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Arquivo de março, 2009

30/03/2009 - 12:07

SEMANA QUENTE: COMUNICAÇÃO, INCENTIVOS E OLHOS AZUIS

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FRANKLIN MARTINS GARANTE CONFERENCIA DE COMUNICAÇÃO

 

Estive com o Ministro Franklin Martins para entregar-lhe e ao presidente Lula o livro “Uma História da TV Cultura”, que a Imprensa Oficial acaba de lançar.

Em longa conversa sobre as “questões” da televisão pública no Brasil, o ministro mostrou-se bastante interessado em conhecer os resultados da primeira reunião preparatória do Fórum Nacional de Televisões Públicas, que antecede a Conferencia Nacional. Franklin garantiu que ela será realizada, apesar de algumas vozes derrotistas que não acreditam. Já estão incumbidos de comandar a realização Helio Costa, Dulci e o próprio Franklin.

Essa Conferência será fundamental para a elaboração de uma Lei Geral de Comunicação de Massa, coisa que vem sendo adiada desde que o Ministro Sergio Motta morreu. Essa lei, que ainda deverá ser precedida de uma regulamentação dos artigos 221. 223 e 224 da Constituição se torna ainda mais necessária porque há no seio do governo alguns procuradores que consideram em vigência o decreto da ditadura de 1967, que impede , praticamente, a existência de televisões públicas.

 

 

UMA NOVA LEI DE INCENTIVOS FISCAIS PARA A CULTURA

 

Já está em discussão na internet a proposta do MINC para a reforma de lei de incentivos fiscais. Há tempo que a comunidade cultural e alguns setores do governo desejam um aperfeiçoamento dessa lei.

Primeiro a exigência de maior controle na aplicação dos recursos, em função do interesse público envolvido e da política cultural da nação.

Segundo a criação de novos patamares de descontos, antes distribuídos nos 30 e nos 100%, o que causava uma certa distorção.

Em terceiro lugar o debate sobre o estabelecimento de um equilíbrio entre as destinações controladas pelos setores privados e os setores públicos da cultura. Nesse polêmico setor, deverá ser estabelecido um grande controle, pois nem a cultura pode ser inteiramente dirigida aos interesses privados, nem do estado, pois o destinatário é a sociedade e não os clientes mercadológicos ou eleitorais.

Por fim, há necessidade de se contemplar o acesso do cidadão aos bens culturais. Hoje se protege a produção. É preciso que as salas de espetáculo não fiquem vazias, nem os livros fechados nas prateleiras das livrarias, nem que o cidadão tenha que pagar um absurdo por eventos patrocinados pela lei.

Há muitas outras questões que este blog deixa abertas aos comentários dos interessados.

 

A CREDIBILIDADE DOS OLHOS AZUIS

 

Quando eu estava na Faculdade de Direito cantávamos uma canção que afirmava categoricamente que os olhos azuis são traiçoeiros e os olhos castanhos são fieis e verdadeiros. Cantávamos isso com muito chopp, no Franciscano e não na reunião do G20.

Lula, que não foi da Faculdade, mas se impregnou com as acusações do bacharel Claudio Lembo, que se insurgiu contra a crueldade da elite branca, produziu tantas manchetes internacionais quanto o trilhão do Obama.

Enquanto Bresser afirma que a crise foi produzida pela exacerbação financeirista do neoliberalismo, Lula localiza o grau e o gênero: ocidentais, brancos, de olhos azuis, do hemisfério norte. Alguns deles, como Madoff já estão na cadeia, outros acabam de ser demitidos, mas a maioria apenas contabiliza a diminuição do patrimônio ou se declaram, como Grinspun, arrependidos de acreditarem que o mercado seria capaz de corrigir qualquer bolha. A maioria deles, a exceção de Obama, estará sentada nas poltronas hoje menos confortáveis do G20. Alguns estarão de óculos escuros para dar mais crédito às suas propostas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/03/2009 - 14:18

