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Arquivo de fevereiro, 2009

28/02/2009 - 23:14

O CANADA E A GUERRA DE 14

PASSCHENDAELE

 

O Canadá, em 1917, tinha cerca de oito milhões de habitantes. Incrível imaginar que, numa onda de patriotismo, 600 mil homens, maiores de dezoito anos, se alistassem para lutar na Europa conflagrada.

O filme de Paul Gross, diretor e intérprete, é um belo relato desse alistamento quase compulsório e da crueldade da Guerra de 14, que quase sempre escapa da nossa memória.

Mike enfiou com impiedade uma baioneta na testa de um menino alemão de olhos inesquecivelmente azuis. A baioneta, contudo, mais cravou-se no seu coração do que na testa do menino. Volta abalado para o Canadá, onde se apaixona pela enfermeira. Cruzam-se os dramas. Mike é considerado meio covarde por ficar longe da guerra por meros distúrbios emocionais. Sarah e seu irmão David são descriminados por serem filhos de um alemão que morreu na guerra lutando contra os aliados. Sarah se vicia em morfina e o irmão, asmático não pode se alistar. Por razões de honra e fuga todos acabam no campo de batalha de Passchandaele, uma das mais terríveis contendas da Grande Guerra, travada no lamaçal reciprocamente intransponível pelas tropas adversárias. Mike que assumira um pacto com a vida perante sua namorada acaba por carregar no lamaçal a cruz do cunhado ferido e aprisionado. Ele próprio morre sem cumprir a promessa da vida. Na vida e no filme, a promessa poética do heroísmo cala mais fundo do que a própria vida. O amor é apenas uma servidão de passagem.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/02/2009 - 16:44

A TROCA – UM FILME TERRÍVEL

A TROCA

 

Não há, desde o começo do século passado, instituição mais desmoralizada do que a polícia de Los Angeles. Cidade do cinema, das vaidades e dos vícios convencionais, Los Angeles, apesar do nome evangélico, abriga todos os meios indispensáveis à propagação dos vícios. A polícia é burocraticamente omissa ou militantemente corrompida.

Uma jovem supervisora das operações telefônicas, sempre bela com seu chapeuzinho dos anos vinte, além de ser representada por Angelina Jolie, vive com a eficiência de uma mulher solitária, cujo único sentido de viver e se alegrar fora criar um filho de uns cinco anos.

O menino desaparece, raptado, como era habitual acontecer, segundo a polícia incompetente. Pior não foi o desespero da perda, mas a imposição da polícia, que tendo descoberto outro menino da mesma idade e aparência, quis impô-lo à mãe, como o legitimo, para limpar a barra política dos irresponsáveis. Submetem a mãe a torturas impensáveis, com a cumplicidade do garoto, que desejava ser artista de Hollywood. Acabam por interná-la num manicômio judicial, para o qual eram levados todos aqueles que contrariavam as vontades da polícia.

Todos os meninos, inclusive o dela, foram assassinados por um serial killer infantil, numa fazenda perto de Los Angeles. Mesmo assim não aceitaram a realidade até que um pastor, a partir de emissões de rádio, levantasse a opinião pública. Naquela época o radio era a mídia. Para transmitir a luta de Box ou para arregimentar a população. A jovem mãe vira símbolo. É retirada do hospício. Mudam as leis sobre internamento. Os policiais são punidos (no filme), parece que em verdade não o foram. Mas a mãe teve que conviver com uma dúvida: Ou o filho morreu porque a polícia não o salvou a tempo ou o filho continua vivo na sua esperança desesperada.

Clint Estwood, o diretor, também nos leva ao desespero na sala de cinema.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/02/2009 - 11:38

o lago dos cisnes

O JARDIM DA ACLIMAÇÃO

 

Passei minha infância na Aclimação, bairro agradável de uma honrada classe média, com algumas tendências ao aburguesamento quando ex-fazendeiros paulistas e comerciantes “turcos” construíram casas com grandes jardins e vitraux coloridos. Palacetes mesmo havia três: a Casa da Light, a casa de Rodrigues Alves e o palácio dos Kowarick. Chamo de palácio por algumas razões: o terreno tinha 26 mil ms2. A construção fora feita sobre um projeto austríaco, bossa palácio. A propriedade tinha poço artesiano o que nos permitia ir buscar água quando o serviço público racionava o precioso líquido. As babás das crianças usavam uniformes azul marinho e branco, parecidos com roupas de religiosas.

