Arquivo de julho, 2009
31/07/2009 - 11:47
O HORROR DE UM GOLPE ANUNCIADO
Reafirmo que Montevidéu é uma cidade acolhedora e que fui muito bem tratado nas “ramblas” ricas e nos bairros pobres, no hotel estrelado e nos restaurantes de esquina. Não quero comparar nada, mas retratar os bons sentimentos recolhidos na cidade irmã.
Toda cidade tem um bar emblemático. O FUN FUN é a própria noite uruguaia, quase ao lado do monumento a Artigas. Tem um pianista, um baixo e um baterista capazes de comover o Arthur Netrovski. Um deles foi baterista dos Shakers, conjunto musical dos anos 70, que reproduzia o som e cantava as músicas dos BEETLES sem saber uma palavra de inglês, mas com uma sonoridade empolgante. Cantaram Milton Nascimento em portunhol até que as entranhas se alegrassem “con una uvita”.
Todo país tem um nó emblemático. O nó uruguaio foi o golpe militar. Uma verdadeira Suíça se transformou num país sombrio. Dez por cento de uma população de 3 milhões, conheceu o cárcere, ainda que por um dia. A economia foi cientificamente destruída para tornar o Uruguai um país dependente. Os jovens foram mortos e se exilaram. As conseqüências duram até hoje. Na penúltima crise internacional antes do estertor de Wall Street saíram do país 500 mil pessoas. Havia me enganado dizendo que foram 50 mil, pois me parecia impossível a cifra aterradora.
O que os militares não conseguiram destruir a imposição neoliberal logrou. O Uruguai, hoje, quer sair das cinzas, com generosidade. Uma vanguarda de políticos, principalmente artistas, lidera o surto de esperança. Os documentaristas uruguaios estão na linha de frente. A dor ainda é profunda. De cada dez filmes, pelo menos cinco referem-se ao período militar, mas sempre com uma visão do futuro. Não são memórias do tempo perdido, mas de um futuro a ser construído.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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29/07/2009 - 19:12
OS DESPOJOS DE DANTE
Os Uruguaios convidaram dezenas de televisões e produtores latino-americanos para conhecerem e mostrarem suas produções de documentários.
Foi uma boa iniciativa da DOC Montevidéu de revelar a quantidade e a qualidade de produções desses filmes realizados no Hemisfério Sul.
Percebe-se a existência de uma realidade supranacional, que transcende os estereótipos do folclore latino-americano.
Há uma revelação nova de identidade continental, de anseios continentais e de um desejo de compartilhar experiências e produções.
Isso tudo numa cidade gelada, com um inverno inusitado de zero graus, que perturba nossas calorias tropicais.
Há por toda parte calor humano, a compensar o frio, delicadeza no trânsito (todos os veículos param quando vem um pedestre com o pé na rua). Levei um tempo para acreditar. Os restaurantes são baratos, as roupas são baratas, isto é, tudo mais compatível com os salários. Por isso mesmo, o pequeno país recebe mais turistas por ano do que o Brasil.
Pena que na crise anterior, a crise Russa, saíram 50 mil pessoas do Uruguai, geralmente jovens, que ainda não voltaram.
A democracia está consolidada e um ex-tupamaro de altíssima erudição, que não pertence nem aos Bancos nem aos Colorados, tem grande chance de ganhar as eleições.
A metrópole acolhedora foi prevista pelo arquiteto italiano Mario Pallanti, que no começo do Século XX, fez um edifício com uma torre de trinta andares, então o prédio mais alto da América Latina. Não satisfeito, construiu outro edifício igual, em Buenos Ayres. Colocou um farol em cima de cada um, pretendendo que eles se comunicassem visualmente e balizassem a grandeza do Rio da Prata.
Acreditando que a primeira guerra iria acabar com a Europa, preparou alguns projetos para receber os eventuais imigrantes. Um deles foi preparar um espaço soleníssimo para receber os despojos de Dante. Impossível, para um italiano culto, imaginar que os restos do grande poeta poderiam ficar apodrecendo numa Europa destruída.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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28/07/2009 - 09:24
OS ÔNIBUS FRETADOS
O ônibus fretado é um conforto. O cidadão acorda ás cinco horas da manhã para ir ao trabalho. Ainda está com sono, pois ficou na televisão até altas horas. Entra no fretado e vai dormindo até chegar no trabalho. Agora, o infortunado tem de pegar o fretado até o ponto indicado, depois toma uma ou duas conduções para chegar ao local de trabalho. É de fato um transtorno.