II FORUM NACIONAL DE TELEVISÕES PÚBLICAS

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CAMPO PÚBLICO SE PREPARA

Televisões públicas estaduais, universitárias, comunitárias, legislativas e judiciárias estão reunidas em Brasília para elaborar as propostas preliminares do Forum que será realizado em maio. Algumas propostas conciliatórias estão unindo cada vez mais o campo público. Todas as associações, inclusive a ABCOM que representa as comunitárias, aceitaram a tese de que a publicidade em televisões públicas deve subordinar-se às autorizações e restrições propostas na legislação que criou a EBC, o que significa que não deve haver propaganda de produtos e serviços, mas publicidade institucional e de marca. Todas concordaram ainda com a criação de um Instituo Público de Televisão que realizará pesquisas com a finalidade de coordenar a coleta de  dados necessários ao reposicionamento das programações de televisão pública e elaboração de avaliações críticas permanentes do comportamento das comunicações de massa no Brasil. A té o inicio das reuniões da tarde essas forma as decisões mais importantes.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/03/2009 - 18:03

O QWUE FAZER COM O CRÉDITO POLÍTICO

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DE BOLIVAR A OBAMA

 

Obama está apurando o discurso com a mídia. Não porque tenha emitido 1 trilhão de dólares (quantia impensável em reais) para ajustar os bancos, mas porque o debate bate – pronto exige habilidade. Quando a oposição lhe perguntou como ele ousava aplicar um trilhão no mercado, ele respondeu: -Para cobrir o buraco que vocês criaram. Quando um jornalista lhe perguntou porque ele demorou três dias para responder à questão dos bônus ele respondeu: Porque eu costumo pensar antes de me pronunciar. E assim por diante, vai dando suas botinadas, ainda que num estilo harvardeano e não com a linguagem de rancho texano.

Quanto a chamar os assaltantes da boa fé do mercado para ajudarem a sanear as finanças dos bancos, creio que se inspirou na lei básica da homeopatia de que o similar cura a doença. Assim, o delinqüente, chamado a colaborar, produziria em doses suaves a cura da delinqüência. Se essa receita não der certo restará o último recurso de estatizar os bancos com esse dinheiro injetado dentro. Mas estatizar, nos Estados Unidos, ainda é palavrão. Só deixará de ser em último caso.

Apesar de todas essas medidas, continuo achando que o mundo ainda não mudou de rumo. Falta de filosofia política? Falta de coragem? Falta de líderes mais criativos? Não sei. Obama ainda está com algum crédito. Os países em desenvolvimento poderiam tentar um discurso inovador em vez de uma retórica bolivariana, ainda que psicografada de Guevara. O G20 será uma boa oportunidade.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/03/2009 - 23:09

EXCOMUNHÃO E CAMISINHA

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A DOGMATIZAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA

 

Creio que Blois, o mais louco dos católicos, dizia que “ -A Igreja é uma mulher esfarrapada que vive a procura do Cristo”. Como se considerasse um pecador, ficava no fundo das igrejas, desesperado por não poder comungar. Era um tempo de paixões. Era um tempo de paixões, laicas e religiosas: Raisa Maritain, Cocteau, Proust, Breton, Claudel e Péguy, entre outros.

Nos primórdios da Igreja, tempo da patrística, a Igreja Católica gostava, como as crianças, de contos de fadas, melhor dizendo, de parábolas. A narrativa racional nunca foi muito adequada à propagação da fé nem à educação das crianças.

Toda a Bíblia é parabólica. O Alcorão é normativo. E o Tor[a, o mais misterioso dos livros, deve ser um misto de fábulas e normas.

A pior deformação da fé é a razão e a pior conseqüência da razão é o dogmatismo. O dogmatismo é a mãe de todos os fundamentalismos, tanto no plano político quanto religioso.