Mas o que nos deslumbrava, um pouco além do riacho denominado Chico da Merda, era o Parque da Aclimação. Tinha um mini-zoológico, eucaliptos imensos, plantados por um pioneiro chamado Arruda Botelho e até mesmo um silo, para guardar não sei o que. Mas o principal mesmo, era o lago. Um imenso lago com peixes, gansos, patos e cisnes bem alimentados pela Prefeitura Municipal de São Paulo. Em torno do lago corríamos, brincávamos e o pároco, com as senhoras piedosas do bairro, fazia quermesses inesquecíveis para financiar as obras intermináveis da Igreja de Nossa Senhora. Tinha música ao vivo, desde as bandas até a soprano Agnes Ayres, que cantava em beneficio da paróquia. Tinha um sanduíche de bife na chapa, inesquecível. Os doces vinham diretamente das cozinhas das melhores famílias, com destaque para o olho de sogra que custava um tostão.

Desde então, segundo a autópsia feita pela imprensa, nunca limparam o referido lago. Nunca fizeram manutenção nas comportas. As aves se reproduziram até o Cisne Negro que quase morreu no lamaçal, depois que as comportas se romperam. Não mais quermesses nem bifes na chapa, pois a matriz está pronta há muitos anos. Não mais os palácios da Light, do Kowarick nem do Rodrigues Alves, nem mesmo as jabuticabeiras mais simples do meu avô.  Apenas adolescentes bicicletando em torno do lago, coreanos fazendo cooper, grupos de iogas meditando.

Kassab prometeu encher o lago de novo. Poderia, antes, tirar o lodo, mandar lavar o cisne e preparar uma grande quermesse quando o lago estivesse cheio. E eu poderia ser criança de novo.

 

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/02/2009 - 12:44

UM DEBATE SOBRE AUDIÊNCIA

A CULTURA E A BAIXA AUDIÊNCIA

 

O embaixador Rubens Barbosa instigou na última reunião do conselho da Fundação Pe. Anchieta, um acirrado debate sobre a TV Pública e suas baixas audiências. Valeria a pena se gastar tanto dinheiro para manter audiências tão modestas? Essa foi também a questão levantada com veemência pelo conselheiro José Henrique Lobo.

Claro que ninguém deseja uma audiência próxima do traço, mas os critérios de avaliação de uma televisão pública são bem mais complexos do que a audiência. Além do que se precisa distinguir audiência universal de universo de audiência. Quando trabalhamos com programação segmentada buscamos universos, assim, quando temos três pontos na programação infantil, em verdade temos quase 40 pontos no universo infantil de telespectadores. Marcovich afirma que a missão da televisão pública é perseguir a qualidade da programação e não audiência. Furquim, grande especialista em marketing, acredita que o problema da audiência para todas as televisões é um assunto velho. O problema é como superar a queda generalizada de audiência no universo das novas mídias.  A deputada Célia Leão considera que o gasto público se justifica pela qualidade da programação da TV Cultura. O assunto pegou fogo. Importante é que ele seja discutido em toda a sua dimensão estratégica e política. Incumbe ao Conselho da Fundação Padre Anchieta estabelecer a missão e os parâmetros da programação para que os especialistas da diretoria executiva produzam  programação adequada. Uma das recomendações permanentes é a de que ao mesmo tempo em que se busquem programações novas e criativas, se aperfeiçoe sempre a programação existente, sobretudo a programação infantil e o jornalismo público, que constituem a base de uma programação pública.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/02/2009 - 16:44

A VIAGEM AO FIM DA TERRA II

O ÚLTIMO LUGAR DA TERRA

 

Entre a proeza de Colombo, que descobriu a América e de Neil Armstrong que pos os pés na Lua, a grande aventura humana foi a conquista do Pólo Sul. Aliás, as duas grandes aventuras: a de Amundsen e a de Scott. Amundsen era um norueguês comum, habituado à neve e às aventuras. Scott era um oficial inglês, habituado à hierarquia e às glórias sociais. O Império Britânico, ainda que em decadência, se julgava dono do mundo, mesmo das terras desconhecidas. A Noruega tornava-se com humildade um país independente. Estávamos no começo do século XX. A Real Sociedade Geográfica de Londres era o centro do mundo heróico, enquanto Buckingham era o centro do poder político e a geografia da City, a Wall Street do começo do século.

