RECOMENDAÇÕES A UM JOVEM ESCRITOR (NIETZCHE)
Em “Humano, Demasiado Humano” o velho filósofo pontifica. Reproduzo com humildade seu texto magnífico:
A seriedade no oficio – Só não falem de dons e talentos inatos! Podemos nomear grandes homens de toda a espécie que foram pouco dotados. Mas adquiriram grandeza, tornaram-se “gênios” como se diz, por qualidades de cuja ausência ninguém que nela esteja cônscio gosta de falar: todos tiveram a diligente seriedade do artesão, que primeiro aprende a construir perfeitamente as partes, antes de ousar fazer um grande todo; permitiram-se tempo para isso, porque tinham mais prazer em fazer bem o pequeno e secundário do que no efeito de um todo deslumbrante. É fácil dar a receita, por exemplo, de como se tornar um bom novelista, mas a realização pressupõe qualidades que geralmente se ignora ao dizer: – eu não tenho talento bastante.
Que alguém faça dezenas de esboços de novelas, nenhum com mais de duas páginas, mas de tal clareza que todas as palavras sejam necessárias; que registre diariamente anedotas, até aprender a lhes dar a forma mais precisa e eficaz; que seja infatigável em retratar tipos e caracteres humanos; que sobretudo conte histórias com a maior freqüência possível e escute histórias, com olhos e ouvidos atentos ao efeito provocado nos demais ouvintes; que viaje como um paisagista ou um pintor de costumes; que extraia de cada ciência tudo aquilo que , sendo bem exposto, produz efeitos artísticos; que reflita, afinal, sobre os motivos das ações humanas, sem desdenhar nenhuma indicação que instrua nesse campo, e reunindo tais coisas dia e noite.