A Igreja Católica, com Santo Agostinho e com o Imperador Constantino, tornou-se herdeira do direito romano, e adaptou suas parábolas às instituições. Os bispos ocuparam, por vazios, os tribunais do Direito Romano. Sem cônsules ou juízes que arbitrassem as contendas, os acusados diziam “- Vá se queixar para o bispo”.   Aos poucos, principalmente com a influência de Aristóteles, apropriado de cabo a rabo por Santo Tomás de Aquino, a Igreja jurisdicional se dogmatizou. Os primeiros concílios se incumbiram de dar força aos dogmas. As conseqüências, na idade média e mesmo no renascimento, são conhecidas. A Inquisição foi a mancha mais expressiva e a intolerância que ainda perdura, nos incomoda até hoje.

Dialética e esfarrapada, mas sempre em busca da salvação própria e da nossa, como o corpo místico de Cristo a Igreja se divide entre a verdade e a misericórdia. Para Claudel a Igreja, simbolizada por Nossa Senhora, está sempre com a misericórdia. Para o papa João XXIII, também. Com João Paulo II recomeça a dogmatização. É melhor um exercito pequeno e forte, do que a imensa tropa do livre arbítrio. Bento XVI está levando essa idéia ao extremo. Cutuca todo mundo, como se fosse um jornalista foca. Os ortodoxos, os muçulmanos, os africanos, os judeus. Por onde passa espalha a brasa ardente dos dogmas. Desmanchou até os vôos ecumênicos de João Paulo II. Mas é um grande teólogo, um grande intelectual, e, ninguém duvida de que esteja querendo purificar e sanear a Igreja Católica.

Tem, contudo, uma limitada visão do saneamento do mundo. Principalmente do genocídio africano da AIDS. Tem, com alguns bispos brasileiros, uma limitada compreensão da misericórdia, quando excomunga os anjos decaídos. Felizmente não estou sozinho na minha análise, bispos e cardeais franceses já se manifestaram. No plano político já há indícios de que membros a ONU e da UNESCO desejariam levar ao Tribunal de Haia a questão do uso de preservativos como condição de evitar o pior na África.

Não costumo redigir blogs tão extensos. Mas me sinto ferido em minha fé, já tão difícil de carregar, neste século precocemente cruel.  

 

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/03/2009 - 23:35

OS IRMÃOS KARAMABLOCH

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A INCRÍVEL HISTÓRIA DOS DONOS DA MANCHETE

Arnaldo Bloch é um escritor talentoso que emerge das ruínas do Império dos Bloch com uma bagagem própria de repórter, romancista e historiador.

A saga que escreveu sobre os Bloch, sua família, desde a aldeia na Ucrânia até os píncaros do Russel, sede da Manchete, contem a história, o pitoresco e a loucura de que toda família é depositária. Mais, realça a história de Adolpho, o caçula que liderou a dinastia depois da morte de seu fundador, o gráfico Joseph Bloch. Adolpho não era apenas louco, era um louco genial.

Ambicioso, afetivo, jogador, putanheiro, líder, empresário, tirano, irracional, trabalhador, perdulário, puxa saco, generoso, bom filho, bom tio, bom irmão das irmãs, péssimo irmão dos irmãos, Adolpho Bloch consolidou um império, com a revista Manchete e destruiu o império com a TV Manchete. Os Bloch eram grandes gráficos e se gráficos permanecessem nenhuma crise haveria de prevalecer sobre a empresa, mas os tempos levaram-nos à cobiça da comunicação, e na mais cruel delas, a televisão, empenharam mais papagaios do que a tolerância poderia conceber. Sabemos o quanto a televisão já destruiu alguns potentados e os governos salvaram outros. Mas o sabor desta história fascinante não está em sua ruína, mas em seu desdobramento. Três irmãos que se odiavam e se amavam, que se trapaceavam por princípio. Irmãos que se atracavam durante e depois dos funerais. Tinham em comum o amor pela família, pela casa materna ou paterna, um cenário indescritível de loucuras, tinham o hábito do jogo, com o qual quase perderam a fortuna antes mesmo da televisão, eram solidários na putaria, fieis ao bordel das polonesas judias, e à gráfica, símbolo da própria identidade.

