde, está magistral como pai de família. O colega, do cursinho noturno, Caio Blat, mostra sua dimensão dramática nas poucas cenas em que aparece, como um revoltado instintivo, mas trágico. Cassia Kiss ensina Carlos Drumond de Andrade, a nós e aos protagonistas da baixa classe média. Comove até as pedras perdidas no ar, com a leitura da poesia “Morte do Leiteiro”, do maior poeta deste país.
O verso do barítono, encravado no frágil coração do subúrbio, no fim do filme, só poderia ser de Rimbaud.
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Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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