Como os ingleses já tivessem se aproximado do Pólo Sul em excursões anteriores, de Scott e de Seckleton, eles se julgavam senhores do pedaço e do direito de chegarem ao objetivo. Qualquer interferência seria considerada uma traição ao Império Britânico. Assim, Scott preparava politicamente sua viagem, sem preocupar-se muito com as tremendas dificuldades que iria enfrentar. Foi subjugado pelos preconceitos contra os cães, as experiências dos esquimós e mesmo dos noruegueses no Pólo Norte. Enquanto isso, aluno dedicado de si mesmo, Amundsen, se preparava a partir de todas informações técnicas disponíveis, além de preparar-se e preparar seus homens, escolhidos a dedo, para a difícil missão.

É histórica, romanesca e indescritível e narrativa de Hunting, tanto a relativa às personalidades, aos preparativos, como ao decorrer da excursão. O pólo era um território indomável, que só a coragem humana ou um imenso sentido de responsabilidade poderia superar. Com suas virtudes e insuficiências, ambos chegaram ao objetivo. Um retornou com a glória ofuscada pela tragédia do outro. Ambos foram homens de outra tessitura. Hoje, o caráter é digital, uma classificação que adoto, mas não consigo muito entender.

 

 

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/02/2009 - 01:25

A DISPUTA ENTRE SCOTT E AMUNDSEN

VIAGEM AO FIM DA TERRA  I

 

Outro dia li notícias tranqüilas sobre a excursão científica brasileira à Antártida. Trouxeram toneladas de material geológico, percorreram boas distâncias em helicópteros, agüentaram o frio com tranqüilidade, ainda que não tivessem aprofundado as distâncias do pólo Sul.

Ao mesmo tempo acabo de ler a epopéia e a tragédia de Amundsen e Scott, respectivamente os primeiros exploradores que chegaram ao Pólo Sul no início do Século XX, com algumas semanas de distância, em favor do explorador norueguês.

Antes de falar sobre a notável história escrita por Roland Rutford e publicada pela Companhia das Letras, que desmistifica o heroísmo de Scott e a eficiência quase mórbida de Amundsen, desejo me lembrar do Professor Tranquilo Tranquili.

Era bedel do São Bento, quando eu estudava lá. Na falta de um monge que ensinava latim e ficou doente, o bedel se ofereceu ao prefeito de disciplinas para substituí-lo. Incrédulo o velho monge fez uma experiência. A aula foi não apenas boa, mas notável. Assim, Tranqüilo virou professor e acabou lecionando inglês na minha classe. Era poliglota e multidisciplinar.

Numa aula inesquecível afirmou que o poeta Longfellow era onomatopaico, cantava marchas e batalhas como se estivéssemos presentes ao ocorrido. Cantava os passos, com voz, quase apagada: Half league!.Half league! Depois berrava: “ Into the valley of death”, “Dentro do vale da morte. seiscentos cavaleiros morreram!!!! Nós estremecemos de terror com o berro do velho mestre.

Longfellow cantava o heroísmo da brigada inglesa na guerra da Criméia, a mostrar que o Império britânico era feito de heroísmo, heroísmo e heroísmo. Scott, o explorador inglês que perdeu a corrida para um camponês da Noruega, país recém independente, por tolerância da velha Inglaterra, foi erigido em símbolo do heroísmo inglês, ainda que tenha falecido e levado à morte seus companheiros de exploração, por teimosia, vaidade e incompetência.

Somente agora, com um livro notável, a verdadeira e incrível história é contada: a disputa entre Amundsen e Scott para a conquista do Pólo.

Todos os jovens devem ler esse livro. Não me lembro de outra aventura dessa proporção. 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/02/2009 - 19:13

A CORAGEM DE GILBERTO DUPAS

 

 

No funeral de Gilberto Dupas ouviram-se dois pronunciamentos muito bonitos. Um do amigo e colega da Poli, Luis Carlos Mendonça de Barros e outro do amigo dos últimos anos, Celso Lafer. Luis Carlos evocou a coragem e a inteireza do amigo em todas as circunstâncias da vida, como amigo, como profissional, como político e como intelectual. Lafer socorreu-se do Padre Antonio Vieira, para dissertar sobre as virtudes de Dupas. Vieira dizia que havia uma grande diferença entre o nascimento e a morte. No nascimento nunca sabemos qual vai ser o futuro da criança. Na morte sabemos muito bem qual foi a sua vida. Ao concluir na maturidade seus compromissos profissionais com o pessoal do Safra, Gilberto Dupas teve a virtude de se aprofundar na própria vocação, que era intelectual e política. Dedicou-se aos estudos, a produção de artigos e livros, participou da vida acadêmica no difícil segmento da política externa, criou seu próprio instituto. Raro o trimestre em que não houvesse produzido um pequeno ensaio sobre a realidade política ou econômica. Sua última coragem foi enfrentar a doença, de forma estóica, mas serena. Morreu em casa sem muitos remédios, ao lado da família. Confirmou Vieira: sua morte continha o retrato de uma vida,

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/02/2009 - 11:54

DEPOIS DO EQUADOR UM RIO INESQUECÍVEL

O RIO DAS FLORES

 

 

Nunca o Equador ecoou tanto nas hostes literárias quanto o sucesso do livro de Miguel Sousa Tavares.

