Arquivo de agosto, 2009
31/08/2009 - 18:10
A PREÇO DE OCASIÃO
O paulistano rico, depois da guerra, preferiu sempre morar nos brejos, nos pântanos aterrados e na Zona Sul. Na belíssima Cantareira só uns mortais, geralmente alemães, foram se instalar ao lado de belas florestas e com uma vista excepcional.
A Paulista, no ponto mais alto da cidade foi moradia dos imigrantes milionários e dos quatrocentões, até depois da guerra. Os palacetes foram a baixo e seus moradores foram para baixo, morar nos Jardins.
Essa tendência criou um fenômeno imobiliário interessante: todos os edifícios abaixo da Rua Tiête valem o dobro dos edifícios localizados acima.
Preferem-se os apartamentos que dão para as janelas dos vizinhos, por cinco Mil reais o metro quadrado, do que morar nas alturas da Paulista com a vista mais bela de São Paulo.
Sou beneficiário dessa inversão mercadológica. Mudei-me para as cercanias das alturas desprezadas, com o Parque do Trianon na altura dos pés e o MASP na direção dos olhos. Tenho 21cinemas para ir a pé. 3 grandes livrarias. A FNAC. Restaurantes de nem uma, uma, duas e três estrelas. Um parque para andar a pé. Policiamento razoável e hábito de se andar na rua sem medo. Isso tudo não tem valor imobiliário, mas tem valor existencial.
Quem não tiver preconceito de morar em lugares mais baratos, não deve perder essa oportunidade.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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27/08/2009 - 12:25
SUPLICY, GETULIO E EUCLIDES DA CUNHA
Bom de marketing, o Senador Suplicy tem um senso de oportunidade sempre presente a suas atitudes. Desta vez, dezenas de pessoas, sabendo de minha amizade com o Eduardo, me cobraram insistentemente se o Senador ia ou não ia se manifestar no caso Sarney. Eu próprio estava desapontado com o Senador Caxias, tão em silêncio diante de um fato tão estridente.
Passou o momento, paciência, o senador perdeu o bonde, pensei eu.
Mas o próprio Sarney lhe ofereceu uma oportunidade única. Depois de tudo o que ocorreu. Sarney vai a tribuna para falar de Getulio Vargas e de Euclides da Cunha. O Vargas eleito, governou sem composições, deu um impulso extraordinário ao Brasil moderno, da industria e da Petrobrás, vergastado cada dia pelo moralismo hipócrita da UDN e acabou se suicidando para afirmar a independência e a dignidade do poder. Euclides não fez jamais qualquer concessão à palavra escrita. Tinha rigor na vida e nas letras. A vida política nunca o seduziu para que pudesse ser único na literatura. Pois exatamente sobre esses dois personagens é que Sarney decidiu abrir a boca, no mais inoportuno dos momentos.
Suplicy assistiu ao jogo com paciência. No primeiro impedimento levantou o cartão vermelho. Depois repetiu o gesto quando a câmera apontou a sua lente. Algum gaiato perguntou se ele levantaria um cartão vermelho para o Lula. Meu amigo Eduardo só não perdeu o prumo porque lhe ofereceram um suco de maracujá, refrigerante recomendado aos senadores desde o bate boca do Renan com o Jereissati.
Creio que o povo brasileiro, se pudesse, levantaria um cartão vermelho para o Senado, para que esse esquema bicameral acabasse, reduzindo a representação legislativa apenas à Câmara dos Deputados.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: suplicy
25/08/2009 - 14:22
RUA MACUNIS
Há trinta anos moro numa casa onde meus filhos se tornaram adultos e a vida mais curta. Alto de Pinheiros é um bairro agradável, com árvores antigas e frágeis e passarinhos barulhentos. Não se podem aproveitar as alamedas, pela razão óbvia da segurança e os muros estão subindo, como nas penitenciárias. Tenho a lembrança de festas, casamentos, batizados, da Campanha do Montoro, e da Campanha das Diretas, que instalou na rua Macunís, o seu quartel geral. Dali, saiu para sempre minha mãe, embora tenham ficado suas lições, proferidas na mesa de jantar, principalmente. As paredes se encheram de quadros e dessas homenagens escritas que nos fazem pensar que somos importantes. Maria criou meus filhos e meus netos, promoveu a cerimônia do adeus de minha mãe e nos ensinou a todos comer bem, mas principalmente nos ensinou a digerir a vida com sabedoria, quaisquer que fossem os ossos. Desde a ditadura promovi o dia seguinte do natal, com um arroz de pato, para os impedidos pela polícia de ter um natal legal, para meus amigos judeus que manifestavam uma certa timidez de comemorar o natal e para os amigos, cuja marginalidade crônica os afastara dos sinos de Belém. Hoje, esses personagens não existem mais, mas o arroz de pato permanece incólume, com todos esses amigos institucionalizados e acrescidos. No sábado mudo para um apartamento. Sem essas lembranças que se acostumaram com o endereço. Mas no alto da Paulista vou ter uma janela aberta para a imensa paisagem desta cidade que eu amo.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: MELANCOLIA
24/08/2009 - 14:28
CHOSTAKÓVITCH II
É claro que Lula não é Stalin nem Mercadante pode ser comparado a um dos maiores compositores do Século XX. Stalin era um calculista frio, enquanto Lula é um doce compositor, faz suas composições políticas com graça e esconde as realidades com uma candura que pega. Stalin mandava matar. Gostava da música triunfal e tinha uma obsessão por enquadrar Chostakóvitch, sobretudo libertá-lo dos atonalistas alemães e dos vanguardistas que destruíam a melodia popular.
