VOSSA EXCELÊNCIA NÃO NOS DECEPCIONOU
A MORTE DE GOFFREDO DA SILVA TELLES JUNIOR
Quando entrei na Faculdade de Direito, imaginei que estava entrando no cenáculo, no templo máximo do conhecimento e da moralidade. Além das exigências próprias da idade, tinha uma formação rígida proposta pela Juventude Estudantil Católica, que eu ajudei a fundar no Colégio São Bento.
Professores nos decepcionaram pelo tom grandiloqüente de suas aulas, em sua grande maioria, mais atentos à própria vaidade do que aos 180 alunos de um auditório formal e distante. Aprendíamos um direito teórico, tão distante da realidade quanto da humanidade. Por isso mesmo devo minhas grandes leituras literárias a esse período da vida. Sentava na última fileira e me deliciava com Dostoievski, até que o professor Lino Leme me surpreendeu com uma pergunta insólita: – O ilustre estudante da última fileira poderia me informar sobre quantos metros tem uma milha?
Gelei, pelo flagra e pela surpresa. Fui convidado pelo ilustre professor a ir ler Dostoievski na biblioteca da faculdade. Desse dia, em diante, fui mais cauteloso com a minha cultura literária.
Já o professor de Introdução à Ciência do Direito nos encantava em cada aula. A gênese do direito já era uma questão empolgante. Suas origens, propostas pelo grande orador que era Goffredo da Silva Telles, nos conduzia à indagações dignas de adolescentes curiosos. Na aula em que ele encerrava o capítulo sobre a origem mais remota do direito ele afirmava com emoção e convicção: – O direito nasce no coração humano. Goffredo saia da sala aplaudido de pé.
Lembro-me que numa homenagem da UEE ao grande professor, Fernando Gasparian, presidente, me pediu que fizesse o discurso de saudação à Gofredo. Calouro, no primeiro ano de curso, falar na Sala dos Estudantes, na tribuna de honra, onde discursavam grandes oradores como os veteranos Almino Afonso e José Gregori, eu estava apavorado. Tremi nas pernas. Tremi tanto que ao subir na tribuna tropecei na escada. Já no púlpito, em pé, levantei a voz e afirmei, sem saudar mais ninguém: -Professor Gofredo! Vossa Excia não nos decepcionou.
Foi um aplauso enorme. Ressuscitei. Até hoje tenho a impressão de que Goffredo era capaz de reerguer qualquer neófito, levantar qualquer causa perdida, e recompor a dignidade no meio das trevas. Sua Carta aos Brasileiros nos tirou de 30 anos de escuridão.