Felizmente, o autor será escritor de muitos livros a se consagrarem.

Neste último, que acabo de saborear, a receita de uma narrativa ficcional à frente de um painel histórico, traz-nos o rigor do painel e o sabor da ficção.

Estou bastante de acordo que toda pessoa interessante tem um passado. No romance de Tavares, todo mundo tem um passado. E o passado principal de nós todos é Portugal.

Diríamos que o Alentejo, onde se situam as terras dos Ribera Flores, ilustre família de aristocratas rurais portugueses, é o passado do passado. Lá, nos refestelamos em torno à mesa do Natal, para colher os sabores da tradição, desde a acirrada discussão política ao peru com o todo o perfume e umidade que lhe empresta uma grande cozinha. Naquela mesa há uma antropologia de convivas a percorrer o livro até a última página de natais familiares.

Nós bem conhecemos a cidade e as serras de Eça de Queiroz, do século XIX, mas sabemos pouco desse Portugal do Alentejo nos anos recentes do século passado.

É a história de dois irmãos que se amam, ao contrario dos irmãos já antológicos do romancista brasileiro Milton Hatoum. Amam-se apesar das profundas divergências ideológicas que os levam a dois exílios disparatados: um que vai ao Brasil para se afastar de ditadura portuguesa de Salazar e o outro que se alista nas milícias de Franco para defender a Espanha católica e seu futuro ditador contra o comunismo republicano.

A Espanha da Guerra Civil, na qual a crueldade é o apanágio da própria luta, transparece inteira, vestida de um ódio que não se extingue nem mesmo na morte. O Brasil, de Getulio Vargas, das fazendas cansadas, mas ainda promissoras, das mulatas empolgantes e de uma alegria que supera até mesmo a tirania, na qual o ditador é chamado pai dos pobres.

No fim tudo se acerta, quando a aristocracia se curva ao apelo erótico de uma cigana e de uma mulata.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/02/2009 - 12:06

NAZIZMO SEM WAGNER

 O LEITOR

 

Nos primeiros dois minutos a gente percebe se o filme vai ser bem feito, depois se ele é bom, por fim, se ele foi ótimo.

Um menino chorando de dor nos escombros de Berlim já promete. Ser socorrido por uma mulher linda, fechada como um túmulo e aberta como uma fêmea, não é pouco.

Histórias de adolescentes que se apaixonam por mulheres lindas são comuns. A de Rediguet, escrita num dia e transformada num filme eterno foi a melhor delas.

O romance que inspirou o filme alemão de Stephen Daudry foi mais longe. A relação em si já seria uma bela história, com o letrado adolescente lendo os clássicos para a mulher sóbria e enternecida, só exuberante no orgasmo.Seus problemas com a família e os colegas também.

O filme nos impacta quando o jovem, já estudante de direito, vai assistir o julgamento de algumas carcereiras nazistas que deixaram morrer queimadas 300 judias que estavam numa capela incendiada e trancada. A principal acusada era a mesma mulher pela qual o jovem se apaixonara na adolescência.

Surge no julgamento e nos seminários com um professor liberal o maior debate entre os deveres e a justiça. O jovem tinha um álibi para salvá-la, mas se acovarda. A vida decorre entre a saudade e o remorso.

O jovem ator, Finney e Kate Winslet são intérpretes magníficos. Winslet se supera a cada filme. É uma ganhadora nata do Oscar, até que a Academia o entenda.

Não irei além. Recomendo aos que precisam assistir a um filme sobre o nazismo sem os clichês wagnerianos da raça. Aos que acreditam na ingênua incoerência da condição humana.