Aliás, já foi um transtorno impedir que caminhões entregassem Coca Cola em fila dupla nas vias mais movimentadas de são Paulo. Já foi um transtorno impedir que belos cartazes publicitários sujassem o visual da cidade, como pichações legalizadas.
Mas essas medidas da prefeitura acolheram, apesar dos incômodos, princípios democráticos e republicanos. Democráticos, porque privilegiaram o interesse das maiorias; republicanos, porque equilibraram, numa boa proporção, os interesses dos ricos e dos pobres.
Claro que a proibição dos fretados favorece o trânsito, isto é, o transporte coletivo geral. Diminui a poluição. Iguala os cidadãos e impõe ao poder público o dever de promover e viabilizar o transporte público.
A proibição de grandes caminhões de entrega no miolo da cidade e em todos os seus pólos comerciais, é de óbvia e geral utilidade. Em poucos dias a cidade ficou disciplinada com pequenas viaturas fazendo as entregas urbanas sem congestionar as ruas.
Já os cartazes proibidos entram no capítulo do interesse estético. Considerando que a única estética do pobre, nesta cidade devastadora, é o espaço público, vão embelezar o espaço público. Ninguém nega que a cidade ficou mais bonita.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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28/07/2009 - 09:19
O QUE É MELHOR PARA A CIDADE?
O ônibus fretado é um conforto. O cidadão acorda ás cinco horas da manhã para ir ao trabalho. Ainda está com sono, pois ficou na televisão até altas horas. Entra no fretado e vai dormindo até chegar no trabalho. Agora, o infortunado tem de pegar o fretado até o ponto indicado, depois toma uma ou duas conduções para chegar ao local de trabalho. É de fato um transtorno.
Aliás, já foi um transtorno impedir que caminhões entregassem coca cola em fila dupla nas vias mais movimentadas de são Paulo. Já foi um transtorno impedir que belos cartazes publicitários sujassem o visual da cidade, como pichações legalizadas.
Mas essas medidas da prefeitura acolheram, apesar dos incômodos, princípios democráticos e republicanos. Democráticos porque privilegiaram o interesse das maiorias; republicanos porque equilibraram, numa boa proporção, o interesse dos ricos e dos pobres.
Claro que a proibição dos fretados favorece o trânsito, isto é, o transporte coletivo geral. Diminui a poluição. Iguala os cidadãos e impõe ao poder público o dever de promover e viabilizar o transporte público.
A proibição de grandes caminhões de entrega no miolo da cidade e em todos os seus pólos comerciais, é de óbvia e geral utilidade. Em poucos dias a cidade ficou disciplinada com pequenas viaturas fazendo as entregas urbanas sem congestionar as ruas.
Já os cartazes proibidos entram no capítulo do interesse estético. Considerando que a única estética do pobre, nesta cidade devastadora, é o espaço público, vãos embelezar o espaço público. Ninguém nega que a cidade ficou mais bonita.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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26/07/2009 - 11:33
NÃO HÁ NADA MAIS ESTÁVEL DO QUE OS JUROS
Não há nada mais antigo do que os juros e seu filho bastardo, a usura e seu manipulador lendário, o agiota. A Bíblia, que em verdade é uma grande ordenação legislativa, na forma e no conteúdo, já condena a usura, ao mesmo tempo em que abençoa, como filhos diletos de Deus, todos os bem sucedidos na vida, no amor, na guerra e nas finanças.
Tão antigo quanto é o comercio, que sempre se realizou com o financiamento das trocas, essência mesma do negócio.
Não apenas os comerciantes, mas os empreendedores que precisavam investir na produção, os burgueses que precisavam investir no comercio e em sua instalação nas cidades, já no fim do Século XIV, os reis, que precisavam financiar as guerras, os cruzados que precisavam financiar o arrebatamento da fé, os agricultores que precisavam adaptar-se à mecanização da lavoura e assim por diante, até hoje, em que um simples cidadão precisa entrar na garagem com dignidade e adotar a linha branca com habitualidade, em 90 prestações que absorvem a metade da vida e mais da metade do salário.