Vale a pena ler Os Irmãos Karamabloch, da Companhia das Letras, título que o grande Otto Lara Rezende já havia conferido aos três membros ilustres da família: Boris, Leonardo e Adolpho.  

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/03/2009 - 11:27

Lançamento de UMA HISTÓRIA DA TV CULTURA

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UMA HISTORIA DA TV CULTURA

 

Há mais de dois anos um grupo de historiadores, pesquisadores e responsáveis pelo setor de memória da Fundação Pe. Anchieta me tem ajudado na elaboração de uma historia da Cultura. Preferimos chamá-la “uma história”, porque é quase impossível contar a história do tempo presente. Foi fácil obter depoimentos sobre os tempos pretéritos; muito difícil, sobre os tempos presentes. Não há perspectiva histórica e as pessoas têm medo de se comprometer.

Há poucas teses sobre a TV Cultura no campo acadêmico; há dissertações sobre alguns de seus programas como o Ra Tim Bum. Os álbuns comemorativos, geralmente datados em suas décadas, são ilustrações do período e não do todo.

O todo é uma bela história de criatividade televisiva, resistência institucional e independência intelectual. Há o tempo dos governadores, na ditadura e o tempo dos presidentes, na transição democrática. Há, em todas as décadas percorridas, sempre uma visão quádrupla da narrativa: a evolução institucional, administrativa financeira, da programação e do desenvolvimento tecnológico.

A produção de uma televisão pública em quarenta anos se deve principalmente à força de trabalho de milhares de funcionários, jornalistas, radialistas, artistas, técnicos, intelectuais, diretores e presidentes. Deve-se ainda a uma estrutura jurídica que comporta um Conselho, representativo da sociedade, porque em última instância Tv Pública é a televisão que tem um controle da sociedade, ainda que indireto, e por isso mesmo, se torna eqüidistante do poder e do mercado.

Terça feira, dia 24, às 19hs no Conjunto Nacional da Avenida Paulista, em frente à Livraria Cultura, haverá o lançamento do livro, ao lado de uma exposição sobre os 40 anos da Cultura. Todos os blogueiros e comentaristas estão convidados, assim como nossos companheiros da IG, um dos espaços mais democráticos da nova mídia. 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/03/2009 - 08:46

TV PÚBLICA NÃO É BIG NEM MINI BROTHERS

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TV CULTURA E NEO LIBERALISMO

 

Durante os vinte últimos anos as sociedades contemporâneas se organizaram para promover a desmoralização das instituições do estado. Ao lado de algumas coisas que obviamente poderiam ser geridas pelo mundo privado, colocaram quase todas que se relacionassem com produção, serviços, explorações de riquezas de toda ordem, comunicação e até mesmo a assistência social que quiseram delegar para as ONG. O que ficasse com o estado seria desmoralizado pela mídia, pelos técnicos, pelos consultores profissionais.

Assim, a comunicação pública, representada pelas televisões educativas, melhor denominadas públicas, foi mandada para o pelourinho. Não têm audiência, gastam dinheiro do governo e ainda querem verbas publicitárias, são cabides de emprego, buscam independência financeira e editorial. A única coisa que não conseguiram foi falar mal de sua programação, principalmente dirigida às crianças e aos líderes da sociedade, em todos os níveis. A opinião pública sustentou a televisão pública nos últimos quarenta anos.

A crise fiscal do estado foi o pretexto para o enxugamento das verbas, dos quadros, da capacidade produtiva e dos investimentos. Os meios sugeridos e muitas vezes aplicados foram a reengenharia neoliberal, impostos como solução mágica e indispensável. Queriam que as televisões sem finalidade lucrativa dessem lucro ou estivessem sempre com o caixa reluzente. Sugeriram ou aplicaram receitas ultra ortodoxas, mais adequadas a um super mercado, para instituições de caráter eminentemente cultural.