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/02/2009 - 13:06

A SUBSTITUIÇÃO DO DESEJO

TENDÊNCIAS/DEBATES

A substituição dos desejos

JORGE DA CUNHA LIMA



Não é a economia que precisa mudar. O que precisa mudar é o comportamento da sociedade, dos políticos e da mídia



 


FELIZMENTE não sou economista, sou apenas poeta, jornalista, bacharel em direito com uma pós-graduação, ministrada na FGV há muitos anos por um administrador que lecionava em Israel.
Nessa condição posso afirmar, impunemente, que a economia de mercado foi tão malconduzida nos últimos 30 anos quanto a tentativa de salvá-la neste infeliz alvorecer de 2009. Responsáveis diretos por esta nação e só indiretamente pelo mundo, devemos avaliar e criar as saídas para a crise brasileira, ainda que no contexto do mundo. Para isso, temos que qualificar os dizeres da bandeira: civilização em vez de progresso, organização democrática em vez de ordem unida.
Os desejos induzidos pela economia de mercado depois da queda cruenta do nazismo tornaram-se avassaladores depois da queda fria do comunismo. Os ingênuos que desejavam um Mustang, nos anos 50, e as mulheres que pretendiam vestir-se como a Jacqueline Kennedy, nos 60, hoje, mesmo se simples pescadores das margens poluídas do São Francisco, se encantam com uma Ferrari, e as mulheres desejam o anel de R$ 30 mil que Patrícia Pillar usava na novela.
A economia capitalista tornou-se modelo único e indiscutível, exatamente porque o desejo de consumo, consumindo as mentes, aperfeiçoava e estimulava a oferta, até os esgares.
O segredo era simples: crédito farto a serviço do desejo. Desejo do supérfluo, que o pessoal do Iseb já chamava nos anos 60 de consumo conspícuo, definição difícil de entender.
Assim, a sociedade produtiva produzia o necessário e o supérfluo, enquanto o Estado, empobrecido, não produzia nem oferecia o essencial.
Como a gula fosse maior que a fatia, o crédito revestiu-se de artifícios embutidos e juros explícitos, quase imorais. Quando se começou a oferecer carros para pagamento em 90 meses, todos sabíamos que, na metade do prazo, o carro já não valeria nada, e o proprietário continuaria pagando (?) com o salário do emprego presumido. Nos Estados Unidos o mesmo empréstimo, sem muita garantia de ressarcimento, financiava casa, carro, barco e tudo o que o sonho desejasse.
Deu no que deu. Mas o mercado não é bom nem mau. É mercado.
A regulação do desejo é um problema da sociedade. E sociedade não é mercado. Sociedade é uma montagem política da cidadania. A sociedade deve definir e qualificar os desejos para que o mandato político dos legisladores, do presidente da República e do Banco Central não seja exercido em nome dos “fundamentals” da globalização, mas dos fundamentos da vida.
Assim, a superação da crise deve levar em conta os desejos fundamentais dos homens, e não a estrutura de um sistema que não deu certo, pois, se recuperado, irá produzir os mesmos efeitos destruidores.
Esses desejos são simples. Uma família precisa de casa para morar, comida no armário e na geladeira, saúde desde o recém-nascido até o vovô aposentado, matricular os filhos numa escola boa e ter dinheiro para pagar o material escolar; precisa um pouco de lazer, dentro e fora de casa, transporte que garanta a mobilidade, a possibilidade de vez ou outra ir à praia, tomar um banho de mar e, ainda, precisa muito da convivência humana no espaço privado e público, em segurança, A sociedade quer mais festa no espaço público. A estética do pobre está, sobretudo, na beleza das cidades. A satisfação econômica desses desejos produzirá os patamares desejados de desenvolvimento.
Não é a economia que precisa mudar, porque a economia é uma ciência, não é um dogma, nem é o mercado, esse animal com energia própria. O que precisa mudar é o comportamento da sociedade. O comportamento dos políticos e também da mídia, a propor novos desejos, compatíveis com a natureza humana, e não com os humores destrutivos da moda.
A exuberância do progresso moderno se baseou na proposição de desejos inatingíveis. Para saciar o desejo de um tênis Nike, o menor aponta um revólver para a cabeça de outro menor com tênis. Para comprar uma bolsa Vuitton, muitas belas jovens já se prostituíram. Para consumir crack, se mata, se rapta, se dança um tango argentino. Para comprar um carro, 90 meses de um salário suado são empenhados no colóquio sedutor de um gerente. Enfim, vende-se no varejo a alma ao diabo.
Mesmo sendo poeta, acho que sair da crise é promover uma organização racional dos desejos em busca da civilização. Não podemos nos contentar com desejos alucinatórios de um mercado robotizado. Essa cocaína financeira de Wall Street acabou, na prática e no modelo.



 

 

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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