o lago dos cisnes
O JARDIM DA ACLIMAÇÃO
Passei minha infância na Aclimação, bairro agradável de uma honrada classe média, com algumas tendências ao aburguesamento quando ex-fazendeiros paulistas e comerciantes “turcos” construíram casas com grandes jardins e vitraux coloridos. Palacetes mesmo havia três: a Casa da Light, a casa de Rodrigues Alves e o palácio dos Kowarick. Chamo de palácio por algumas razões: o terreno tinha 26 mil ms2. A construção fora feita sobre um projeto austríaco, bossa palácio. A propriedade tinha poço artesiano o que nos permitia ir buscar água quando o serviço público racionava o precioso líquido. As babás das crianças usavam uniformes azul marinho e branco, parecidos com roupas de religiosas.
Mas o que nos deslumbrava, um pouco além do riacho denominado Chico da Merda, era o Parque da Aclimação. Tinha um mini-zoológico, eucaliptos imensos, plantados por um pioneiro chamado Arruda Botelho e até mesmo um silo, para guardar não sei o que. Mas o principal mesmo, era o lago. Um imenso lago com peixes, gansos, patos e cisnes bem alimentados pela Prefeitura Municipal de São Paulo. Em torno do lago corríamos, brincávamos e o pároco, com as senhoras piedosas do bairro, fazia quermesses inesquecíveis para financiar as obras intermináveis da Igreja de Nossa Senhora. Tinha música ao vivo, desde as bandas até a soprano Agnes Ayres, que cantava em beneficio da paróquia. Tinha um sanduíche de bife na chapa, inesquecível. Os doces vinham diretamente das cozinhas das melhores famílias, com destaque para o olho de sogra que custava um tostão.
Desde então, segundo a autópsia feita pela imprensa, nunca limparam o referido lago. Nunca fizeram manutenção nas comportas. As aves se reproduziram até o Cisne Negro que quase morreu no lamaçal, depois que as comportas se romperam. Não mais quermesses nem bifes na chapa, pois a matriz está pronta há muitos anos. Não mais os palácios da Light, do Kowarick nem do Rodrigues Alves, nem mesmo as jabuticabeiras mais simples do meu avô. Apenas adolescentes bicicletando em torno do lago, coreanos fazendo cooper, grupos de iogas meditando.
Kassab prometeu encher o lago de novo. Poderia, antes, tirar o lodo, mandar lavar o cisne e preparar uma grande quermesse quando o lago estivesse cheio. E eu poderia ser criança de novo.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

Não foi só o lago do Parque da Aclimação que secou. O lago do Parque da Água Branca também, há pouco tempo, ficou totalmente sem água depois que a construção de um prédio provocou intencionalmente o rebaixamento do lençol freático e acabou com o veio d´água que minava no parque, dando origem ao lago. Em frente à minha casa a construção de duas torres de edifícios em uma área (em que foram derrubadas 110 árvores nativas da mata atlântica) na qual o lençol freático estava a apenas dois metros de profundidade, provocou ações da construtora para o rebaixamento do lençol, afetando o volume e a extensão de um córrego que nasce nas proximidades. Não obstante os esforços da construtora, o problema das águas sob os prédios não foi solucionado, tanto que de dez em dez minutos uma bomba tem que ser acionada para remover a água do subsolo e jogá-la na guia da rua, de onde é absorvida pela galeria de águas pluviais. No início da construção denunciei à Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente o alagamento da área no início das obras de fundação e o rebaixamento do lençol freático pela construtora. Um técnico veio ao local fez um relatório confirmando os fatos denunciados aos seus superiores, mas a resposta que tive foi de que nada poderia ser feito porque não havia legislação que protegesse as águas subterrâneas. E o pior é que não demonstram nenhum interesse em legislar sobre o assunto, embora qualquer estudioso do assunto saiba que as águas subterrâneas e as superficiais componham um todo. Um absurdo que se repete e propaga por toda a cidade sob a total omissão das autoridades municipais e estaduais que deveriam zelar pela preservação ambiental.
A visão das imagens do lago da Aclimação seco também me trouxe lembranças da infância. As quermesses, os pequenos barcos de aluguel para passeios pelo lago e a inimaginável concha acústica, na qual cheguei a assistir a um único espetáculo. Mas o que mais chamou atenção no seu texto foi a citação do palacete dos Kowarick. Não conheci o palacete (eu morava na mesma rua), mas sim o imponente conjunto de prédios que se ergueu formando uma meia-lua com uma bela praça e equipamentos de lazer no centro, com acesso somente a moradores. Isso no início dos anos 60. Teria sido o Kowarick o pioneiro da tendência dos condomínios fechados que se alastra pelas nossas cidades?