Mercadante era um menino comum, da geração que encontrou no PT o caminho da realização ideológica e da ascensão política. Um jovem igualzinho a você nos anos sessenta. Nessa idade, Chostakóvitch já era um gênio.
Hoje. Aloísio é um homem de bigode mas que não pode entregar o fio da barba a ninguém.
Não posso responder a cada um dos trezentos e sessenta comentaristas que ofereceram generosamente o seu tempo para comentar meu blog sobre o Mercadante, mas tenho que dar essas explicações.
Outra coisa. Aquele blog sobre o Mercadante não tem nada a ver com as eleições de 2010, com Dilma, com Serra nem com Marina Silva. Tem a ver com o mês de agosto de 2009, no qual o Senado brasileiro demonstrou o quanto é dispensável e os senadores brasileiros o quanto são inúteis. Estamos ainda longe das eleições, mas o vácuo moral já desmoralizou, por antecipação, o pleito. Nem quis fazer com o comentário qualquer avaliação do governo Lula e compará-lo com o de FHC, pois ambos os governos produziram apreciáveis avanços no campo econômico e social.
Mas peço licença para emitir opiniões sem que me enquadrem nesse FLA FLU descabido. Há muito mais espaço para o exercício da cidadania do que estar com o PT ou com o PSDB.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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22/08/2009 - 14:07
UM CHOSTAKÓVITCH QUE NÃO COMPÕE MAIS NADA
Chostakóvitch era o menino de ouro da música russa quando o comunismo já se instalara de vez no Kremlin. Vivia dúvidas existenciais sem saber se seria mais fiel à música ou ao partido. Por fim, para sobreviver no regime de Stalin, submeteu-se aos cânones conservadores da música oficial. Tornou-se ainda um garoto propaganda da nova Rússia musical. Foi enviado aos Estados Unidos, depois da Guerra, para esse fim. Compareceu ao Waldorf Astoria onde se realizava a Conferencia Científica e Cultural para a Paz do Mundo, organizada pelas esquerdas americanas. Nabokov forçou-o a falar, apesar do visível constrangimento do compositor. Nabokov perguntou se Chostakóvitch endossava a condenação soviética a compositores como Stravinski, , Schoenberg e Hindemith. Sem escolha, Chostakávitch respondeu: “Estou de pleno acordo com as afirmações feitas pelo Pravda”.
O constrangido retorno do Senador Mercadante à liderança do PT lembra os tristes episódios que envolveram a submissão de Chostakóvitch. Stalin gostava e entendia de música, mas regia o partido a antiga. Governabilidade para ele significava poder total e música sempre deveria ser um instrumento populista de poder. Lula gosta e entende de política e atualmente faz política a antiga.
submisso, o pobre Mercadante desapontou a família, os colegas e os eleitores, mas continua no camarote presidencial, pronto para assistir a Opera Bufa do Senado..
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: Mercadante
20/08/2009 - 23:23
UMA HISTORIA DE RUTH CARDOSO
Ruth Cardoso cresce com a morte, o que não é normal num país em que o pragmatismo da vida rege todos os interesses políticos. No caso de Ruth tudo funciona ao contrario. As pessoas querem se aproximar dela para se qualificarem um pouco, não para se aproveitarem de alguma coisa. Ela inspira o que há de melhor em nós, mesmo que isso nos descole dos hábitos políticos atuais.