No caso da TV Cultura, quando fui presidente chegaram a me sugerir o fim do jornalismo, de todos os jornais da emissora, dos documentários e só deixar a programação infantil. Assim, os resultados seriam ótimos. Sugeri que melhor seria fechar toda a programação e alugar a sede, pois assim a Fundação até daria lucro.

No mínimo fui considerado um gerente ultrapassado.

Hoje que essa macro-economia neoliberal foi pro brejo com todos os seus consultores, podemos discernir com calma.

O produto da televisão comercial é a audiência. O que traz recursos para uma emissora comercial é ter um bom estoque de audiência, qualquer que seja a qualidade da programação. Na TV pública o produto é a própria programação. Não vendemos audiência, mas promovemos a formação e a informação crítica do telespectador. Qualidade de programação é valor insubstituível.

Fomos esquartejados porque dirigíamos nossa programação a segmentos de audiência, isto é, para crianças, velhos, jovens, líderes da sociedade, artistas em vez de querermos abranger todo mundo, o tempo todo ao mesmo tempo como fazem programas bem sucedidos dos domingos.

Se falássemos essas coisas antes do abandono freudiano do Lehman Brothers seríamos considerados imbecis como já nos advertiu Witgenstein no começo do século passado. Agora, pelo menos podemos falar.

A Televisão pública precisa muito mais do que audiência. Precisa credibilidade, precisa controle direto e indireto da sociedade em sua programação, precisa seguir os princípios da constituição e da lei que criou a EBC, impecável na definição dos princípios da TV Pública. Precisa utilizar a tecnologia em uma multi programação de interesse da sociedade. Precisa iniciar um processo autêntico de convergência com outros meios de comunicação e de interatividade com o público.

A televisão, como outras instituições de caráter cultural e artístico, precisa de uma gestão de instituição cultural específica que, infelizmente ainda não se ensina na FGV, na IBMEC, nem em qualquer MBA existente no Brasil e tampouco na Universidade Pública.

Não somos banco, nem quitanda nem big brohther. Nossa comdoditie é outra.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/03/2009 - 12:02

MEU AMOR – DE BIA BRACHER

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UMA CONTISTA NA PAULICÉIA 

 

Quando acabo de ler um conto não sei se li um conto. É difícil saber o que é um conto. Só sei que é uma narrativa relativamente curta como um soneto ou uma sonata e que deve sempre ser muito bem escrito. Já um romance não precisa ser bem escrito, precisa ser um romance.

Nos contos de Bia Bracher, cada parágrafo poderia ser considerado um conto. Quando a mulher entra na casa do cara, sem bater na porta, e pede seu endereço para mandar um convite, sem se olharem na cara, isto já é um conto. Mas Bia Bracher tem fôlego, abre a grande angular e a narrativa prossegue, nos limites precisos, até o antológico: – é que arte não pode ser um assunto entre um homem e uma mulher.

Quem não gostaria de entrar na casa de um amigo antigo ou de uma velha namorada, para pedir seu endereço, a fim de enviar-lhe o convite dos cinquenta anos? No mínimo para conferir as decadências… Nós gostamos mais das coisas que gostamos agora, por isso posso dizer que “Ficamos por aqui para dizer a verdade”, é um dos melhores contos que li na minha vida.

Quando Bia deixou sua editora para tornar-se, com exclusividade, uma escritora, já sabia que era uma escritora. Escritor é um cara que escreve, acima de todas as coisas escreve. Mesmo que lhe tragam anjos de ouro para tomar sorvete, escreve. Mesmo que lhe ensinem a dirigir mísseis, escreve. Mesmo que lhe aticem com os poderes mais primários, escreve. Mesmo que lhe ofereçam a família inteira desembrulhada, escreve.

O escritor é um paranóico, fanático, que só pensa em escrever, mesmo quando está fazendo outras coisas.

Quando escreve contos o divã é mais agudo. Tem as exigências de uma orquestra de câmara.