Agora, nestes tempos civilizados, a inflação, a guerra, a energia, o consumismo e a especulação, constituem a base do sistema bancário internacional, generalizadamente chamado sistema financeiro.
Quebrar esse elo é considerado uma heresia moderna, pois acarretaria o próprio esfacelamento dos “estados-nações”, conceito moderno de pátria. Quando o asteróide da especulação se chocou com o Lehman-Brothers, desencadeando a primeira grande crise do Século XXI, num tempo diminuto surgiram trilhões para salvar a instituição sagrada dos juros.
Note-se que nunca houve tal esforço para diminuir a miséria, a desigualdade, o aquecimento da terra, a preservação da natureza, a educação das pessoas. E isso quer dizer, com realismo, que quando a crise acabar, vai surgir um novo ciclo financeiro, igualzinho ao anterior, com regulamentações aparentes e inócuas, porque desde os tempos bíblicos a única covardia sem remédio, é a do homem diante do dinheiro.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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24/07/2009 - 22:55
BASTA CHAMAR A POLÍCIA
Um ilustre professor negro estava tentando entrar em sua casa, num condomínio nos Estados Unidos, quando percebeu que tinha esquecido a chave. Então forçou a porta e produziu algum barulho. O vizinho viu aquele homem tentando entrar na casa e ligou para a polícia.
Os policiais chegaram, interrogaram o cidadão que lhes disse que estava chegando em casa e que aquela casa era sua há muitos anos. Sem maiores discussões os guardas algemaram o professor negro por desacato à autoridade.
Quando os repórteres mostraram a fotografia do professor negro algemado ao presidente Obama, constrangido com a foto, afirmou: – Que estupidez!
Como a polícia estava agindo dentro das aparências da lei, a corporação se indignou com a frase do presidente e a crise estava criada.
Obama foi à entrevista habitual da Casa Branca, em pessoa, e pediu desculpas à corporação, comentou a impropriedade do termo, confirmou que achou a ação da polícia exagerada e convidou os oponentes a visitarem a Casa Branca. O professor afirmou que o episódio estava encerrado.
Em torno desse assunto, tratado sempre pelo ângulo do preconceito racial, formaram-se opiniões apaixonadas na opinião pública americana.
Só uma coisa ninguém notou. Que não existe o “outro” num condomínio americano de classe alta.
O professor morava ali há mais de 12 anos e o vizinho da frente não o conhecia. Não sabia que aquele homem, tão próximo, pois vivia ao lado, e que tentava entrar em sua casa, era um ilustre professor negro da universidade estadual. Ou, mais simplesmente: era um vizinho
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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23/07/2009 - 17:43
UM INFERNO AFETIVO
Ante ontem, numa calçada da Rua Aurora, ao lado da Praça da República, uma senhora de rua deu um sorriso e me disse: -Moço. Vai com Deus.
Pensei que naquele momento ela estaria mais precisando de Deus do que eu, mas sabe lá.
No dia seguinte começou uma grande operação de vinte instituições dos governos estadual e municipal para intervir na Cracolândia. Buscavam separar os traficantes, dos usuários de droga, dos loucos (20% do contingente) ou dos simples moradores de rua e dos cortiços adjacentes.
Um terço das habitações foi lacrado por absoluta falta de condições. Maconha, crack e cocaína foram apreendidas nessa hierarquia.
Seis doentes graves foram hospitalizados. Loucos foram enviados a serviços especializados. Cada caso foi conduzido e tratado com a devida peculiaridade.
A operação foi precedida, na última segunda feira, por uma reunião na qual estiveram presentes o Comandante do Policiamento do Centro, Coronel Camilo e o Secretario das Subprefeituras, Andréa Matarazzo e 18 outros representantes de órgãos públicos. A liderança da operação esteve a cargo do Coronel, pelas implicações legais que envolvem as questões do espaço público.