O livro de Margarida Cintra Gordinho é singelo como seu personagem. A vida da Ruth só vem confirmar suas práticas. Uma vida comum da menina do interior, bem criada e bem educada, que vem para o colégio de elite das freiras belgas, entra na universidade em primeiro lugar, casa-se com o colega talentoso, tem filhos seguidos, aperfeiçoa-se como “chef” de cozinha e ciências sociais. Vai para o exílio como quem apenas se muda de casa. É anfitriã, aqui e no exílio, das mais brilhantes inteligências nacionais e internacionais. Vira mulher de senador e do presidente da república, mas continua D. Ruth. Muda o papel da primeira dama e o sentido da benemerência social. Sacode a apatia social dos burocratas e dos empresários sem elevar um tom da voz. Inventa a comunidade solidaria, uma espécie de “universal solidário” a substituir o universalismo moral de Kant.
Centenas de pessoas voltaram a se reunir em torno de Ruth na livraria Cultura: os poderosos, os semi poderosos e os sem poder algum. O exemplo de Ruth marca. É só isso.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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18/08/2009 - 18:12
ESCLARECIMENTOS
O livro dos 40 ANOS DA TV CULTURA foi realizado numa ampla cooperação entre historiadores e pesquisadores contratados, o pessoal do ex-núcleo de memória da Fundação Padre Anchieta, os escritório de Rico Lins e e eu próprio. Além de escrever o texto final, orientei os editores no sentido de que todos os capítulos contemplassem a estrutura jurídica, o desenvolvimento tecnológico, a programação adulta e infantil e a administração. Da mesma forma o editor gráfico foi orientado no sentido de montar uma sequência inconográfica capaz de revelar toda a história contada, ainda que não houvesse uma leitura completa dos textos por parte do leitor. Eu próprio pesquisei 40 anos de publicações da Folha de São Paulo e Estadão, em todas as edições que citavam a Fundação Padre Anchieta.
O trabalho foi duro e resultou na mais completa informação sobre a Tv Cultura até hoje produzida.
O Senhor Carlos Augusto, comentarista do Blog em que trato da Greve na Cultura, no dia 11 de agosto, mostrou-se bastante desinformado sobre o livro, mas emitiu suas considerações acusatórias contra o seu autor. Recomendo que o senhor Carlos Augusto leia o livro para se inteirar melhor da saga que fez da Fundação uma das instituições mais respeitadas junto à opinião pública.
Quanto aos dissidios é sabidamente conhecido que durante os meus três mandatos paguei todos os dissidios automaticamente. Apenas em 2003 quando pretendia seguir a mesma orientação, fui advertido por oficio da Procuradoria do Estado de que, se o fizesse, meu ato teria implicações civis e penais, com risco de prisão e reembolso aos cofres públicos dos valores do dissídio. O Estado só pagaria se fosse condenado em última instância. Até agora os empregados e o governo esperam a decisão da Suprema Corte. Mais uma vez o Senhor Carlos Augusto falou o que não sabe.
Já a programação da Cultura naquele período, apresentou o mais elevado jornalismo público, até mesmo porque os jornalistas se prepararam durante meses para fazê-lo. A Ilha Ra Tim Bum, primeiro programa infantil produzido digitalmente, não obteve o mesmo sucesso do Ra Tim Bum, por falhas de roteiro, mas manteve a pontuação tradicional da audiência da casa. O Cocoricó, incialmente concebido pela Beth Carmona, foi completamente reformulado também no meu mandato, quando se introduziu a perspectiva em suas filmagens e os roteiros foram inteiramente modificados, Tornou-se o mais importante programa infantil da televisão brasileira. A Universidade da Madrugada, que introduziu o Café Filosófico na programação, continua sendo o programa mais apreciado pelos adultos da Classe C.
Assim, publico esse blog com os esclarecimentos devidos, porque num simples comentário não disporia de espaço para retificar os preconceitos do navegador Carlos Augusto.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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18/08/2009 - 11:00
HENRIQUE MEIRELLES
Lula foi a Goiânia para lançar a candidatura de Henrique Meirelles. Deferência incomum na agenda de um presidente da República. E mais, afirmou que essa era uma candidatura para ganhar.
Acontece que Meirelles não é candidato a governador de Goiás.