Proust não foi um grande romancista, mas é o maior dos contistas, escreveu uns duzentos contos maravilhosos dentro do “Em Busca do Tempo Perdido”.

Dostoievski nem sempre escreve bem, mas é o maior romancista do mundo.

Bia, quando romancista, é um pouco contista, pois escreve bem e não exagera as circunstâncias. Enquanto contista ela produz o próprio chip de sua memória sintética.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/03/2009 - 23:29

sarney, collor, renan

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TRIO MARAVILHA

 

Não me causou espanto, mas um profundo desânimo ler a notícia do almoço de Sarney, Collor e Renan.

Renan, depois do inferno produzido pelas próprias maracutaias, precisa de ombros amigos e correligionários poderosos para retomar o patamar de mando a que se acostumou no senado brasileiro. Collor, depois de ter sido o mais ungido e o mais desungido presidente deste país, também precisa de muito carpete vermelho para se sentir em casa de novo.

Sarney não precisa de nada disso. Foi presidente por um misto de acaso e destino. Comportou-se com humildade ao substituir Tancredo. No Congresso dos escritores causou-me até emoção, no exercício de uma presidência inesperada e trágica. Tentou um plano econômico com economistas idealistas como Funaro. Grangeou popularidade. Aos poucos perdeu isso no formigueiro da inflação, das moratórias e do compadrismo, mas saiu-se relativamente bem.

 Então, eu que não gostava nem um pouco de sua poesia, confesso que gostei muito do seu romance O Dono do Mar. Revelava um chão que era seu, uma memória autêntica de suas lembranças, uma literatura regional daquela São Luiz que sempre se considerou a Atenas brasileira.

Assim, Sarney tinha duas missões pela frente. Grandes missões. Honrar a literatura e sua imortalidade. Fazer pelo pobre Maranhão tudo aquilo que seu prestigio poderia ter feito. Ensino, miséria, cultura, corrupção, infraestrutura, cidadania. Enfim, tudo que um estado precisa para ser digno de sua memória.

Não sei por que miserável razão Sarney preferiu continuar a carreira política, comandar o nepotismo familiar e partidário, perpetuar-se num senado sem domicílio, presidir a sombra de um dos poderes.

Talvez porque seja um pai carinhoso. Só posso ver essa razão. Mas porque insistir em encaminhar a filha por essa infelicidade sem retorno que é a política? Porque jogar tantas pedras no caminho dos filhos homens?

Pena. Das penas que não voam.

Notas relacionadas:

  1. jorge
  2. O DUELO ENTRE CYPRIANO E HENRIQUE MEIRELLES
  3. A BURRICE AGRO-PECUÁRIA
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
12/03/2009 - 10:37

A BARRAGEM DE HOOVER E A CRISE

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UMA RECEITA PARA CRISES

 

Hoover foi presidente dos Estados Unidos quando estourou a crise de 29. Em 1931 autorizou a construção da barragem no Rio Colorado, em Nevada, que iria regular as águas do rio e viabilizar a construção de uma imensa usina capaz de fornecer energia para diversos estados.

A obra foi feita após uma democrática consulta aos estados interessados para que as águas fossem divididas de forma equitativa, assim como a energia. Além disto, sua construção era fundamental para gerar empregos e levantar a moral abatida dos americanos. O desemprego era tal que ninguém usava as duas únicas licenças oferecidas, no Natal e no 4 de julho. Prevista para acabar em seis anos, terminou no quarto ano. Foi a maior obra civil da humanidade até aquela data, depois das pirâmides do Egito. Concluída já no governo de Roosevelt, em 1935, até hoje a barragem, já denominada “Hoover Dan”, recebe milhares de visitantes. Sua arquitetura foi influenciada fortemente pelo estilo da época, a arte deco. A construção da usina já antecipava o espírito sugerido pelo economista Keynes, para superar a crise: uma atividade intensa do estado fazendo obras, gerando esperança e empregos.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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