O vice-prefeito do centro, com quem almocei, disse-me que as dificuldades são muitas: de ordem prática, jurídica e humana. Observou que o morador de rua, principalmente quem tem ponto fixo, prefere ficar na rua por razões afetivas. Geralmente é bem tratado por pessoas que lhe dão roupas, frutas e mesmo lhe transmitem alguma afetividade verbal, atenções que não recebe em casa. Um morador de rua da Cracolândia chegou a por uma placa, onde estava escrito: Não me acordem, já jantei. Isso porque há tantas instituições que servem comida a noite no centro, que ás vezes eles são abordados mais de uma vez para serem alimentados.
A Cracolândia abriga, no todo, cerca de 500 pessoas, 300 nos cortiços e 200 na rua mesma. Há ainda um contingente de freqüentadores transitórios, vindos de outros bairros e até de municípios vizinhos, atraídos ora pela facilidade de encontrar droga, ora em busca da assistência social dispensada à população pelas ONGS e outros organismos de caráter público.
Já houve um balanço da operação pelas autoridades, mas ainda não há uma avaliação dos seus resultados, nem de suas conseqüências. Mas felizmente o problema se esta circunscrevendo à competência adequada, o poder público, porque realmente não é admissível que cidadãos precisem ligar chuveiros nas janelas dos apartamentos para expulsarem os moradores das calçadas.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): CRACOLÂNDIA
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23/07/2009 - 01:07
LA SOCIEDAD DE LA NIEVE
Preparo-me para o encontro de televisão em Montevidéu assistindo os 18 filmes e documentários que me enviaram previamente.
Comecei por “La sociedad de la nieve” , documentário de Gustavo Arijón sobre os sobreviventes do avião uruguaio que caiu nos Andes com um grupo de 43 pessoas, a maioria estudantes, denominado STRANDED, em inglês.
Além da monumental cobertura jornalística que o acidente provocou, o tema transformou-se num Best-seller, de Paul Read e em importante filme de Hollywood.
Gustavo Arijón, cineasta uruguaio, foi amigo dos jovens de 19 anos que partiram alegremente de Montevidéu para uma excursão ao Chile, num avião da Força Aérea Uruguaia, em 1972.
Trinta anos depois sentiu necessidade de realizar um filme mais verdadeiro, que transmitisse a real dimensão do episódio, trágico, heróico, inesquecível e de uma beleza tão dramática que é impossível assisti-lo sem que lágrimas profundas brotem de nossos olhos.
O filme decorre a partir dos depoimentos de homens maduros que participaram da tragédia e voltaram, com parentes seus e dos mortos, amigos e a equipe de filmagem, ao local da tragédia.
Os que sobreviveram à queda e foram se reduzindo no convívio com o gelo e a solidão dos Andes, transformaram-se em espectros de um único desejo: viver.
Para isso solidificaram uma sociedade, fora do mundo, na qual repartiam o fôlego e a fome, o silêncio e o desespero contido. A partir do quinto dia perceberam que só havia uma forma de sobreviver: se alimentarem com a carne dos amigos mortos e amados. Construíram em silêncio essa decisão, com vergonha de se olharem uns aos outros. Produziram pedaços de alimentos que serviam em doses calculadas para resistir ao máximo a esperança de um salvamento. E quando o organismo pediu cálcio, consumiram os ossos triturados. Crentes ou ateus repetiram o mistério do Monte das Oliveiras, no qual o Cristo ofereceu o sangue e a carne para a redenção do mundo. Essa alegoria religiosa consolou-os até o fim e serviu de dique à curiosidade feroz da mídia, após o resgate, ocasião em que um jovem em condições de falar pediu aos jornalistas ensandecidos que respeitassem os mortos, consumidos no mistério da sobrevivência.
O jovem filho de um casal morto na tragédia e que acompanhou a excursão dos sobreviventes, décadas após o ocorrido, conseguiu falar a um deles: -Meu consolo é saber que meus pais continuam vivos em vocês.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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21/07/2009 - 17:27
NÓS, E A POÇÃO DA INDIFERENÇA
Harry Potter cresceu, está quase na maturidade. Agora, pode dividir a magia com as aventuras do amor, cujas ciladas são ainda maiores do que as imaginadas pela senhora Rowling. Mas o encantamento da escola de Hogwarts continua o mesmo. Os estereótipos da condição humana, confinados naquele castelo de terror e sedução, casam de tal forma com seus atores, que a ficção fantasiosa parece verdade. Os olhos abertos e as lentes de seus óculos dão a Harry a transparêrncia de ator e personagem. O rival, loirinho e esguio, seria um bom projeto de vampiro, não estivesse sobre o controle vigilante de Dumbledore. Mas Dumbledore morreu.