Dilma Roussef foi inventada pela autoridade de Lula, pois nem pertence ao PT, e sua candidatura se estabiliza à medida que Lula insufla seu poder eleitoral. Mas Dilma tem problemas. Não é do Partido. Tem uma biografia burocrática trincada pela biografia acadêmica; não deu ao PAC o impulso esperado; é abusivamente autoritária; carrega uma grave doença virtual e será abalada pela candidatura de Marina.
Henrique Meirelles, foi Office boy, para quem aprecia biografias cinematográficas; chegou à presidente do banco mais conservador dos Estados Unidos, o Boston, e foi preciso que o Federal Research fizesse uma exceção, pois estrangeiros não podem presidir bancos americanos; é engenheiro, para quem gosta de uma racionalidade operativa; conduziu a política econômica de Lula, extraindo o que havia de melhor na herança de Fernando Henrique (o combate à inflação). E não é cronicamente antipático. Sua economia ortodoxa agradou banqueiros e desempregados, respectivamente com os juros e o, salário família. Como o Serra, desde adolescente pensa ser presidente do Brasil.
Como a parada eleitoral ainda é incerta, não duvido que o candidato secreto de Lula seja Meirelles. Paradoxalmente, ele tem o perfil que Lula precisa para enfrentar o Serra.
Mas o Serra, por sabedoria, ainda não se proclamou candidato. Por enquanto é o candidato mais forte e um eleitor fortíssimo. Até virar candidato será cortejado por todo o mundo.
Nesse cenário virtual, dois gigantes, com capacidade de gestão, enfrentarão dois anões com capacidade de surpreender. Ciro cavalga por fora com o ímpeto desabusado que agrada a todos que gostam de ver o circo pegar fogo. Marina é carismática e pode drenar toda a insatisfação latente do povo brasileiro que, literalmente, está de saco cheio com a política.
Vai ser uma eleição e tanto.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: CANDIDATO, LULA
15/08/2009 - 23:14
RUAS IMUNDAS
A Avenida Duque de Caxias parece um depósito de lixo. A bela avenida que nos leva à Estação Julio Prestes, saindo do Largo do Arouche, tem um canteiro central arborizado e calçadas largas dos dois lados. Entre uma árvore e outra um saco de lixo arrebentado espalha seus conteúdos pela calçada e pelo leito carroçável da avenida.
Consta que, apesar dos cortes do orçamento, tanto a varrição quanto a retirada do lixo são objeto de contratos vultosos que atravessam as administrações com o mesmo garbo.
Porque, então, a rua está imunda, sem ninguém que tire o lixo depositado? Não sei. O comum dos mortais, mesmo que seja um bom pagador de impostos, mesmo que tenha o diploma dispensável de jornalista, mesmo que leia os jornais todos os dias, não sabe nunca o que está acontecendo em torno. O lixo é sempre um dos maiores mistérios da administração pública. Tanto é assim, que o lixo da Inglaterra é depositado em “containers” e exportado para os portos complacentes do mundo.
Quando eu era criança, o Rotary Público veiculava uma campanha intensa, em latas de lixo colocadas em todas as calçadas, com um dizer singelo: Cidade Limpa é Cidade Civilizada.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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14/08/2009 - 17:26
O DONO DA BOLA
O dono da bola é o que coloca a bola em campo e o que tira a bola do campo. É, em suma, o capitão dos dois times. É o exemplo mais primário do autoritarismo varzeano. Quem detém o meio de produção e de decisão, no caso a bola, estabelece as regras do jogo, ou do não jogo.
É assim com o Banco Central, que regulamenta taxas de juros e desregulamenta taxas de câmbio. É assim com os bancos que decidem sobre os “spreads”. É assim com os sindicatos, donos do microfone, que só deixam falar os seus representantes. É assim com os postos de gasolina, que não se submetem nem aos mercados. É assim com as pastelarias, mesmo quando os pasteis são de vento. É assim com as revendedoras de carro, principalmente no Brasil, que vende os carros mais caros do mundo, mesmo em dólar.
É assim com o menino arrogante, que segura o controle remoto nas mãos. É assim com o gordinho que detém o saco de pipocas. É assim com o professor, que dá notas. Com o Senador, que distribui empregos. Com os ministros, que assinam contratos. Com os juízes, que lavram sentenças. Com as televisões, que decidem a grade. Com os cinemas que só distribuem os filmes que lhes convêm.
Se tanta gente é o “dono da bola”, por que estou reclamando?
- Porque 180 milhões de brasileiros querem entrar no jogo , mas não são donos da bola.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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