Pode-se dizer que a ingenuidade dos primeiros capítulos se esvaiu, mas por acaso isso também não aconteceu com nossas vidas, quando a infância acabou? A poção do amor descontraído é hilária. Produz efeitos mais surpreendentes do que o Viagra. Alegrix é um bom nome para substituir o crack, pois há entre a poção e a droga um abismo de classe que nem Marx percebeu. Aragog, a aranha gigante de Hagrid, nos lembra a escultura de Louise Bourgeois, exposta no MAM.
O filme continua belíssimo e a história fascinante, mas a moral da fábula não convence. Quisera os males pessoais que enfrentamos em nossa trajetória humana, e os males políticos que assistimos nos sucessivos mandatos de nossos representantes políticos, fossem artimanha de um único demônio, o Senhor das Trevas. Nossas penas derivam das falhas de estrutura, do esgotamento mecânico e moral, da banalização do espetáculo do mal, da ejaculação precoce das riquezas imaginárias.
Harry Potter encontrará nos próximos capítulos todos os objetos do infortúnio e os destruirá. Dificilmente destruiria o vírus de resignação que nos paralisa diante do possível e nos acovarda diante do impossível.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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20/07/2009 - 08:42
A POÉTICA DO ENSAIO
O homem realmente moderno é um “Ensaio” na medida em que sua existência é uma tensão permanente entre as incertezas no existir e a certeza da morte. O fundamentalista, dono das certezas, é um homem já morto no passado. A vida também é um Ensaio no sentido em que é a representação prévia de um grande espetáculo que só se realiza com a morte. Por isso mesmo alguns filósofos mais afoitos precipitam o grande espetáculo com o suicídio. Mas, só a morte natural nos conduz ao grande espetáculo, porque carrega consigo esse pêndulo de dúvidas que caracteriza a vida. O suicídio, como todo radicalismo é um equívoco.
Essas digressões sobre o Ensaio, categoria da linguagem que nunca me levou a considerações mais específicas, ocorreram com a leitura de “Um Elogio do Ensaio” tese de mestrado de Manuel Costa Pinto, editada pela Ateliê Editorial. Manuel buscou em sua paixão pelo escritor francês Albert Camus, revelar o ensaista que foi o grande autor do “Estrangeiro” e da “Peste”, romances lapidares do Século XX.
Manuel vai mais fundo, pois além da análise dos grandes ensaios de Camus, do “Mito de Sísifo” ao “Homem Revoltado” nos dá uma profunda compreensão do Ensaio, desde Montaigne, Chanford, Pascal á Rochefoucauld.
Toda boa leitura de um livro constitui uma nova construção de seu conteúdo em nossa cabeça. Assim passamos a definir as coisas para ver se a compreendemos e, dessa compreensão, erguemos nossas dúvidas.
Percebi que o “Ensaio” é uma proposta de avaliação da condição humana, feita por escrito. Ou seria uma proposta de constatação da tensão entre valores, atitudes e sentimentos que envolvem a existência. Essa proposta não seria totalizante mas referencial.
Assim, desde o primeiro capítulo percebemos que o Ensaio gravita entre a filosofia e a literatura, sem dogmatismos e sem ficção. “O antidogmatismo de Montaigne está certamente na raiz dos Ensaios e de todos os seus sucedâneos” MCP.
Na Poética do Ensaio, primeira parte da tese, ficamos sabendo que o ensaísta logo percebe que este Eu sobre o qual se debruça não tem ainda um saber que o sustente e que lhe dê uma identidade.
Antes de entrar em Camus o livro nos mostra que além das variações conceituais de Lukács e Adorno, as duas matrizes do Ensaio estão na tradição francesa, iniciada com Montaigne e na tradição inglesa do familiar essay.
Sobre o Camus Ensaísta escreveremos depois.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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